Nebbia
5 04 – Tuono.
Notas iniciais

Quinta-feira, 18 de Outubro de 2009.
Localização: Mansão Vongola.
Nota: Para tudo se existem conseqüências.
Tremeu no momento em que seu olhar deparou-se com o estado da grande Mansão Vongola. Intacta — apesar de ainda haver alguns furos de bala -, mas não poder-se-ia dizer o mesmo da área que rodeava a Mansão.
Era quase como se uma Guerra houvesse acontecido ali.
Caminhou pesadamente pelo corredor, em seu encalço Ryohei mostrava-se inquieto e fervorosamente nervoso. Dos três Hibari era o único imparcial. Se o atual chefe estivesse vivo ou não, pouco importava para ele, na verdade a Vongola pouco tinha importância para Kyoya. Tudo pelo que sempre lutava era para manter Tsuna a salvo, para manter a paz e a justiça – que era o que o moreno simbolizava dentro daquele mundo obscuro.
E mesmo que o moreno pudesse sentir a mesma áurea prospera e de paz envolvendo o Nono, não era a mesma coisa sem o Sawada... Por que Tsuna era seu Céu. Seu único Céu.
Bateu levemente na porta antes do som abafado de um ‘entre’ ecoar.
E logo ao por os pés dentro do escritório o prateado deparou-se com Yamamoto este que se mantinha serio ao lado de Dino. Reborn também encontrava-se presente. Quase todos os Guardiões estavam unidos, faltando apenas Lambo – o mesmo que quase sempre era privado de reuniões – e Mukuro que comparecia apesar de sempre aparentar estar alheio a tudo o que ocorria – o que não era verdade.
– Estávamos esperando vocês Gokudera-kun, Hibari-kun e Sasagawa-kun. – comentou o velho. – Na ausência de vocês ocorreu um ataque súbito a mansão. — Por alguns segundos o Cavallone e o Guardião da Chuva se encararam. – Foram cinco indivíduos nos atacando, todos possuindo um exímio domínio sobre ilusões... – e apenas ao som daquela palavra pode-se ver o surgimento do sádico Guardião da Nevoa mais ao canto da sala.
– Eles não só eram ilusionistas exímios como também eram ilusões. – grunhiu o azulado de testa franzia. Com seu tridente ainda em punho Mukuro permitiu-se apertá-lo com uma força quase desumana.
– Do que eles vieram atrás? – questionou o loiro, pronunciando-se unicamente, mesmo sentindo a aura sombria que envolvia o ilusionista Vongola.
– Ai está o mistério. – comunicou o Nono, voltando-se para encarar a paisagem que dispunha através da janela de seu escritório. O entardecer mal se mostrava presente e já trazia consigo adversos. – Eles não vieram em busca de nada, nem mesmo atrás de me matar. Atacaram em pontos estratégicos e abriram nossas defesas de forma que nem eu mesmo acreditei, não mataram ninguém, não procuraram nada, apenas avançaram para parar em determinado ponto e retornar.
– Isso por que aqui não era o verdadeiro alvo deles. – pronunciou-se Hibari pela primeira vez. – É uma estratégia básica de guerra. – disse por fim, já percebendo que Yamamoto pegara seu raciocínio.
– Dividir e conquistar. – afirmou o espadachim. – Um grupo ataca aqui para desviar a atenção enquanto outro realiza o verdadeiro objetivo.
– Ou não. – dessa vez fora uma voz infantil que interrompeu. Gokudera movera-se para o lado apenas para fitar fervorosamente o jovem Bovino. – Encontrei na floresta. – e assim ergueu um objeto um tanto quanto familiar para todos ali.
Nas mãos do Guardião do Trovão encontrava-se nada menos que uma tapa olho negro. E por alguns segundos era como se a temperatura do ambiente houvesse despencado.
– Chrome... – murmurou Reborn puxando a aba do chapéu para cobrir-lhe a visão.
– Isso foi apenas um teste dela. – comunicou Lambo. – Ela nos testou apenas para mostrar que estamos falhando, que a Vongola irá decair sem o Tsuna-nii aqui. – disse por fim, largando o tapa-olho sobre a mesa.
– E por que tem tanta certeza disso pirralho? – questionou Mukuro, não aceitando o fato de estar cumprindo uma meta com falhas.
– Por que ela mesma me disse. – ao fim o Bovino apenas deu as costas e foi embora, deixando a porta do aposento aberta e ignorando os olhares que decaiam sobre si.
(...)
Domingo, 21 de Outubro de 2009.
Localização: Desconhecida.
Nota: Ela sonhava com o paraíso toda vez que fechava os olhos.
Inspirou profunda e lentamente. Seus dedos rígidos ainda repousavam sobre o teclado do computador. O cansaço lhe cobrava as horas insones, mas nem mesmo o reles prazer fútil dos sonhos seria o suficiente para terminar os últimos retoques no plano real.
Mexeu a cabeça de um lado para outro, ouvido os estalos que seu pescoço dava devidos as horas repetidas que ficou na mesma posição.
E mais um bocejo cismou em atravessar seus lábios, isso antes de o familiar gosto de café lhe despertar de uma possível noite de sono.
Depositando novamente a xícara sobre o balcão, Verde – este que aparentava no mínimo seus oito ou nove anos de idade, apesar de que tornava-se uma graça com seu jaleco branco — tornou a continuar suas pesquisas e a idealizar a grande trama que a apenas um ano Sawada Tsunayoshi havia lhe dado no formato de um singelo – e intrigante – quebra-cabeças.
Realmente não teve escolha a não ser aceitar aquela oferta. Primeiro por que devia mais do que a própria vida ao Don Vongola; segundo por que vira realmente que o que quer que o jovem moreno estivesse planejando era algo grande e deveras interessante; e terceiro por que... Bom, digamos que o ex-Arcobaleno cientista tenha de certa forma se identificado com aquele ato tão... Comum vindo de Tsuna.
E novamente no silencio do cômodo era coberto apenas pelo digitar rápido e perspicaz do pequeno garoto. A grande tela era a única iluminação que tomava o aposento, mas de forma alguma isso preocupava Verde, muito pelo contrario, era até confortável trabalhar na escuridão mórbida.
As horas se seguiam preenchidas apenas por pequenas e singelas ações do ex-Arcobaleno do Trovão. Quando dera por si talvez já houvesse passado da meia noite, e assim havia-se gastado mais um dia afundado em trabalho e pesquisas.
Riu, quase desgostoso, ao perceber que seu café acabara. Pensou até em levantar-se, ou mesmo mandar algum robô trazer algo para si, mas antes mesmo que tal pensamento lhe abrangesse a mente, uma figura peculiar e sombria brotara da escuridão e depositara uma nova xícara com café frente a criança de jaleco.
– A que devo a presença, Chrome Dokuro? – indagou-o, não hesitando em instante algum após o brilho enigmático e utópicos das orbes violetas cruzar-se com seus olhos.
– Apenas uma visita infortuna – murmura a mulher. – Vindicare é deprimente e solitário demais. – e assim sorriu tristemente.
Por alguns segundos era como se o ex-Arcobaleno realmente estivesse acreditando nas palavras da azulada, mas fora apenas alguns segundos miseráveis e curtos.
– Está ansiosa pelo futuro minha cara? – indagou-o, levando a xícara de café aos lábios e sorvendo o liquido quente em um prazer quase desumano.
A jovem sorriu, seu olhar divagando entre qualquer coisa a sua frente. E piscando novamente a mulher tornou a encarar o ex-Arcobaleno.
– Tomarei providencias sobre as ultimas peças. – afirmou, firme. – Em breve Enma e Marmon poderão começar a levantar suspeitas a seu respeito, fique atento.
A criança apenas acenou em afirmação, isso antes de girar a cadeira e enfim encarar verdadeiramente a Dokuro.
– Marmon já tem suas suspeitas. – confirmou. – Estou vigiando-a de perto. – e num estalar de dedos a tela mudou para as imagens de uma garotinha de capuz escuro, apesar de que se viam algumas madeixas azuladas, lendo alguns papeis sobre uma mesa de mogno. Junto à mesma encontrava-se o Prince the Ripper, cutucando-lhe a fim de estressá-la.
Chorme sorriu, um ato simplório ao ver de Verde.
– Se é assim, me retiro por hoje. – e da mesma forma misteriosa com que aparecer, esta se foi, afundando-se nas sombras e de lá desaparecendo em Nevoa tênue.
(...)
Tornou a virar-se sobre o leito desconfortável. Sua cabeça doía, e não era para menos já que teve de arrancar seu único olho bom, mas aquilo – a seu ver, pelo menos – era uma prova do quão fiel estava sendo a tudo o que fizera, fazia e fará.
Suspirou pesadamente, sentindo o desconforto presente em cada célula de seu ser. Há tempos não tinha uma noite decente de sono, ainda mais com os gritos horrendos que vez ou outra ecoavam pelo corredor vazio e sombrio.
Sorriu de forma cansada por ter certeza de que – mesmo que quisesse – não veria nunca mais aqueles corredores assustadores da prisão mafiosa. Ao menos havia um ponto positivo para sua cegueira permanente.
Um bocejo abafado escapou de seus lábios, e logo a jovem tornou a virar-se sobre o leito.
Estava cansada de ter de usar tanto o poder da Nevoa sem o auxilio de um Anel. Ao menos isso logo cessaria quando o quebra-cabeças estivesse perfeitamente concluído.
Não demorou muito para a mulher aprofundar-se na terra dos sonhos, pois apenas lá sua utopia era real.
Isto é, apenas por enquanto.
(...)
Segunda-feira, 29 de Outubro de 2009.
Localização: Mansão Giglio Nero.
Nota: As pessoas são fracas.
O grito ecoou doloroso pela grande mansão Giglio Nero. Houve movimentação, pedidos de ajuda e lágrimas – as ultimas provindas em grade parte de Uni. Mas já era tarde demais para qualquer coisa ser feita.
Tomando o corpo sem vida nos braços, a adolescente – e ex-Arcobalena no Céu – Uni, decaiu e prantos. Seu coração havia se quebrado como nunca antes, sua alma tremia e vibrava de forma dolorosa e cruel; e a mesma tendia a se fragmentar em partes tão pequenas que talvez nunca pudessem ser remontada novamente.
Sua dor era mais que evidente, tal como seu ódio pela mulher alta e esbelta, de cabelos azulados longos e lisos. Disparos foram dados em direção a Dokuro, a fim de matá-la de uma vez por todas – e também a fim de vingar a morte de Gamma -, mas antes mesmo as balas chegarem a atingi-la, estas eram paradas por alo invisível, e logo simplesmente iam ao chão.
Um sorriso cruel estampou os lábios finos, enquanto – horrorizada – Uni não aceitava o que fora feito.
– Seu monstro!! – gritou, a todo fôlego.
– Kufufu, eu não tenho culpa se ele era um fraco. – comentou-a de forma simplória e calma. – Até breve, Uni Giglio Nero. – e com uma breve reverencia a ex-Guardiã Vongola desapareceu.
(...)
Segunda-feira, 29 de Outubro de 2009.
Localização: Mansão Cavallone.
Nota: Todos conhecem alguma dor.
Socou furiosamente a mesa de seu escritório. Estava frustrado e esgotado. Não suportava mais aquela situação, ainda mais com Chrome colocando a aliança interna da Vongola contra a parede.
Logo após o incidente com Lambo, há exatos oito dias, diversos ataques aconteceram aos aliados da Vongola.
Primeiro com a família Lorenzo, cuja perdera catorze de seus melhores homens – sete donos das Chamas da Chuva. Logo em seguida as famílias Reva e Giegue foram atacadas também. Ambas não tiveram perdas significativas, mas o que levantou suspeitas foi o fato de que entre os Reva apenas usuários do Sol foram assassinados; já com os Giegue dois exímios usuários da Tempestade.
Dois dias após o ataque a Giegue e Reva, outra família tornara-se alvo, esta quase sendo totalmente dizimada. Os Perez tiveram ajuda da família Trad 6, mas ainda sim quase desapareceram do sub-mundo. Ao fim cinqüenta e sete era o numero total de mortos, catorze sendo usuários da Nuvem e oito da Nevoa.
E quando Dino já via-se abarrotado de trabalho, pesquisas e buscando ao máximo auxiliar as famílias que necessitavam de mais ajuda; eis que a Giglio Nero é atacada e Gamma morto. Tudo o que restava era Uni afundada em rancor pela ex-Guardiã Vongola, mas não era apenas a adolescente que almejava vingança e a cabeça de Chrome Dokuro.
Um marco de caça a metade feminina da Nevoa estava surgindo, mas não era apenas isso. O futuro reservava muito mais a cada um do circulo interno da maior organização mafiosa que existe no sub-mundo.
Subitamente um calafrio percorreu a espinha do Cavallone fazendo-o arrepiar-se, segundos após um mau pressentimento lhe arrebatou o corpo, drenando toda a força que o fazia ficar de pé frente à poltrona de couro.
Caiu sentado sobre a poltrona macia. De alguma forma seu coração se acelerou em sua caixa torácica, junto a isso a respiração tornou-se mais rápida e difícil.
Fechou os olhos, buscando manter-se calmo e inabalável – da forma como seu irmãozinho lhe ensinara a fazer
Em segundos sua respiração e seus batimentos voltaram à estabilidade. Assim permitiu-se suspirar cansado. O excesso de trabalho estava lhe custando mais do que deveria, e o tormento pela perda de seu precioso irmão ainda estava lhe assombrando.
Baixando o olhar Dino arrependia-se amargamente de tudo o que fizera um ano atrás. Se tivesse uma oportunidade de refazer tudo, teria a plena certeza de que contaria tudo o que sabia a Tsuna, sem escapar nenhum detalhe miraculoso, pois o mínimo detalhe poderia ter salvo a vida de seu querido irmão. E mesmo que não fosse o suficiente para salva-lo, ao menos tiraria a culpa enorme que encobria os ombros do Cavallone.
Socou a mesa novamente, mas desta vez com menos força do que da primeira vez.
Antes que se desse conta, as lágrimas já escorriam por sua face. Inúmeras foram às vezes que Dino recusou-se a chorar – mesmo quando estava sozinho -, mas agora, quando o frio solitário e triste da noite lhe trazia todas as amarguras e lembranças de um tempo em que Tsuna estava ao seu lado rindo consigo, era impossível não render-se a dor e ao pranto.
No silencio na madrugada que se aproximava cada vez mais. Dino Cavallone rendeu-se a dor que há tempos lhe assombrava.
(...)
Terça-feira, 15 de Outubro de 2008.
Localização: Aeroporto de Namimori – Área de embarque privado.
Nota: Estamos destinados a perder as pessoas que amamos.
O dia havia amanhecido nublado, com uma sombra cinza enfeitando os céus da bela cidade de Namimori, e por mais que o clima lhe desse um mal pressagio, Dino não deixou de sorrir por enfim poder Visitar a bela cidade. Viera cedo, tudo por que Tsuna insistiu para que ele fosse logo ao Japão. O Cavallone nem mesmo entendeu o porquê daquilo, mas não questionou o pedido do irmãozinho.
Sorriu de forma larga – apesar de sentir que algo de ruim aconteceria. Seus subordinados o seguiam, todos felizes diante da alegria do chefe.
Poucas horas após desembarcarem o chefe mafioso junto a seus preciosos subordinados já se encontravam hospedados no costumeiro hotel. Nada de ruim havia acontecido até o momento, e talvez por isso Dino deixara de lado o mal pressentimento que estava a lhe tirar do serio.
Riu e se divertiu com aqueles que sempre lhe acompanhavam – Romário principalmente -, mas foi ao soar das dez e meia da noite, quando se encontrava só em seus aposentos, que um telefonema incomum lhe arrancou a cama macia e quente.
Franziu a testa diante da súbita ligação de Kyoya, afinal o aterrorizante Guardião da Nuvem nunca ligaria para seu ex – e único – tutor sem um motivo verdadeiramente serio.
– Kyoya? – indagou Dino, com uma aparente surpresa. – Nunca pensei que... – calou-se logo quando a voz do outro lado da linha fez-se presente. E apenas no ecoar de quatro dolorosas palavras, o Cavallone sentiu o peito apertar como nunca antes. A notícia o atingira como um trovão a uma arvore, causando mais estragos do que o aparente.
O celular escorregou da mão do loiro, assim encontrando-se com o colchão macio em um baque mudo. E mesmo tendo a pura certeza de que na próxima vez que encontrasse Hibari o mesmo provavelmente o morderia até a morte, Dino não atreveu-se a pegar o aparelho novamente, repudiando-o com todas as forças.
A frase praticamente resmungada por Kyoya fora um choque do qual Dino Cavallone não esperava ter.
Paralisado e aturdido, era o mínimo naquele momento enquanto dolorosamente a frase repetia-se de novo e de novo pela mente do loiro.
“Sawada Tsunayoshi foi assassinado.”
Por alguns segundos imaginou que talvez fosse um sonho do qual acordaria em segundos e ver-se-ia dentro do avião que rumava para Namimori. Mas os segundos tornaram-se minutos, e os minutos horas longas e dolorosas. Até que logo ao inicio da manhã veio o choque da realidade.
Era verdade. A mais pura, real e cruel verdade.
Dino perdera seu grande aliado e amado irmãozinho.
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