National Anthem
12 Capítulo onze – Friend
Notas iniciais
.gif)
“Did you fall for the same
Empty answers again?
Well, you lived so much
Have you given up?
Does it feel like a trial?
Does it trouble your mind
The way you trouble mine?
No, you're thinking too fast”
Exile Vilify – The National
O dia já havia amanhecido e Steve ainda não conseguira dormir. Passou a noite em claro, remoendo as memórias do passado, revivendo a culpa que o assombrou por tanto e tanto tempo, e claro, pensando também no que fazer a respeito dele. Como trazer seu melhor amigo de volta? Como trazer de volta alguém que se perdera há tempos? Mas uma coisa estava definida, ele não iria desistir. Não até encontra-lo mais uma vez.
Salva-lo de si mesmo. Ajuda-lo a conciliar tantas memórias. Aprender a exorcizar seus próprios demônios. Aqueles pedacinhos de informações passadas. Traze-lo de volta seria um trabalho difícil, mas não impossível. Ainda havia esperança. Ainda havia como.
A forte chuva que se estendeu pela noite anterior agora estava dando lugar a um belo dia ensolarado, e raios de sol invadiam calmamente a sala de estar do seu apartamento no Brooklyn. Um vento frio balançava as cortinas pálidas da janela, fazendo com que uma calmaria se instalasse, diferente de toda a madrugada, já que Stella pegou no sono depois de um bom tempo chorando, descarregando toda a dor que sentia.
Steve nunca imaginou que Logan faria tal coisa com sua filha, afinal, ele havia deixado bem claro para o Capitão que a amava. Não. Não mais. Mas agora, não sabia mais se deveria confiar nele, e com certeza teria uma séria conversa com aquele garoto.
Sentado sobre o sofá, de frente para a TV desligada, ele repassava em sua cabeça todas as informações que recebera na noite anterior. As informações que o desestabilizaram de uma maneira fora do comum. Entretanto, teria que deixar de lado as novas buscas por seu melhor amigo, pois naquele momento, Stella precisava dele mais do que tudo. Simplesmente não podia deixa-la. Não agora.
Quando Stella pediu para passar a noite na casa do pai e não na Torre Stark, como de costume, o Capitão percebeu de cara que algo estava errado. E principalmente, quando encontrou a ruiva naquele bar, pelo estado que ela se encontrava, sem dúvidas algo muito errado havia acontecido, porque Stella não se abalava assim tão fácil, outra das várias características que herdou de Natasha. Os dois passaram horas e horas conversando, mas a maior parte do tempo, ela chorou, e ele a confortou da melhor maneira possível.
Nunca pensou que se sentiria tão bem ao lado dela, pois depois de ter descoberto a verdade, mesmo com apenas algumas semanas de convivência, rapidamente conseguiu perceber que teria uma ótima relação com a filha. E ele não podia negar que adorava estar perto dela, adorava estar com ela, adorava passar o maior tempo possível com ela, e principalmente, adorava o simples fato de ter se tornado pai, não pelas circunstâncias mais comuns as quais julgava, mas ainda assim, se tornou pai. Tal palavra que no começo, causava certo desconforto, não negava, mas agora, parecia tão normal ouvi-la.
Steve tomou a decisão. O assunto “Bucky Barnes” foi adiado durante a noite inteira, porque ele sabia que a filha não estava em condições de pensar em nada naquele momento, o que era compreensível. Teriam muito tempo para conversarem sobre Bucky, mas depois. Então o momento durou, ela chorando, ele a escutando. Os dois tinham uma boa relação, impossível negar.
As horas se passaram, e Stella, depois de muito desabafar, acabou pegando no sono ali mesmo, deitada no sofá e com a cabeça apoiada no colo do pai. Steve sentiu-se tão bem tendo ela em seus braços que simplesmente não conseguiu leva-la para o quarto. Simplesmente ficou ali, observando-a dormir. Tranquila. Calma. E ele perdeu-se em seus pensamentos, não conseguindo afastar as ideias mais sombrias do que havia acontecido com Bucky.
Steve também tentou dormir, em vão. Não conseguiu pregar o olho nenhum segundo sequer. Estava claramente cansado, mas continuou acordado. Talvez fosse a culpa voltando a domina-lo pouco a pouco. Era impossível fugir, ele sabia disso.
– Eu devia ter o impedido. Sinto muito, pai –o Capitão estava tão longe, tão imerso no passado, que se sobressaltou em um susto ao escutar a voz sonolenta de Stella ecoar em sua mente, trazendo-o de volta mais uma vez. – É tudo minha culpa –assumiu ela depois de finalmente abrir os olhos e encarar o pai com certa relutância.
Ele conseguiu sentir uma pontada de arrependimento nas palavras da filha, fato que o deixou completamente sem ação. Durante a madrugada, Steve conseguiu ouvi-la antes de Stella cair no sono, conseguiu identificar a promessa feita por ela. Talvez ela não estivesse falando sério. Ou talvez... Estivesse sim. Prometera que iria ajuda-lo. Prometera que o traria de volta, prometera que o encontraria de novo.
Mas Steve se preocupava com a ruiva. Não queria envolve-la naquele assunto tão... complicado que chegava até a ser perigoso. Conhecia a filha que tinha, e sem dúvidas ela realmente não iria desistir de encontrar Bucky. Não teria para onde correr, pois por mais que quisesse deixa-la fora daquele assunto, agora teria mais uma aliada na busca por seu melhor amigo.
– Ei. Bom dia para você também –respondeu ele com certo divertimento, lançando-lhe um sorriso carinhoso, tentando inutilmente animar a garota. Mas Steve desmanchou seu sorriso no mesmo momento em que seu olhar caiu sobre Stella, e ao perceber que ela continuava séria, acabou insinuando: – Pensei que nós havíamos combinado de não falar sobre isso no momento.
Stella sabia exatamente o que Steve queria dizer com aquelas palavras, ainda assim, parte de si negava-se a ficar parada enquanto Bucky continuava por aí, perdido, confuso, sem rumo. Não conseguia entender o porquê, mas queria ajuda-lo, e iria. Pensando nisso, ela respirou devagar, virando o rosto lentamente para o lado contrário, desviando do olhar do Capitão.
– Você sabe que não podemos adiar mais nenhum minuto. Ele precisa de ajuda, pai –replicou ela. Sua voz saiu tão abatida que até mesmo Steve espantou-se. Logo, a garota levantou a cabeça do colo dele, sentando-se sobre o sofá com um impulso, adquirindo uma postura rígida, e ao ficar de frente para o Capitão, afirmou: – Nós temos que fazer alguma coisa antes que seja tarde demais. Antes que algo ruim...
– E nós vamos, Stella. Eu juro, ok? Mas você teve uma noite difícil, e agora precisa descansar. Depois conversaremos sobre o que fazer –Steve a interrompeu antes que a garota continuasse com aquele monólogo. Dito isso, ele ajeitou-se melhor no sofá, e também ficando de frente para Stella, segurou suas mãos com carinho. – Meu anjo, não me interprete mal, eu também estou preocupado com o que poderá acontecer com o Bucky, mas... O que mudou? O que lhe fez mudar de ideia e me ajudar a encontra-lo? –perguntou em seguida, e Stella conseguiu perceber um sorriso divertido transparecer nos lábios do pai.
“O que mudou? O que mudou? O que mudou?”
Aquilo a pegou de surpresa, completamente desprevenida, afinal, nem mesmo Stella tinha de fato a resposta para tal pergunta. Mesmo com o coração machucado pelo o que Logan havia lhe feito, a garota pegou-se pensando em Bucky por horas e horas durante a madrugada antes de acabar dormindo. Não conseguia explicar, só... Estava realmente preocupada com o que poderia acontecer com o melhor amigo de seu pai. Ainda assim, confiava plenamente que, mesmo desarmado, Bucky sabia muito bem como se defender, então não havia o que temer. Pelo menos, não agora.
– Ele é inocente, pai. Não merecia tudo o que fizeram com ele, e acho que só agora consigo ver isso, só depois de ter o encontrado consigo... Consigo pensar em todo o inferno que o colocaram –explicou ela com certo pesar, encarando Steve de uma maneira pensativa, tão perdida que quase pensou que iria chorar ali mesmo. – Eu não consigo explicar, Steve. Apenas sinto que preciso ajuda-lo. Eu quero ajudá-lo. Só espero que não seja tarde demais –completou em seguida, depois de alguns minutos em silêncio.
O Capitão soltou um longo suspiro à medida que observava Stella e a visualizava abaixar a cabeça de uma forma culpada. Ele não podia penaliza-la por sentir-se daquele jeito, afinal, era exatamente daquele jeito que Steve se sentia. Culpado.
– Filha, olhe para mim –pediu ele, e Stella automaticamente obedeceu, levantando a cabeça em um gesto rápido e tornando a observar o pai. Logo, Steve segurou as mãos da ruiva com um pouco mais de força, e expôs: – Nada do que aconteceu ontem à noite é sua culpa, portanto, me prometa que você não irá mais se sentir culpada. Me prometa, Stella.
– Eu prometo –a resposta dela veio rápida e firme, fato que agradou o Capitão. Por um pequeno momento, Stella esqueceu todos os problemas que ainda enfrentaria e se concentrou apenas na sensação de segurança que Steve lhe proporcionava.
Em seguida, Steve segurou delicadamente o rosto dela com as duas mãos e a puxou devagar, depositando um beijo carinhoso na testa de Stella. A garota fechou os olhos no mesmo instante em que ele a trouxe para mais perto e a abraçou com todas as forças que conseguira juntar, e ela não se importou com tal fato, apenas ficou ali, quieta, protegida, pensativa.
Steve passou a acariciar os cabelos ruivos e macios da garota à medida que sentiu Stella relaxar em seus braços, repousando o rosto em seu peito. Ele a ouviu chorar baixinho, provavelmente deixando-se vencer pela dor que continuava a dominá-la. O Capitão começou a balança-la devagar, murmurando palavras de apoio, consolando-a da maneira que julgava prudente, e ficaria ali até o fim dos tempos se fosse necessário.
Mas quando o celular de Stella vibrou sob a mesa de centro, despertando repentinamente a atenção de ambos, ele foi obrigado a afastar-se relutante da filha. Com certa destreza, Steve aproximou-se da mesa e segurou o aparelho com uma das mãos, logo voltando a ficar ao lado de Stella no sofá.
– É o Logan? É ele de novo, não é? –perguntou a garota enquanto cruzava as pernas uma sobre a outra, sentindo seu coração começar a bater mais rapidamente, e a mágoa começar a dar seus primeiros sinais.
– Na verdade é a Louis –respondeu ele depois de visualizar o nome da Stark na tela do celular. Steve conseguiu ouvir Stella soltar a respiração de uma forma aliviada, afinal, já estava cansada de tanto ignorar as ligações insistentes de Logan durante toda a madrugada. Percebendo que a filha não reagiu, Steve resolveu arriscar: – Você vai atender ou quer que eu atenda?
Stella deu mais um longo e profundo suspiro antes de simplesmente responder:
– Não precisa, eu atendo.
O Capitão entregou-lhe o aparelho que continuava a vibrar, e Stella lançou um sorriso agradecido na direção dele. Steve sorriu de volta, e querendo dar mais um pouco de privacidade à filha, levantou-se do sofá e deixou o ambiente, indo na direção de seu quarto com o intuito de tomar um longo banho depois de ter passado praticamente a noite toda em claro.
– Oi, Louis! –disse Stella ao atender a chamada enquanto acompanhava os passos do pai, o seguindo com o olhar até o perder de vista.
– Bom dia, sunshine! Liguei porque sou uma boa amiga e quero saber como você está –afirmou a garota com certo divertimento, e Stella mordeu os lábios, segurando uma singela risada diante das palavras ditas por Louis.
– Emocionalmente ou fisicamente? –quis saber Stella, voltando a manter a postura rígida.
– Os dois, talvez –pronunciou em resposta, e desta vez, a preocupação era aparente em seu tom de voz, fato que Stella rapidamente conseguiu reconhecer.
– Quando eu encontrar a resposta para essa pergunta, você será a primeira a saber –garantiu a ruiva, controlando-se mais uma vez para não voltar a chorar naquele exato momento. Ela hesitou por alguns segundos, mas depois de tomar coragem e respirar profundamente mais uma vez, perguntou: – Como... Como o Logan está?
– Ele passou a noite em claro, e consequentemente, eu também. Está trancado no quarto até agora, não sai de lá para nada. Meu pai está uma fera com ele, e minha mãe... Está decepcionada. Acho que eles nunca imaginaram que o Logan seria capaz de tal coisa –informou Louis, a voz tão firme, esbanjando raiva para todos os lados.
Stella enxugou uma singela lágrima que ameaçou molhar seu rosto, voltando a sentir-se mal, voltando a sentir-se traída, voltando a sentir toda a mágoa a alcançar. E em meio a tudo isso, a raiva de si mesma por ter sido tão estúpida. Ou não.
– É. Eu também não imaginava isso –concordou Stella, não conseguindo segurar uma risada nervosa e sem humor algum.
“What a wicked game to play
To make me feel this way”
[...]
O sol se pôs tranquilo em Nova Iorque, estendendo uma amigável sensação de paz, e a temperatura amena fez com que Steve e Stella permanecessem em casa. Os dois passaram a tarde inteira sozinhos no apartamento, assistindo diversos filmes, riram das histórias contadas pelo Capitão América, conversaram abertamente sobre as possibilidades de encontrarem Bucky mais uma vez, aproveitaram cada resquício da presença um do outro, da serenidade daquele momento.
Mesmo que por pouco tempo, Stella conseguiu esquecer os problemas e as tristezas que a abalaram tão profundamente.
Havia anoitecido. O caminhar dela era forte, compassado, raivoso. Stella mantinha o olhar firme sobre o movimento das pessoas ao seu redor enquanto seguia seu caminho de volta ao apartamento de Steve. As ruas naquela redondeza estavam calmas, o clima frio não era muito convidativo, e os relâmpagos que cortavam o céu seriam mais um sinal de que choveria a qualquer minuto.
A garota havia saído há poucos minutos apenas para comprar algo para os dois jantarem enquanto Steve a esperava em casa, deixando tudo pronto para quando Stella retornasse. Ela acabou optando pela boa e velha pizza, e sua escolha com certeza agradou o Capitão, que comemorou alegremente com a decisão dela, parecendo uma criança.
Agora, Stella equilibrava com certo esforço a caixa de pizza sobre uma de suas mãos enquanto com a outra, insistia em procurar a chave dentro de sua bolsa. Seu desespero aumentou quando uma chuva torrencial fez-se presente, mais uma vez molhando tudo o que via pela frente.
Depois de muito tentar, finalmente conseguira destrancar a porta e adentrar o hall de entrada do edifício. A ruiva enxugou rapidamente a roupa que vestia, não se importando com o fato da caixa em suas mãos estar quase encharcada. Cumprimentou o porteiro do prédio, recebendo um sorriso em troca. Logo, passou a caminhar em direção a escada, e depois de subir alguns degraus, chegou ao andar que precisava.
Um longo corredor ainda se estendia, mas ela já estava tão acostumada com aquilo que agora, encontrar o apartamento de seu pai não era mais um problema. Novamente, Stella equilibrou a caixa com uma das mãos ao mesmo tempo em que abria a porta a sua frente.
– Steve? Voltei! –informou ela o mais alto que pôde ao adentrar no apartamento, torcendo para que o Capitão tivesse lhe escutado.
E ele escutou, murmurando um “eu percebi” de uma maneira que Stella conseguia jurar sentir ironia. A garota riu ao chegar na cozinha e deparar-se com o pai terminando de pôr a mesa. Stella deixou a pizza sobre o balcão e rapidamente foi ajudar Steve a terminar aquele trabalho. Entretanto, ambos decidiram jantar sentados no chão da sala, dividindo risadas e conversas durante um bom tempo enquanto ouviam os noticiários na televisão.
Aquele era o primeiro momento de pai e filha vivido por Steve e Stella, e com certeza, não seria o último. O Capitão sentia-se bem ao ver que a garota parecia um pouco melhor em relação à noite anterior. Mas mesmo que tentasse negar, por mais que se recusasse a pensar, a dor e a mágoa ainda estavam ali, prontas para devora-la em um momento vulnerável.
Os dois continuaram aproveitando aquele raro momento de quietude, mas novamente, um toque de celular preencheu a sala da estar, e desta vez fora o aparelho de Steve que vibrava sobre a mesa de centro. Ele xingou baixinho a pessoa que o incomodava, e Stella não conseguiu segurar uma nova risada no mesmo instante em que o pai levantou-se do chão com o celular em mãos.
– É o Sam –disse ele, sua voz exalando desapontamento por precisar interromper aquele momento tão feliz entre os dois. Logo, Steve encarou a ruiva por alguns segundos, e ao fazer uma pequena careta, respondeu antes de ir até seu quarto: – Me dá um segundo, filha. Eu já volto, ok?
Stella concordou com um meneio de cabeça, acompanhando os passos de Steve com o olhar ao mesmo tempo em que levantava-se do chão com um impulso e tornava a se sentar na ponta do sofá. A garota acabou se distraindo com a visão das gotículas de água que escorriam sobre o vidro da janela. Naquela época do ano, chuvas fora de hora já haviam se tornado comum.
Entretanto, Stella retornou a realidade no mesmo instante em que um barulho diferenciado ecoou no apartamento. A princípio, julgou ter sido Steve, mas o tal barulho que continuava a ser escutado vinha na direção da porta. Ela estranhou, e um pânico diferente começou a dominar seu corpo.
Porque Steve estava demorando tanto? Porque aquele maldito celular tinha que tocar logo agora? Rezava para não ter uma má surpresa e dar de cara com Logan. Ou Sam poderia simplesmente ter perdido a chave de casa. Mas também poderia ser Louis, já que a Stark havia prometido uma visita. Talvez fosse Natasha ao finalmente retornar de sua missão. Não. Improvável. Na pior das hipóteses, ali poderia muito bem ser um agente da HIDRA pronto para matá-la.
Ela estremeceu com a hipótese.
Relutante, a garota mais uma vez levantou-se do sofá em que estava sentada, aproximou-se de um móvel próximo a janela, abriu uma das gavetas e agradeceu mentalmente por encontrar uma arma ali. Claro que Steve nunca ficaria desarmado mesmo estando em casa, afinal, nem sempre um combate corpo a corpo era suficiente quando pego de surpresa. Stella soltou um longo suspiro enquanto segurava a arma com as mãos trêmulas.
O barulho que continuava e aumentava gradativamente misturou-se com o som do engatilhar da arma à medida que Stella aproximava-se cuidadosa da porta, medindo seus passos cada centímetro a menos. Seu coração se acelerou de imediato, descompassado, uma batida por segundo, duas, três, quatro se possível. Perdera a conta quando sua respiração tornou-se desregulada.
Uma vez parada de frente para a porta, Stella mais uma vez hesitou, mas aquelas malditas batidas não paravam, e aquilo já estava lhe dando nos nervos. Tanto que, depois de muito pensar, depois de muito ponderar as possibilidades, finalmente resolveu agir. Impaciente, a garota pressionou com uma das mãos o cano da arma contra madeira desgastada ao mesmo tempo em que sua outra mão movia-se em direção à chave na fechadura.
Cuidadosamente, a ruiva destrancou a fechadura e girou a maçaneta. Em seguida, escancarou a porta com ímpeto ao mesmo tempo em que apontava a arma com destreza na direção de quem quer que fosse parado a sua frente. Entretanto, o nervosismo nos olhos de Stella logo deu lugar a surpresa e o susto aparente. De início, pensou ser uma miragem, mas quando Bucky levantou as mãos em sinal de rendição, afirmando que viera em paz, ela teve certeza de que aquilo era real. Ele realmente estava ali.
– Eu não acredito... –murmurou a garota ainda com os olhos fixos no Soldado à sua frente, perplexa com a situação constrangedora que se instalava.
Bucky manteve o hábito de esconder-se por debaixo daquele capuz escuro, mas o retirou em um gesto rápido assim que a garota abriu mais a porta, parecendo mais chocada do que o esperado. Estava encharcado por conta da chuva, as peças de roupas pretas que vestia quase grudadas em seu corpo rígido. Sua feição era indecifrável, mas desta vez, Stella não se admirou com a falta de emoção ou humanidade em seu rosto.
– Ah... Oi –replicou ele com a voz sempre firme, timidamente, tentando parecer o mais amigável possível, mas a frieza em seu olhar ainda estava ali, intacta. Quase incurável. – Abaixe essa arma, tá? Você não vai precisar dela agora –aconselhou ele ao mesmo tempo em que deu um passo à frente na direção de Stella e segurou o cano da arma, forçando a garota a abaixa-la.
– Bucky, o que... Como... Espera um segundo, você me seguiu?! –indagou exasperada, soltando a arma no chão, causando um baque surdo sobre o carpete.
– Não! –assegurou, mas como Stella não pareceu acreditar naquilo, ele admitiu: – Talvez.
A garota revirou os olhos, cruzando os braços acima do peito ao soltar uma risada nervosa. O Soldado permaneceu sério, encarando-a com certa indiferença, analisando as feições da ruiva à sua frente, mas quando o olhar de Stella caiu sobre ele, Bucky rapidamente desviou os olhos, observando um ponto qualquer no chão.
– Tudo bem. Escuta, por mais que eu esteja aliviada em te ver, tenho que perguntar... O que diabos você está fazendo aqui?! –perguntou com firmeza, e conseguiu visualizar Bucky levantar o olhar para ela no mesmo instante.
Ele suspirou, hesitante, parecendo pensar no que dizer em seguida.
– Depois da noite passada, eu... Pensei no que você me disse, e acho que finalmente percebi que estava certa. Sobre tudo – admitiu ele, deixando-a sem palavras, deixando-a sem reação. Percebendo a real curiosidade aparente nos olhos da garota, Bucky prosseguiu, dando o máximo de si para proferir aquelas palavras: – Digamos que eu estou tendo um dia muito ruim. Então, por que não piorar mais ainda?
Só então Stella percebeu o porquê do Soldado manter uma das mãos pressionando a parte inferior do seu abdômen, seu rosto tentando a todo custo mascarar uma singela dor. Mas a garota quase se desesperou quando finalmente notou o sangue que coloria sua mão metálica, a cor rubra deixando uma mancha imensa no casaco que ele vestia.
– Ai meu Deus, você está sangrando! –vociferou ela com um pânico fora do comum, chegando quase a ser engraçado o modo veloz que Stella aproximou-se dele, e a garota não hesitou em afastar a mão que cobria o ferimento para analisa-lo melhor. Bucky estremeceu com o toque dela. – Calma, ok? Eu não vou te machucar –afirmou ao perceber a reação do Soldado, pressionando as duas mãos sobre o abdômen dele, estancando o sangramento.
– Stella –chamou, quase imperceptível, e a ruiva sorriu satisfeita ao ver que ele ainda lembrava seu nome. Em seguida, percebendo que ela o encarava, Bucky segurou uma das mãos de Stella, afastando-a lentamente, e enquanto fazia isso, disse: – Eu sinto muito pelo modo que agi na noite passada. É só que... Não é fácil confiar nas pessoas.
– Pode confiar em mim –ela manifestou.
– Agora sei que posso –replicou ele, sério, fazendo-a sorrir levemente, e em seguida, anunciou com a voz quase falha: – Preciso de ajuda.
– O que aconteceu com você? –tornou a perguntar mais uma vez.
– Eles me encontraram –respondeu, com uma raiva aparentemente controlada em seu tom de voz.
– Eles quem? –estranhou a garota, mas no fundo, já tinha a resposta para tal pergunta.
– HIDRA –informou Bucky, e aquelas palavras foram suficientes para preocupar Stella.
Logo, a ruiva soltou mais um longo suspiro enquanto corria os olhos sobre os corredores vazios do prédio, constatando que não havia mais ninguém ali. O Soldado a encarou com certa dúvida, não sabendo exatamente o que fazer. Entretanto, Bucky não assustou-se quando Stella subitamente o puxou devagar para dentro do apartamento. Foi guiado por ela até a sala de estar, e seu corpo tornou-se tenso no mesmo instante em que seu olhar caiu sobre o loiro parado a frente dos dois.
– Oi, Buck –cumprimentou Steve ao aproximar-se alguns centímetros, com os braços cruzados acima do peito, a expressão serena, não conseguindo esconder um sorriso ao rever o amigo.
“What's lost is found
You trouble me
And it's troubling”
Fale com o autor