National Anthem
13 Capítulo doze – Delirium
Notas iniciais
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“Dancing around the mirrors we go up and down
So let the music take away the hurt
You've come to know so well
Let it go cause
You can't turn back the hands of time
Just let it go and you'll be fine
What's done is done and it's all right
You can't turn back the hands of time”
Hands Of Time – Rachel Diggs
Lembranças. Memórias. Momentos. Flashes de realidade. O tempo parecia ter congelado naquele momento, como um filme antigo, fluindo sem regras pelas mentes perturbadas de duas pessoas, dois amigos atormentados pelo passado, revivendo os fatos que tornaram a vida de ambos um completo inferno. Momentos... De impacto. E são esses flashes de realidade que acabam definindo o curso de nossas vidas, definindo quem nós somos ou quem nos tornaremos. E são esses momentos que são a verdadeira história.
Sem mentiras, sem fingimentos, simplesmente seguindo tudo o que o destino lhes proporcionou. O fato é: cada um de nós é a soma dos momentos que já tivemos e de todas as pessoas que já conhecemos. Um momento de impacto tem a capacidade de mudar, tem efeitos bem além do que podemos imaginar. Essa é a questão sobre momentos assim, não há como tentar controlar como irão nos afetar, é preciso deixar com que as partículas colidam, e esperar até a próxima colisão.
Stella não soube ao certo quanto tempo Bucky e Steve continuaram naquela mesma posição, encarando um ao outro sem dizer uma palavra sequer. Completamente estáticos, chocados com a visão que tinham um do outro. Tantos anos haviam se passado, mas a cicatriz ainda estava ali, viva, ferindo e massacrando a mente dos dois homens fora de suas épocas. Dois homens que um dia foram melhores amigos, inseparáveis, seguros de si. Nada poderia derruba-los, a não ser que, é claro, a própria vida realizasse tal feito, destruindo qualquer mísero pedacinho de esperança que existisse, roubando-lhes a chance de viver. De verdade.
Contou os minutos, os segundos, e contaria as horas se fosse preciso. A ruiva próxima aos dois bateu o pé sobre o chão de uma maneira firme, impaciente de presenciar aquela cena, cansada de escutar o barulho ensurdecedor do silêncio constrangedor que se instalou no ambiente, enquanto seu coração batia desenfreado, realçando as gotículas nervosas de suor que molhavam sua face pálida. Mas Stella perdeu o brilho em seus olhos no mesmo instante que o Soldado e o Capitão desviaram o olhar um do outro, virando os rostos em direções opostas, quebrando aquele momento de profunda ligação.
– Até quando vocês dois vão ficar parados ai no meio do tempo? –indagou Stella com certa acidez em sua voz, depois de revirar os olhos e soltar a respiração, aparentemente desapontada. Mas ao perceber o olhar de Steve e Bucky sobre si e notando que ambos não entenderam o que ela quis dizer com isso, a garota reformulou: – Olha só, vocês terão tempo de sobra para conversar, mas depois, porque primeiro... –e ao apontar na direção do Soldado, insinuou: – Você precisa urgentemente de um curativo.
– Não precisa se incomodar com isso –replicou Bucky quase automaticamente, voltando a pressionar seu abdômen com um pouco mais de força, tentando conter o sangue que voltava a tingir seus dedos.
– Não vou deixar você sangrar até a morte –redarguiu Stella, claramente incomodada com as palavras ditas pelo Soldado. Então, ao o encarar com certa antipatia, ela ordenou, agora apontando para o sofá a alguns metros: – Senta.
Ele hesitou, lançando um olhar confuso na direção de Steve, em dúvida se devia mesmo seguir aquela ordem ou não. Mas como o Capitão aquiesceu com a cabeça, deixando um leve e divertido sorriso transparecer em seu rosto, incentivando-o a fazer o que Stella disse, Bucky tornou a observar a garota seriamente, submetendo-se ao pedido dela e se sentando no sofá com certa dificuldade.
– Ela tem razão. Precisamos cuidar deste ferimento, e só então, poderemos conversar, com calma –raciocinou Steve, seguindo o olhar atento de sua filha cair sobre o sangue que manchava o tecido escuro do casado que o Soldado vestia. Então, antes de caminhar rapidamente em direção ao banheiro, o Capitão avisou, como se aquilo já fosse algo comum de ser feito: – Stella, você sabe o que fazer. Eu vou pegar o kit de primeiros socorros.
A garota prendeu a respiração, acatando a ordem de seu pai com certo pesar, sentindo seu corpo automaticamente ficar tenso. Aquela não era a primeira vez em que ela realizava um procedimento como esse, afinal, Stella era quem sempre cuidava dos ferimentos de Louis, Tony e Clint quando algum deles se machucava em missão, e depois de receber certas orientações vindas do Dr. Banner, tal ato tornou-se quase comum, um ato o qual ela gostava de fazer. Parecia ter um dom para cuidar de pessoas.
Bucky a encarou por um bom tempo, sempre com aquele semblante frio e insensível, recebendo de volta um olhar nada amigável. Stella tentou ignorar a reação fascinante que ele causava em sua mente ao mesmo tempo em que sentava-se em um pequeno banco a frente do Soldado no sofá.
– Deus do céu, isso não está nada bonito mesmo... –murmurou a ruiva depois de aproximar-se mais um pouco e tentar avaliar o ferimento no corpo de Bucky. Mas ao perceber que não conseguiria muita coisa ali, Stella levantou o olhar na direção dele, praticamente sendo tomada pelo azul tão límpido dos olhos do Soldado, e quando tomou uma dose de coragem, ela avisou hesitante: – Ah, Bucky, você... Você precisa tirar a camisa para que eu possa cuidar... Disso ai.
Bucky tentou manter-se firme diante do pedido dela, mas ao ver a imagem visivelmente envergonhada de Stella, ele não conseguiu conter a mísera sombra de um sorriso singelo em seu rosto sério e sem sentimentos. Não naquele momento. Afinal, por quanto tempo mais ele iria se privar de sentir? Quanto tempo passaria sem demonstrar que poderia sim sentir? Não, estava na hora de mudar. Estava mais do que na hora de mudar. Só não entendia o porquê ainda.
– Tudo bem –fora tudo o que ele disse no momento em que começou a descer lentamente o zíper do casaco que vestia, retirando-o em seguida com um pouco de dificuldade, e dor começava a dar os primeiros sinais. Logo, o casaco ensanguentado foi parar no chão, e Stella engoliu em seco quando Bucky começou a levantar a barra da camiseta preta que vestia.
Foi instantâneo. Assim que a camiseta encharcada também foi parar no chão, Stella não conseguiu conter o ímpeto de deixar seus olhos correrem pelo corpo rígido de Bucky, mas nada daquilo importou quando a ruiva passou a observar as cicatrizes que ele carregava, marcando-o com um passado obscuro, marcando-o com a dor do inferno o qual viveu, marcando-o com tudo o que foi obrigado a fazer... E a sofrer. E então ela percebeu. Além de apagarem suas memórias, além de o tornarem um assassino a sangue frio, ainda o maltrataram da pior maneira possível. Cruéis. Maldosos. Verdadeiros monstros.
Algumas antigas, outras mais recentes, as cicatrizes percorriam todo o corpo dele, desde o abdômen definido e peito forte, até a base de suas costas, passando pelo alto de seus ombros, sempre profundas e ressaltadas, deixando um caminho sofrido por cada espaço marcado. Eram muitas, mas nenhuma se comparava aquela que envolvia seu braço metálico, tão entranhada em sua pele que podia muito bem estar puxando sua própria alma, carregada com simples vazio, reduzido ao nada, como a estigma de um criminoso. Mas ele não era um criminoso, muito menos um assassino. Foi usado, e agora, lutava para viver. Ou pelo menos tentar.
Stella não mentiria para si mesma, sentiu uma vontade descontrolada de chorar, um desespero sem tamanho que a consumia pouco a pouco, e a raiva. Ah, uma raiva sem precedentes, uma raiva a qual nunca pensou sentir na vida. O choque estava estampado no rosto dela, o medo do desconhecido, o susto, deixando-a sem ar. Como poderiam terem sido tão desumanos a ponto de tal ato? Se perguntava como ele havia sobrevivido por tanto tempo, e agora mais do que nunca, ela tinha certeza. Iria ajuda-lo, custasse o que custasse.
– Você está bem? –perguntou Bucky ao ver a palidez no rosto da garota à sua frente, tomada pelo pavor. Mas ele não precisou de uma resposta, afinal, quando Stella levou as mãos à boca, deixando rondar os mais sombrios pensamentos, ficou claro que o que ela estava vendo era o que estava a deixando nervosa. – Sinto muito, eu não queria te assustar –afirmou ele, convicto, lutando para não observar Stella, temeroso pelo o que havia feito a garota encarar.
Mais uma vez, ela suspirou, soltando a respiração ao mesmo tempo em que tentava acalmar-se em vão. Precisou de longos minutos para finalmente desviar os olhos do corpo do Soldado, retornando a realidade depois de ter quase mergulhado no passado de Bucky sem ele ter dito uma palavra sequer. Aquelas marcas... O seguiriam para sempre, lembrando-o de quem ele fora um dia, lembrando todo o pesadelo o qual enfrentou, e isso o faria forte. O faria forte para continuar a lutar, e um dia quem sabe, vingar-se das pessoas que roubaram sua vida.
– Não se preocupe, eu estou bem –admitiu a garota, levantando os braços timidamente, dando um sinal de que estava mesmo bem. Mas ela não pôde negar que ficou surpresa em ver que Bucky havia ficado preocupado com ela. Ou pelo menos, algo do tipo. – Dói? –perguntou receosa depois de um longo momento de silêncio, as palavras quase morrendo em sua boca, apenas encarando o braço metálico com aquela estrela vermelha.
Ele deu de ombros e nada disse, observando Stella com certa curiosidade, percebendo o olhar aflito da garota, ainda fixo em seu braço, presa em alguma espécie de transe, e Bucky rapidamente entendeu a que ela quis se referir com aquela pergunta, afinal, a extensa cicatriz avermelhada que envolvia seu braço de metal era mais assustadora do que parecia. Não para ele, e talvez não para ela.
– Não mais –respondeu simplesmente, sem muito interesse, franzindo a testa em um claro e óbvio sinal de confusão. Não sabia ao certo o que fazer, não sabia ao certo o que falar, apenas continuou ali, preso nos olhos verdes daquela garota que começava a mexer profundamente com ele. Por quê? Não podia. Era errado. Ele sabia.
Ela assentiu em um rápido movimento com a cabeça, aproximando-se alguns centímetros, tentando a todo instante conter a curiosidade que lhe invadia pouco a pouco.
– O que fizeram com você... Não consigo imaginar tamanha dor –expôs ela, proferindo tais palavras com uma raiva aparente, não conseguindo conter o impulso de mover uma de suas mãos até a marca no braço dele, ignorando os olhos azuis sérios que teimavam em observa-la.
– Isso não é problema seu –replicou ele com certa indiferença, agarrando o pulso de Stella com a outra mão antes mesmo que a garota sequer aproximasse seus dedos trêmulos da gelidez do metal, tornando a adquirir aquela postura fria e rígida. A postura Soldado Invernal de ser.
Entretanto, ao erguer o rosto para encara-lo, seu coração quase pulou uma batida ao sentir o toque dele em sua pele, e os dois não conseguiram impedir seus olhares de se encontrarem, provocando algo estranho, como um choque elétrico. Mas Stella despertou com um susto, em um sobressalto, endireitando as costas e afastando o braço o mais rápido que pôde no mesmo instante em que Bucky soltou seu pulso em um gesto abrupto.
– Não precisa ser assim, sabe disso. Você não precisa carregar essa dor sozinho –murmurou ela, sem muita certeza que Bucky escutara. Abaixou a cabeça, soltando a respiração de uma maneira exasperada, cada vez mais fascinada com o modo de agir do moreno a sua frente. Não sentia medo, talvez apenas uma pequena falta de coragem. Mas poderia mudar isso.
Ele ignorou as palavras dela, mas no fundo, admitiu para si mesmo de que a ruiva estava certa. Logo, querendo esquecer tudo aquilo, o Soldado virou o rosto na direção oposta enquanto ela retornou a concentrar-se no que estava fazendo, examinando com cuidado o ferimento dele, receosa com o que ele poderia fazer se Stella encostasse em alguma daquelas cicatrizes de novo, mas desta vez, Bucky não afastou-se ao sentir o toque delicado em seu corpo.
Não demorou muito para que Steve voltasse carregando uma pequena maleta branca e uma camisa azul escura em um dos ombros. Mas de imediato, o Capitão parou no meio da sala ao também se deparar com a visão do Soldado. Isso porque Steve fora completamente pego de surpresa. Jurou para si mesmo que iria escutar tudo o que Bucky iria relatar, soltar toda verdade de uma vez, e ele escutaria, mas talvez não estivesse tão pronto como parecia. Lentamente, lá estava de novo, a maldita culpa corroendo seus neurônios de uma maneira quase impossível de suportar.
E naquele momento, Steve arremeteu suas promessas. Mataria cada um daqueles desgraçados, devagar e sem piedade, e vingaria tudo o que tomaram de seu melhor amigo. Entretanto, a pergunta era: ele conseguiria? Talvez.
– Aqui. Veste isso –disse ele, despertando a atenção de Stella e Bucky ao aproximar-se dos dois e entregar a camisa na direção do Soldado, que aceitou de bom grado, apenas aquiescendo com a cabeça. Aquilo foi o mais perto que ele chegou de ganhar um obrigado. – Tudo bem ai, meu anjo? –perguntou com a voz suave antes de entregar a pequena maleta na direção de Stella, e a garota entendeu de imediato o que Steve quis dizer com aquilo.
– Sim –assentiu ela, lançando um sorriso reconfortante na direção do Capitão antes de abrir a tal maleta sobre o sofá, respirando fundo, preparando-se psicologicamente para começar a dar um jeito naquele sangramento. – Isso vai doer um pouco –informou Stella ao levantar o olhar levemente na direção de Bucky, mas o Soldado deu de ombros uma outra vez, provavelmente já havia passado por situações piores do que aquelas. Bem piores.
Com uma prática acima do normal, demoraram poucos minutos para Stella estancar o sangramento, limpar toda a cor rubra que manchava o corpo de Bucky, desinfeccionar o local cuidadosamente, fazer uma pequena sutura, para enfim, cobrir o ferimento com um singelo curativo muito bem feito. Ela não se surpreendeu ao não encontrar a bala no local ferido, afinal, o Soldado já a tirara muito antes.
Permanecendo em um canto mais afastado da sala, Steve observava os passos habilidosos de sua filha com um sorriso orgulhoso no rosto, enquanto Bucky também mantinha o olhar firme sobre Stella, não se importando com a sensação um tanto estranha da agulha perfurando sua pele. Possivelmente, se acostumara com tal incômodo.
– Você é boa nisso –elogiou Bucky quando Stella afastou-se e o deu espaço suficiente para que ele pudesse vestir a camisa que Steve lhe emprestara. A garota apenas sorriu timidamente, sem sequer olha-lo, enquanto guardava a maleta de volta ao seu lugar de origem. Logo, o Soldado enfiou a mão em um dos bolsos da calça, retirando algo de dentro. – Não consegui identificar o tipo de arma, mas sei de onde veio – informou ele, e de longe, Stella passou apenas a escutar a conversa que se iniciaria ali.
Steve despertou em um sobressalto, aproximando-se no mesmo instante em que Bucky esticou a mão na direção dele, entregando-lhe algo que o Capitão prontamente recebeu, unindo as sobrancelhas em dúvida enquanto puxava uma cadeira e sentava-se à frente dele. Soltou um suspiro pesado quando o Soldado passou a encara-lo.
– Sem marcação –observou Steve, analisando minuciosamente o projétil prateado em suas mãos, e em seguida, após levantar o olhar na direção do amigo, constatou, visivelmente preocupado: – É soviético.
Bucky afirmou com a cabeça, abaixando os olhos com certo pesar. Diante daquilo, Stella aproximou-se mais uma vez, querendo participar daquela conversa, e então, sentou-se ao lado do Soldado no sofá, mantendo uma distância relativamente segura, fato que o agradou bastante.
– Então se a munição é soviética, isso quer dizer que a HIDRA está juntando forças... Ou talvez aliados –manifestou-se a ruiva, sem desviar os olhos do material pequeno e gélido agora em suas mãos delicadas. Steve e Bucky concordaram prontamente com as palavras ditas por ela, aflitos com tal possibilidade, e quando Stella ergueu o olhar na direção do Soldado, não conseguiu deixar de perguntar: – Bucky, você pôde identificar o atirador?
Ele deu de ombros, ignorando a pergunta de Stella por alguns segundos enquanto tentava raciocinar algo para responder, lembrando-se com certa dificuldade os detalhes a respeito do ocorrido.
– Quem quer fosse, atirou do alto de um prédio. Mas ele era bom, afinal, me acertou em cheio mesmo estando a quilômetros de distância –argumentou Bucky, fazendo um grande esforço para controlar a raiva que teimava em lhe consumir naquele momento. Em seguida, depois de encarar atentamente os dois a sua frente, completou: – Foi uma armadilha. Eu estava desarmado, não tive para onde fugir, e eles sabiam disso. Também tentei reagir, mas ao que parece não deu muito certo.
– Eles. Foram mais de um –concluiu o Capitão, sem muito esforço.
– Sim. Cinco no total, incluindo o atirador no telhado –afirmou ele quase no mesmo instante, sentindo seu sangue ferver em suas veias, mais uma vez tentando controlar a raiva que ainda o dominava e o corroía por dentro.
– Temos que nos preparar para o pior, porque esses desgraçados não irão parar nunca até encontrarem você –argumentou Steve, também não conseguindo esconder toda a raiva e angústia que sentia. Até quando sua vida seria atormentada pela HIDRA? Precisava dar um basta naquela situação, e o faria na primeira chance que aparecesse. Colocaria aquela organização abaixo, e dessa vez, seria para sempre. Pensando nisso, ele ergueu o olhar na direção do amigo, e assegurou, dando um leve sorriso: – Escuta, nós vamos resolver essa situação, Bucky. Você não está mais sozinho nessa, sabe disso. Eu te perdi uma vez, não vou perder de novo. E isso é uma promessa.
O Soldado assentiu, continuando a permanecer sério, a postura sempre rígida e imbatível, como se nada pudesse o atingir. Mas ao ouvir as palavras ditas por Steve, ele conseguiu perceber toda a segurança na promessa firmada ali. Lutaria por quem realmente foi, traria de volta o verdadeiro James Barnes, e encararia até as últimas consequências se fosse preciso. Seria difícil, ele sabia, mas não iria desistir, e agora era de verdade, agora era para valer.
Não precisava de máscaras naquele momento, não precisava esconder o que realmente era, não era uma arma, podia simplesmente ser quem quisesse ser, livre para fazer as próprias escolhas. Livre para sentir, e só então aprender a ser humano de novo. Conquistar de volta o que um dia lhe roubaram: sua humanidade. Aquela seria sua meta, e trabalharia duro para consegui-la. Reencontrar suas origens, pagar pelos crimes que cometeu, livrar o peso que seu nome trazia. Quem o ajudaria? Isso ele já tinha a resposta, agora só precisava lutar, e enfrentaria as consequências de cabeça erguida. Sem medo. Sem ressentimento.
Enquanto pensava em tudo isso, ainda tentando pôr em ordem tudo o que passava por sua mente, Bucky soltou a respiração de uma forma quase exasperada, raciocinando exatamente o que faria dali em diante, parecendo relaxar um pouco. Então, ao lançar um rápido olhar para Stella, recebendo um singelo sorriso como resposta, o Soldado esperou alguns segundos antes de virar-se mais uma vez para Steve e se pronunciar.
– Eu quero me lembrar, Steve, e só agora percebo que preciso de você para isso. Apenas você pode me ajudar –disse pausadamente, travando um verdadeiro conflito consigo mesmo para fazer tais palavras saírem de sua boca, sentindo algo parecido com tirar um grande peso de suas costas. Logo, Stella e Steve trocaram olhares cúmplices, e em seguida, depois de uma pequena pausa, Bucky deu um novo suspiro, e continuou: – Steve, depois de tudo o que aconteceu, eu sinto que devo isso a você. E talvez só assim consiga me libertar do monstro que tomou conta de mim.
O Capitão levou algum tempo para assimilar tais informações, sem deixar de fitar o amigo um segundo sequer, completamente extasiado, como se estivesse esperando por aquilo durante anos e anos, e talvez estivesse mesmo. A hora da mudança havia chegado, e Steve ficara feliz em saber que Bucky conseguia enxergar isso também. Por menor que fosse, era uma ponta de esperança que nascia ali, e ele a aproveitaria, nada mais importava.
Stella escancarou um enorme sorriso diante da cena que presenciava, e não conseguiu disfarçar uma singela e divertida risada quando seu pai também sorriu na direção de Bucky, e ali, conseguiu identificar um mínimo sorriso vindo do Soldado. Já era algo, era o sinal de uma mudança, de uma pequena mudança, mas de um enorme passo para o futuro. Lutaria por seu futuro, e lutaria até o fim.
– Então, o que faremos agora, pai? –questionou Stella, fazendo com que os dois olhassem diretamente para ela.
Steve observou a filha por um bom tempo, quase tendo uma transmissão de pensamentos ali mesmo ao perceber Stella concordando com a cabeça, entendendo o que ele queria dizer. Logo, virou-se mais uma vez na direção de Bucky, que o encarava com certa curiosidade. Sorriu sereno antes de finalmente responder:
– Agora procuraremos pessoas de confiança que nos ajudem a trazer sua memória de volta, e eu sei muito bem quem pode nos ajudar com isso.
“I wanna heal, I wanna feel
Like I'm close to something real”
[...]
As fortes e intensas luzes da cidade, juntamente com o feixe de luz vindo da lua cheia, refletiam pelo vidro da janela sem nenhum convite, iluminando o interior da sala de uma maneira nunca vista. Era bonito de se ver, não podia negar. Tão bonito que Logan Stark não conseguia desviar seu olhar da vidraça. O silencio consumia seus mais obscuros pensamentos, não sabendo ao certo a noção de quanto tempo havia passado ali, naquela mesma posição, sem se mexer um milímetro sequer, sempre com um copo de bebida preso entre os dedos.
Seu celular permanecia na mesa de centro à sua frente, e ainda que não quisesse assumir, no fundo, Logan tinha a leve esperança de que ele ainda fosse tocar. Em vão, afinal, também tinha plena certeza que, depois de tanto ignorar suas ligações, Stella realmente não iria conversar tão cedo. Se ao menos ele pudesse explicar seu lado da história...
– Você sabe que ela não vai te perdoar assim tão fácil, não é? –a voz firme e contínua de Clint Barton fez-se presente, ecoando por toda a sala de estar e subitamente despertando a atenção de Logan.
Clint e Natasha haviam acabado de retornarem de suas determinadas missões, chegaram a Nova Iorque poucas horas atrás, e nem Steve nem Stella estavam sabendo disso ainda, já que nenhum dos dois apareceram na Torre naquele dia. Mas a Viúva Negra não preocupou-se com tal fato, pois sabia que sua filha estava em boas mãos, e o Gavião Arqueiro também sabia que Steve precisava aproveitar ao máximo a companhia de Stella.
– É, eu sei que não será fácil, mas não vou abrir mão dela. O que eu fiz foi estupidez, também sei disso. E se você veio aqui para me dizer o que eu já sei, Barton, é melhor dar meia volta. Estou cansado de escutar conselhos por hoje –replicou o garoto enquanto Clint soltava uma risada sem humor e sentava-se ao lado dele no sofá.
– Você merece escutar muita coisa ainda, mas eu não sou o melhor exemplo para te dar sermão. Estou longe de ser um exemplo a ser seguido –afirmou o Gavião, dando de ombros, e Logan soltou a respiração de uma maneira nervosa.
Os dois simplesmente ficaram ali, encarando a janela de vidro no mais profundo e acolhedor silêncio. Na mais profunda solidão. Nenhum dos dois tentou dar continuidade aquela conversa, não que isso fosse necessário. A calmaria era boa, eles gostavam.
– Sr. Stark –chamou a voz robótica de Jarvis, quase assustando os dois homens presentes naquela sala, que rapidamente despertaram de seus devidos pensamentos.
– Sim, Jarvis? –redarguiu Logan, sem interesse algum.
– O Capitão Rogers e a Srta. Romanoff pedem permissão para subir, Sr. Devo autorizar? –questionou a AI, e Clint não entendeu muito bem o porquê de tudo aquilo, afinal, Steve e Stella não eram mais considerados visitas na Torre Stark.
– Que diabos de pergunta é essa, Jarvis? Por Deus, porque o Steve e a Stella precisam de autorização para subir? –estranhou o Stark, soltando uma risada irônica, claramente irritado com aquilo.
– Sr, pois o Capitão Rogers e a Srta. Romanoff estão acompanhados do Soldado Invernal.
A resposta de Jarvis veio rápida e afiada, e ao escutar tais palavras, Logan ergueu a cabeça, as sobrancelhas unidas em um sinal de dúvida, completamente em choque. Mas Clint também não estava longe disso, afinal, não esperava por aquilo tão cedo. Uma ponta de raiva surgiu em seus olhos quando o Gavião trocou um olhar incrédulo com o garoto.
– Como é?! –bradou Logan, exaltado, levantando-se do sofá em um sobressalto enquanto Clint ainda permanecia estático, em choque, sem reação nenhuma. Então, apenas o silêncio se fez presente por um bom tempo.
“I'm a young lover's rage
Gonna need a spark to ignite
So light them up, up, up”
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