National Anthem
11 Capítulo dez – Ghost
Notas iniciais
.gif)
“You said you'd wait forever
But I blinked and the world was gone
You wade through the water
Slowly your hands grow numb
I wish you felt me falling
I wish you'd watched over me
Loud with a nightmare
I run through your head”
And The World Was Gone – Snow Ghosts
Um choque. Simplesmente um choque. Foi tudo tão rápido.
Ela não teve sequer tempo de pensar ou reagir, e quando deu por si, foi empurrada violentamente por ele em direção a um beco ao lado do bar que se encontrava minutos antes.
O baque de suas costas contra a parede foi forte, ela não pôde negar que sentiu-se desconfortável. Aquela maldita chuva ainda teimava em cair, e a noite escura era seu maior medo. A sua frente, escondido nas sombras de um capuz preto, lá estava ele, o Soldado Invernal. Mas mesmo diante daquela situação, Stella Romanoff se manteve firme, e em nenhum segundo sequer tentou lutar contra ele.
Claro que, contra ela, Bucky venceria uma luta facilmente, afinal, era bem mais forte do que aquela ruiva, nada adiantaria. A mataria em questão de segundos. Mas porque ele não o fez? Não sabia quem aquela garota era, e como consequência, não sabia se devia confiar nela. Ainda assim, não a matou. Por quê? Não sabia, aliás, não tinha ideia do que diabos estava fazendo até então.
– Como você sabe disso? –perguntou ele, adquirindo uma postura rigorosa, referindo-se ao fato de Stella saber quem ele era, ou quem ele foi um dia.
Agora era apenas um fantasma, perseguido pela sombra do passado, perseguido pela sombra de uma pessoa a qual ele nem sequer lembra ter existido dentro de si próprio. Por trás do Soldado Invernal, não havia absolutamente nada a não ser morte e dor. O assassino. A máquina da HIDRA. A mudança do século. Usado. Reiniciado diversas vezes. Sem sentimentos.
Não. Não era um assassino. Tudo isso estava prestes a mudar.
Ele queria mudar. Ele iria mudar. Ou pelo menos, tentaria. Tentaria ao máximo de si. Enterraria de vez o temido e mortífero Soldado Invernal. Talvez, um dia. Precisava ter qualquer resquício de esperança que fosse, só assim poderia esquecer a arma que se tornou.
A garota engoliu em seco, fazendo um enorme esforço para respirar. Stella continuou a encara-lo, desnorteada, e Bucky esperou, olhando-a firmemente nos olhos, notando todo o medo que ela sentia. Medo que ela queria mascarar, fato que não estava funcionando no momento. Mas ao perceber que não obteria resposta, o moreno sentiu a raiva lhe dominar, e sem pensar muito bem no que fazia, apertou mais ainda sua mão metálica ao redor da garganta dela.
Stella se sobressaltou, soltando um abafado gemido de dor, buscando o ar para tentar respirar. Sua visão começou a ficar um pouco turva, mas ela permaneceu firme, não se deixou vencer. Logo, as duas mãos frias e pálidas da garota foram parar no punho de metal dele, segurando-o e tentando afasta-lo a todo custo. Em vão.
– Não vou perguntar de novo, como você sabe disso? –perguntou mais uma vez, e ela abriu a boca para tentar respirar, quase perdendo os sentidos.
– Eu... eu posso ajudar você –admitiu Stella, fazendo um enorme esforço para proferir aquelas palavras. Sua voz saiu quase em um murmuro. Fraca.
Bucky a empurrou ainda mais forte contra a parede, e o impacto a pegou de surpresa.
– Quem é você?! –a pergunta dele parecia mais como uma afirmação, fato que deixou Stella completamente intrigada. Estava à mercê dele agora, e querendo ou não, teria que cooperar.
A garota retirou as duas mãos de cima do braço dele, fazendo um claro sinal de que responderia a todas as perguntas, mas para isso precisaria respirar primeiro. Então, o moreno afastou a mão da garganta dela, passando a pressionar o tórax de Stella com seu braço metálico, mas aquilo foi o suficiente para ela puxar o máximo de ar possível, arfando, ao mesmo tempo em que inspirava lentamente.
– Não sou da HIDRA, ok? –garantiu ela, ainda ofegante, ignorando a pergunta dele, mas com certeza aquilo não foi muito inteligente, pois Bucky logo pressionou mais um pouco seu braço metálico sobre o tórax dela, lançando um olhar quase assassino na direção dela. Rapidamente, Stella tratou de responder a pergunta: – Meu nome é Stella Romanoff, eu sou filha do Capitão América.
A informação pareceu ter mexido com ele. Sim. Mexeu com seu psicológico destruído.
No mesmo instante, Bucky retirou o braço de cima dela, afastando-se completamente enquanto Stella ia de encontro ao chão, tossindo sem parar, tentando respirar, controlando-se ao máximo para não entrar em pânico.
– Steve... –murmurou o moreno ao mesmo tempo em que desviava o olhar de Stella, sendo mais uma vez invadido por lembranças. E em pensar que quase matara a filha de seu “melhor amigo”. Ou melhor dizendo, o melhor amigo de James Barnes, o qual não era ele ainda.
Stella o fitou com certa dúvida, passando as mãos por sua garganta avermelhada, deixando a chuva molhar cada centímetro de seu rosto, de seu corpo sem força.
– Então você lembra? –fora a vez dela perguntar, exasperada, mas aquilo parecia mais com uma afirmação do que uma pergunta. Ela já devia saber que Bucky havia lembrado de alguma coisa, qualquer coisa fosse, ou pelo contrário, naquele momento não estaria mais respirando.
O Soldado demorou algum tempo antes de respirar profundamente e responder:
– Não muito. Só alguns flashes. Como se fossem... sonhos. Eu não sei exatamente.
Silêncio. Apenas o barulho das gotas de água colidindo com o chão era escutado por ambos. Já estavam encharcados debaixo daquela chuva que não parava nunca, mas continuaram ali, sem falarem mais nada. Bucky parecia perdido em alguma espécie de universo paralelo dentro de sua mente, entretanto, Stella ainda continuava a encara-lo, completamente chocada com a situação que acontecia ali. Ela queria respostas. Ela ansiava por respostas, e talvez ele também quisesse isso.
De fato, ele queria.
Naquele momento, Bucky não sabia se ela era uma aliada ou não, entretanto, algo no jeito intrigante que Stella o observava fez com que ele sentisse que poderia confiar nela. Por um milésimo de segundos conseguiu esquecer o homem frio e amargurado que havia se tornado. Mas por quê? Porque ele estava se sentindo assim? Estava claro que algo ali havia mudado. Estava claro que o Soldado Invernal havia mudado, e tal fato veio a deixar o moreno ainda mais confuso do que ele já estava.
– Bucky, você podia muito bem ter sumido do mapa. Fugido. Voltado para a Rússia, sei lá. Mas não. Então... o que diabos está fazendo aqui em Nova Iorque? –questionou Stella, finalmente quebrando o constrangedor momento de silêncio entre os dois, mas como ele pareceu não lhe dar atenção, ela decidiu continuar: – Pelo amor de Deus, eles estão te caçando vivo! Tem noção do tamanho do perigo que você está correndo ficando na América?!
– Não finja que se importa comigo –replicou friamente, sem encara-la, sua voz saindo tão baixa, quase inaudível de uma maneira que Stella praticamente lutou para escutar.
Stella franziu o cenho, ainda encarando-o por entre as gotas de chuvas que molhavam sua face pálida. Logo, sustentando o olhar sobre Bucky, a garota pôs-se de pé ao mesmo tempo em que respondia de uma maneira calma:
– Você é o melhor amigo do meu pai. É claro que eu me importo.
Bucky riu sem humor, e com um movimento rápido, virou-se para Stella, passando a caminhar lentamente na direção da ruiva de pé à sua frente. Depois de encara-la mais uma vez por longos e silenciosos minutos, ele redarguiu, sério, com aquele típico olhar quase assassino:
– Bucky Barnes está morto. Sinto muito, mas eu não sou o melhor amigo do seu pai.
–Não. Nós dois sabemos que isso não é verdade. E.... Eu consigo sentir que você quer lembrar. Não negue, porque eu sei que você quer deixar toda essa culpa para trás, Bucky –contrapôs Stella, tentando uma nova aproximação, mas o Soldado automaticamente afastou-se no momento em que ela deu alguns passos na direção dele.
– Pare de me chamar assim, droga! Pare de agir como se me conhecesse –fora a vez dele exigir com firmeza ao mesmo tempo em que retirava o boné e o capuz que o escondia, revelando completamente o rosto marcado pela dor, mas os olhos azuis exalavam uma raiva fora do comum.
Ainda assim, Stella persistiu e não recuou, fato que claramente não o surpreendeu. Bucky travou o maxilar, fechando sua mão metálica em claro sinal de uma tentativa vazia de controlar toda a frieza e a fúria que sentia naquele momento. Fechou os olhos, soltando a respiração descompassada enquanto virava o rosto na direção oposta, negando-se a encarar a ruiva.
– Sargento James Barnes –a voz de Stella ecoou, tão tranquila e doce que logo conseguiu atrair a atenção dele novamente. E ao ver que Bucky tornou a observa-la, ela recomeçou, convicta do que estava afirmando: – É quem você é. Mesmo com tudo o que aconteceu, esse ainda é quem você é, eu tenho certeza disso. Tudo o que você precisa fazer é tentar, e nós podemos te ajudar. O Steve pode te ajudar, Bucky.
O Soldado encarou Stella com certa dúvida. É claro que não iria se render tão fácil assim, mas ele estava completamente confuso, imerso em lembranças das quais nunca tivera. Precisava raciocinar, precisava encontrar uma maneira de sair daquela situação. Mas como? Havia tantas perguntas que Bucky queria respostas. Perguntas até que sequer ele sabia quais.
Depois de ter salvo a vida de Steve, Bucky havia ido diversas vezes ao Museu Smithsonian, durante seguidas semanas, na esperança de talvez conseguir trazer de volta o que sobrou de James Barnes. Nada. Não lembrou nenhum pedaço sequer do homem que foi antes de ser tornar o vilão. Mas ele era mesmo um vilão? Era algo estranho de se dizer, afinal, ele matou pessoas. Inocentes. Apesar de tudo, fora usado. Tornou-se o vilão ainda que não quisesse. Perdeu a capacidade de sentir, perdeu a capacidade de se importar, e principalmente, perdeu a capacidade de ser humano.
Como mudar? Porque mudar?
Sargento Barnes. Quem era? Quem foi? Quem tornou-se? Tanta dor, tanta raiva e tanto ódio reprimidos, presas no corpo do homem por trás da arma, e deste modo, as memórias apagadas não foram recuperadas. Ele queria vingança, era a única coisa que o movia naquele momento. Entretanto... valeria mesmo à pena? No fundo, ele sempre teve a resposta, apenas não queria acreditar ainda.
Cada pensamento o acertava certeiramente, como um tiro, machucando-o, matando-o, descongelando a frieza do Soldado Invernal. Talvez. A confusão em sua cabeça aumentava cada vez mais à medida que Bucky exigia e implorava uma resposta de si mesmo. E pouco a pouco, o vestígio da culpa surgia. Tudo ainda era muito novo, todos aqueles sentimentos que ele não conseguia explicar.
Sentir. Tanto tempo privado de tal ação, e agora, tudo o que começava a sentir era dor e culpa, saboreando os primeiros passos de como se tornar humano novamente. Não queria mais ser um assassino, não queria mais ter aquela culpa que carregou por anos. A culpa pelos inocentes os quais tirou a vida na mais pura frieza.
Cansado de todos aqueles sentimentos negativos. Cansado de privar-se de sentir. Cansado de ser usado para matar. Como uma arma. O soldado perfeito. Daria um basta naquilo, e desta vez, faria tudo certo. Ou pelo menos, tentaria.
Por todas as vezes que teve sua memória apagada, estava na hora de ter um acerto de contas, mas antes disso, precisava ter um acerto de contas consigo mesmo. Precisava ter um acerto de contas com ele, o James Buchanan Barnes de 1940. Talvez só assim se libertaria de uma vez por todas. Liberto da arma que tornou-se. Liberto do monstro interior que o dominava.
As memórias o assombravam, e talvez esse era o principal –e único– motivo pelo qual ele não se renderia assim tão fácil. Seria difícil. Um caminho complicado de ser seguido. Não queria render-se. Não agora. Não estava pronto o suficiente. Ou estava?
– Eu disse para não me chamar assim. Esse... Não é quem eu sou. Não agora. Não ainda –advertiu ele, mas aquela ponta de dúvida ainda estava ali, viva, e ao contrário do que ele pensava, Stella percebeu. Era impossível não perceber o quanto estava confuso.
– Mas você quer tentar... –afirmou Stella, tão convicta do que estava falando que até mesmo ele admirou-se. A garota não conseguiu conter um levíssimo sorriso em seus lábios à medida que continuava a observar o Soldado.
Bucky estreitou os olhos na direção dela, e só então percebeu aqueles olhos. Os olhos verde-esmeralda de Stella, aquela cor que ele sentia já ter visto antes. Como era possível? Tinha o pressentimento que já a conhecia, fato que estava o deixando louco, completamente confuso, mas ainda assim, não se deixou abater e continuou com aquela postura fria e insensível, mascarando suas verdadeiros opiniões.
– É melhor você sair daqui. Não vai querer ficar doente por causa dessa chuva –ele orientou, cortando-a antes que Stella pudesse dizer mais alguma coisa, mudando completamente de assunto.
Stella mais uma vez franziu o cenho devido à mudança repentina de assunto. Estava claro que havia algo errado. Mas o quê? Como ajuda-lo, sendo que ele mesmo negava-se a tentar? Não. Não desistiria. Querendo ele ou não, ela o ajudaria. Decidiu-se.
– Você não precisa fazer isso. Não precisa fingir que não se importa, Bucky –replicou a ruiva, e o Soldado automaticamente soltou uma risada sem humor diante das palavras ditas por ela, arqueando a sobrancelha na direção dela em um claro ato de ironia.
– Eu sou uma arma, Stella. Qualquer pessoa em sã consciência faria de tudo para ficar longe de mim, não o contrário –admitiu, sempre com aquela voz firme e forte, tornando a cobrir o rosto com o capuz já encharcado pela chuva, entretanto, ele não se importou com tal fato.
– Não sou qualquer pessoa –replicou mais uma vez ao perceber Bucky dar as costas para ela.
O moreno revirou os olhos, tentando ignorar tudo o que ela contradizia, mas simplesmente não conseguiu. Aquilo estava sendo mais complicado do que parecia. O jeito confiante de Stella o intrigou, foi isso. Ela não era tão forte, mas não tinha medo. Não tinha um vestígio sequer de medo em seu semblante, e quando a garota deu mais um passo à frente, mais uma vez tentando uma aproximação, Bucky não afastou-se, apenas continuou ali, fato que a surpreendeu completamente.
– Você precisa ir embora. Agora –ordenou ele, firmemente, e desta vez, fora a vez de Bucky aproximar-se, mas Stella não estranhou aquele ato. – Não quero machucar você, mas o farei se for necessário –afirmou com convicção logo em seguida.
Antes que Stella pudesse sequer perguntar o que ele quis dizer com aquilo, o Soldado a segurou firmemente pelos ombros e empurrou-a mais uma vez contra a parede, fazendo com que ela engolisse um pequeno gemido de dor, encarando Bucky com espanto, mas em momento nenhum demonstrou sentir medo.
– Acredite, eu não tenho medo de você –replicou a garota, confrontando-o, lançando-lhe um olhar mortal à medida que Bucky a empurrava com mais força, deixando-a imobilizada em seus braços.
– Deveria ter –rebateu ele no mesmo instante, tentando controlar a raiva que sentia no calor do momento. Logo, Bucky fechou sua mão metálica ao redor do pulso de Stella, e ela reprimiu a dor que lhe atacou. Ali, não havia nenhum traço emocional sequer, apenas a frieza, a real face do Soldado Invernal. – Vou lhe avisar uma última vez. Vá embora, e esqueça tudo o que aconteceu aqui –ameaçou, mas Stella continuou firme, não se intimidou, fato que o deixou ainda mais furioso.
Entretanto, quando Bucky fez menção de tentar prender Stella pelos dois braços, o Soldado sentiu alguém empurrar algo firme contra sua cabeça coberta pelo capuz, e ao escutar o engatilhar de uma arma, teve certeza de que não teria para onde fugir.
– Me dê uma boa razão para não atirar em você agora mesmo –indagou Louis por trás do moreno, no mesmo tom frio, pressionando com mais força a arma que segurava.
Ao escutar a voz da amiga, Stella fechou os olhos à medida que Bucky soltava seus pulsos lentamente, e ela perguntava-se como aquela situação poderia piorar mais ainda.
– Vá em frente. Não irei impedir você –respondeu ele, dando alguns passos para trás, afastando-se completamente de Stella e sendo seguido por Louis, continuando na mira da garota. Dito isso, Bucky virou-se na direção da Stark, ignorando a arma apontada em sua direção, e rendido, indagou com uma indiferença sem tamanho: – Não sei quem diabos é você, mas seja lá quem for, é bom tentar colocar um pouco de juízo na cabeça da sua amiguinha aí.
Louis abaixou a arma no mesmo instante em que Bucky deu uma última olhada em Stella e começou a caminhar na direção oposta as garotas, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, escondido por debaixo daquele capuz, completamente irreconhecível, deixando tudo para trás em uma questão de segundos enquanto a chuva forte teimava em cair, voltando para a escuridão da noite.
– Eu vou te achar de novo, seu imbecil. E vou te ajudar, você querendo ou não –murmurou a ruiva, seriamente, não se importando com o fato de Louis ter escutado tais palavras, afinal, ela estava ainda mais confusa com tudo o que presenciou. Tão rápido. Tão... improvável.
Ela o seguiu com o olhar, e então, Stella simplesmente o perdeu de suas vistas, acompanhando a única chance que teve escorregar por suas mãos. Precisava pensar no que fazer a partir dali.
Ainda não havia acabado. E ela sabia disso. Não desistiria.
[...]
Era tarde. Uma noite fria e, até aquele momento, chuvosa, diferentemente da manhã ensolarada que estendeu-se por todo o dia. Mas a mudança repentina de temperatura já devia ser normal para ele, afinal, Steve Rogers sempre gostou do clima agradável de Nova Iorque, fosse chuvoso ou fosse ensolarado. Ele gostava. Lembrava-o dos velhos e bons tempos.
No interior da Torre Stark, Steve permanecia sentado amigavelmente sobre um sofá, de frente para a enorme janela do prédio, a qual era possível visualizar quase toda a cidade, fato que ele também parecia estar gostando muito, pois fazia horas que estava ali, naquela mesma posição, encarando as grossas gotículas de água que escorriam sobre o vidro. Seu olhar estava perdido, quase triste.
Sozinho, completamente sozinho, o Capitão tentava por seus pensamentos em ordem, entretanto, tal fato parecia impossível, já que ele não conseguia parar de remoer a decepção que sentia consigo mesmo por não ter encontrado seu ex-melhor amigo. Não podia deixa-lo. Não queria deixa-lo. E iria ajuda-lo, claro que iria. Mas como? Precisava encontra-lo primeiro, e não tinha ideia de como faria isso.
Dado certo momento, Steve sentiu o celular vibrar em suas mãos, o despertando rapidamente, quase voltando a realidade depois de horas e horas perdido em seus mais sombrios e angustiantes pensamentos. Um pequeno sorriso brotou em seus lábios ao ver quem estava ligando, mas logo em seguida estranhou o fato de Stella estar ligando para ele, sendo que havia avisado que não teria hora para voltar.
Ele estremeceu diante da hipótese de algo ruim ter acontecido. Por um momento, hesitou em responder a chamada, entretanto, tentou esquecer tal ideia. Em um movimento quase nervoso, Steve pressionou o aparelho contra sua orelha, e atendeu.
– Steve? –chamou a garota, a voz tão triste e abatida que ele mesmo se surpreendeu.
– Oi, meu anjo. Aconteceu alguma coisa? –perguntou de imediato, sentindo seu coração se desesperar por não obter uma resposta. Mas quando Stella soltou um suspiro pesado do outro lado da linha, Steve pareceu ter se acalmado um pouco mais. Só pareceu.
– Sim, aconteceu. Muitas coisas aconteceram, para falar a verdade –respondeu Stella, e automaticamente, o Capitão sentiu todos os músculos de seu corpo ficarem tensos. Ela esperou um longo minuto, tendo certeza que conseguiria prosseguir, e tentando controlar a raiva que sentia de si mesma, admitiu: – Eu preciso da sua ajuda, pai.
– Stella, você está me assustando. O que houve? –ele tornou a perguntar, ainda mais nervoso.
– Eu... Deus do céu, não sei como te dizer isso, mas pai, eu o encontrei. Eu encontrei o Bucky –informou ela, cautelosamente, tentando ao máximo ser a mais direta possível. Não sabia se aquilo era algo bom ou ruim para se dizer.
No mesmo instante que escutou as palavras da garota, Steve se sobressaltou, levantando-se com um forte impulso do sofá que estava sentado. Por um segundo, ele não acreditou nas palavras dela, mas o que Stella ganharia mentindo para ele? Não. Steve Rogers confiava demais na filha que tinha, e pelo tom de voz, sabia muito bem que ela estava falando a verdade.
“Estou com você até o fim da linha. Você é minha missão. Quem diabos é Bucky?”
As lembranças voltaram com uma rapidez extraordinária, fazendo com que Steve fosse atingido mais uma vez pela culpa por tudo o que aconteceu com Bucky. Sua consciência gritava, acusando-o dos mais diversos crimes, alimentando seus piores medos, implorando por uma resposta positiva. Dor. Angústia. Lamento. Um único sentimento não era capaz de defini-lo agora.
O que passava por sua mente? Perguntava-se o que fazer para recompensar todo o tempo perdido. Era seu melhor amigo. O amigo que pensou estar morto. O amigo que tornou-se uma arma. Irreconhecível. Não para Steve. Porque no fundo, o Capitão sabia que, por trás do Soldado Invernal, Bucky Barnes ainda existia, só precisava de um pequeno empurrão para fazer com que suas lembranças tentassem voltar.
– Como é que é?! –fora tudo o que ele conseguiu dizer depois de um longo momento de silêncio, ainda tentando raciocinar o que acabara de escutar.
Então, seu ex-melhor amigo estava em Nova Iorque. Tão perto, e sua filha, sua própria filha havia o encontrado enquanto ele percorreu todo o país e não o encontrou. Tanto tempo a sua procura, e agora, lá estava. Precisava agir o mais rápido que fosse então.
– Eu sei, é loucura, não? –murmurou Stella, soltando uma risada nervosa e sem humor. – Eu tentei, pai, juro que tentei convence-lo de que queria ajuda-lo, mas... Ele não me ouviu, e simplesmente sumiu. Não pude fazer nada para impedi-lo –explicou com pesar, sentindo-se tão culpada a ponto de quase chorar.
O Capitão soltou a respiração, começando a caminhar de um lado para o outro, sentindo sua cabeça dar voltas e mais voltas. Mas ainda assim, uma ponta de esperança surgiu em sua mente, e talvez conseguisse encontra-lo novamente, e talvez só assim poderia ajudá-lo. Faria o que fosse necessário, mas o encontraria.
– Steve, eu sinto muito. Devia ter feito alguma coisa, eu devia ter tentado mais. Me desculpe, pai. Pensei que poderia, mas não consegui ajudar você. Queria ter feito alguma coisa –declarou a ruiva, nervosamente, e Steve conseguiu perceber o estado exasperado que Stella se encontrava.
– Stella, já chega. Pare de se culpar, ok? Você fez tudo o que podia, não se preocupe com isso agora –o Capitão tentou tranquilizar a filha, mas pareceu impossível, afinal, ele ainda continuava a escutar a respiração desregulada de Stella, e depois de um tempo em silêncio, retomou: – Você já me ajudou, meu anjo. Você o encontrou.
– Mas... Você não está com raiva? –perguntou ela, e Steve riu diante de toda a preocupação.
– E por que eu ficaria, filha? –replicou de uma maneira divertida, tentando fazer com que ela relaxasse. Dito isso, o Capitão esperou alguns segundos antes de perguntar: – Me diz onde você está, ok? Estou indo te buscar.
Stella não contestou a decisão dele, afinal, ainda teria muito o que conversar com Steve.
Fale com o autor