National Anthem
24 Capítulo vinte e três – Acceptation
Notas iniciais
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“I’ve been through and seen a lot
We’re on borrowed time
But time isn’t enough
I’m just trying to be
The best me I can be
I need a little room to breathe
You’re making this tough for me
When all I need is to be set free”
Room To Breathe – You Me At Six
Richmond
A dor. Os gritos. A destruição. A explosão. As lembranças da última vez em que o vira ainda pairavam em sua mente, trazendo à tona sentimentos os quais ela um dia pensou ter enterrado anos atrás. Mas não. Tudo voltara. Ou quase tudo. Carol Danvers nunca viu-se tão confusa, sem saber ao certo o que se passava em sua cabeça, sem definir o exato momento em que seu próprio passado a atacou. Uma ameaça velada. Constante e instável.
A confusão nos olhos de Clint Barton logo deu lugar a uma culpa, marcando um passado tormentoso e cheio de segredos e cicatrizes. Cicatrizes as quais ele mesmo havia pensado ter esquecido, assim como ela. Mas claramente, aquilo não era a verdade, pois ao que parecia, os segredos guardados com rancor estavam de volta, à tona, trazendo mais uma vez aquela maldita sensação de impotência. Talvez fosse isso. Talvez fosse assim que o Gavião Arqueiro se sentia em relação a Carol, a moça de olhos azuis penetrantes, que antes lhe roubara a sanidade.
Ela pensava que ele estivesse morto há anos, e ele, com certeza, também pensava o mesmo. Imaginava que ela, aquela mísera parte de seu passado, tivesse sido incinerada há décadas atrás, junto com cada resquício de remorso que ainda lhe sobrara. Em ambos, afinal. Como um crime que necessitasse ser escondido. Uma marca. Dois criminosos escondendo seus passos. Mas eles não eram criminosos. Ou eram? Naquele momento, não havia nenhum sentimento exato que pudesse definir o que se passava em suas cabeças.
Por um milésimo de segundo, pareceu como se ele não soubesse mais agir ou reagir, como se a situação não pudesse piorar. Entretanto, Clint Barton nunca esteve tão errado como agora. Mas o que fazer? Pensou, repensou, pensou novamente. Não conseguia encontrar uma solução sequer para pelo menos tentar raciocinar. Usar a razão ao invés da emoção. Afinal, era esse seu treinamento, certo?
Tentando manter-se o mais afastado possível, Bucky parecia mais quieto do que de costume. Sempre firme e sério, um olhar quase assassino sobre Carol. Ora encarava Clint, ora tornava a encarar a moça. Não sabia ao certo o que estava acontecendo ali, e parecia mais confuso do que qualquer outro agente que pudesse estar presente naquela base. De fato, Danvers e Barton compartilhavam de um passado realmente turbulento, e pelo olhar de culpa e remorso em ambos, algo mais havia acontecido. Talvez. Mas, mesmo que Clint e Carol houvessem perdido a noção do tempo, aquele lugar ainda não era seguro, e eles precisavam sair dali o mais rápido possível.
Seja o que fosse que escondiam um do outro, Carol e Clint teriam muito tempo para conversarem, acertarem o passado, concertarem os erros que cometeram. Pensando nisso e querendo deixar todas as suas dúvidas para uma outra hora, Bucky suspirou profundamente, adiantou-se, caminhando cauteloso na direção de Clint, parando ao lado do Gavião, o qual apenas lhe dignou um simples olhar nada intimidador. Mas, não para a surpresa de Barton, o Soldado não importou-se, apenas deu de ombros.
– Você vai ajudá-la ou vai ficar parado aí? –indagou Bucky, a ironia quase sendo perceptível em suas palavras, e com isso, Clint revirou os olhos em desaprovação. Logo, notando a estagnação momentânea do Gavião, ele simplesmente o ignorou e prosseguiu seu caminho até Carol, a qual não exibia mais nenhuma reação de espanto com aquela situação quase constrangedora. A loira estreitou o olhar, não entendendo o porquê de Bucky querer ajuda-la. Muito menos entendia o porquê dele estar ali. – Calma, ok? Eu juro que não vou te machucar –afirmou o Soldado enquanto aproximava-se lentamente de Carol, medindo seus passos a cada centímetro. Bucky ergueu as mãos em sinal de rendição, dando a certeza de que não era uma ameaça. Mas ela não pareceu confiar plenamente nisso.
– Você é o Soldado Invernal. Porque eu deveria confiar em você? –ela redarguiu com firmeza, sua feição agora adquirindo um tom muito mais ameaçador e sério. No exato momento em que percebeu a desconfiança no olhar dela, Clint estranhou, não reconhecendo a Carol que antes conhecida. Sem dúvidas, algo mais havia acontecido. Mas ainda que quisesse tentar ajudar Bucky e convencê-la, o Gavião simplesmente não se moveu. Só não entendia o porquê.
– É Carol, não é? –perguntou ele, ao finalmente aproximar-se mais um pouco e parar de frente para a loira. De um modo automático, Carol apenas meneou com a cabeça, respondendo à pergunta feita por Bucky. Os olhos azuis dela eram um misto de angústia e raiva, a mais pura indecisão. Logo, o Soldado suspirou de uma maneira demorada, encarou-a por um bom tempo e só então recomeçou: – Escuta, serei honesto. Se você não quer a minha ajuda, eu não vou me importar em te deixar aqui. E aí quem sabe você pode dar seu jeito para sair daqui viva?
– Poupe-me das suas ameaças. Eu não preciso da sua ajuda, Soldado Invernal –desta vez, ela mostrou-se ríspida. Clint e Bucky se entreolharam o mais rápido que conseguiram, e concordando um com o outro, o Gavião enfim aproximou-se, agora também ficando de frente para ela. A voz de Carol pareceu um tanto diferente, mais firme e rígida, mostrando que ela realmente não estava satisfeita com a situação em que fora colocada, e não demorou muito para que a loira começasse a fitar Clint com um olhar nada amigável, e completasse: – Muito menos da sua ajuda, Barton. Não preciso de nada disso.
– Tem certeza, Sra. Sabichona? –se revoltou Clint, arqueando as sobrancelhas na direção de Carol ao mesmo tempo em que cruzava os braços sobre o peito. Impaciente com a teimosia dela, Bucky apenas revirou os olhos em claro desconforto e respirou profundamente. Em seguida, o Gavião aproximou-se um pouco mais e inquiriu à ela: – Então por que você mesma não acabou com esses agentes desgraçados e deu o fora daqui, hein?
– Porque eu sabia que você viria –a resposta de Carol veio rápida e afiada, ainda mantendo um olhar furioso sobre os dois homens à sua frente, e mais uma vez, eles não pareceram se intimidar. Entretanto, percebendo certa confusão no olhar de Clint, ela resolveu e tentou explicar-se de maneira mais clara: – Eu sabia desde o começo que o Coulson precisaria de mim. Que ele precisaria da minha ajuda. E eu posso ajudá-lo. Ele sabe disso.
– Sua ajuda? Para o que, exatamente? –quis saber Bucky, os olhos azuis tempestuosos permanecendo firmes sobre a loira, também aproximando-se mais um pouco de Carol e permanecendo ao lado de Clint.
– Skye –ela disse simplesmente, e no mesmo instante, os olhos de Clint arregalaram-se em susto. Bucky voltou a estreitar o olhar sobre Carol, ainda mais intrigado com o rumo que aquela conversa estava tomando, e provavelmente, preocupado com o que poderia descobrir. Afinal, não sabia o que esperar de Carol Danvers. Clint poderia saber. Mas não mais. Não conhecia mais aquela mulher que um dia se importou. A mulher que um dia... Ousou amar.
– Espera, como você sabe sobre a Skye? –questionou o Gavião, e por mais que tentasse, não conseguiu esconder todo o nervosismo que sentiu domina-lo naquele momento. Mas diante da pergunta dele, Carol também não conseguiu deixar de amenizar a feição raivosa, e com isso, não respondeu absolutamente nada. Notando isso, Clint sentiu seu coração bater em um ritmo mais acelerado do que o normal, e temeroso, refez a pergunta, inquirindo-a de uma maneira severa e furiosa: – Carol, o que diabos aconteceu com você?!
– Acredite, você não foi o único que mudou nesse tempo todo. Há mais escuridão em mim do que possa imaginar, Clint –retorquiu a loira, e agora, uma notável mágoa alcançou suas orbes azuis, deixando claro que, de fato, muita coisa havia acontecido por todos aqueles anos. Entretanto, a resposta dita por ela deixou Clint e Bucky ainda mais confusos. O que havia se passado com Carol Danvers, afinal? Eles poderiam enumerar vários motivos e suposições, mas a verdade era que não sabiam de nada. Absolutamente nada.
– Sério? Tipo o que? –ele tornou a indagar severamente, olhando-a nos olhos como nunca havia feito antes. Diante disso, Bucky suspirou profundamente mais uma vez, e medindo seus passos, afastou-se apenas alguns centímetros. Clint mal reparou na movimentação do Soldado, apenas continuou com o olhar fixo e vidrado em Carol. Ela não estranhou tal fato, mas Bucky sim. Logo, sentindo sua paciência se esgotar, o Gavião tentou parecer o mais compreensível possível, e pediu: – Você precisa ser mais específica, Carol. Preciso saber.
Carol respirou profundamente, como alguém que estivesse tomando coragem para realizar algum ato. E de fato, ela estava. Querendo provar o que estava acontecendo realmente, a loira engoliu todo o medo e insegurança que dominou-lhe por um longo tempo, observando Bucky e Clint de uma maneira intensa. Então, mantendo os olhos fixos nos dois à sua frente, Carol cerrou os punhos, sentiu os músculos de seu corpo se contraírem, e com um puxão forte, quebrou a algema que ligava seu pulso à uma haste de metal.
– Tipo... Isso –murmurou a loira, enquanto Clint e Barton a encaravam ainda mais surpresos e chocados, não sabendo ao certo como reagir diante a cena que presenciaram. Mas a surpresa nos olhos de ambos tornou-se ainda maior quando, sem um motivo exato, todos as marcas arroxeadas e os cortes no rosto de Carol começaram a se curarem. Alguns instantes depois, não havia absolutamente mais nada na face dela que denunciasse as torturas pela as quais fora submetida. O Gavião, de novo, ficou sem reação. – É isso que acontece. Satisfeitos agora?
– Meu Deus. Carol, não é possível –disse o Gavião, encarando-a com dúvida, permanecendo incrédulo, e sem conseguir resistir, seguindo uma certo instinto que lhe dominou naquele instante, ele aproximou-se ainda mais, quebrando a distância que o separava de Carol. A loira sentiu seu sangue gelar quando uma das mãos de Clint tocou no rosto pálido dela, passando os dedos de uma maneira cuidadosa sobre cada cicatriz em cada centímetro. – Então a explosão te fez isso? –perguntou em seguida, e de longe, Bucky apenas observava tudo atentamente, já sem saber o que pensar ou o que fazer, confuso demais para sequer imaginar alguma coisa.
– Quando aquele explosivo me atingiu, eu entrei em contato direto com o material Kree, e como consequência, ganhei essas... Habilidades – explicou Carol, pausadamente, fazendo com que assim, Clint e Bucky entendessem cada palavra dita por ela. Ambos pareciam chocados demais para mostrarem qualquer reação. Percebendo isso, a loira fitou Clint diretamente nos olhos e, devagar, afastou a mão dele de seu rosto enquanto dizia, por fim: – Eu sou uma híbrida, Clint. Metade humana, metade Kree.
– Então é por isso? É por isso que você quer ajudar a Skye? –manifestou-se Bucky subitamente, tornando a aproximar-se de Carol enquanto Clint o seguia com o olhar. Logo, Barton também afastou-se um pouco da loira e se posicionou ao lado do Soldado.
– Sinto que sou a única que pode ajuda-la. E acho que no fundo, Coulson também concordaria comigo. –ela replicou com certa paciência, e então, ainda mantendo o olhar fixo em Clint e Bucky, a loira pôs-se de pé dificultosamente, tentando a todo custo não transparecer estar sentindo alguma dor. Em seguida, Carol soltou um suspiro nervoso e completou: – Eu não preciso de ajuda, Clint, mas ela precisa. Aquela garota poderá ser um perigo à todos, e necessita ser controlada da maneira certa.
– E como você tem certeza de tudo isso? –inquiriu novamente o Gavião, não deixando de lado toda sua curiosidade a respeito das habilidades de Carol, e Bucky também não parecia muito longe disso, pois escutava atento a tudo que ela dizia e explicava, cada vez mais surpreso com tantas revelações.
Bucky raciocinou, e acabou por concordar mentalmente com aquilo. Mesmo que ainda houvessem segredos no passado dela, algo lhe dizia que Carol poderia ser de grande ajuda. Talvez, apenas talvez. Parte de si continuava a teimar desconfiar dela. De tudo, e de todos. No fundo, Clint também parecia dividir da mesma opinião que o Soldado.
– Porque eu vi –Carol respondeu simplesmente, mais uma vez deixando Clint e Bucky confusos. Logo, a loira respirou devagar, tornou a encarar os dois à sua frente, e por fim, tentou explicar mais claramente ainda: – O Coulson pode não saber, a Skye tem algo Kree circulando no corpo. Não sei quais circunstâncias levaram a isso, mas ela foi exposta a raça alienígena e desconhecida. É meu dever ajuda-la, e creio eu que é para isso que vocês estão aqui, certo? Não sei se posso confiar plenamente na S.H.I.E.L.D., mas se irão me tirar desse inferno, então que assim seja.
– Essa missão está nas suas mãos, então a decisão é sua, Barnes –informou o Gavião, e por um momento, realmente conseguiu considerar Bucky como uma parte da equipe. Uma mudança sutil, mas que poderia ser fundamental. Logo, Carol estreitou o olhar sobre os dois rapazes, enquanto Clint encarou Bucky discretamente de soslaio, perguntando em seguida: – Devemos leva-la conosco?
– Nossa missão era resgatar o objeto 0-8-4. E ela é o objeto 0-8-4, Clint –respondeu o Soldado, também observando Barton de lado discretamente, ainda que Carol permanecesse quieta, ele sabia que ela não estava muito feliz com aquilo. Depois, Bucky voltou a adquirir a feição mais séria e sensata que pôde, e sem conseguir desviar o olhar da loira, disse por fim: – Sim, vamos leva-la conosco. Tenho certeza de que Coulson também quer isso. Ele quer vê-la.
– Ótimo. Então vamos sair logo daqui –respondeu Clint rapidamente, percebendo que Bucky concordara apenas com um meneio de cabeça enquanto Carol dava de ombros, mais uma vez deixando claro toda sua irritabilidade e indiferença quando o assunto era a S.H.I.E.L.D.
“We are the reckless
We are the wild youth
Chasing visions of our futures
One day we'll reveal the truth”
[...]
Torre Stark
Fazia sol, e a temperatura era amena. Ainda era cedo da manhã quando Louis terminou de tomar um banho relaxante, parecendo não querer demorar muito, afinal, já estava atrasada para voltar à base da S.H.I.E.L.D. A garota vestiu-se com certa destreza, deixou solto os cabelos molhados, e alguns instantes depois, encontrava-se pronta para mais um dia. A rotina que não se cansava nunca.
Quando saiu do banheiro e voltou para o quarto, a Stark encontrou Stella já acordada e ainda de pijama, sentada sobre a cama de uma maneira confortável enquanto aparentava estar com o pensamento longe, carregando no rosto um olhar perdido e até mesmo um tanto tristonho. No fundo, Louis não demorou muito para perceber o que estava deixando-a tão aflita.
– Ei, Sunshine. Bom dia para você também –brincou Louis, adquirindo um grande sorriso acolhedor em seus lábios rosados ao mesmo tempo em que aproximava-se da cama de Stella e se sentava ao lado da amiga. Mas a ruiva continuou imóvel, não esboçando nenhuma reação, fato que Louis estranhou completamente. Logo, tentando chamar a atenção de Stella, ela ajeitou-se melhor sobre a cama e sentou-se em uma posição que pudesse ficar de frente para a outra. Ainda assim, nenhuma reação. Preocupada, tentou voltar a chama-la: – Stella? O que está acontecendo com você, hein? Quero minha melhor amiga de volta.
Stella soltou um suspiro pesado enquanto finalmente parecia despertar de seus próprios pensamentos. Ainda que a contragosto, ela ergueu o olhar na direção de Louis e encarou a amiga com certa indiferença, não sabendo ao certo como reagir. A Stark, por sua vez, apenas sorriu e deu de ombros, imaginando que talvez a preocupação crescente em Stella tivesse nome e sobrenome. Ela desconfiava, claro, não precisava ir muito longe para saber que toda aquela inquietação envolvia uma única pessoa.
– Essa espera está me matando, Louis. A Skye prometeu que me manteria informada, mas até agora não deu nenhuma notícia –revelou Stella, e Louis simplesmente não conseguiu deixar de notar todo o receio dela em deixar tais palavras escaparem por sua boca. Logo, a Stark olhou para o relógio em seu pulso, e ignorando o fato de estar mais do que atrasada, sentou-se de uma maneira mais confortável, dando total atenção para Stella. E esta também sentou-se e não hesitou em imaginar: – Você acha que... Pode ter acontecido alguma coisa?
– Vai por mim, se algo ruim tivesse acontecido, nós já estaríamos sabendo –respondeu Louis quase no mesmo instante, passando a segurar fortemente as duas mãos de Stella com o objetivo de tentar transpassar confiança. A ruiva concordou com um simples meneio de cabeça, dando razão as palavras ditas pela Stark. Louis não sabia se havia funcionado, mas percebendo um leve e singelo sorriso dominar o rosto da amiga, ela deu um pequeno aperto nas mãos de Stella e inquiriu: – Você está preocupada com ele.
A ruiva absorveu aquela pergunta – que mais pareceu uma afirmação – com muita atenção, realmente cogitando a ideia de Louis estar certa. Talvez. Entretanto, ainda assim, Stella não podia negar a culpa que sentia todas as vezes em que seu pensamento caía sobre Bucky, toda vez que deixava-se levar pelo sentimento imprudente que estava começando a leva-la à loucura. Não, não era tão imprudente assim. Queria não pensar nisso, mas apenas não conseguia esquecê-lo. Esquecer de tudo, com certeza, não parecia mais uma opção. Nunca. Precisava de um jeito para lidar com a situação, imaginando qual seria a reação de seu pai ao saber da verdade. Verdade a qual nem ela mesma entendia ainda.
– Louis, eu estou preocupada com todos eles –disfarçou a garota, tentando tirar o real foco daquela conversa. Afinal, Stella sabia muito bem aonde Louis estava querendo chegar, e definitivamente, aquele não era o momento mais apropriado para tal conversa. Mas, ao encarar a amiga e notando um olhar meio divertido no rosto de Louis, a ruiva logo tratou de esquecer qualquer pensamento e indagou: – Não me olhe com essa cara, tá? Sem essa, eu não vou admitir nada dessa vez.
– E nem precisa admitir nada, ruivinha. Já está escrito na sua testa e destacado com letras em neon, Stella –replicou Louis, não mais contendo um sorriso completamente irônico que brotou em seus lábios. Stella, por sua vez, fez-se de desentendida e estreitou o olhar na direção da Stark, rezando para que ela mudasse logo de assunto. Mas estava errada, pois no mesmo instante, Louis quis se explicar melhor e expôs, dando total certeza sobre tal assunto: – Você está preocupada com ele. Mas não é só isso. Você gosta dele.
Mais uma vez, Stella recebeu aquela informação com profunda atenção, cuidadosamente, avaliando todas as palavras ditas por Louis, e no fundo, concordava com cada uma delas. Ela estava confusa demais para pensar em qualquer coisa. Confusa, sim, afinal não sabia exatamente como reagir quando estava próxima à Bucky, sempre buscando manter sua sanidade no lugar, querendo a todo custo não cometer mais nenhuma loucura. Como se fosse possível. Mas na verdade, tudo o que Stella queria era assumir de vez tudo o que sentia por ele. Era errado? Claro que era, e ela tinha certeza disso. Entretanto, havia alcançado um ponto que apenas não se importava com as consequências.
– Não, Louis, na verdade é muito pior –murmurou Stella subitamente, depois de um certo tempo em silêncio, enfim despertando a atenção de Louis. Logo, quando percebeu que tinha a total atenção da amiga, Stella sentiu seu rosto começar a ficar um tanto vermelho de vergonha. Mas ainda assim, decidiu que precisava tirar aquele peso de seu peito, e pensando nisso, a ruiva mais uma vez suspirou profundamente, tomou coragem, e assumiu de uma vez por todas: – Eu... Eu acho que estou... Me apaixonando pelo Bucky.
Um largo sorriso voltou a fazer-se presente no rosto de Louis no mesmo instante em que a garota escutou as palavras de Stella finalmente assumindo o que, para ela, já parecia óbvio até demais. Com isso, a Stark segurou as mãos da ruiva com mais força, deixando claro sua total alegria diante daquela revelação. Estava feliz por Stella conseguir pôr tais sentimentos para fora. Precisava conversar sobre aquilo, e sem dúvidas, Louis sabia guardar segredos como ninguém nunca sequer soube. Era inigualável.
– Até que fim você percebeu isso, Stella! Já estava na hora, não é? –redarguiu a Stark com certa animação, mas o sorriso em seu rosto foi desmanchando-se pouco a pouco ao perceber que a feição de Stella continuava impassível. Logo, Louis revirou os olhos em sinal de discordância, e lançando um olhar firme na direção da ruiva, perguntou: – Credo, parece que alguém morreu aqui. Ah, qual é! Por que diabos você ainda está com essa cara de enterro?
– Por quê? Louis, o Bucky é o melhor amigo do meu pai, e eu estou sentindo certas coisas por ele! Por Deus, isso é errado e não pode acontecer! –ela exclamou com certa euforia, dando todos os sinais de que, de fato, estava completamente perdida e sem saber o que fazer. Claro que Louis percebeu aquilo de imediato, e não poderia deixar de tirar a razão dela. Mas ainda assim, era notável toda a alegria que Stella transpassava sempre que estava perto de Bucky, e a Stark gostava de vê-los assim, próximos um do outro. Por mais que pudesse ser errado, queria apoiá-la, e iria. Entretanto, antes que Louis conseguisse responder alguma coisa, a ruiva se antecipou e assumiu: – Sei que pode ser errado, que meus pais podem me odiar, mas eu não quero me afastar dele, Louis. Não vou conseguir me afastar. A culpa é toda minha. Eu não devia ter feito nada disso.
A Stark concordou, escutando atenta cada palavra. Rapidamente, Louis notou uma pequena lágrima brotar no canto dos olhos dela, e antes que a situação piorasse ainda mais, ela adiantou-se, se aproximou mais um pouco, e de uma maneira delicada, enxugou o rosto de Stella com todo o cuidado do mundo. Desse modo, a ruiva sentiu sua respiração falhar enquanto o nervosismo devorava cada terminação nervosa de seu corpo. Então, Stella deitou sobre a cama e apoiou a cabeça no colo da amiga.
– Me escuta, okay? –ela pediu enquanto acariciava carinhosamente os cabelos da ruiva, e quando Stella balançou a cabeça concordando, Louis deu continuidade à sua linha de raciocínio: – Assumir o sentimento já é o primeiro passo, Stella. Você gosta muito dele, e tenho certeza que é recíproco. Não se culpe por estar apaixonada pelo melhor amigo do seu pai, porque querendo ou não, você ainda é humana. Assim como o Bucky.
A garota suspirou, escutando atentamente a voz de Louis, sentindo-se mais confiante e relaxada com as palavras da amiga. Stella soltou a respiração de uma maneira exasperada, lutando para reaver boa parte de sua sanidade, e tentando a todo custo manter-se firme e contida à respeito de tudo aquilo.
De fato, o raciocínio de Louis fez com que Stella parasse para pensar, fazendo também que uma certeza se solidificasse pouco a pouco. Não havia mais por onde escapar, e agora, Stella Romanoff estava à mercê do destino e de suas próprias escolhas. E ela sabia exatamente o que escolheria. Não o que, mas sim, quem. E esse quem tinha nome e sobrenome. Era isso. Era ele.
– Para quem não entendia nada de relacionamentos, você está se saindo melhor do que qualquer psicólogo nesse mundo –brincou Stella, deixando um breve sorriso colorir sua face, e assim, arrancando uma gargalhada de Louis. Logo, a ruiva voltou a sentar-se de frente para Louis, respirou devagar, e limpou de seu rosto qualquer traço de tristeza. Sorriu brevemente mais uma vez, e então, disse apenas: – Obrigada, Louis. Não sei o que faria sem você.
– Você é minha melhor amiga, Stella, e sabe que eu faria qualquer coisa por você. Então não precisa me agradecer –respondeu Louis no mesmo instante, sentindo-se verdadeiramente melhor em ver o humor da amiga mudar de uma maneira positiva. De repente, ainda percebendo uma ruga de preocupação na testa da ruiva, a Stark teve uma ideia que, sem dúvidas, faria muito bem à Stella. Logo, Louis sorriu divertida, e insinuou: – Sabe, eu acho que você deveria ir comigo para a S.H.I.E.L.D.
– O quê? Louis, você ficou maluca? –perguntou Stella aos risos, mas percebendo que Louis estava falando sério, a ruiva tratou de se recompor e quis ter certeza: – Okay, certo, espera um instante ai... Você está falando sério?
– Claro que estou! –ela exclamou em resposta, mais uma vez sorrindo de forma brincalhona. Então, pôs-se de pé da cama com um pulo, fazendo Stella rir com o sobressalto que aquilo lhe causou, e continuou parada à frente da ruiva, que permanecia sentada na cama. Em seguida, a Stark suspirou lentamente, e explicou-se com calma: – Pensa bem. Você está aqui sozinha e toda preocupada com o Bucky. Se for para a S.H.I.E.L.D. comigo, vai me fazer companhia, e melhor ainda, vai poder saber o exato momento em que o seu Soldado pôr os pés naquela base. O que me diz?
– Louis, por favor, o Bucky não é o meu Soldado –defendeu-se Stella, por mais que achasse engraçado o modo como a Stark falou. Notando o rosto da ruiva ficar ainda mais vermelho, Louis sorriu ironicamente enquanto ela revirava os olhos e também levantava-se da cama. Logo, Stella cruzou os braços sobre o peito, e perguntou: – Eu não tenho muita escolha, tenho?
– Não mesmo –respondeu Louis, novamente aos risos ao mesmo tempo em que arqueava as sobrancelhas, e imitando o gesto de Stella, cruzou os braços sobre o peito. A ruiva respirou fundo, e vencida, ergueu os braços em sinal de rendição. A Stark comemorou.
– Okay, você venceu, Louis Stark! –acatou Stella em seguida, e então, tentou ao máximo relaxar cada músculo de seu corpo, não conseguindo negar para si mesma toda a ansiedade que ousou dominá-la naquele instante. Ela balançou a cabeça, tentando esquecer tais pensamentos, e ao voltar-se para Louis novamente, pediu: – Preciso apenas tomar um banho rápido e me trocar. Me dá dez minutos?
– Claro, Srta Romanoff! Leve o tempo que precisar, o seu Soldado quer te ver linda –gracejou Louis, mais uma vez não conseguindo conter uma risada ao reparar no aparente constrangimento de Stella, que simplesmente revirou os olhos.
– Cala a boca! –replicou a garota, lançando certeiramente uma almofada na direção da Stark, a qual outra vez não conteve uma nova gargalhada. Ignorando-a, Stella virou-se de costas e logo começou a caminhar rapidamente na direção do banheiro, fazendo com que Louis não percebesse um leve sorriso nos lábios dela.
“My innocence is wearing thin
But my heart is growing strong
So call me, call me, call me
Miss movin' on”
[...]
S.H.I.E.L.D.
Os passos de Logan eram apressados e contínuos, despertando a atenção de qualquer pessoa que estivesse por entre aqueles longos corredores daquela base. Ele nunca se perderia ali, afinal, conhecia aquelas bases como nenhuma outra pessoa conhecia, e graças a Louis, aprendeu muito bem a se virar sozinho para encontrar o que queria. Ou precisava. Mas naquele momento, parecia estar longe de onde queria, já que não conseguia encontrar sua irmã em nenhuma daquelas diversas salas. Estranhou o fato, Louis nunca se atrasava para nada, principalmente por um chamado de Coulson.
Dado certo momento, o Stark estava tão mergulhado em seus pensamentos que não percebeu uma outra pessoa que vinha no sentido contrário ao dele. Logo, não demorou muito para seu corpo ir de encontro a outro corpo, mais delicado e leve que seu próprio. Com o impacto, Natalie Pierce imediatamente foi de encontro ao chão enquanto Logan afastava-se um tanto atordoado.
Rapidamente, Logan percebeu a loira caída no chão, os cabelos presos em um rabo de cavalo alto, os olhos azuis destacados com uma maquiagem forte, vestida com um dos típicos uniformes de agente da S.H.I.E.L.D. Natalie o encarava com espanto, e por um milésimo de segundo, o Stark viu-se sem nenhuma reação. Entretanto, quando a risada eufórica de Natalie pôde ser escutada, o garoto pareceu despertar de seus pensamentos e deixou-se sorrir.
– Nossa, desculpe, eu estava distraído! Desculpe por isso –pediu Logan, também não resistindo e deixando uma singela risada o contagiar. Natalie sorriu, e quando o loiro estendeu o braço em sua direção, ela o segurou com firmeza e levantou-se do chão com certa destreza. – Você está bem? –perguntou em seguida quando ela colocou-se de pé e os dois ficaram de frente um para o outro.
– Não precisa se desculpar, está tudo bem –garantiu a loira, sorrindo na direção de Logan, ainda sem conseguir desviar o olhar. O Stark também continuou ali, encarando-a sem nenhuma intenção de mudar o foco. Com isso, Natalie mordeu os lábios, e desta vez fora a vez dela de estender o braço na direção dele e apresentar-se: – Eu sou Natalie. Natalie Pierce
– Logan Stark. É um prazer conhecê-la, senhorita –respondeu ele, tentando lembrar-se de onde poderia conhecer aquela mulher loira à sua frente. Imaginou que ela seria uma das novas agentes contratadas por Coulson, mas porque sentia que a conhecia de muito antes? Não sabia, e na verdade, nem queria saber. Estava completamente hipnotizado pela beleza de Natalie. Tanto que não conseguia sequer desviar seu olhar.
– Está perdido, Logan? –ela quis saber, beirando um sorriso amigável nos lábios rosados enquanto o garoto também sorria e cruzava os braços sobre o peito.
– Na verdade, estou procurando a minha irmã, mas acho que não sei onde ela pode estar –ele respondeu em seguida, o que, de fato, não deixava de ser verdade. Natalie apenas concordou com a cabeça e soltou um risinho tímido.
– Acho que posso te ajudar com isso –rebateu Natalie, e de imediato, Logan concordou, começando a segui-la por aqueles corredores da base. Corredores os quais ela parecia conhecer muito bem.
Os dois mantinham uma afiada e divertida conversa ao longo do caminho. Mas em dado momento, Logan e Natalie viraram em um corredor com diversas portas que davam acesso à um dos enormes pátios da base. Entretanto, o Stark arregalou os olhos ao dar de cara com Stella e Louis, que vinham na direção contrária. O sorriso que a ruiva trazia no rosto logo desmanchou-se quando seu olhar cruzou com o do ex-namorado, e principalmente, ao notar a loira que estava do lado dele. Stella e Louis se entreolharam, confusas, e então, voltaram a encarar Natalie e Logan com certa indiferença.
“The storm’s getting closer
And my... my world’s going under
And I can’t remember
The reason that you cut of the light”
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