National Anthem
15 Capítulo catorze – Haunted
Notas iniciais
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“I will not speak of your sin
There was a way out for him
The mirror shows not
Your values are all shot
And oh, my heart was flawed
I knew my weakness
So hold my hand
Consign me not to darkness”
Broken Crown – Mumford & Sons
Antes
Sibéria, Rússia – 1947
Apenas o gelo. Uma grossa camada de neve se estendia por seus pés, e o vento frio, juntamente com os flocos cristalinos que teimavam a cair, deixavam a temperatura ainda mais baixa do que o normal. Quase anormal. Aquela tempestade devastadora já durava dias, semanas, mas tal fato já era esperado, afinal, o inverno naquela região da Rússia era sempre rigoroso, nada que surpreendesse, nada que mudasse a rotina das pessoas.
A noite escura atacou como um verdadeiro animal, em um piscar de olhos tão rápido que ela mal conseguiu pensar para onde fugir desta vez. Seus dedos pareciam congelar mais e mais a cada passo que dava, e ainda assim, aquela garota de cabelos ruivos continuou sua andança sem rumo, o caminhar firme e rígido, seu corpo escondido por debaixo de várias camadas de roupas, na esperança de permanecer viva por mais uma noite.
Não sabia muito bem o exato local onde se encontrava, entretanto, não importava-se com isso. Precisava continuar, precisava enfrentar todas as dores em seu corpo machucado e seguir sua rota para o mais longe possível da cidade. As poucas casas que encontrava em torno do caminho mostravam-se todas abandonadas por conta do frio, pois sem dúvida nenhum morador em sã consciência permaneceria ali com aquelas condições de clima.
Ela poderia se abrigar em uma daquelas casas, mas não. Preferiu enfrentar toda a neve em seu rosto e continuou a andar, e sempre que ousava escutar um barulho de sirene policial, apressava o passo, aumentando a velocidade, lutando para correr. Lutando para sobreviver. Sabia que não iria muito longe com aqueles ferimentos, e continuou. Lutar parecia seu o único objetivo, e de fato, era. Às vezes, queria padecer, queria desistir daquilo e se entregar para eles como a traidora que todos diziam ser.
Não! Usaria suas habilidades para fazer o bem, não o contrário. Não iria se entregar, não iria desistir. Apenas... Continuaria com aquela maldita ideia de fugir, e se fosse preciso, fugiria por todo o resto de sua vida. Isso, claro, se sobrevivesse a aquela noite.
Mesmo cansada, mesmo machucada como estava, o porte de “soldado perfeita” continuava ali, intacto. Seus olhos e ouvidos sempre atentos a qualquer resquício de perturbação. Mas ela não conseguiu perceber que estava sendo seguida, e deu-se conta apenas quando os passos de seu perseguidor se tornaram mais fortes.
Automaticamente, seu coração se acelerou, sua respiração logo passou a desregular-se, seu corpo entrou em estado de alerta. Focou a audição nos passos contra a neve, e parou de caminhar no mesmo instante. A garota engatilhou a arma em suas mãos, pronta para atacar qualquer ameaça que fosse, e sua mente se desligou de todo sentimento que conseguisse pensar.
– Natalia –a voz rude de seu perseguidor ecoou em sua cabeça, trazendo-a de volta a realidade. Ela conhecia o dono daquela voz, e sabia muito bem quem estava perseguindo-a.
Ela se sobressaltou, e por mais que tentasse mascarar, não conseguiu. Mais tarde ou mais cedo aquilo aconteceria, sabia disso. Estava feliz em ouvi-lo, estava feliz por ele ter a encontrado. Tão real. Uma ponta de esperança nasceu, talvez aquele pesadelo pudesse terminar de vez.
– Ivan? –mesmo que já soubesse a resposta, a garota perguntou, antes de virar-se na direção daquele homem tão conhecido por ela. Sua feição continuou séria a medida que o observava, analisando cada detalhe no rosto dele. Lutou contra o impulso de sorrir.
Houve um pequeno momento de silêncio.
– Sabe, você costumava me chamar de pai –constatou ele com uma leve risada, mas desta vez, suas palavras saíram em russo, fato que não surpreendeu a garota ruiva.
Natalia mordeu os lábios quase roxos, tentando controlar o frio em seu corpo, enquanto os dois continuavam ali, parados no meio do nada, em meio aos flocos de neve que caiam, encarando atentamente um ao outro.
– Como você me encontrou? –rebateu ela, também em russo, arqueando as sobrancelhas à medida que aproximava-se levemente de Ivan.
Ele sorriu carinhosamente para a ruiva.
– Você sabe. Eu tenho meus métodos, krasnyy tsvetok –a resposta foi rápida e direta, mais uma vez, em russo, e aquela última palavra dita por Ivan fez com que Natalia perdesse o chão.
Krasnyy tsvetok. A flor vermelha. O apelido o qual Ivan havia lhe dado ainda quando pequena, pois segundo ele, Natalia era como uma flor: delicada por fora, mas forte e corajosa por dentro. Destemida. O “vermelha” veio por causa de seus cabelos cor de fogo, e o “flor”, apenas pelos sentimentos puros que ela mantinha. Tão sigiloso. Tão improvável.
– Há anos não escuto este apelido, Ivan. Muita coisa mudou. Tudo mudou –ela deixou tal fato claro, mas o pesar em suas palavras foi percebido de imediato. Sentia-se culpada. Por tudo. Abaixou a cabeça, triste, remoendo todo o inferno que passou em todos aqueles anos.
Ivan já esperava aquela resposta dela, mas não se deixou abater, pelo contrário. A queria de volta, queria salva-la, e faria isso, mesmo se fosse preciso morrer, mas o faria. Por ela. Por sua “flor vermelha”. Pensando nisso, ele sorriu mais uma vez, transmitindo segurança, e aproximou-se mais um pouco de Natalia, ficando a centímetros dela, que permaneceu parada, sem mover um músculo sequer.
– Eu vejo o bem em você, Natalia. Sempre vi –expôs ele, e desta vez a ruiva não conseguiu esconder a leve sombra do sorriso que formou-se em seus lábios. Então, Ivan aproximou uma das mãos do rosto frio dela, e ao acaricia-lo carinhosamente, continuou a dizer: – Não deixem que eles mudem quem você é, Natalia. É a sua essência. Ninguém pode mudar isso, e eu tenho muito orgulho de você. Nunca esqueça.
– Orgulho de mim? –intrigou-se ela, tornando a observar o homem a sua frente. – Eu matei uma pessoa, Ivan. Sou uma assassina. Orgulho é a última coisa que você deveria ter –explicou, as palavras saindo atrapalhadas de sua boca, talvez pelo frio que começava a dominar cada terminação nervosa de seu corpo.
– Não, Natalia. Você não precisa ser uma assassina. Não mais –afirmou Ivan, e por um segundo sequer, ela conseguiu ver nos olhos dele. Estava dizendo a verdade, a mais pura e límpida verdade.
Naquele momento, ambos sentiam que tudo ficaria bem. Pena que aquilo era apenas uma utopia. Uma triste, desgastada e corrompida utopia de um futuro o qual nunca chegaria para Natalia. A pequena esperança que nasceu em seu coração com as palavras ditas por Ivan logo se dissipou, trazendo agora dor. Desespero. Medo.
Tudo aconteceu tão rápido. Um tiro. Um único tiro. Natalia não teve sequer tempo de revidar, muito menos pensar, e agora estava sentada sobre a neve com o corpo dele em seus braços. O sangue de Ivan coloria o rosto dela, coloria seus braços, coloria suas roupas. A visão daquele homem sem vida caído a seus pés destruiu-a completamente. Estava tão chocada que tudo o que conseguia fazer era chorar e gritar.
Apavorada, Natalia chamou por ele, gritou por ele, implorou para que ele voltasse, mas já era tarde demais. Entre as lágrimas, ela correu o olhar ao seu redor em busca do responsável. Em vão, pois não viu absolutamente nada. Sentindo a raiva lhe corroer, a ruiva debruçou-se sobre o corpo ensanguentado de Ivan e ali ficou, chorando de tristeza, chorando de ódio.
– Ele não está morto ainda –um outro homem fez-se presente no lugar, perto dela, entretanto, Natalia não lembra-se de reconhecer voz parecida com aquela, e logo veio a constatação. Fora ele quem atirou. Fora ele quem tirou a vida de Ivan. Mas por que dizer que “ele não está morto ainda”?
A ruiva suspirou pesadamente, engolindo todas as suas lágrimas o mais rápido que conseguiu, pensando em como sairia daquela situação. Com certeza o homem que atirara em Ivan era mais um agente da KGB, e desta vez, Natalia estava sem ter para onde fugir.
– Mas que diabos... Você o matou. Você o matou! –bradou ela quando finalmente se pôs de pé, ficando frente a frente com aquele agente desconhecido.
Mas Natalia assustou-se quando levantou o olhar para o agente e percebeu todas as suas características. Forte, de cabelos escuros e razoavelmente longos, olhos azuis, uma postura rígida e sombria, e claro, aquele braço metálico com aquela estrela vermelha fora o que realmente chamou a atenção da garota. Mesmo depois de tantas missões, nunca havia visto nada igual antes, fato que a deixou ainda mais preocupada.
– Eu já lhe disse. Ele não está morto ainda –afirmou mais uma vez, sem paciência nenhuma, dessa vez em russo, e ela não conseguiu esconder todo o espanto em seu rosto.
Natalia franziu a testa, estreitando os olhos na direção dele.
– O que quer de mim? –perguntou, mesmo que a resposta fosse óbvia demais.
– Eles podem salva-lo, e tudo o que você precisa fazer é cooperar. Reafirme sua lealdade a KGB, e Ivan poderá viver por muitos anos –explicou mecanicamente, sério, sem emoção nenhuma, e Natalia mais uma vez achou aquilo estranho demais.
– E porque eu deveria confiar em você? –insistiu ela, não sabendo ao certo o que aquilo lhe custaria.
– Nunca disse que deveria –rebateu ele quase no mesmo instante, deixando-a ainda mais confusa. Encurralada. Sem escolhas. Presa no próprio destino.
Ela observou o corpo inerte de Ivan, caído sobre a neve, sangrando, desacordado. Passou longos e demorados minutos pensando consigo mesma, repassando todas as alternativas que teria. Não queria perde-lo, isso já era claro, e se a KGB realmente podia salvar Ivan, porque não tentar. Qualquer consequência valeria o fato de tê-lo vivo novamente. E pensando exatamente nisso, Natalia tomou a decisão.
– Vejo que não tenho muita escolha, então... O que preciso fazer? –perguntou ela depois de soltar a respiração de uma forma raivosa, e o tal agente entendeu aquilo como um “sim”.
O agente observou aquela garota ruiva por um longo tempo, e em seguida, segurou-a fortemente pelo braço, puxando-a para longe do corpo de Ivan sem nenhuma delicadeza à medida que respondia:
– Bem vinda ao seu inferno pessoal, Natalia Alianova Romanova.
Natalia sentiu um frio percorrer cada terminação nervosa do seu corpo, enquanto seu estômago embrulhava-se, sua cabeça parecia que iria explodir a qualquer minuto. Mesmo assim, ela não reagiu e simplesmente deixou-se ser levada por aquele desconhecido, indo em direção ao território inimigo, deixando Ivan para trás, abandonado sua única chance de fugir, abandonando a sua primeira e única chance de uma nova vida. Nunca mais.
Enquanto sentia-se sendo puxada por ele em meio a toda aquela maldita neve, os mais sombrios e obscuros pensamentos passavam pela cabeça da garota. Queria chorar, queria gritar o quanto pudesse, queria lutar contra aquilo. Mas não podia. Simplesmente não podia. Ela fora criada para obedecer ordens, para apagar de seu corpo qualquer traço de emoção sequer, para nunca se rebelar.
O que viria pela frente? Não tinha ideia. Era a mudança do século chegando. Era o programa Viúva Negra sendo iniciado. E agora não havia mais como voltar atrás. Precisaria enfrentar tudo o que viria pela frente. Gostando ou não, era sua vida agora. Sem escapatória.
“It's not so wise, if you try to run
It's not so wise, you know I've won”
[…]
Agora
As horas se arrastaram, lentamente, como uma verdadeira tortura psicológica, e ela não conseguiu resistir ao impulso de puxar a manga do casaco que vestia e deixar seu olhar cair sobre o pequeno e delicado relógio em seu pulso, acompanhando o movimento dos ponteiros em um claro sinal de tédio. Soltou um suspiro melancólico ao mesmo tempo em que revirava os olhos mais uma vez, esgotada daquela monotonia mórbida em que se encontrava.
Parecia um animal enjaulado, pronta para explodir no mesmo instante que fosse solta, o que não viria a acontecer tão cedo. Já estava cansada de esperar ali, naquela sala de paredes neutras e decoração rústica, sempre sentindo-se confrontada pela presença dos dois homens que a vigiavam constantemente. Sem interesse algum, ora ou outra deixava seus olhos observarem a enorme janela que lhe dava uma vista privilegiada da cidade, quase dando a acreditar que aquele prédio era apenas mais um centro empresarial. Tudo fachada, é claro.
A agente passou a tamborilar as pontas dos dedos no tampo de vidro da mesa, uma agonia a dominando pouco a pouco, e tal apreensão tinha motivo. Afinal, ela tinha quase certeza de que havia sido descoberta, ou pelo menos, desconfiava disso. Seu disfarce estava preso por um fio, e a qualquer frase descuidada, despencaria de vez, levando-a junto para o inferno que a HIDRA transformaria sua vida. Não podia falhar com aquela missão, não de novo.
– Vejo que ainda está aqui –a voz fria e mórbida fez-se presente no ambiente, despertando subitamente a agente, que levantou-se da cadeira em sobressalto, observando Daniel Whitehall com uma obediência fingida. – Agente 33, diga-me, o que conseguiu? –perguntou sem rodeios ao sentar-se em uma cadeira na ponta da mesa, indicando para que a jovem fizesse o mesmo.
– Confirmação visual do agente Ward, senhor –ela mostrou-se direta, respondendo aquilo com uma tranquilidade mais que necessária. Engoliu em seco ao sentir o olhar de Whitehall sobre si, mas mantendo-se firme, continuou sua breve explicação: – O garoto possui o vírus circulando em seu corpo, e está se desenvolvendo mais rápido do que imaginamos. Diferentemente da irmã, que até agora não mostrou nenhum sinal do Extremis.
– É uma pena. Seria ótimo ter os dois conosco, não acha? –ele sorriu amargamente, e a agente, que agora o encarava com certa ansiedade, apenas concordou com a cabeça, sorrindo tímida. – Mas então, o garoto, podemos usá-lo? –tal pergunta deixou a jovem enjoada, não querendo pensar no que fariam se colocassem as mãos nele.
– Sem dúvidas, senhor –garantiu ela, lutando contra o suor que esbanjava de suas mãos, obrigando-a a enxuga-las constantemente em seu uniforme escuro e calorento.
– E a garota? Stella Romanoff parece ter algumas qualidades que podem ser aproveitadas –insinuou Whitehall, e a agente pôde jurar sentir um arrepio percorrer sua coluna. No fundo, sabia que logo não teria como escapar de responder tal pergunta. Só imaginava qual seria sua desculpa desta vez.
– Não acho aconselhável utiliza-la, Dr. Whitehall –rebateu formalmente, temendo parecer instável diante daquilo. Daniel pareceu surpreso com as palavras dela, arqueando as sobrancelhas em sua direção, incentivando-a a continuar. E foi o que ela fez, não hesitou. – Ela é muito bem protegida, será difícil chegar até a Srta. Romanoff sem uma boa luta. É arriscado demais –a sinceridade era aparente em seu rosto, ela estava dizendo a verdade, a mais pura verdade. Não havia por que contestar. Ou havia?
– Isso não será problema, agente 33. Temos tudo sobre controle, fique tranquila –ele mais uma vez sorriu para a jovem a sua frente, analisando minuciosamente cada trecho de suas feições, procurando por qualquer traço de nervosismo que fosse. – Mas lembre-se, por agora, a prioridade é a captura do Soldado. Depois lidaremos com o resto. Estamos entendidos, Srta Morse? –disse, por fim, ao apoiar as mãos sobre o tampo da mesa, encarando a agente com indiferença.
Silêncio. Barbara Morse hesitou por um milésimo de segundos, não sabendo ao certo como levaria aquele disfarce adiante, não sabendo por quanto tempo mais conseguiria suportar aquelas malditas ordens, sempre usando aquela máscara de submissa à HIDRA. Por mais que aquilo a incomodasse profundamente, precisava manter-se firme, mas talvez não tivesse escolha, ainda tinha aquele sentimento de que havia sido descoberta. Logo, tentando encobrir seus traços de humanidade, a jovem sorriu debochada na direção de Whitehall, engolindo todo o seu nervosismo.
– Perfeitamente, senhor –ela acatou a ordem sem pestanejar, recebendo mais um sorriso como resposta. Então, Whitehall levantou-se da cadeira, caminhando paciente até a saída daquela sala, e ao passar por Barbara, depositou um leve empurrão no ombro da agente. Ela acompanhou os passos do doutor, e ao ver que finalmente estava sozinha no lugar, enfiou uma das mãos no bolso falso de sua calça, retirando um aparelho celular de dentro. Em seguida, levantou-se de seu lugar, e foi de encontro à janela, soltando um suspiro pesado ao aproximar o telefone do rosto. – Coulson? Temos um problema –declarou por fim.
Do outro lado da linha, o diretor da SHIELD parecia já saber qual era o problema em questão. Phil Coulson estava ficando sem opções. Não podia perder uma de suas melhores agentes, isso era um fato. Precisava agir, encontrar uma maneira para Barbara sair dali viva, e consequentemente, acabar de vez com aquele disfarce, trazendo a Harpia de volta ao seu time. Estava na hora de Bobbi Morse trabalhar em equipe, e naquele lugar, só havia uma pessoa em que ela poderia confiar: Jemma Simmons.
“There must be some kind of way out of here
Said the joker to the thief, yeah”
[...]
Torre Stark
A expressão no rosto de Natasha Romanoff era praticamente indecifrável, variando entre raiva, susto, e até mesmo frieza. Seus olhos ora encaravam Steve, ora encaravam Bucky, sempre com uma fúria impermeável em suas orbes verdes. O silêncio e a tensão que pairavam no ambiente eram quase insuportáveis, deixavam tudo ainda mais complicado e difícil de se lidar. Todos ali tentavam buscar palavras para explicar a situação, o que parecia ser impossível.
– Parece que muita coisa aconteceu enquanto eu estava fora –afirmou a Viúva Negra, finalmente cortando o desgastante silêncio que tanto a incomodava. Havia um claro tom de rancor em sua voz, e ainda querendo entender o porquê de tudo aquilo, a ruiva mais uma vez apontou o dedo na direção de Bucky, ao mesmo tempo em que ficava frente a frente com Steve, ela tornou a perguntar: – Por que ele está aqui, Steve? Por quê?!
Bucky e Stella trocaram olhares nervosos, ainda tentando entender o que fariam diante daquela situação. Logo, pensando nisso e querendo transmitir certa confiança, a garota lançou lhe um sorriso pequeno, apertando um pouco mais a mão do Soldado contra a sua, não importando se Natasha reprovasse aquela aproximação, e para sua surpresa, ele não recuou, e não estranhou tamanha proximidade. Não hesitou. Seu coração disparou imediatamente.
– Natasha, não é tão simples assim. Você precisa se acalmar para que nós possamos conversar, por favor –explicou o Capitão, olhando firmemente nos olhos da ruiva à sua frente. Mas Natasha permaneceu séria, e percebendo isso, Steve segurou as duas mãos dela e tentou articular: – Confie em mim, ok? Eu sei o que estou fazendo, Nat. Só preciso que você confie em mim nessa.
A Viúva não conseguiu conter uma risada irônica diante daquelas palavras. Tony revirou os olhos com a ação da ruiva, sem disfarçar sua total impaciência com o rumo que aquela conversa estava levando. Clint e Bruce, por sua vez, permaneciam quietos, trocando olhares cúmplices de vez em quando, não ousando se meterem naquela conversa. Apenas quando fosse necessário, talvez.
– Claro, e você quer conversar sobre o fato de você trazer um assassino para o lado aliado? Uma decisão muito sensata, com certeza –rebateu com acidez, deixando claro seu desconforto. Mas ao perceber que o Capitão ainda a encarava, Natasha afastou suas mãos das dele, esclarecendo: – Eu confio em você, Steve. Sempre confiei. –E em seguida, ao novamente encarar Bucky com certa indiferença, assumiu com todas as letras: – É nele que eu não confio!
– O que você quer que eu diga?! Desculpa por ter tentado te matar? –pronunciou-se Bucky depois de certo tempo em silêncio, notando o constante olhar de Natasha sobre si. Logo, ao ser invadido por uma raiva que começava a domina-lo, o Soldado automaticamente soltou a mão de Stella em um gesto abrupto, franziu o cenho e afirmou com segurança: – Sinto muito, mas tenho certeza que isso não melhoraria em nada essa situação.
– Tem razão. Nada do que você vá falar mudará minha opinião –redarguiu ela, iniciando uma lenta e compassada caminhada na direção do Soldado. – Nada vai mudar o fato de que você é um assassino, Barnes –aquelas palavras saíram afiadas, e Natasha não importou-se em controlar seu tom de voz ao parar de frente para Bucky e insinuar: – E eu tenho quase certeza que você até gostava daquilo. De ser a marionete da HIDRA. Da sensação de matar todas aquelas pessoas. Você gostava, claro que gostava.
Clint fechou os olhos diante das palavras ditas pela Viúva Negra, desaprovando tal ação, enquanto Tony e Bruce se entreolharam completamente surpresos. Já Stella e Steve, encararam Natasha com um susto, não imaginando que ela fosse capaz de afirmar isso. A garota não esperava que sua própria mãe fosse capaz de pensar aquelas atrocidades sobre Bucky. Mas por quê? Afinal, por que Natasha Romanoff o odiava tanto a esse ponto?
– Você não sabe disso –protestou Bucky, explodindo em um verdadeiro ataque de raiva, encarando Natasha enfurecido, não admitindo que ela dissesse aquela mentira sobre ele. O Soldado então deu um passo à frente e segurou a ruiva firmemente pelo braço ao reafirmar convicto: – Você não sabe nada disso!
Steve suspirou profundamente, lançando um olhar nada amigável na direção de Clint, que simplesmente assentiu com um meneio de cabeça. Tony e Bruce levantaram-se do sofá com um impulso, temendo que um confronto maior acontecesse entre os dois, um confronto o qual com certeza iria acontecer se aquela discussão sem fundamentos continuasse. Havia um impasse entre o Soldado Invernal e a Viúva Negra, e cedo ou tarde, seria preciso superar as indiferenças. Mas a pergunta que circulava a mente de todos ali era: seria possível superar?
– Será que eu não sei mesmo? Ou será que essa é a parte de você que se nega a acreditar nisso? A acreditar que existe um lado mais sombrio do que imagina! –vociferou a ruiva, mantendo-se firme a todo custo, praticamente ignorando o fato de Bucky estar segurando-a pela braço.
– Cala essa boca, Natasha! –bradou ele, mais furioso ainda diante de todas aquelas insinuações e mentiras a seu respeito, deixando-o ainda mais confuso, apagando de sua mente qualquer resquício de esperança, acabando com sua chance de redenção. Talvez porque agora ele conseguia enxergar. Bucky Barnes nunca poderia livrar-se dele. Da fama amaldiçoada do Soldado Invernal. O monstro que lhe dominou, sempre preso dentro de si próprio.
A tensão apenas aumentou, e percebendo que aquela conversa não daria em lugar nenhum, Stella pareceu cair em si, tomando a importante decisão de parar tudo aquilo. Já estava cansada do que escutava, cansada de todas aquelas ameaças veladas, cansada do nervosismo que abrigava seu corpo. Logo, a garota virou-se na direção do pai, e o Capitão nada disse, tudo o que conseguiu fazer foi desviar o rosto em total desaprovação. Ela pôde jurar conseguir ver certa mágoa no olhar de Steve, sem aquela calmaria de horas atrás. Completamente diferente.
– Chega! Já chega! –anunciou Stella, interrompendo aquela discussão antes que Bucky e Natasha dessem continuidade com a troca de farpas entre ambos. Um silêncio voltou a se fazer presente no ambiente ao mesmo instante em que todos os olhares voltaram-se para a garota, que não hesitou em dar continuidade à sua linha de raciocínio. Pensando nisso, Stella aproximou-se cautelosamente e colocou-se na frente do Soldado, e ao encarar a mãe com infelicidade, ela prosseguiu: – Mãe, você não tem o direito de falar assim com ele. O Bucky foi uma vítima da HIDRA, tanto quanto você foi uma vítima da KGB. Pelo amor de Deus, ele não é vilão aqui! Pare de se crucificar, ele não tem culpa do que o fizeram! Quando você vai perceber isso?
Stella encarou a mãe por um bom tempo, quase a ponto de chorar, não se importando com o fato de Steve parecer surpreso diante da reação da filha. Aquelas palavras pareceram ter mexido profundamente com o psicológico de Natasha, que também observou a garota por longos segundos enquanto dava alguns passos para trás, não esperando que Stella fosse defende-lo daquele jeito, abandonando seus princípios, suas morais.
– Parece que ele conseguiu mesmo mexer com a sua cabeça, não é Stella? –supôs a Viúva Negra, arqueando uma sobrancelha na direção da garota enquanto cruzava os braços de uma maneira impaciente.
– E o que isso deveria significar, mãe? –perguntou Stella, ainda sustentando o olhar sentido na direção de Natasha.
– Cuidado com o que está fazendo. Você pode não saber onde está se metendo –afirmou Natasha, a voz sempre carregada em fúria, desviando o rosto na direção da garota e passando a encarar Bucky ao avisar: – Eu só vou te dizer uma vez, Barnes. Fica longe da minha filha.
O Soldado também desviou o rosto no mesmo instante em que Romanoff passou por seu lado, caminhando a passos largos em direção à saída, ignorando todos os pedidos de Clint e Steve para que ela mantivesse a calma. Stella revirou os olhos diante daquilo. Talvez sua mãe apenas precisasse de um tempo para esfriar a cabeça, e não conseguiria fazer isso permanecendo na Torre. Ela sabia disso, ela entendia isso.
– Eu vou atrás dela –avisou Steve, deixando escapar um suspiro pesado antes de fitar Stella e o amigo por alguns segundos e começar então a seguir os passos de Natasha, com uma aparente angústia em seus olhos. Bucky apenas balançou a cabeça em um gesto positivo, afirmando silenciosamente que ficaria bem. De fato, ele ficaria. Ele sempre ficaria.
Silêncio mais uma vez. Clint encarou os companheiros. Tony abaixou a cabeça em um claro sinal de desânimo, enquanto Bruce mais uma vez apoiava as costas no encosto do sofá. Stella soltou a respiração de uma maneira exasperada, levando as mãos à cabeça, quase beirando a entrar em colapso, sem saber exatamente o que raciocinar ou fazer dali em diante. Mas teria tempo para pensar nisso depois, pois tudo o que a garota desejava naquele momento era dormir um pouco, descansar sua mente e seu corpo, desligar-se do mundo, e até mesmo desabafar com alguém que pudesse a escutar.
– Eu sinto muito, Stella –admitiu Bucky, referindo-se a toda a confusão que havia causado em tão pouco tempo. A voz dele praticamente a despertou, tão tranquila que até mesmo ela estranhou tal fato. Ele parecia mais calmo, mais convicto. Talvez só parecia. Uma certa raiva ainda o consumia por dentro.
– Não sinta, Bucky. A culpa não é sua –respondeu a garota ao virar-se na direção do Soldado e lhe dedicar um mínimo sorriso, transmitindo uma esperança fingida, afinal, por dentro, não sabia explicar exatamente o que se passava em sua cabeça. Em seguida, Stella virou-se na direção de Barton, que a observava atento, e anunciou: – Eu vou tomar um banho, preciso dormir um pouco. Clint, me avisa quando a minha mãe e o Steve voltarem.
– Pode deixar, pirralha –assentiu o Gavião, ciente do que estava prestes a enfrentar, e diante daquela confirmação, Stella não esperou mais nenhum segundo sequer para seguir em direção ao seu quarto, esperando que talvez Louis ainda estivesse acordada. Era disso que ela precisava agora. De um bom banho, um descanso, e uma boa conversa.
Bucky a observou, acompanhando seus passos por um bom tempo até perde-la de vista. Sentia uma culpa irracional o invadir, e ele não conseguia explicar, apenas preocupava-se com ela. Ao deixá-los para trás, Stella subiu as escadas com certa rapidez, virou em um corredor, pronta para continuar sua caminhada até o seu quarto e o de Louis, mas algo a impediu de continuar. A visão de Logan vindo em sua direção fez a garota automaticamente parar, seu coração passou a bater mais depressa e sua respiração logo tornou-se desregulada.
– Stella. Acho que nós precisamos conversar –indagou o garoto ao parar frente a frente com a namorada, o olhar claramente perdido. Ela assentiu quase no mesmo instante, preparando-se para a cansativa e definitiva conversa que teria a seguir. A hora havia chegado, seu descanso teria que esperar.
“We had hope
And now it's broken”
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