Natal
1 Capítulo único
Notas iniciais
24 de dezembro, 23h 55min
Silêncio. O vento assobiava por entre as frestas da casa e algumas árvores farfalhavam do lado de fora. Ela ouvia tudo isso. Era tarde, estava escuro e ela estava deitada de olhos fechados, mas perfeitamente consciente. Esperando.
24 de dezembro, 23h 58min
Resolveu abrir os olhos, apenas por alguns momentos. Sem se mover um centímetro da posição em que se encontrava, percorreu o quarto com os olhos.
Não havia muito para ver ali. Apenas sua cama, um tapete circular, uma pequena estante de livros e um quadro abstrato pendurado na parede atrás da cama. Direcionou a visão para a janela de vidro fechada.
Parara de nevar. Ainda havia uma camada de neve no parapeito, é claro, mas os flocos não caíam mais, deixando lugar para uma noite limpa e estrelada.
Aquilo era perfeito. Fechou os olhos.
25 de dezembro, 00h 00min
Passos.
Abriu os olhos no exato momento em que o som do primeiro passo chegou a seus ouvidos. Vinha do andar de baixo e, fosse quem ou o que fosse, não parecia fazer questão de fazer silêncio.
Levantou-se e andou até a porta, tentando manter-se sutil. Não era fácil; Algumas tábuas rangiam, e a porta mais ainda. Esperando que aquilo não o espantasse, abriu a porta o suficiente para que seu corpo pudesse se espremer pela abertura.
Enquanto descia as escadas, ouviu outro som. Os passos haviam cessado há alguns segundos, mas este novo som, que era bem mais baixo, só pôde ser ouvido com a porta aberta. Era difícil definir o som.
Chegando ao andar de baixo, não deu mais nenhum passo. Ficou parada ali, encarando a figura a sua frente.
Era um homem, ela tinha certeza, embora estivesse de costas. Estava de cócoras, diante do pinheiro enfeitado com dezenas de bolinhas coloridas. E era grande – embora não estivesse de pé, a pequena calculou que ele devia ter uns dois metros de altura e um e meio de diâmetro. Isso, junto com suas roupas, não deixava dúvidas.
Ele estava vestido inteiramente de vermelho e branco. Um casaco vermelho com bordas de peles brancas e uma calça no mesmo estilo. Seus cabelos eram grisalhos e iam até os ombros, e sobre sua cabeça, estava um gorro vermelho com uma bolinha branca felpuda na ponta.
Era ele mesmo, concluiu a garota. Exatamente quem ela estava esperando. Para ter certeza, olhou para um canto da sala próximo à janela – Ali havia um enorme saco vermelho aberto e, dentro dele, dezenas, talvez centenas de caixas lindamente embrulhadas e amarradas com fitas.
Sim. Tudo indicava que era ele mesmo. Ainda assim... Não, não podia ser. Ela tentou ignorar a sensação, mas era impossível. Ela não sabia o quê, mas mesmo se fosse realmente ele, ela sentia que alguma coisa estava errada.
O som que ouvira nas escadas ficara mais alto. Percebeu então que era a respiração dele. Mas era um som estranho... Era alto e rasgado demais para uma respiração normal. Parecia um... Rosnado?
25 de dezembro, 00h 01min
A enorme figura ergueu-se. Sua cabeça quase atingiu o teto ao fazê-lo. Andou pesadamente até a enorme sacola, ergueu-a com facilidade e saiu pela janela. Em nenhum momento a menina pôde ver o rosto dele.
Ela continuou parada no mesmo lugar, esperando o ruído de sua respiração e de seus passos na neve desaparecerem. No momento em que ele pareceu ter entrado na casa ao lado, ela foi até o pinheiro, sob o qual havia três caixas como as do saco. Abriu a primeira que viu.
Ao fazê-lo, seus olhos se arregalaram. Piscou com força, mas seus olhos não a enganavam. Ela não gritou ou correu, nem ao menos tremia. Só estava com os olhos arregalados, como se assistisse a um filme de terror com enredo ruim, mas efeitos bem feitos. Pegou com as duas mãos e ergueu até a altura dos olhos.
Ali, dentro da caixa e agora nas mãos da pequena, estava a cabeça decepada de um homem.
Não parecia ter sido arrancada há muito tempo. O sangue ainda pingava fresco do que outrora fora o pescoço para a caixa, formando uma pequena poça em seu interior.
E ela tinha certeza de já ter visto aquele rosto antes. Aqueles cabelos negros e curtos, aqueles olhos castanhos arregalados de terror, aquela boca aberta e contorcida. Ela conhecia aquele homem.
Guardou de volta na caixa e abriu outra. Outra cabeça, dessa vez de uma mulher. Outro rosto conhecido. Cabelos castanhos e longos, olhos azuis tão apavorados quanto os do homem, assim como sua boca.
Guardando novamente a cabeça na caixa, pegou a última. Esta era bem mais leve que as anteriores. Abriu-a sem demora.
Não era um rosto conhecido. Não era sequer um rosto. Era uma faca, muito grande, pontuda e suja de sangue. Pegou-a pelo cabo e a examinou, embora não houvesse o que examinar ali.
Então ela se lembrou. Rapidamente, mas sem correr, subiu as escadas e entrou no quarto ao lado do seu, para confirmar suas suspeitas.
25 de dezembro, 00h 02min
Ela estava certa. Seus pais ainda estavam lá, apenas do pescoço para baixo. Os lençóis e travesseiros da cama estavam muito sujos de sangue.
Ela não estava com medo. Não tremia, não ofegava, seus batimentos estavam normais. Em sua mente, não havia pena, ou tristeza, ou desejo de vingança. Havia apenas uma pergunta.
Por quê?
Seus pensamentos – ou, melhor dizendo, seu pensamento – foi interrompido por um barulho alto de algo pesado sendo derrubado no chão. Olhou pela janela do quarto dos pais. Parecia que algo estava acontecendo na casa ao lado, visto que as luzes foram acesas e os sons continuavam. Não demorou muito para ela decidir verificar.
18 de dezembro, 16h 15min
Ela acabara de voltar para casa, e trancou-se no quarto sem demora. Discutira novamente com aquele garoto. Um de seus vizinhos, poucos anos mais velho, e completamente cético.
Ela não gostava dele. Tampouco o odiava. Também não estava irritada com o fato de ele não concordar com ela, sobre a existência daquele homem. Ainda assim, sentia-se motivada a convencê-lo do contrário. O único problema era como.
25 de dezembro, 00h 03min
Estava bastante frio ali do lado de fora, mas ela, apenas de camisola, não parecia dar a mínima. Estava de frente à casa de onde vinham os barulhos. Estes, a essa altura, já haviam cessado.
Ela conhecia as pessoas que moravam ali. Não estava particularmente preocupada com a segurança de ninguém. Fora até lá movida mais pela curiosidade do que por qualquer outro fator.
Abriu a porta, não se surpreendendo muito com o fato de estar destrancada.
O interior da casa parecia ter sido arrasado por um rinoceronte furioso. O pinheiro e outros enfeites coloridos estavam jogados e espalhados pelo chão. O sofá estava rasgado e virado. E, deitado no meio de tudo isso, estava um garoto.
O mesmo garoto descrente que discutira com ela uma semana atrás. Ele estava, agora, deitado em cima de uma poça de sangue.
Aproximou-se dele, tomando o cuidado de não pisar no líquido vermelho, e olhou-o. O horror em seu rosto, assim como nos dos pais dela, era quase contagiante. Menos para ela. Não lamentando ou comemorando a morte dele, continuou encarando-o indiferente.
Aquilo era muito estranho, ela pensava. E subitamente notou que a figura de vermelho não estava ali. Imediatamente olhou em volta, não demorando a localizar mais caixas embrulhadas, estas já abertas. Duas. Andou até elas.
A princípio, pensou que uma delas estava vazia. Mas então localizou a cabeça atrás da caixa.
Não perdeu muito tempo olhando para a cabeça da mãe dele. Olhou o interior da segunda caixa, e havia outra faca, idêntica à que ela encontrara e ainda segurava.
20 de dezembro, 20h37min
Ela estava na biblioteca, cabisbaixa. Por mais que ela desejasse que ele viesse este ano, no fundo não tinha certeza. Não ligava muito para a chegada dele em si; No momento, o mais importante era provar que ela não estava errada.
Mas ela não sabia se conseguiria.
Espere aí... Ela folheou o livro algumas páginas para trás. Após alguns segundos de afobação, achou a página que lhe chamou a atenção.
25 de dezembro, 00h 05 min
Saiu da casa, ainda segurando a faca, e olhou para os lados em busca de qualquer sinal dele. Não obteve sucesso, mas viu algo diferente: Três crianças haviam deixado suas casas.
Os quatro se aproximaram, formando um círculo. Cada um tinha uma expressão diferente.
Um garotinho, o mais novo do grupo, estava chorando. Não abrindo o berreiro, apenas fungando e lacrimejando. Provavelmente pelos seus pais.
A menina, que devia ter a mesma idade da nossa, estava com medo. Seus olhos estavam arregalados e se moviam rapidamente para todos os lados. Sua tremedeira poderia ser de medo ou de frio. Provavelmente os dois.
O outro menino, da mesma idade que as duas, parecia furioso. Seus punhos estavam cerrados com força, sua testa franzida e respirava profundamente. Parecia tentar controlar a raiva.
Todos os quatro se encararam, sem dizer uma palavra. A menina que acompanhamos até agora era a única calma, mas não deu a mínima demonstração de se preocupar com seus vizinhos.
Por fim, ela decidiu ir para outra casa, sendo imediatamente seguida pelos dois meninos. A menina apavorada hesitou durante longos cinco segundos, mas logo tratou de alcançá-los.
24 de dezembro, 00h 00min
Estava tudo pronto. O círculo feito com pimenta no chão do quarto, a tigela no centro, as duas velas acesas sobre a circunferência, o mais distantes possível uma da outra. E, obviamente, a porta e janelas trancadas. Seus pais nunca a deixariam fazer aquilo.
Ela esperava que funcionasse. Era sua única esperança. Pegou o hamster que estava guardado em seu bolso, colocou-o no centro da tigela. Então jogou um pouco de álcool em cima dele. O roedor sacudiu-se para se enxugar, mas não se agitou muito.
Então, ela se concentrou no pensamento. No desejo de que ele viesse. Então, pegou um palito de fósforo em seu outro bolso, acendeu-o com a ajuda de uma das velas e jogou-o em cima do hamster.
O animal guinchou de dor. Começou a correr pela tigela, mas suas paredes eram altas e lisas demais para escapar. Ela ficou ali, parada, apreciando o pequeno morrer aos poucos, seus guinchos cada vez mais agonizantes. Não ligava para o sofrimento dele. Pelo contrário, aquilo garantiria o seu desejo.
Assim, naquele dia, ela fez algo que raramente fazia. Sorriu.
25 de dezembro, 00h 07min
No momento em que ela abriu a porta, ela ouviu novamente a respiração carregada que ouvira em sua própria casa. Entrou, seguida pelas três crianças, e ligou o interruptor.
O homem de vermelho estava agachado em frente ao pinheiro, da mesma forma que estava na casa dela. Não pareceu ter notado ou dado importância à súbita iluminação.
Ao vê-lo, a menina apavorada gemeu e agarrou por trás a camisola da líder do grupo, assim como o menino chorão. O menino dos punhos fechados grunhiu. A menina restante permaneceu impassível.
Logo, a enorme figura ergueu-se e encaminhou-se para a enorme sacola. A menina olhou para a faca ensangüentada em sua mão, olhando logo depois para ele. Não demorou muito para agir; Antes que ele pudesse alcançar a janela, atirou a faca em suas costas.
O som que ele emitiu ao receber o golpe foi horrível. Aquele som – Aquele rugido – Com certeza não era humano. Ao ouvi-lo, as três crianças deram um passo para trás, sobressaltadas. Ela não se moveu um centímetro.
Ele, então, virou-se para eles rapidamente. Rugiu com ferocidade e então se virou, saindo pela janela.
Durou um segundo, mas a breve vista que tiveram do rosto dele não agradou a nenhum dos quatro.
Ela queria ter certeza do que vira. Imediatamente empurrou seus seguidores para os lados, a fim de abrir espaço, e correu para o lado de fora da casa. Saíra a tempo de vê-lo caminhando pela neve.
Correu o mais depressa que pôde até ele, então se posicionou em sua frente. Naquele momento, ela teve uma visão clara daquele rosto apodrecido. Daqueles olhos vermelhos incandescentes. Daquele buraco onde deveria haver um nariz. Daquela bocarra circular e sem lábios, com várias fileiras de dentes grandes e afiados.
Não era ele. Seu desejo não fora realizado.
Ele – aquilo – rugiu novamente para ela. Simultaneamente, as outras três crianças corriam até lá. No momento em que os ouviu, aquilo se virou para eles e rugiu.
A menina e o menino mais novo gritaram. O menino mais velho correu em sua direção, mas foi lançado para trás daquilo, indo pousar ao lado da menina em silêncio. Esta correu até aquilo e puxou a faca de suas costas, enfiando-a de novo e de novo, obtendo um urro desumano a cada estocada. Até que tombou de frente.
Os quatro se aproximaram, o menino mais novo agarrado com força à menina ao seu lado, que o abraçava de volta apesar de todo o seu medo. Todos olhavam fixamente para aquilo.
A faca jazia ao lado dele. No momento em que o menino pegou a faca, aquilo olhou para cima e grunhiu de dor. O menino fez menção de acertá-lo com a faca, mas parou no ato. Olhou para a menina que até então liderara o grupo e entregou-lhe a lâmina.
Ela o encarou. Ele estava visivelmente chateado, mas parecia resignado ao oferecer-lhe a faca. Olhava-a nos olhos, como se dissesse “Vá em frente”.
Aceitou. Segurou a faca e olhou novamente o horrendo rosto daquilo.
Não era ele.
Sem alterar sua expressão, enfiou a lâmina entre os olhos da coisa. Esta deu mais um urro de dor, em seguida tombou a cabeça e silenciou-se.
Agora reinava o silêncio. Os quatro continuavam observando o cadáver, sem dizer absolutamente nada. O menino mais velho parecia mais calmo. O outro menino e a outra menina ainda estavam tremendo nos braços um do outro.
25 de dezembro, 00h 15min
Ela estava de volta em sua cama. Seus vizinhos continuavam reunidos em torno daquilo no momento em que resolvera voltar para casa. Não sabia se continuavam lá. E não se importava.
Ele não viera. Por menos que aquele menino estivesse vivo para saber disso, ela estava enganada. Seu plano falhara.
Fechou os olhos, esperando dormir logo.
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