Nas Sombras do Seu Coração

2 Capítulo 1 — Ela Voou Para Longe


Notas iniciais
De todo coração, obrigada a todos que leram o Prólogo e deixaram seus comentários. Em especial a Soll, que me fez uma incrível fanart do Cole, o personagem que vocês conhecerão nessa capitulo. Estou maravilhada com todo o apoio que recebi. Me divertir muito ouvindo as primeiras impressões que tiveram da minha ruivinha marota. Só digo que ela é mais do que aparenta ser ... Agora um aviso que vale para todos os próximos capítulos. Cada palavra negritada e em azul contém um link que o levarão a uma imagem, música ou ao glossário que fiz para explicar os conceitos fundamentais de Dragon Age para aqueles que desconhecem a mitologia e os personagens cânones. Em caso de dúvida, é só me perguntar nos comentários. Sem mais, apresento-os o segundo protagonista da nossa aventura. Aproveitem a leitura! Nos vemos nas notas finais.

Trilha Sonora Autumn Forest

A Floresta Verdejante, com suas árvores de troncos largos e estradas de terra batida ligando Serault às outras cidades de Orlais, oferecia pouco perigo e recebia os viajantes com uma brisa gentil. Mas, além dos seus limites, onde a luz do dia se recusava a tocar, lendas contavam ser o refúgio de criaturas horrendas e de espíritos maliciosos.

O sol na parte mais profunda da floresta era apenas uma sombra de si mesmo. Poucos eram os raios de luz que conseguiam atravessar as copas das árvores e tocar as folhas secas espalhadas no chão. A sensação da grama macia debaixo das botas era boa, e o cheiro de terra molhada agradava a Cole, que caminhava um tanto disperso, admirando os tons de vermelho e dourado que embelezavam aquela parte quase inexplorada da floresta.

Durante o caminho, o garoto colhia os cogumelos maiores, brancos e marrons, que brotavam nas rachaduras nas cascas nas árvores. Era impressionante ver a natureza em ação. Vida nascendo dentro de outra vida, coexistindo em harmonia.

O branco é de comer”, ainda eram recentes em sua memória as lições de como escolher cogumelos que Ilyria o dera em uma das suas viagens pelas Terras Distantes, “Os marrons são para dor. Evitar os vermelhos, eles são venenosos, podem matar”.

Alguns passos à frente, O Touro de Ferro e seus Bravos arrancavam os galhos que obstruíam a passagem. Magrela e Dalishiana espreitavam os arredores, atentas a qualquer animal selvagem que tentasse atacá-los. Krem, o segundo no comando, estava ao lado do seu chefe, enquanto o Touro de Ferro quebrava os galhos com as próprias mãos.

O Touro foi o primeiro qunari que Cole conheceu pessoalmente. Ele era um homem corpulento, com quase três metros de altura, pele acinzentada e chifres curvados para cima. O seu tapa-olho de ferro dava-lhe uma impressão ainda mais intimidadora.

O qunari foi um dos poucos que o acolhera e fora simpático com ele desde o primeiro dia que entrou para a Inquisição, uma reação no mínimo inesperada. Não era segredo que se havia algo que o Touro de Ferro temia eram demônios e espíritos. Ainda assim, ele tratava o Cole como um garoto normal e tentava ajudá-lo a se adequar a esse novo mundo, às vezes de modos que Cole ainda não era capaz de entender.

Contente com a sua colheita e pensando como a levaria para a Fortaleza do Céu, Cole caminhava com pressa para alcançar seus amigos quando escutou Dorian praguejar raivosamente. Ele correu o mais rápido que pôde, derrubando a maioria dos cogumelos que estavam em suas mãos, por mais que tentasse mantê-los firmes contra o peito. Chegando onde seus companheiros estavam, viu o exato momento em que o Touro de Ferro retirou com seus enormes braços o mago atolado até os joelhos em um lamaçal.

— Minhas botas de veludo recém-chegadas de Orlais, arruinadas. Completamente arruinadas! — Dorian reclamou, furioso, não somente por estar imundo, mas principalmente pelo estrago que a lama fizera em suas botas feitas sob encomenda para combinar com sua túnica de batalha azul-turquesa, que realçava divinamente a sua pele parda e seus olhos castanho-esverdeados.

— A lama também está descontente de ser pisoteada, Dorian. — comentou Cole. A floresta estava descontente em ter seus ramos rompidos, seu solo profanado por desconhecidos que não respeitavam os seus domínios. As árvores deixavam claro para Cole que não eram bem-vindos ali, murmurando ameaças em seus ouvidos a cada passo que davam.

Mais cedo, tinha pedido educadamente aos espíritos da floresta para que abrissem caminho para ele e seus amigos, mas na quarta ou quinta tentativa, o Touro deu-lhe um tapinha amistoso nas costas e disse que não estava adiantando muito. “Mais ação e menos conversa”, foram as suas palavras. Se pelo menos tivesse tentado mais uma vez, quem sabe a floresta tivesse atendido o seu apelo e Dorian não estaria todo enlameado e com aquela cara que ele sempre fazia quando estava prestes a lançar uma bola de fogo em alguém.

O garoto estava um pouco decepcionado por ter perdido os cogumelos, embora aliviado por nada de grave ter acontecido com Dorian. “Ilyria gosta de cogumelos. Espero que esses sejam o bastante para fazê-la sorrir.”, pensou ao guardar os poucos que restaram em um dos bolsos vazios da sua armadura de couro reforçado.

— Você está bem? — perguntou Cole a Dorian com interesse sincero quando o grupo continuou a caminhada — Posso te ajudar?

— Estou sujo, fedendo a lama e destruindo as minhas botas novas em uma maldita floresta. Eu pareço estar bem? — respondeu Dorian, percebendo ao se ouvir como havia sido desnecessariamente rude com o rapaz, que como sempre, só estava tentando ajudar.

— Hoje não está sendo um bom dia para mim, Cole. Me desculpe. — disse o tevinterano um pouco mais calmo, tentando não ser uma companhia totalmente desagradável. — Vamos pensar pelo lado positivo, hm? Ao menos meu cabelo está intacto e eu continuo lindo.

“Mas respondendo a sua pergunta; sim, eu estou bem, se por bem você quer dizer não ter ferimentos. E, bem ... se você realmente quer me ajudar poderia me lembrar do por que estamos indo para Tirashan? Meu bom senso está me fazendo essa pergunta desde que estramos nessa floresta e ainda não arrumei uma resposta convincente”.

— Estamos... — começou Cole, sendo interrompido pela voz grossa e empostada do Touro de Ferro:

— Ordens da chefia, não se lembra?

Vagamente. — o mago averiguava a consistência do chão por onde pisava com a ponta do cajado, receoso que pudesse pisar em falso e despencar dentro de outro lamaçal — Recordo-me de mercadores bêbados reclamando uns com os outros por terem suas mercadorias roubadas. E ainda mais revoltados pelo dinheiro desperdiçado com mercenários. Tenho vontade de rir de novo só de lembrar das bochechas vermelhas do Barão de Valliere e de sua narração sobre como a sua guarda pessoal falhou vergonhosamente em deter um único bandido. De resto, recordo somente do delicioso vinho que nos foi servido em nossa recepção de boas-vindas.

As recordações da festança da noite anterior ainda eram memórias fragmentadas que giravam na cabeça de Dorian como os nobres e os mercadores que dançavam no salão principal do Castelo dos Mil-Vitrais, onde o Marquês de Serault recebera a pequena comitiva enviada pela Inquisição como se fossem a solução de todos os seus problemas – ou pelo menos daquele que mais lhe aborrecia no momento.

— Suponho que deva lembrar-se também da língua daquele bardo espalhafatoso em seu... — insinuou o Touro, com a medida certa de provocação para fazer com que Dorian perdesse a paciência do jeito que ele queria.

Não ouse concluir essa calúnia! — Dorian esbravejou com o rosto enrubescido; se de raiva ou constrangimento, era um mistério. — Como você ousa me afrontar com tais insinuações sendo que eu vi você e aquela ruiva indo para um canto escuro do salão de baile? Duvido que foi para avaliar a qualidade do vidro da Guilda dos Vidreiros.

Oh, definitivamente não foi. Mas Dorian, cá entre nós, uma coisa não se compara a outra. A líder da Guilda de Vidreiros era ruiva, e ruivas são, unf, ... ruivas.

— De novo você com esse seu fetiche. Sei que é difícil, mas entenda que uma ruiva é igual a qualquer mulher. São criaturas adoráveis, mas nada de extraordinário.

Irritava Dorian como o Touro colocava as ruivas acima de todos os seres vivos, Cole percebera ao ouvir seus pensamentos, todavia qualquer um chegaria a essa conclusão se atentasse à impaciência da voz do mago e ao modo o qual todo o seu rosto se fechava em uma expressão entre a raiva e o aborrecimento.

Ele se afoga em espelho de águas negras. Inseguranças refletidas no medo de perder a quem tanto se deseja, de se perder em si mesmo na falta daquele que o faz completo”.

Era ciúmes, Cole identificou, o sentimento que afligia Dorian. O mago poderia enganar a si mesmo e a qualquer um, a não ser Cole. O tevinterano era orgulhoso demais para admitir que estava enciumado, mesmo tendo bons motivos. Para o Touro de Ferro ruivas não são iguais as outras mulheres. Não. Elas são o aperfeiçoamento da mulher. Até o modo que ele falava “ruiva” era cheio de admiração, mas o pior para Dorian era aquele sorrisinho ridículo que não saía do rosto do qunari toda vez que as mencionava.

— Diz isso porque nunca foi consumido pelo fogo entre as coxas de uma ruiva. Há algo de selvagem nesse tipo de mulher, algo que pode colocar qualquer homem de quatro.

Elas não se queimam com o próprio fogo?! — Cole perguntou abismado. Teria ouvido direito? Eles estavam falando do mesmo fogo que ele conhecia? O fogo que queimava, ardia e criava bolhas na pele? O fogo que extinguia absolutamente tudo em seu caminho. Não podia ser. Fogo era algo muito perigoso para estar entre as coxas de uma mulher.

O Touro gargalhou, se divertindo com o tom de alarde na inesperada pergunta do rapaz. Ele coçou a barba com um semblante pensativo por uns segundos antes de respondê-lo:

— Em toda minha vivência, nunca vi uma ruiva queimar a si mesma, Cole. Porém, aquele que se rende aos seus encantos tem que estar preparado. Basta um descuido, um olhar, um toque e ela pode te queimar até os ossos. — o Touro olhou para Cole de relance e foi surpreendido pelo espanto em suas feições. Os olhos do garoto estavam saltando do rosto e seus lábios entreabertos, balbuciavam no ar como quisesse falar alguma coisa, mas não conseguisse.

Ei, Cole, não precisa ficar assustado. Vou te dizer uma coisa: uma noite de prazer nos braços de uma bela ruiva faz todo o risco valer à pena! Você descobrirá o que quero dizer quando for a hora. — o Touro deu uma piscadela para o garoto, que não reagiu como esperado. Visivelmente confuso, Cole apenas piscou os olhos repetidas vezes, como se estivesse tendo dificuldade para compreender por completo o que o Touro estava querendo dizer.

Hey, Chefe. — chamou Krem, parando os braços doloridos pela exaustão. Em seu rosto os sinais de que ele havia chegado ao seu limite físico eram nítidos. Ele respirava fundo o ar úmido da floresta, reabastecendo o fôlego, e quando conseguiu a atenção do Touro, continuou mesmo ofegante:

— A conversa está boa, mas aqui, estamos entrando nessa mata desde de manhã. O sol já está a oeste e aqui estamos nós, vagando em uma floresta perigosa sem saber praticamente nada sobre quem estamos procurando.

Tão preocupado com a situação quanto seus soldados – que parados esperavam por instruções –, o Touro cruzou os braços sobre o peito desnudo e repleto de cicatrizes e disse com franqueza:

— O que eu sei e já disse para vocês, é que apesar dos esforços da Guilda de Mercadores, eles não conseguiram identificar ou parar quem está saqueando as caravanas. Os saques começaram há pouco mais de um mês. Os alvos mais recorrentes são coisas corriqueiras: mantimentos, bebidas alcoólicas, tecidos comuns, roupas, bandagens, poções medicinais, panelas e utensílios de cozinha. Curiosamente, nenhuma caravana com produtos de grande valor foi abordada, mas o fato dos saques estarem sendo frequentes faz com que os mercadores evitem as estradas que passam pela Floresta Verdejante rumo à Serault e isso tem prejudicado a economia do vilarejo.

“Todos os mercenários enviados à fronteira da Floresta Verdejante com a Floresta Tirashan, onde se supõem que seja o esconderijo do saqueador, voltaram sem indícios do seu paradeiro ou não voltaram. E é por isso que o Marquês de Serault entrou em contato conosco: para resolver o que ninguém foi capaz”.

— Diga que pelo menos você sabe que tipo de homem ele é. Cor de pele, cabelo, olhos, qualquer coisa. — era Magrela que falava dessa vez. Uma elfa morena e descarnada como um osso roído que trocava olhares apreensivos com Dalishiana, outra elfa, loira e de vallaslin verde, empunhando um arco de madeira estranho com um cristal na ponta.

— Não temos certeza se é homem, muito menos sabemos desse tipo de detalhe. Os mercadores presumem que seja um homem pela sua força, pois consegue carregar duas, às vezes três caixotes de mercadoria para dentro da floresta. Se querem realmente saber o que eu acho: nenhum bandido, seja homem ou mulher, conseguiria saquear uma caravana em movimento e fugir sem ser reconhecido carregando quase cem quilos nas costas ... nos estamos lidando com uma merda muito estranha e perigosa, então estejam alertas.

Pronto para recomeçar o avanço, Krem estalou os braços, e a comando do Touro, com um gesto de mão ordenou que seus colegas pegassem suas armas e voltassem a abrir caminho. Não podiam perder tempo. O sol estava se pondo e precisavam encontrar um bom lugar para acamparem antes do fim do dia.

Perturbado com a aura nefasta daquela região e como se intensificava conforme avançavam para Tirashan, Cole não percebeu uma raiz saltando para fora da terra e tropeçou, agarrando-se às pressas ao tronco da árvore. A vibração do impacto subiu pelo tronco e fez com que uma torrente d’água caísse no topo metálico do seu chapéu, escorresse pelas longas abas e caísse em suas costas. Cole sacudiu o corpo como um cachorro molhado ao sentir a pele se arrepiar e, quando não mais tremia, avistou, à direita de onde estavam indo e mais a fundo na floresta, uma enorme abertura em um paredão de pedra, grande o bastante para ser a entrada de uma caverna.

Ali! Você consegue ver? Ali, perto do carvalho... — Cole parou de repente e segurou Dorian pelo braço no momento em que o mago passava ao seu lado.

Dorian sem entender o que estava acontecendo, percebeu que Cole apontava para o norte, indicando-lhe algo que não conseguia ver. Ele forçou a visão para enxergar através das árvores e do emaranhado de galhos e folhas entre elas e, quando finalmente conseguiu ver o que Cole estava tentando mostrar, suas sobrancelhas se arquearam e exclamou um entusiasmado “Oh! ”, chamando a atenção de todos. Empolgado com a descoberta, Dorian segurou o garoto pelos ombros e o sacudiu em um cumprimento eufórico.

Uma caverna! Nosso garoto encontrou uma caverna! — Dorian comunicou aos outros, que pararam o que estavam fazendo e se aproximaram — Deveríamos dar uma olhada.

— O saqueador pode estar escondido aí dentro. E caso não estiver, podemos acampar aqui essa noite. — disse o Touro, dirigindo-se à caverna com seus Bravos.

— Não é uma boa ideia acamparmos aqui. — avisou o tevinterano, parando no meio do caminho do qunari — Algo está afinando o tecido do Véu. É melhor acamparmos em outro lugar e evitarmos visitas desagradáveis no meio da noite.

— Você está vendo algum demônio por aqui, hm? Eu não vi nenhum. A não ser que aquela moita seja um ou aquela pedra.

— E não vai ver, não até que corte sua garganta! Ou pior: te possua! — insistiu Dorian, batendo o cajado no chão, não contendo mais a sua irritação. — Você é impossível! Por que você nunca ouve meus conselhos, qunari ?!

O Touro bufou para não rir da indignação de Dorian. Ao invés disso, o observou sem pressa de cima a baixo com um sorrisinho torto.

— A cara que você faz quando é contrariado não tem preço, esse é o motivo, vint.

Sem mais nada a acrescentar, já que conseguira deixar o mago tevinterano sem resposta, o Touro seguiu a diante, não sem antes esbarrar em Dorian propositalmente. O mago ficou paralisado, e continuaria ali, parado olhando as folhas caindo das árvores, tornando-se parte da paisagem, se Cole não tivesse esbarrado nele também, nesse caso por ainda estar atordoado depois de ter sua mente e corpo sacudidos e colocados de cabeça para baixo. O assunto já havia se encerrado entre seus colegas, mas não dentro da sua cabeça...

Que tipo de mulher poderia transformar um homem em cinzas? ”, ele se questionava.

Ilyria poderia facilmente, mas não era do fogo que saíam das mãos dela que o Touro estava falando. Era? Pelo o que seu amigo qunari o dissera, parecia que não. Qual fogo seria esse, então? Não poderia dizer se estava curioso ou amedrontado pela possibilidade de existir outro tipo de fogo dentro de uma mulher.

Tentara lembrar-se se conhecia alguma ruiva ou se avistara uma delas pela Fortaleza do Céu. Nenhuma lhe veio em mente. Se tivesse conhecido, ele se esquecera. Apenas agora que se tornara mais humano que passara a lembrar-se das pessoas que cruzavam o seu caminho e das impressões que deixavam. No entanto, mesmo não se lembrando de nenhuma, ele sabia o que distinguia uma ruiva das outras mulheres: os cabelos avermelhados, laranja às vezes. Entenderia se tivessem falado que tinham fogo em suas cabeças, mas entre as coxas? Não. Isso ainda não fazia sentido algum.

Você descobrirá quando for a hora”, o Touro lhe dissera como se fosse uma questão de tempo. Cole não tinha certeza se queria que essa hora chegasse. Ser queimado até os ossos não parecia uma coisa boa de qualquer jeito que fosse.

O que é isso?! — o assombro de Krem retirou Cole dos seus pensamentos.

Pelo Criador, o que será que causou isso? — essa voz era de Remendo, o curandeiro, reconheceu Cole, apressando-se para chegar à caverna, com Dorian o seguindo logo atrás.

— Somente uma pequena explosão poderia ter feito uma coisa dessas. — disse outra voz, tinha quase certeza que era a de Rocky, o anão especialista em explosivos.

Cole se aproximava da caverna, faltavam cinco metros quando uma lufada de vento o acertou como um soco no peito. Um choro angustiante penetrou dolorosamente em seus ouvidos, seguido por um rugido feroz que ele juraria ser de um animal furioso. Seus pés continuaram a andar por conta própria. Uma série de imagens desconexas, sons e vibrações vindas do Imaterial entravam em sua mente, confundindo demais seus sentidos para que conseguisse coordenar seus passos. Um dos braços do Touro o parou, impedindo que ele caísse no declive. O grupo estava ao redor de uma cratera de três metros de largura e um de profundidade na entrada da caverna, e Cole teria caído dentro dela se o Touro não tivesse impedido.

— Independente de quem ou do que criou essa cratera, eu não quero estar aqui quando voltar. — admitiu o qunari, afastando Cole do buraco. O solo parecia instável e poderia ceder a qualquer momento. O que provocara aquilo atingira a terra da mesma maneira que um martelo amaciando um pedaço de carne.

— Finalmente algo que estamos de acordo. — Dorian se posicionou do outro lado de Cole, preocupado com a maneira fixa com que o garoto olhava para dentro da cratera. — Vamos vasculhar logo essa caverna e procurar um lugar longe daqui para acamparmos.

— Mas se o que causou isso estiver dentro da caverna? — questionou Dalishiana.

— É um risco que temos de correr. Viemos aqui para capturar um saqueador, e é o que faremos. — respondeu o Touro, firme e decido em cumprir a missão.

Ligeiro e flexível, Cole passou por debaixo do braço do Touro e ajoelhou-se à beira da cratera. Dentro dela uma mulher em chamas se contorcia na lama, urrando feito um animal ferido. Onde deveria haver um rosto havia somente fogo. Brasas crepitavam no lugar dos olhos, e uma boca incandescente gritava como um predador capturado pela própria armadilha. A ira flamejante da mulher em chamas queimara profundamente no Imaterial. Os momentos de agonia dela naquela cratera passavam como clarões por trás dos seus olhos e saíam direto pela sua boca:

Sangue, lágrimas, desespero. Um corpo pesado como uma montanha, pedaços de um coração quebrado desmoronando como pedras rolantes. Uma mente vazia; leve, perdida, como uma folha carregada pela tempestade. Punhos de porcelana, delicados, rígidos, colidindo contra as pedras; batendo, rachando, quebrando. Sangue escorre das feridas como a cólera que cai dos seus olhos. As mãos dela, ensanguentadas, pele separando-se da carne... vocês não conseguem ouví-la chorar?!

— Ouvir quem, garoto? — o Touro perguntou.

A-a-a mulher em chamas, a-a-a mulher na cr-cratera! — respondeu Cole, trêmulo e agitado. Estava sobrecarregado por aquela emoção violenta que o atingia por todos lados. Lentamente a visão se enfraquecia e a imagem de mulher em chamas se desfez, mas isso não foi o suficiente para tranquilizá-lo, muito pelo contrário, apenas o inquietou ainda mais.

Uhm. Não quero desapontá-lo, Cole, mas se houve uma mulher aí dentro, ela já está a sete palmos debaixo da terra. — disse Dorian. — Ou na melhor e mais improvável das hipóteses, foi embora há muito tempo.

S-sim, sim, ela se foi. — o garoto assentiu, levantando-se do chão — Ela fugiu, como as aves quando ouviram seus gritos. Ela voou para longe, mas para onde? — Lama negra manchava suas mãos e seus joelhos. “Sangue e lágrimas”. Ele observou as mãos, e esfregou o polegar nos outros dedos, sentindo a consistência da lama entre eles.

A Lama é o sangue e as lágrimas”.

Perdida em algum ponto da floresta, uma mulher ferida por dentro e por fora precisava da sua ajuda, mas Cole não conseguia conectar-se a ela através do Imaterial. Rastros estavam por toda parte, em todas as direções, mas ele não conseguia definir a sua origem; ela em si, era apenas uma presença sem paradeiro. Mas iria encontrá-la mesmo que tivesse de procurar sozinho. Cole não sairia da floresta enquanto não a ajudasse.

Ela fugiu? — o Touro repetiu retoricamente — Então a pergunta que deveríamos estar fazendo não é “para onde ela foi”, e sim “do que ela estava fugindo”.

Enquanto investigavam a cratera, uma densa neblina os cercou por todos os lados, espalhando-se sobre eles como um manto de fumaça. Dorian e Cole foram os primeiros a perceber e se entreolharam, compartilhando da mesma certeza: criaturas os observavam de dentro do nevoeiro. O céu crepuscular pairava sobre eles; não havia lua ou sol, somente nuvens escuras, bloqueando a claridade do fim do dia. Uivos demoníacos ecoaram como gritos de horror, colocando o Touro e seus Bravos em alerta. Cole virou-se para floresta e sacou suas adagas, esperando que as criaturas os atacassem a qualquer momento.

Ele não teve que esperar muito. Do ar espesso, materializaram-se sombras lânguidas, com longas garras, afiadas e curvas como foices. As sombras levitavam no ar, ondulando no espaço suspenso enquanto avançavam. Tremores sacudiram o chão e dele eclodiram jatos de lava, que tomavam a forma de espectros de magma extremamente instáveis até se erguerem por completo da terra.

Demônios — o qunari sussurrou entre os dentes. — Ela estava fugindo de demônios.

O Touro de Ferro esquadrinhou as condições do campo de batalha e se deparou com um fato aterrador: não havia para onde ir. Estavam na pior posição e nas piores circunstâncias. A cratera os impossibilitava de ter acesso imediato à caverna, e não poderiam retornar pela floresta. Restava-lhe apenas uma opção: atacar ou ser atacado.

Bravos, em suas posições! — ele ordenou a seus combatentes, puxando o machado de guerra — Ataquem!

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Glossário do Capítulo

Vallaslin: são as tatuagens faciais usadas pelos elfos dalishianos adultos.

Vint: diminuitivo de Tevinteriano.

Tevinterano: cidadão do Império Tevinterano.

Glossário Principal | Personagens

Fanart do Cole – Por Soll

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Notas finais
Façam suas apostas: a situação pode ficar ainda pior? ... Para saber, estejam aqui mês que vem para ver como nosso grupo irá se defender de uma horda demoníaca! Por essas e outras que sempre digo: nunca entrem em uma floresta mal-assombradas. Então, queridos, gostaram do capítulo? Contem-me o que acharam dos novos personagens. Cá entre nós, Cole não é simplesmente adorável ? *suspira*. Amo tanto ele. Snif, snif. Espero por vocês nos comentários. Não me deixem esperando! Até lá! Ou até mês que vem – mas vá, você vai esperar até lá para conversar comigo? Comente e façam essa autora feliz!