Nas Sombras do Seu Coração
3 Capitulo 2 — Sombras da Morte
Notas iniciais

Trilha Sonora — Road to Sacrifice
Eles avançavam por todos os lados. Rastejando para fora da terra, se formando do pó e das cinzas. O Touro foi o primeiro a investir, partindo para cima de uma das sombras que os cercavam. Os Bravos seguiram seu comandante, brandindo suas armas e atacando sem medo ou hesitação.
Cole olhou nos olhos finos e sem pupilas de uma das criaturas de magma. Em seu interior, ele viu o mais puro fogo arder em chamas de ira. O demônio cuspiu uma rajada de lava em sua direção. Ele sentiu o calor passando a centímetros das costelas quando desviou da bola de fogo. A criatura abria sua bocarra para expelir outra, mas Cole agiu com rapidez e arrancou uma granada de gelo do cinto, arremessando-a dentro da boca do demônio. A granada estourou em uma explosão congelante, obliterando a criatura e atingindo os demônios em volta, os enfraquecendo o suficiente para sucumbirem com os punhais que atirava sobre eles.
O Touro de Ferro girava o machado ao redor do seu eixo, destroçando as sombras que o rodeavam com um redemoinho de força bruta. Não muito distante, Dorian congelava três demônios da cólera com um sopro gelado, que logo depois foram despedaçados pelas flechas de Magrela. A elfa disparava seu arco com velocidade e precisão. Os alvos caiam com facilidade, mas para cada demônio que morria, outro nascia.
Desprotegidos por estarem distantes do grupo, Magrela e Remendo correram rumo ao bando. Estavam próximos quando duas sombras obstruíram o caminho. O curandeiro tentou defender-se com sua espada, mas fora desarmado e atingido no braço, caindo indefeso no chão. Sem mais flechas, Magrela usou o arco para bloquear o ataque das garras afiadas, mas ele não resistiu muito: foi feito em pedaços no segundo golpe. Uma terceira sombra materializou-se atrás dela, e estava prestes a fatiá-la quando Cole apareceu da escuridão e cravou uma de suas adagas na barriga da criatura. O demônio deu seu ultimo grunhido de dor e desespero antes de se desfazer no ar, mas mesmo antes disso, o ladino corria velozmente entre as outras duas sombras, cortando através dos seus corpos etéreos e dando-lhes o mesmo destino da sombra anterior.
— Você está muito ferido? — ele perguntou a Remendo, ajudando-o a ficar de pé.
— Grr, meu braço. — queixou-se o curandeiro, com a mão sobre o corte aberto perto do cotovelo do braço direito. — Não consigo movê-lo.
— Esses demônios não têm fim! — Magrela apontou para mais cinco sombras que saíam da névoa. — Iremos morrer se...
— Não diga besteiras! Já sobrevivemos a situações piores. — berrou o Touro de Ferro do outro lado do campo de batalha, cortando um demônio de lava ao meio. Ele e Krem protegiam Dorian e Dalishiana, servindo de alvo enquanto os magos eletrocutavam as sombras com trovões e conjuravam estacas de gelo sobre os demônios da cólera.
Magrela pegou a espada que o curandeiro deixara cair. Precisava dela agora que seu arco fora destruído e teria de lutar não somente pela sua vida, mas pela a de Remendo também. A elfa vinha atrás de Cole, protegendo o amigo ferido ao passo que o ladino entrava e saía das sombras, aniquilando os demônios e abrindo passagem para que ela e o curandeiro chegassem ao Touro de Ferro.
— Agora não é igual à antes. — disse Cole ao se unir à barreira de proteção. Um. Dois. Três punhais voaram de sua mão, acertando as cabeças dos demônios. — E-e-eu não ouço... e-e-eu não sinto uma fissura no Véu. Esses demônios são espíritos da floresta. Ela disse para irmos embora, mas não fomos, e agora ela quer fiquemos para sempre!
Remendo derrapou para dentro da cratera, unindo-se à Rocky que ali estava desde o inicio do combate, protegendo-se das rajadas de fogo enquanto preparava as bombas que arremessava por cima das cabeças dos seus aliados. Mas por mais que fossem explodidos por Rocky, a horda de demônios continuava a surgir e avançar sobre eles. A sensação era que os demônios não teriam fim e acabariam sendo derrotados pelo cansaço. Entretanto tudo cessou tão repentinamente quanto começou e o inesperado aconteceu: todas as sombras evaporaram e os demônios da cólera retornaram para o interior da terra.
— Acabou? — o Touro perguntou incrédulo. Demônios não simplesmente desapareciam. Algo poderoso deveria tê-los contido ou pior: os amedrontado. — Não acabou, não é?
— Não... — confirmou Cole, apreensivo e com a atenção centrada na floresta. Sua tensão aumentava à medida que uma movimentação estranha agitava as árvores e estremecia o chão sob seus pés. Aquele não era um tremor de terra qualquer, não era natural: algo maligno estava se aproximando.
Não demorou muito para da escuridão da floresta surgir um ser monstruoso de mais de cinco metros de altura. A horrenda criatura de pele grossa, arroxeada e espinheta os olhou com seus muitos olhos, mostrando duas fileiras de dentes afiados alinhados em um sorriso perverso.
A equipe conservou a formação, mantendo a barreira circular com Remendo, Rocky e os magos na retaguarda. Sem uma reação imediata, eles encaravam o demônio colossal. Não seria a primeira vez que o Touro, Cole e Dorian combateriam um demônio do orgulho, contudo, nos outros confrontos Ilyria Lavellan, a Inquisidora, os liderava e tinham a Âncora ao seu favor. E mesmo assim a batalha sempre era árdua e sangrenta. Dessa vez, estavam por conta própria e fatigados pelo avanço interminável das forças demoníacas.
O demônio do orgulho ciente da sua superioridade gargalhou sinistramente e recuou as enormes esporas de osso cravadas nos cotovelos, e arremessou-as como um aríete contra as árvores, quebrando-as ao meio. Três pesados troncos tombaram em cima de todos, desmanchando a formação. Os Bravos caíram tentando se esquivar, com alguns sendo acertados pelos galhos.
Dorian conseguiu se esquivar por estar mais ao fundo e começou a conjurar uma barreira de proteção, mas o demônio saltou antes que lanceasse o feitiço, caindo diante do mago tevinterano, estendendo suas garras mortais e descendo-as ferozmente sobre ele. Mas antes que Dorian fosse atingido, Cole saiu de uma cortina de fumaça empurrando-o para longe e colocou-se à frente dele. O garoto impulsionou-se para trás, afastando-se o máximo que pode do ataque fatal, mas não o suficiente, e uma das garras pontiagudas abriu-lhe um rasgo profundo no peito. Seu corpo chicoteou no chão, caindo de bruços ao lado de Dorian.
O Touro de Ferro era o único ainda em pé graças ao seu machado de guerra e sua força descomunal, que o possibilitou cortar a parte do tronco que caíra sobre si. A besta demoníaca rosnava para ele e o qunari retribuía a ameaça com um o olhar convicto e destemido. Uma corrente de energia se formava nos punhos do demônio, preparando-se para desferir um chicote de eletricidade. O guerreiro permaneceu firme, chamando toda a atenção do inimigo. Preferiria ser o alvo do ataque que estava por vir; antes ele do que seus companheiros caídos. Empunhando seu machado, ele partiu para a ofensiva, disparando como um verdadeiro touro rumo ao demônio quando avistou um vulto passando por de atrás da criatura.
A penumbra obscurecia as formas do ser que se movia na linha das árvores, sendo visível somente que possuía dois braços e duas pernas muito flexíveis. A silhueta adquiria altitude, escalando as árvores como um gato selvagem, balançando-se entre os galhos e aproximando-se a cada pulo da cabeça do demônio.
Em outras circunstancias o Touro de Ferro ponderaria se a sombra era mais um inimigo ou um aliado antes de agir, mas como não havia tempo para isso, ele girou o machado, tomando propulsão e num ato certeiro, lançou-o no joelho do demônio. A besta desabou no exato momento em que lâminas-gêmeas fincaram em seus ombros e algo pousou nos espinhos em suas costas. O demônio debateu-se, sacudindo de um lado para o outro, tentando livrar-se a todo custo do ser que se prendia ao seu dorso.
A forma encoberta pelas sombras impulsionou-se para cima, e o Touro não precisou fazer mais nada a não ser admirar a dança da sombra no céu noturno. No ar, as duas lâminas que ela impunha se juntaram, formando uma longa lança, que com o peso do seu corpo, caiu sobre a cabeça do demônio. O grito estridente de quem deu aquele belíssimo golpe só não foi mais alto que o rugido agonizante do demônio ao ter a lança perfurando seu crânio e saindo pela sua boca. O demônio gargolejou e caiu morto em uma poça do próprio sangue, que transbordava pela fenda em sua boca.
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O princípio da noite viera com uma brisa fresca, farfalhando as folhas das árvores e acalmando os ânimos após o calor da batalha. A iluminação que entrava na densa floresta era escassa durante o dia ficou ainda mais escassa quando o sol se pôs e passaram a contar apenas com a parca luz da lua. Ainda que enxergasse somente contornos escuros em meio a escuridão, o Touro sentia que o perigo finalmente tinha acabado. Mas deveria? A sombra ainda estava lá, e o qunari não estava certo se poderia confiar nela.
Ele a observou retirar a lança da cabeça do inimigo caído e separá-las em duas espadas num simples gesto. A sombra, então, parou e permaneceu imóvel por uns vinte segundos, talvez trinta? Parecia vasculhar pela a destruição no campo de batalha, mas deveria estar enganado. Estava escuro demais para se enxergar qualquer coisa que não fossem borrões.
Então, a silhueta retrocedeu, caminhando sobre o corpo do demônio caído até voltar para a escuridão da floresta. Sons estranhos começaram. Estalos de madeira, espadas cortando, gemidos de dor e alivio e um "crack" tão alto que parecia que outra árvore havia sido derrubada.
— Argh, outro demônio?! Eu já tive o bastante por hoje. — nervoso pelo o que estava acontecendo, mas não conseguia ver, o Touro virou-se para onde vinham os sons.
— Não, chefe, definitivamente não é um demônio. — Krem ergueu-se com dificuldade, sem ter mais os galhos o prendendo ao chão, uma vez que o tronco que pesava sobre ele havia sido cortado e seus pedaços jogados para longe. Seus ombros doíam, as pernas também, mas no geral, ele estava inteiro.
Um por um, os Bravos se levantaram ou foram levantados pela misteriosa sombra. O Touro nem percebeu quando ela parou ao seu lado, notando-a somente quando seu machado de guerra fincou-se no vão entre seus pés, por pouco não decepando seus dedos.
— Demônio, unf! — resmungou uma voz feminina — Onde já se viu? Salvo sua vida e me acusa de ser um demônio! Me compare com aquele monstrengo ensanguentado e veja se há alguma semelhança entre nós. Certamente sou uma visão muito mais agradável ...
Uma pequena esfera luminosa acendeu-se em meio do breu e subiu vários metros, inflando-se mais e mais até virar uma segunda lua no céu. Sob o brilho da nova lua, a escuridão que revestia a sombra desapareceu, trazendo luz as curvas de uma mulher. Uma segunda pele a cobria dos calcanhares até o pescoço, tão escura quanto à negritude da noite. Placas de um metal preto encaixavam-se sobre a segunda pele, formando uma couraça que protegia suas partes vitais e se ajustavam a musculatura do seu corpo.
À primeira vista, o Touro pensou que a armadura fosse feita de obsidiana, mas era mais fosco do que deveria. Logo que continuou a admirar a "armadura" seu raciocínio foi interrompido pela visão de um generoso busto. Aquele seria um grande artifício de distração em combate se não a deixasse tão vulnerável. Um grande artifício, de fato.
O olhar contemplativo do qunari seguiu para os quadris. Punhais de prata e uma adaga se alinhavam à direita do cinturão da bainha das espadas duplas. Na parte traseira, bolsos guardavam itens que o Touro não fazia ideia de quais eram, mas que provavelmente deveriam ser tão interessantes quanto a armadura e a mulher que a vestia.
Aquele traje, aquela armadura ou o que quer que fosse aquela coisa, era diferente de tudo que o qunari encontrara em seus muitos anos de combatente. Em Par Vollen não existia nada semelhante; no Norte ou no Sul também não. Nem os vints com seus magistérios, magia do sangue e armaduras mágicas vestiam algo tão excêntrico para não dizer esquisito, e que ainda assim fosse tão exuberante.
— Agora que você me olhou de cabo a rabo, grandalhão, poderia me dizer se eu pareço com um demônio? — quis saber a misteriosa mulher, sorrindo debochadamente.
— Um demônio do desejo, talvez. — ele respondeu-a com um flerte descarado enquanto ela estendia a mão ao tevinterano caído e o ajudava se erguer.
Dorian não havia se ferido. Estava aturdido pelo baque, a cabeça latejando por causa do impacto, mas nada que necessitasse de atenção. Sem dúvidas, estava melhor do que Dalishiana, que parecia ter torcido o tornozelo. Apenas uma sensação estranha o incomodava. Estava esquecendo-se de algo urgente, não estava? De alguém, talvez? O mago tentava se concentrar quando o laranja efervescente surgiu diante dos seus olhos, que de imediato se viraram para o Touro. Embasbacado, o qunari avaliava a mulher com interesse e um sorrisinho galanteador que ele destinava só a um tipo de mulher.
— Vishante kaffas! — Dorian praguejou e revirou os olhos, batendo as mãos em sua cabeça dolorida. — Antes eu mesmo ter lidado com esse maldito demônio do que ter sido salvo por uma ruiva. Agora ele vai ficar simplesmente insuportável.
— Uau, hein?! Mas que bando simpático vocês são. — ironizou a ruiva, com as mãos na cintura, encarando Dorian com irritação. — Se eu soubesse que receberia um agradecimento tão ingrato, pode ter certeza que teria deixado você lidar com o demônio. Aposto que ele seria educado e mais grato a mim por deixá-lo arrancar as suas tripas do que você está sendo por eu ter salvo você e o seu bigodinho cafona.
— Vê, Dorian? Ainda acha que ruivas são iguais a todas as outras mulheres, hm? E essa ainda tem uma personalidade forte. Tão excitante!
— Por favor, Touro, poupe-me dessa conversa. Agora não é o melhor momento para flertes! Deveríamos estar cuidando dos feridos, não perdendo tempo com ... — e foi ao mencionar os feridos que aquilo que Dorian tentara lembrar o acertou como um choque de realidade — Onde está Cole?! Ele recebeu o golpe, ele estava sangrando!
— Seria esse o rapaz? — perguntou a ruiva, apontando para o jovem inconsciente ao lado de um chapéu grande, manchado de sangue e sujo de terra. Ela ajoelhou-se ao lado do garoto e segurou o pelo braço, virando-o para cima com cuidado para que pudesse examiná-lo. Ao ver o sangramento em seu peito os olhos de Daeris cresceram em preocupação. O estado dele era grave. Muito grave. Ele morreria em questão de horas se não estancassem a ferida e parassem a hemorragia. — Se for, bem, o bigodudo está certo: ele está sangrando, e muito ...
— Cole! — Dorian e o Touro gritaram pelo garoto ao verem sua armadura arrebentada, ensopada de sangue e o corte profundo e inflamado que vinha do ombro esquerdo até a metade do peito. Os Bravos se aglomeraram ao redor dele, prontos para socorrê-lo, mas havia pouco a ser feito; nenhum deles sabia como ajudá-lo a não ser Remendo, o curandeiro do grupo, e este também estava ferido.
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Glossário do Capítulo
• Par Vollen: é a ilha conhecida por ser a terra natal dos Qunaris.
• Vishante kaffas: um xingamento em teneve, a linguá oficial do Império Tevinterano.
Arte do Mês:
Cartas de Tarot — Dorian
Dorian Pavus por slugette
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