Notas iniciais
Até quando temos controle sobre o que somos ou o que fazemos? Neste capítulo, nosso protagonista de se depara com a 3ª ferida de Freud ao despertar. Agora chega de formalidades, boa leitura!

Eu não gosto das drogas, mas as drogas gostam de mim

[...]

"Nós somos brancos e oh tão heteros
E nosso sexo é missionário"

[...]

Criado para ser estúpido, ensinou a ser nada

[...]

I Don't Like The Drugs – Marilyn Manson

I

Pesadas estavam suas pálpebras. Entre lembranças distorcidas de sonhos inacabados estavam escassos raios de lucidez proporcionados pela luz proveniente do amanhecer. Esta que, insistentemente invadia-as proporcionando um clarão alaranjado incômodo em seu campo de visão. Alternando entre o sono e o despertar, jazia em intenso cansaço – como se o corpo já não mais tivesse a leveza da alma, que agora deveria estar à procura de outros viveres, cansada das imundices do corpo habitual. Perguntara-se, em seu subconsciente, se estava morto, mas ria de tal afirmação, mesmo sabendo que em parte era verdade. Sentia o corpo gélido e nu sobre o que parecia ser um fino lençol, o qual lhe cobria apenas parte da perna esquerda.

Pensara o quanto seu testículo estava arrepiado com o frio que sentia, atentando-se ao prazer apercebido com o calor de seu pênis sobre a barriga. Não que tivesse um comportamento devasso, mesmo não acreditando verdadeiramente nisto. Apenas sentia prazer pelo próprio corpo, algo além da autoestima. Creditava a essa libido aflorada por si mesmo o sucesso que fazia com as mulheres, ignorando o fato de grande parte delas irem para sua cama dopadas de LSD.

Enfim despertou sob o dilúvio de incertezas e contradizeres os quais não se lembraria. Bocejou levando a mão à boca, repudiando em seguida o forte cheiro de bebida – um odor angustiante emergia das trevas de seu corpo. Inspirou fundo e, estranhamente não sentiu a cocaína em suas narinas. Poderia orgulhar-se mais caso não se lembrasse da inúmera quantidade de LSD que usara na noite anterior. Ao fim de tudo, recordava-se de ver em espiral contínua, já não sabendo diferenciar sons e cores, além da bestialidade de ser enganado pelo abstrato – riu de si mesmo, ainda sobre a cama.

Dobrou seu braço sobre a testa na tentativa de burlar a forte dor de cabeça. Com a outra mão alisou seu pescoço que estava estranhamente dolorido. Tentou lembrar-se de alguma briga na noite anterior a qual pudesse encontrar a origem de tal incômodo, mas não se recorda de ter beijado alguém a força – não desta vez – tão pouco não pagar seu fornecedor ou algo parecido. Na verdade, não fazia ideia em qual espelunca havia encontrado diversão, excluindo-se algumas nas quais estava jurado de morte por motivos um tanto desagradáveis. Teve sua linha de ‘por quês’ interrompidos por um ardor no peito. Em brasas forçou-o a conferi-los.

Assustou-se ao ver as linhas vermelhas descendo do peito à barriga. Uniformes e perpendiculares rasgavam sua pele até os músculos, findando-se na altura de seu quadril. Tocou-as com relutância, urrando surpreso com a dor que elas lhe proporcionavam. De algumas emanava um líquido aquoso caracterizando inflamação. Toda a pele ao redor encontrava-se avermelhada e a única coisa que pensou fora o quão agressivo deve ter sido a foda na noite anterior – Paralelo a este pensamento deu-se um sorriso convencido seguido da angústia de perceber que não estava sozinho naquela cama.

II

Sob a consciência degradada de Ruy, desconhecia-se o improvável. Observou-a da copa, ainda assustado. O apartamento pequeno e iluminado tornara-se muito convidativo pela manhã, sendo que em um momento ele esqueceu – ainda mais, sobre o que havia acontecido anteriormente. Com cômodos pequenos e abertos era possível ter uma visão ampla sobre todos os espaços, desde a mesa no canto esquerdo da sala à lavadeira de pratos a direita de Ruy. Caminhou até a mesa, já vestido com sua calça jeans, passando lentamente pelo corpo inerte. Sobre o móvel, destacavam-se poucos bibelôs — uma espécie de pinguim sorridente ligeiramente medonho e alguns mamíferos que pareciam fazer parte de uma coleção. A vaca o conquistou irremediavelmente.

Escondido entre tais objetos encontrava-se um retrato tanto quanto desgastado. Nele, uma linda e, então vivaz garota sorria para a lente do fotografo desconhecido. Analisou a imagem rente ao sofá, tentando se recordar de tal rosto. Indagou-se novamente ao olhar a mulher.

Além dos vitrais, nuvens carregadas fechavam o céu com nuances de azul escuro. Uma densa névoa matinal embaçava os vidros e ouvia-se pouco o atrito dos ventos contra as janelas. Caótica estava sua cabeça quando viu que não conseguia deixar de admirá-la.

Imóvel. Fitava o nada em sua essência mortuária. Perplexidade era expressa em seus olhos marcantes – fortes e delineados. O brilho em seu olhar ainda se via presente, direcionado a copa onde antes ele estava. Os lábios ligeiramente afastados indicavam que algo havia dito antes de partir – preenchidos com um tom vinho remetendo a luxúria. De pele clara e cabelos negros, não aparentava muita idade. O braço repousava sobre os seios fartos enquanto o outro se posicionava logo acima da cabeça. A sobrancelha indicava personalidade e ingenuidade, além de surpresa e desespero. As pernas estavam levemente flexionadas e seu corpo era moldado por uma calça jeans. Os pés chamaram-lhe a atenção pela delicadeza ao passo que se odiava por tal bestialidade.

Sublime estava à frente dele — Bela como Evelyn McHale, morta sobre um carro em Nova Iorque meio século atrás. Passividade ecoava de seu rosto cândido perpendicular ao horror sentido em seu último suspiro, como imaginava Ruy.

Sentiu-se um grande merda, cretino e estúpido. Negava-se a acreditar que suas mãos a mataram. Aproximou-se dela e, vagarosamente adiantou-se sobre seu corpo. Afastou os cabelos de sua orelha cujo qual estava levemente arroxeada. Em seu pescoço, marcas de esganadura. Examinou sua boca, porém não notou qualquer sinal em sua língua – Por um momento desejou beijá-la. Vestígios de cocaína permeavam seu nariz levemente arrebitado.

Deixou-a em seu repouso eterno. Vestiu sua camisa branca e serviu os sapatos opacos. Encontrou o casaco sobre o balcão da cozinha e o deixou sobre o antebraço. Olhou pela janela desejando não haver ninguém ao redor para testemunhar sua ida, alegrando-se ao perceber que se encontrara em uma área afastada da cidade – em sua visão periférica não via nenhuma outra habitação sem ser aquele conjunto de apartamentos inacabado e possivelmente invadido. Cruzou a sala-quarto evitando olhá-la novamente, encobriu a mão direita com o casaco e destravou a maçaneta, a ponto de girá-la e partir distinguiu um objeto antes negligenciado entre os bibelôs. Pegou-o instintivamente, sentindo a camurça em seu tato. O material de longe não aparentava boa qualidade, mas inegavelmente assemelhava-se a algo feminino. Abriu-o sem pensar ser uma carteira e deparou-se com poucos documentos. Vistoriou alguns e num deles constava um nome – Sara. Seu sobrenome lembrava a algo interiorano, mas Ruy não deu importância a isso. Com dificuldade conseguiu discernir as manchas de álcool dos caracteres – vinte e seis anos era o que tinha. Raspas de haxixe completavam o espaço.

Encarou a porta por breves segundos, gritando Sara em seus pensamentos buscando recordar-se da noite anterior, sobre o que havia ocorrido. Nada – um grande borrão bloqueava suas respostas, como uma barragem que impede a fluidez de suas lembranças. Paralisado estava seu lado cognitivo, como seu corpo diante da porta. Guardou o objeto no bolso do casaco e virou-se para contemplá-la em sua despedida. Com a mão novamente coberta, girou a maçaneta, abrindo passagem para um corredor deserto. Deixou-a sozinha quando partiu de seu leito.

Sob o silêncio do apartamento vazio, um grito de incerteza emanava dos lábios funéreos da jovem. O olhar ainda encarava o que já não mais estava presente na copa. O corpo intrêmulo jazia só em todo aquele lugar, angustiante e fascinador. Ruy, do outro lado da porta, morto estava n’outra perspectiva.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim rsrs. Dividi o capítulo em dois subcapítulos, acho que se adquire isso ao ler Stephen King lkkkk Abraços!