Notas iniciais
Oi pessoal! Obrigado por estarem acompanhando e espero que gostem deste novo capítulo. Nele apresento nosso protagonista - Ruy, de forma mais intimista. O foco principal desta narrativa (deste capítulo, digo) são os medos e a personalidade confusa do nosso herói. Boa leitura! Não se esqueça de comentar.

[...]

Só tememos por nós mesmos
Ou por aqueles que amamos
Homem que nada teme
É homem que nada ama

[...]

Medo — Pitty

I

Encarou-o temeroso. Recostado sobre um pilar derrubado, fumava um cigarro. Culpou-se por não o ter notado quando vistoriou as redondezas pela janela do apartamento de Sara. Distanciou-se do bloco – juntamente do desconhecido, sem nem pensar que as primeiras moscas já pousavam sobre o corpo putrefato.

II

Inseriu a cápsula e fechou a alavanca. Moveu a superior para onde indicava ‘quente’ e depois a retornou em sua posição central. Observou o Expresso preencher o copo. Seguiu a curtos passos até a sala, onde se sentou na única poltrona presente. No cômodo escuro – muito diferente dos de Sara – apreciou a bebida. Interpelou-se quão frio deveras era – a longas caminhadas de sua tranquilidade ao segurar o café, abandonado estava um corpo. Não o atormentava qualquer sentimento de culpa, de fato não a conhecia – era o que achava. Tão pouco sentia sua falta. Depreciava sua morte ao querer somente saber o que o levara a tal lugar – e ele insistentemente negava isto.

Absorto em especulações queimou os lábios. Perdera a noção de quão quente estava o liquido, deixando-o sobre a mesa de centro. Imaginou que, muito provavelmente, passara das dez da manhã. Cruzou os braços sobre o peitoral, abrindo as pernas em um ângulo ‘V’, afastando os pés. Especulou sobre seu nome e seu time de futebol. Intercalou pensamentos aleatórios como o desejo que sentia por sua vizinha ou o ódio que nutria pelo chefe, até mesmo a necessidade pela droga descrita por King em seu romance ‘Louca Obsessão’, mesmo sabendo que era um objeto totalmente ficcional – e que inevitavelmente viria acompanhado daquela gorda a qual não se lembrava do nome.

Lembrou-se da mãe e como morrera. Recordou-se da vez que fora pego fumando em seu quarto e o quanto desejou ver-se livre – não como um homem atado a morte, como se via agora. Talvez Sara tenha sido livre, o que confortou Ruy justamente por não tê-lo sido – veja, ela está morta doravante.

Levantou-se e foi ao banheiro. De porta entreaberta mijou perante a solenidade masculina. Encarava-se no espelho – em uma espécie de retrato de Dorian Gray, ouvindo o cair da urina em encontro d’água. No exercício de sua virilidade – depois do sexo, o que fazia no momento lhe orgulhava o gênero – balançou o membro em um sinal de vitória. Afagou os testículos e vestiu a cueca, levando as mãos a pia. Olhou-se no espelho e então a viu. Viva estava Sara à sua frente, encarando-o com os lábios a fervilhar formigas. Inúmeras, corriam a suas narinas e Ruy podia senti-las em seus pés. Diante de si estava seu reflexo – e a sua insanidade e seu desespero.

Deixou seus receios ao recostar a porta e seguir à janela da sala. Impulsionou-a para cima permitindo que o ar leve e fresco do décimo andar preenchesse seus pulmões pesados da atmosfera fechada daquele ambiente. A luz tomou as sombras presentes naquele cômodo e Ruy se apoiou sobre o peitoril. Lembrou-se do café abandonado e decidiu por reavê-lo. Frio e amargo, já não mais despertava seu interesse. Em seu reflexo – o qual julgava desprezível, pois nunca era escolhido para os times formados por seu professor de educação física – Atirou-o para além da janela, vendo a porcelana roubada em um Café espatifando-se na parede do prédio ao lado. Riu tolamente e desejou que pudesse fazer o mesmo com a lembrança de Sara, tanto do espelho quanto do apartamento.

E novamente se pôs a pensar sobre ela. E sobre seu corpo e seu cheiro – o cabelo caído sobre os ombros e as mãos cobrindo seus seios, belos e joviais. O fascínio e domínio que ela, mesmo morta, exercia sobre ele o faziam desejá-la. Não era como amor, tão pouco algo carnal – não se lembra de tê-la em seu corpo. Queria ver-se subjugado uma única vez.

III

Encharcou os cabelos sob o chuveiro. De olhos fechados, sentiu a água escassa e ardente descer sobre o pescoço e escorrer em suas costas, desaguando em sua bunda. Ensaboou o abdômen um pouco protuberante, levando as mãos à virilha. O mesmo fez nos braços e nos pés e em todo o corpo. Elevou a cabeça deixando evidente seu pomo-de-adão, permitindo que a água enxaguasse todo o perímetro de seu corpo. Em nenhum momento pensou em se masturbar, nem sequer sentiu alguma ereção tão pouco um pensamento indevido.

Enxugou-se relutante em olhar o espelho embaçado e vestiu uma de suas cuecas genéricas da Calvin Klein. Foi à cozinha onde desistiu de fazer o que queria anteriormente e seguiu até o quarto. Deitou sobre o colchão descoberto e irritou-se com a luz emitida pelo identificador de chamadas. Levantou-se incomodado e com desprezo ouviu a mensagem deixada pelo chefe, repetindo em uma voz afeminada e acusadora o quanto havia sido ‘irresponsável’ e ‘nada profissional ‘ ter faltado ao trabalho não comparecendo a redação – preferiu não retornar. Voltou a seu leito onde, com as mãos abaixo da nuca e acima do travesseiro, se pôs a fitar o escuro.

Nunca tivera medo. Nem do diabo nem da morte – na verdade, não sabia se realmente acreditava em ambos. Sequer de altura, ou escuro, ou qualquer outro comum a uma grande parcela de pessoas. “Medo, escorre entre os meus dedos; Entre os meus dedos; Eu lambo os dedos; E saboreio meu próprio medo [...]” – Cantarolou em sua mente. Mas agora sentia, inegavelmente a si mesmo – desta vez não conseguiu se enganar. Medo de si, medo de todos. Sara ou do espelho. Sustou as lágrimas e engoliu seco. Obstruiu a visão com o antebraço e viu-a. Sobre ele estava a tocar seus lábios. Sentiu-a em seu tato e em êxtase curvou o pé. Excitado a recebeu em si. Sozinho estava naquela cama, afinal. Tateou a procura de ansiolíticos, engolindo-os assim que os encontrou abaixo de seu travesseiro.

Narcótico estava sobre si mesmo – esvaindo-se de seu eu racional. Como em outra atmosfera ou plano espiritual. Contava as estrelas na soturnidade de sua alma. Poucas. Caiu em profundo devaneio, onde não mais pensava acerca de nada.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim rs Comentem o que acharam e ajudem a enriquecer a história - faça um autor feliz! Beijos