Narcótico
6 Conflitos e Contradições
Notas iniciais
[...]
Desintegração, asfixia
Minha vida está tomada, minha aniquilação
[...]
Disintegration – Monarchy feat. Dita Von Teese
I
A pele quente de Bárbara ainda contrastava com o couro frio de Ruy, até então nu em sua poltrona. Não faziam ideia de quantos minutos haviam passado inertes, não sendo possível distinguir se foram muitos ou apenas uma ilusão da inatividade. Já não mais estavam fadigados e a embriaguez do sexo se esvaía de seus corpos gradativamente – deveras mais devagar no corpo dela. Poucas palavras haviam sido ditas logo após os dizeres de Bárbara.
(Bárbara, não Sara).
Haviam adentrado, sem darem-se conta, nas primeiras horas – minutos, precisamente – da madrugada. Todo o ambiente jazia em um silêncio contínuo, não sendo ao menos possível atentar-se a qualquer ruído. Seja no apartamento de Ruy, nos corredores além das paredes da sala ou cômodos concatenados. Motivo de estranhamento já que os apartamentos adjacentes eram todos geminados – prerrogativas da classe média e do moderado poder aquisitivo. Tão pouco ecoava das ruas qualquer barulho.
Sentiu as pálpebras pesarem, abrindo-as instantaneamente à percepção. Os olhos ardiam levemente em sinal de sono e cansaço. Levou a mão ao rosto onde deu fim provisoriamente a essa sensação incomoda. Pousou a mesma sobre a coxa nua tateando os finos pelos, os quais se tornavam mais densos e escuros conforme se descia pelo perímetro de suas pernas.
Procurou despertar rapidamente. Apercebeu novamente o corpo leve de Bárbara recostado sobre sem ombro esquerdo. Dormia levemente em uma tranquilidade assustadora e invejável. Ainda trajava a camiseta desgastada do Sepultura, um pouco úmida devido ao suor – seja ele fruto da relação ou da temperatura elevada da cozinha.
(A panela com legumes).
Os cabelos estavam sedutoramente esparsos. Ondulados, escapavam rebeldes do coque mau feito anteriormente. Em nada pareciam com os de...
(Sara, não Bárbara).
Deu de ombros.
Não precisou conferir para saber se ela ainda vestia sua calcinha. Não se lembra de tê-la tirado durante a penetração. Não sabia a cor, mas recordava ser de renda – não era macia e gerava certo desconforto durante o ato.
Levantou-se vagarosamente no intuito de não alarma-la. O rosto sereno o impedia de acordá-la e direcioná-la até a cama logo ao fim do corredor. Admirou-a de pé a sua frente, seguindo até a cozinha. Dirigiu-se até o fogão onde, já seca sobre a boca posterior, figurava única a panela de porcelana escura. Em seu interior, poucos legumes restavam – nem um pouco apetitosos aos olhos dele.
Desligou o fogo, abandonando a panela. Preferiu deixar como estava. Virou-se indo à torneira onde mecanicamente tomou um copo d’agua, despejando metade de seu conteúdo original no ralo da pia em sinal de saciação – e desperdício. Atentou-se ao chão ladrilhado do cômodo, localizando rapidamente suas roupas logo abaixo da mesa. Vestiu-as em um movimento único, levando consigo a camisa enquanto deixava a dependência. Apagou a luz e caminhou brevemente na total escuridão.
Olhou-a novamente.
Os contornos delicados de Bárbara tornaram-se ainda mais evidentes na tenebrosidade. O rosto suave e o perfil primoroso; uma feminilidade que exalava encantamento. Os lábios pequenos e rosados – já não mais pela coloração artificial anteriormente notada. Agora havia uma tonalidade natural. As pálpebras límpidas e a pele uniforme. As maçãs do rosto não eram muito evidentes e o maxilar levemente retangular – nem um pouco agregava qualquer aspecto masculino, pelo contrário. Sua estatura era pequena; ele já havia notado quando a recebeu pela manhã, porém agora, encolhida sobre o móvel aparentava ser ainda menor.
Os braços se cruzavam entre as pernas encolhidas e a respiração dava-se de forma regular e silenciosa. Os lábios estavam ligeiramente afastados, mas não de forma constrangedora. Os pés uniam-se um sobre o outro o fazendo lembrar quando os sentiu o despindo.
Cerrou os punhos distanciando-os do quadril. Elevou a cabeça observando-a do alto. Embebido estava seu cabelo, uma pequena gota de transpiração escorreu pela lateral de sua cabeça, partindo provavelmente de sua têmpora. Afastou ligeiramente as pernas, endurecendo-as. Mordeu o lábio inferior sentindo um leve ardor seguido do gosto único de sangue. Questionou-se rapidamente o quão imbecil tornou-se ao ferir-se de forma tão banal; ignorou qualquer resposta. Levou os dedos até o liquido viscoso e salgado; não era abundante apesar de perceptível. Vistoriou o mesmo, sendo ele escuro em um tom vinho para negro. Escorreu vagarosamente até a articulação do indicador perdendo então a atenção do espectador. Estancou-se o ferimento.
Levou a mão a seu ponto de origem.
Direcionou o olhar novamente a ela. Arqueou as sobrancelhas devidamente grossas e semicerrou os olhos. Adaptou sua visão à escuridão e pôde sentir a pupila dilatar. Inspirou pesadamente. Temeu pelo que ia fazer. Instantaneamente e institivamente veio à imagem de Sara em sua mente. Naquela mesma – e inesquecível – posição; seja há pouco ou há dias. A dúvida agora não era mais, necessariamente, o que havia acontecido. De certa forma havia desistido de tal entendimento. A questão era a curiosidade em saber de que forma havia acontecido. Como havia se comportado.
Não mais se atentara somente aos motivos. Interpelava-se sobre os métodos. Sobre a cronologia dos acontecimentos. Sabia que as lembranças inoportunas de Sara – como durante o sexo com Bárbara – não eram frutos apenas de um sentimento qualquer; por mais que se negava a acreditar em nutrir qualquer um por ela. Havia evidências naquela situação que a ligava ao passado – e as lembranças. Perguntou-se se os momentos que se seguiram a pouco transcorreram da mesma forma durante a noite que esteve com Sara, a qual não se lembrava. Temia que o que houvera instantes antes fosse comum as duas situações.
(Mataria Bárbara a seguir, não se lembrando de nada depois?).
Não sabia.
Fitava-a encantado.
Seguiu até o corpo dormente, curvando singelamente a cabeça a um mesmo ângulo observado em Bárbara.
Sorriu.
Moveu a mão direita até a moça, de encontro a seu queixo. Sentiu a maciez de sua pele. Deslizou os dedos horizontalmente no sentido de sua mandíbula. Parou ao pé da orelha. Desceu ao pescoço reconhecendo a pulsação. Quente e contínua. Estendeu a palma sobre sua garganta. Correu as unhas sobre seu rosto, cruzando pela lateral, pausando na extremidade de seu olho esquerdo.
De mente vazia tocava a dama, serena na ingenuidade e fragilidade do mais profundo sono. Levou a mão mais uma vez a seu pescoço, fechando-a em um arco.
Não apertou o bastante.
Passou o antebraço por detrás de sua nuca, repetindo a mesma ação com o outro, só que este em relação às pernas nuas da garota. Elevou se corpo, forçando um pouco os músculos desabituados com qualquer peso. Sempre gozou de uma forma física exemplar, o que mudou com a chegada dos trinta.
Carregou-a com um pouco de esforço nos primeiros metros, acostumando-se com seu peso nada excedente em poucos momentos. Levou-a pelo corredor escuro chegando a seu quarto, o qual estava com a porta entreaberta. Nada viu na escuridão proposital. Pousou-a sobre a cama macia e forrada com um lençol fino e ligeiramente frio, causando de imediato uma breve reação da adormecida. Moveu-se calmamente – Ruy temeu por talvez tê-la acordado, mas não foi o que houve. Logo estava inerte novamente.
Deixou-a em repouso.
Em nenhum momento pensou em mata-la. Sequer a dúvida permutou sua mente confusa – nem a possibilidade de tal ato. Muito menos especulou qualquer coisa. Apenas temeu por não saber o que seria capaz de orquestrar – de qualquer forma, fez o melhor que poderia ter feito.
Bárbara ainda vivia, enfim. Isso o tranquilizou, mas não totalmente.
Precisava de um cigarro.
II
Abriu os olhos em um disparo único. Não se moveu de imediato, aproveitando o até então presente calor mantido pelo tecido antes frio que revestia o colchão. Fitou o teto aguardando o despertar – e a vontade de deixar seu leito.
O leito de seu amante.
Percebeu a camisa ainda úmida – porém bem mais seca do que quando Ruy a pegou em seus braços. Claro, Bárbara não poderia concluir isso.
Em posição fetal deslocou o tronco, afundando a cabeça no travesseiro macio. A lucidez via-se mais presente e os pensamentos já se deslocavam da imaginação fértil e desconhecida encontradas nos sonhos às ideias reais e nítidas. O quarto ainda mergulhava em escuridão, no entanto não mais tão próxima daquela observada durante a madrugada.
Moveu os braços sobre os seios e esticou sorrateiramente as pernas. Transcorreu os fios de cabelo soltos com seus dedos delicados e suas unhas ornamentadas e espalhafatosas – Ruy não havia reparado o quão aquele rosa soava vulgar.
Levou sua mão a boca onde, por cansaço ou por noites antes perdidas, bocejou. Não sentiu qualquer odor desagradável e perguntou-se se não havia se alimentado. Apercebeu uma leve dor típica de um estômago vazio e por uma ligação de indícios concluiu que não havia ingerido qualquer coisa na noite anterior.
Estava com fome.
Levantou-se preguiçosamente. Levemente curvada procurou com os pés seu par de chinelos, não tendo sucesso. Aproveitou a maciez do carpete – o quarto singular do apartamento era o único com tamanho luxo – e se recompôs atingindo uma postura ereta. Arrumou o cabelo relaxadamente, atentando-se ao perfume ainda presente em seus pulsos.
A pele mantinha o odor amadeirado presente na loção masculina para banho de Ruy.
Lembrou-se de vê-lo pela porta através do vapor que tomava aquele pequeno espaço.
Seguiu à porta.
Não mais estava entreaberta; agora recostada com o intuito de impedir qualquer avanço da luminosidade comum ao amanhecer. Abriu-a calmamente permitindo a entrada de raios pouco incômodos, dando vida ao local. Deparou-se com o corredor vazio. Caminhou até sua extremidade, passando desatentamente pela cozinha. Terminou por observá-lo na sala.
O cômodo de visitas estava iluminado. A janela totalmente aberta dava abas ao frescor: uma reconfortante brisa adentrava ao local por sua passagem. Sobre o peitoril estava ele, obstruindo não totalmente a passagem da corrente de ar. Fumava um cigarro – o cheiro era extremamente acusador.
Bárbara não julgou ser maconha ou qualquer outra coisa – o cheiro era típico de tabaco comum. Além do mais uma caixa quase cheia de Marlboro repousava sobre a mesa de centro. A fumaça corria pelo cômodo em um filete único e quase imperceptível – esbranquiçado, um tanto incolor.
Com passos inaudíveis dirigiu-se ao objeto, apanhando um dos vários que completavam a embalagem. Da mesa de centro partiu até o homem que observada através da janela – Ruy já havia notado sua presença.
As calças ainda eram as mesmas da noite anterior e Ruy agora vestia uma camisa. Tragou mais uma vez, despejando em seguida a fumaça abundante. Pousou a mãe sobre o peitoril, suspendendo o cigarro.
Bárbara continuou sua trajetória até ter certeza de estar sendo notada. Quando se satisfez, interpelou.
– Tem fogo? – Rouquidão era notada em sua voz. Comum a quem acabara de despertar.
– Na poltrona. – Respondeu mecanicamente. A garota instantaneamente viu o pequeno objeto amarelo ocupando o assento, próximo à extremidade. Ascendeu seu cigarro fazendo companhia a ele.
Nada foi dito.
– Obrigada pelo banho. – Era perceptível o quanto Bárbara não se contentava com o silêncio. – Realmente precisava de uma boa ducha. – Constatou.
– Por nada. – Respondeu educadamente Ruy, ainda perdido em suas observações urbanas.
– Sei que talvez possa ter sido um incômodo. – Reconheceu. Antes que o homem pudesse negar, a mulher deu continuidade a seu discurso. – Pouco nos conhecemos e já tomo essas intimidades. – Corou — A questão é que tudo fluiu institivamente.
Ruy virou-se, passando a encará-la atentando-se a suas palavras.
– Não pense que sou assim comumente. Não transo com meus vizinhos, fora uma exceção – deu-se um riso. – O ponto a ser considerado é que você é realmente interessante e misterioso. Sei que dorme com muitas mulheres, sendo que até fiquei, de certa forma, curiosa com Sara. Quais serão nossas semelhanças e motivos para sermos confundidas? – Fitou o nada a sua frente. Interrompendo-o antes mesmo de ele pensar em se pronunciar, deu continuidade. – Talvez você a ame muito. – Finalizou.
– Não. – Respondeu grosseiramente. – Não passou de uma noite.
– Você deve ter a matado de tanto prazer. – Soou importuna. Ruy a censurou com um olhar assustado. – Digo... – Procurou as palavras certas – Nem ao menos sei se ainda vivo. – Brincou.
Ruy voltou-se novamente à janela.
– Em relação ao banho podemos concordar que fora proveitoso. – Provocou recebendo como resposta um massacrante silêncio. Gelada estava perante a frieza daquele momento. Desprezou a situação incômoda analisando as unhas.
– Obrigada também pelas roupas. – Quebrou o silêncio. – As devolverei logo que chegar em casa. – Sorriu.
– Como quiser. – Ecoou a voz de Ruy.
Bárbara se levantou da poltrona ignorando-o. Virou-se de costas e voltou até o corredor onde, por uma entrada antes ignorada, seguiu à cozinha. Escolheu um copo qualquer – sem saber que fora o mesmo escolhido por Ruy em suas aventuras noturnas – e tomou um copo d’água. Arrependeu-se ao notar a máquina de café e algumas cápsulas disponíveis. De qualquer forma cansara-se de se aproveitar de tamanha hospitalidade.
Retornou a sala onde se deparou novamente com o homem na mesma posição.
– Acho que já está melhor. – Referiu-se a crise de abstinência a qual causou toda aquela situação. – Por isso agora o deixo. Fique bem. – Sorriu. Ele persistia em olhar o horizonte.
Dirigiu-se à porta de entrada onde, já com a mão sobre a maçaneta, despediu-se.
– Foi uma noite muito especial. – Exaltou. – Não vou idealizar tudo o que houve. Apenas sexo instintivo; realmente muito bom. Espero que nos vejamos novamente. – Abriu a porta sentindo um leve sentimento de deja vu. – Procure-me na porta ao lado e não limite-se apenas a esse apartamento ou a lembranças de desventuras e desconfortos. Expanda-se. – Sua silhueta desapareceu além da vista periférica de Ruy.
Em sua mente os dizeres de Bárbara ecoavam de forma mais direta.
III
Soltou o cigarro quando percebeu a dor causada pela queimadura. Distraído não notou a extinção gradativa do corpo pela ação da chama. Não se atentara também ao fato daquele ser seu terceiro seguido – o quarto da embalagem contando aquele pego por Bárbara.
O dia esfriava conforme o passar das horas, o que não inibia o interesse de Ruy em observar além da Janela. O tempo não anunciava chuva, mas a umidade era perceptível. Os ventos tornaram-se um pouco mais frequentes, porém nada preocupantes.
Ruy pouco pensou acerca de importâncias desde que Bárbara perguntou por seu isqueiro. Na verdade sós banalidades. Ignorou-a ainda mais quando esta citou Sara – era um assunto que não o agradava.
Estranhou claro, como tudo acontecera de forma tão natural. Conhecia Bárbara visualmente; de esbarrões no corredor ou em encontros nas escadas. Quase sempre provocativa em suas roupas curtas e espirito sedutor. Nada pessoal. Não negava o interesse que ela o despertava, porém nunca procurou algo além de encontros casuais. Em uma grande jogada de mestre a recebeu em casa e tratou de por em mesa seus dotes – nada modesto era no campo sexual.
Havia algo que já estava subtendido. Antes preparado. Já havia um interesse e uma caçada.
Talvez não tenha notado anteriormente devido a alguns empecilhos.
Seus devaneios e conspirações foram interrompidos por uma ligação.
De imediato ignorou o soar ininterrupto do aparelho ao lado de sua cama, mas foi convencido a atender pela curiosidade em saber por que tamanha insistência.
Atendeu na terceira tentativa.
– Senhor... – Pronunciou seu sobrenome em um tom sério e neutro.
– Pois não, ele mesmo. – Respondeu com igual frieza. Logo reconheceu a voz da secretária de seu empregador.
– Vejo que está disponível...
– Perfeitamente. – Respondeu. Acendeu outro cigarro.
– Essa ligação será redirecionada ao escritório do senhor Álvaro Mendes. – Anunciou em um tom robótico e com dizeres aparentemente decorados.
Um breve toque tomou a linha.
Logo se ouviu a voz aguda do chefe. A mesma outrora – quase sempre – chacoteada por Ruy.
– Falo com um contratado ou com alguma criança com medo da vida adulta? – Insultou.
Cretino, pensou.
– Bom dia, Sr. Mendes. – Respondeu polidamente.
– Sua presença não vem sendo notada há muito tempo nas vielas desta redação. – Iniciou seu discurso. – Não que seja de fato um diferencial, com quase dez anos de mercado você já foi ultrapassado pelos formandos e suas mídias digitais. – Ruy virou os olhos. – Mesmo assim ainda pago seu salário. E me preocupo com o dinheiro gasto com imbecis como você. – Era engraçado como ele se preocupava com o monetário de toda uma empresa de comunicação dando a entender que o dinheiro vinha de seu bolso.
Somos juntos dois imbecis, caro Álvaro.
– Entendo perfeitamente. – Disse cinicamente.
– Sendo assim, sua presença torna-se necessária. Arcamos com sua vida e seus gastos e você nos serve como mão de obra. Isto não está sendo justo para nós, pois não colhemos qualquer fruto de seu trabalho. Tão pouco o próprio. – Riu. –
– Não se preocupe. – Respondeu secamente. – Estou com um trabalho em mãos. Em processo de pesquisa de campo; algo como uma preparação. – Mentiu descaradamente. Ruy julgou que Álvaro, no alto de sua arrogância e prepotência, seria facilmente enganado por uma falsa submissão. O que denotava o quão básico – e mesquinho – o homem do outro lado da linha aparentava ser. – Isto irá revolucionar a sociedade local.
– Contenha-se com esse projeto pessoal. – Respondeu. – Mesmo estando curioso e ansioso para ver seus resultados, não quero que acabe prejudicando o trabalho em conjunto desta redação. Estou sem jornalistas em campo, em ação, e preciso cobrir algumas manchetes. Ainda é um jornal e não uma start up, como julga seu trabalho em mistério. – Censurou o chefe.
Ouviu-se ao longe o adentrar de alguém na sala de Álvaro, logo pôde descobrir tratar-se de uma mulher – provavelmente a secretária – por sua voz feminina e profissional. Ela disse algo como temos um furo, mas não se era possível ter certeza. Houve o consentimento do homem e a saída da mulher evidenciada pelo bater da porta.
– Dando continuidade... – Retornou sua atenção a conversação com Ruy. – Espero que o que está fazendo, seja lá o que for e como for, dê bons resultados. Faça valer apena todo o prejuízo que me causou. E as ligações não retornadas ao escritório. Por onde andas o velho Ruy? – Nesta fala Álvaro soou mais como uma velha – e falsa – amizade do que como um chefe turrão.
Nem por isso Ruy passou a gostar mais dele.
– Envolvido neste trabalho. Ele me toma tempo. – Mentiu descaradamente.
– Conscientize-se e não se deixe levar pelas adversidades. – Alertou. – Não minta para mim. – Finalizou.
– Com certeza. – Rebateu.
– Agora tenho um trabalho para você. Não me diga não. – enfatizou.
Ruy sequer especulou o que poderia ser.
– Siga até o extremo da cidade, onde não há mais prédios no horizonte. Conhece aqueles prédios invadidos por aquelas bestas contemporâneas? – Houve um silêncio do outro lado da linha. – Espero que sim. Quero você lá em uma hora. Encontraram um corpo com sinais de esganadura. Mulher, jovem...
Merda. Pensou.
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