Narcisos
5 Sinal
09 de novembro de 2020.
Eu tinha acabado de chegar da escola e fui diretamente para a mesa almoçar. Tia Rosa preparou a refeição. Ela quase sempre preparava o almoço e ficava bom. Estávamos ao mesmo horário na mesa. Falo dessa forma porque preferia esperar ela almoçar para depois eu ir. Era assim quase todos os dias.
Lavei os pratos em seguida, tomei um banho e dormi. O tempo estava fechado. Vi nuvens se formando no céu a caminho de casa. Fazia um friozinho bom para descansar.
Acordei ao entardecer. Meus olhos ainda estavam pesados e bocejei por várias vezes. Me levantei e fui ao banheiro. Após me aliviar, fui à sala e liguei a televisão. Passava um filme que eu já tinha assistido no cinema há uns anos lá na capital. Eu estava encolhido com os pés sobre o sofá, pois ainda fazia um pouco de frio.
Pensava que seria um segundo dia seguido que eu não iria ao abismo, mas foi engano. Ela chegou. Não faço ideia de em qual parte da casa estava, mas tia Rosa simplesmente apareceu na sala e sentou ao meu lado, a uns centímetros de distância. Ela costumava usar um perfume doce durante todo o dia, o que me fez enjoar do cheiro.
— Coloque no canal de notícias — pediu fitando a televisão, não fazendo questão de olhar para mim. — Toda tarde o assisto nesse horário. Você sabe.
— O filme tá quase acabando.
— Hum... Foi o que falou da última vez e esperei por mais de uma hora. — Lembrou mexendo em alguns fios dos seus cabelos, visivelmente incomodada. — Fora que você tem o seu celular para assistir o que quiser e na hora que quiser, estou errada?
Eu sabia o que eu tinha e sabia o que podia fazer com ele. Eu só queria assistir a um filme sem ela para estar no meu caminho, mas ela estava. Eu já tinha em mente que essa seria mais uma discussão acalorada. Sempre começava com o pouco que dava lugar ao muito. Eu tinha acabado de acordar e, simplesmente por causa disso, não estava de bom humor.
— A senhora também tem o seu para ver suas notícias — rebati tentando manter a calma. Era estranho, mas eu não gostava mesmo de trocar palavras com ela, não importava o meu temperamento.
Tia Rosa ficou calada por uns instantes, sem se mexer, aparentemente prestando atenção nas imagens que via na tela. Eu sentia um clima pesado além do que havia na minha cabeça. Eu queria que ela saísse dali. Queria ficar em paz e sozinho.
Ela ganhou.
Fiquei desconfortável e sabia que ela estava assim também. Respirei fundo demonstrando meu estresse e me levantei.
— Só pedi para mudar de canal, Thomas, não o obriguei. Pode continuar assistindo às suas besteiras.
— Tudo bem, posso continuar assistindo as minhas besteiras no meu celular. — Virei as costas e fui andando rumo ao meu quarto.
— Obrigada! É bom ter algo com que eu possa me entreter nessa casa.
Parei.
A segunda coisa que eu mais odiava nessa vida era ela ficar jogando indiretas para mim sobre o quanto eu supostamente a prendia.
— Eu não estou lhe amarrando aqui. — Escapou da minha boca quase que involuntariamente.
— Como é que é? — Ela se virou um pouco para olhar para trás, pois quando me virei já estava olhando para mim.
— É só que não precisa ficar de joguinhos comigo. Não precisa me aturar se não quiser, não é obrigada.
— Eu sei que não sou, meu bem, mas estou aqui por você.
— Claro! Tanto está que já disse mais de uma vez que iria embora assim que eu completar dezoito.
— Estará adulto, Thomas, e vai aprender a se virar, fora que tenho a minha casa para cuidar também. Seria mais fácil para nós dois se ficássemos lá.
— Então vá. Não precisa fingir que se preocupa comigo. Está aqui porque mamãe queria que estivesse, mas tenho certeza que ela iria preferir que a senhora ficasse longe ao invés de permanecer com tanta má vontade.
Tia Rosa se levantou demonstrando indignação. Eu tive um pouco de medo, mas fazia o possível para não demonstrar.
— Eu estou aqui porque você é um Benson. Você é da família.
— Está aqui para não se sentir culpada em descumprir um pedido de mamãe.
Eu estava com um nó na garganta. Eu sempre odiei brigar com quem quer que seja. Sentia minhas pernas tremerem e meus olhos marejados. Não conseguia controlar. Nós dois sempre trocamos algumas farpas, tínhamos discussões calorosas, mas nunca brigamos de fato. Eu estava a um passo de chorar contra a minha vontade.
— Tome cuidado com o que fala. Estou aqui porque precisa que eu esteja e agora terá que me aturar. Você não estaria me vendo agora se não tivesse feito o que fez!
Foi como um tiro. Uma lágrima caiu de imediato. Ela estava certa, por mais que eu odiasse admitir. Pela primeira vez, além de tirar a vida de mamãe, além de destruir a minha vida por causa disso, além de acabar com minha amizade com Hugo e as amizades com alguns colegas, destruí a vida de tia Rosa.
Rosa era a irmã de mamãe. Eu tirei dela uma das pessoas que mais amava. Eu pensei nessa hora “meu Deus! Por que demorei tanto para enxergar? eu sabia que ela tem motivos para me odiar, mas nunca levei em consideração a dor que ela deveria sentir ao ver o culpado de tudo. Nunca foi nada gratuito.” Considerei sua raiva, mas nunca a sua dor. E ela verbalizar o que sentia tornava tudo mais intenso.
Tia Rosa não era nenhuma santa, mas vi, nesse momento, que eu era pior do que ela poderia ser.
— Não precisa chorar — disse ela. — Não me transforme na vilã da história. E não estou com joguinhos, mas se você pensa assim, não posso fazer nada.
Ela voltou a sentar no sofá. Notei que também estava visivelmente abalada, mas eu me sentia destruído. Me sentia um destruidor. Permaneci em pé, imóvel, não enxuguei as lágrimas que caiam agora em maior quantidade. Eu me senti um lixo.
“O que eu fiz?”
Senti meu corpo esquentar e minhas pernas tremiam mais que antes. Minhas mãos também. Notei que minha respiração começou a ser afetada. Eu precisava correr, precisava de oxigênio, eu precisava...
O coração acelerou tão rápido que sentia meu peito tremer a cada batida.
“Mãe, por favor!”
Eu ainda não me mexia, queria sair do lugar, mas estava sem forças.
Foi quando a ficha caiu que todo o sentimento que eu almejava estava dentro de mim nesse instante. Todo o desespero que eu queria, eu sentia. Apesar do emocional calejado, nunca tive maiores estresses do que eu já tinha. Eu só precisava de uma faísca.
“Pule!”
Consegui me mover finalmente em um impulso. Coração, corpo, respiração e mente. Todos feridos. Todos desesperadamente buscando serem desativados.
O que eu estava fazendo? Sei que as escolhas de palavras de ambos não foram as melhores, mas não havia acontecido nada muito grande. Eu estava mal, mas precisava de tanto? Imagino hoje que tenha sido um momento de escape.
Peguei a bicicleta no quintal, passei pela lateral da casa e pedalei a toda a velocidade que conseguia. A respiração começava a ficar estável, mas eu não podia voltar atrás. Era a minha chance. Estava determinado. Não haviam mais planos, não haviam mais estudos, não havia mais Lisa, não havia mais nada. Deus não me ajudou, eu não me ajudei. Estava atrapalhando a vida de todos em minha volta. Estava sendo uma barreira, um obstáculo.
Eu não era feliz e não entendia o porquê deveria continuar vivendo se houvessem apenas tristezas.
Os três quilômetros até o abismo nunca pareceram tão longe. Meu coração nunca esteve tão acelerado. O meu corpo estava quente e não conseguia se importar com o frio intenso.
A noite começava a cair. Eu evitava olhar para os lados para não ver qualquer imagem que pudesse me faz voltar atrás da minha decisão.
A cidade ficou para trás e eu pedalava sozinho em um deserto. A escuridão caia depressa, principalmente em decorrência do céu nublado. Eu não havia colocado a lanterna na bicicleta dessa vez. Ao ver o abismo de longe o meu coração doeu e não metaforicamente. Eu não derramava mais lágrimas.
Não houve outro momento da minha vida em que senti tanto medo.
Mas eu não voltaria atrás.
Deitei a bicicleta na grama a uns metros do meu destino. Caminhei, mas ainda não à beirada.
Meus braços estavam largados e entregues.
Eu não iria destruir a vida de mais ninguém. As minhas pessoas teriam algo a menos com o que se preocupar. Eu pensava que o luto que Lisa sentiria poderia demorar longos meses, mas isso não importava mais para mim.
“Pule!”
Fechei os olhos para me preparar e vi... a minha breve vida.
Eu abracei Sofia. Era pequeno e precisava olhar para cima para poder ver seu lindo rosto. Desde criança eu, assim como qualquer pessoa, conseguia notar a semelhança entre nós. Eu me sentia parte dela por causa disso. Sofia me levou em meu primeiro dia de aula no primário. Eu não chorei, fiquei tranquilo por saber que mais tarde ela iria me buscar.
Completei dez anos de idade e ela fez a minha primeira festa surpresa. Eu não percebi isso aquela noite, mas eu me sentia a criança mais feliz do mundo. Ela me deu esse sentimento. Depois de tanto sofrimento eu percebi naquele abismo que não existia nem um bem material mais valioso do que os bons sentimentos que uma pessoa que amamos pode nos dar, porque isso era tudo o que eu queria. Lisa me deu.
Cheguei no ensino médio e vi a menina tímida se fazendo de gótica com cabelos pintados de roxo e vestindo preto dos pés à cabeça. Me aproximei e desenvolvemos uma ótima amizade. Ela e Hugo também me deram o sentimento de felicidade ao estarem comigo em meio a tantas atividades escolares.
Felicidade. Era apenas o que eu queria sentir de novo. Lisa tentou dar isso a mim após tantas turbulências, mas eu não valorizei.
Não valorizei algo que eu tinha, perdi e queria reconquistar.
O que eu estava fazendo da vida?
“O que estou fazendo”
Meu plano era, ainda de olhos fechados, andar até a beirada e cair.
Dei o primeiro passo, dei o segundo e o terceiro. Dei mais alguns. Minha mente estava a mil na péssima expectativa de não haver mais grama para pôr o pé. Não importava! Eu veria mamãe de novo e suplicaria o seu perdão, lutaria por isso.
Senti que o clima em volta mudou drasticamente. Não sentia mais o vento tão forte. Mesmo sem enxergar, senti a luz fraca do pôr do sol no meu rosto. Algo estava errado ali além de mim. Abri os olhos e vi o sol se pondo. Estava lindo. Lindo, laranja e soltando incontáveis raios luminosos. No céu não haviam mais nuvens pesadas, estava em tons alaranjados.
Eu me tremi. Era um espetáculo contemplar aquela natureza, mas não foi por isso. Nunca fui supersticioso, mas e se fosse um sinal de que eu deveria desistir de tirar minha própria vida? E se fosse... ela?
Me virei, dando as costas ao abismo para ver o ambiente atrás de mim e me assustei. O mato estava mais baixo e minha bicicleta não estava mais lá.
Olhei para todos os lados para ver se não havia alguém por perto para roubá-la.
Ninguém.
Por um instante o pensamento de cair não estava mais na minha cabeça. Eu queria saber o que aconteceu, para onde ela foi, o porquê do tempo ter se alterado tão rápido.
Observei novamente tudo em volta. Meus batimentos cardíacos não desaceleraram desde que saí de casa. Meus olhos pesavam. Eu queria chorar muito e sentia as lágrimas se formando em volta dos meus olhos novamente. Não podia ser algum sinal celeste, podia?
Olhei para o céu novamente e minhas pernas cederam. Sem perceber eu fui lentamente me ajoelhando, ainda olhando para cima.
“É você?”
— Por favor me diga, é você?
Estava completamente arrepiado, porque, apesar do questionamento, eu sentia que realmente era ela me pedindo para ficar, já que sabia que ela não desceria do céu para falar comigo. Eu também imaginava que interpretava tudo errado. Talvez não fosse impossível o tempo mudar da água para o vinho, mas eu estava começando a abraçar a ideia de um sinal para evitar minha queda. Eu estava voltando atrás, felizmente.
Fiquei novamente de pé para voltar para casa. Planejava não falar com tia Rosa, mas ser respeitoso caso ela falasse comigo. Comecei a pensar ter sido apenas uma discussão idiota.
Me recompus. Sem a bicicleta eu teria que voltar a pé para casa.
Eu só não sabia que ao voltar não iria encontrar minha tia, mas o Thomas Benson.
Eu não sabia tudo o que me aguardava.
Eu não sabia que eu já estava lá.
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