Eu não era mais tão acostumado a me mexer tanto, pois estava caído no sedentarismo; então caminhar por cerca de três quilômetros, do abismo à cidade para chegar o meu bairro, foi cansativo. Já havia escurecido quando entrei na minha rua. As lâmpadas dos postes estavam acessas e até então eu não havia percebido qualquer diferença.

Estava física e emocionante exausto, apesar que me sentia um pouquinho melhor do que como eu estava antes da discussão com minha tia. Queria chegar em casa logo, comer alguma coisa que estivesse na geladeira e dormir até o dia seguinte. Minha cabeça doía e meus olhos estavam um pouco irritados.

Eu sentia a minha pressão caindo aos poucos.

Apesar de tudo, conseguia sentir um tantinho de alegria pelo o que havia acontecido há minutos pelo abismo. Não pensava em mudar drasticamente a minha vida, mas refletia sobre o que fazer para prolongar um pouquinho mais os meus dias na Terra.

No meio do caminho vi algo que até então não era familiar: duas pessoas encostadas em um carro preto. Um era um homem careca e ao seu lado uma mulher com os cabelos loiros que olhou para mim assim que passei por eles.

Não consegui evitar olhar de volta, principalmente quando ela chamou a atenção do parceiro que me encarou também. Senti calafrios. Ambos se afastaram do veículo e vieram em minha direção.

— Ei, garoto! — a mulher loira, vestindo um terno preto, assim como o seu parceiro, gritou. Eu parei de andar e apenas os esperei.

— De onde você veio? — o careca perguntou após ele e ela pararem em minha frente.

— Do parque — menti. Não sabia o porquê, mas me pareceu a coisa certa a se fazer. — Algum problema?

— Nenhum — disse a mulher sorrindo gentilmente. — Estamos apenas interrogando a todos que passam por aqui. É confidencial. Pegue. — E me deu um adesivo. Era simplesmente um círculo vermelho. — Ponha sobre o peito. Especialmente hoje há vários de nós pelas ruas e ao verem que já foi questionado não o incomodarão. Se não quiser usar, tudo bem, mas irão parar você até o seu destino. Aliás, para onde vai?

— Para casa... O que está acontecendo? Quem são vocês?

— Não sabe? — o homem questionou nitidamente desconfiado.

— Eu deveria?

— Pode ir para casa — a mulher, ainda sorrindo, recomendou.

Nos olhamos por mais alguns segundos e resolvi me afastar logo. Eu não quis perguntar mais nada. Eles pareciam problema e não queria mais um na minha vida. Assim que me virei escutei sussurros do homem para a mulher, mas não consegui entender as palavras. Eu ainda estava com medo, confesso.

Pelo trajeto eu vi mais deles, mas não foram muitos. Pareciam vigiar pontos estratégicos do bairro. Nenhum outro me chamou, pois viam o adesivo em mim.

Não demorou para que eu visse outro detalhe curioso... As janelas da casa vazia do senhor Levi, ainda desaparecido, estavam abertas e um homem passou por elas por dentro da residência. Haviam luzes acesas na sala. O jardim lá fora estava bem cuidado. Não me importei tanto com a situação, deduzi que finalmente alguém ocupou a residência de um dia para o outro.

Finalmente ao chegar em casa, ainda me sentindo um pouco desnorteado, algo me causou estranheza mais uma vez. Haviam flores no chão em cada lado da porta de entrada. Não estavam lá quando saí. Não olhei antes de ir ao abismo, mas sei que morreram semanas após a ida de Sofia. Sabia que havia passado quase uma hora fora de casa e tia Rosa não teria plantado elas tão rápido assim. Na verdade nem havia sinal de terra revirada. Fora isso, o resto do cenário parecia estar como sempre foi.

Peguei na maçaneta da porta para abri-la, mas estava trancada.

“Merda!”

Pensei comigo ao perceber que teria que dirigir a palavra à tia Rosa para que ela abrisse a porta. Pensamento rápido, porque não precisei falar nada, apenas dei três batidas contra a madeira marrom. Ouvi passos ligeiros se aproximando e uma voz perguntou lá de dentro:

— Quem é?

Tomei um susto. Era a voz de um rapaz. Um rapaz dentro do meu próprio lar. Cheguei a olhar para os lados para conferir se estava mesmo em frente a minha casa, mas estava. Me sentia um pouco desorientado, mas não ao ponto de errar de endereço. Tia Rosa não possuía outro sobrinho. Talvez fosse alguma amiga que a visitava e levou o filho, pensei.

— Tom — respondi.

— Tom? O que deseja? — a voz fez mais uma pergunta e dessa vez a minha curiosidade foi elevada, pois era uma voz muito parecida com a minha.

— Entrar. Eu moro aqui, abre logo!

— Errou de casa.

“Quê?”

Olhei novamente para os lados e ao redor. Eu não tinha errado. Era a minha casa, na minha rua. Me afastei da porta dando ré até à calçada e vi a imagem frontal da casa. Sobre o telhado era possível ver as folhas da árvore lá do quintal. Voltei novamente à porta e resmunguei:

— Abre essa porta!

— Eu vou chamar a polícia se não for embora. Eu com o celular na mão e uma faca, eu juro. — Me arrepiei dos pés a cabeça. Foi a mesma sensação que senti no abismo, porque a voz mentia. Eu sabia disso porque era o blefe que sempre pensei em usar caso mamãe estivesse no trabalho durante a noite e um estranho chegasse em casa. Era a minha mentira. Era a minha voz.

— Qual o seu nome? — perguntei com receio.

— Não interessa! Vou ligar — ele ameaçou. Eu não ameacei também porque não estava com o meu celular. Deixei em casa antes de ir ao abismo.

— Espera, não faz nada! Eu moro aqui. Sou Thomas, Thomas Benson, sobrinho da Rosa. Ela estava em casa, cadê ela?

A voz se calou por uns instantes. Eu começava a ficar nervoso. Tudo estava estranho demais do fim de tarde a esse início de noite. A demora dele em responder iniciou uma volta, ainda leve, da minha ansiedade.

Eu estava confuso, sem respostas e trancado fora de casa. Comecei então a temer pela vida da minha tia. Ele poderia ter invadido a casa e ter feito algo contra ela. Olhei imediatamente para a maçaneta quando ouvi barulho de chave na fechadura.

O barulho parou, a maçaneta girou e a porta se abriu. Eu o vi.

Eu me vi.

“Mas que porra é essa?”

Dei um passo atrás involuntário. O olhei de cima a baixo e não acreditava no que estava vendo. Ele estava tão abismado quanto eu. Pude notar a incredulidade em seus olhos também.

Ele era igual a mim. E estava na minha casa. Atendendo a minha porta. Com as minhas roupas.

— Eu... Eu também sou Thomas Benson — disse ele. Eu via seus lábios tremerem. Os meus também estavam.

Foi o momento mais inusitado da minha vida até então. Isso não poderia estar acontecendo! Não poderia!

— Não. Não tem como existir outro, é impossível! — Falei me afastando um pouco mais.

— Eu sei. É algum irmão meu? Do tipo gêmeo? Você é real?

— Você é?

— Estou começando a ter minhas dúvidas. — Ele pôs suas mãos sobre a cabeça. — Mas não, você quem chegou agora. — Abaixou suas mãos e apontou para mim. — É o quê? Algum experimento científico? Um viajante do tempo?

— Não! — respondi em um tom de voz mais alta. — Eu moro aqui. Eu... — Pausei ao rapidamente pensar melhor em suas perguntas, principalmente na parte em que citou a viagem temporal. Eu não achava que fosse possível, mas a mudança repentina de clima e um outro eu me atender em casa me fazia questionar as minhas crenças. Eu deveria arriscar. — Que dia é hoje?

— 09 de novembro.

— De que ano?

— 2019...

Meus olhos se abriram tanto que pensei que a minha sobrancelha chegaria em meus cabelos. “Isso não está acontecendo! Não, não é possível!”

Ele perguntou:

— Você não está no seu ano certo, não está?

— Estava em 2020... — falei olhando para baixo, para o chão, como se nele houvesse alguma resposta plausível para tudo isso.

— Ãn? 2020? Entra logo, eu preciso saber o que vai acontecer, meu Deus! — Ele veio até mim, pegou no meu braço e me puxou para dentro, fechando a porta.

Ficamos frente a frente novamente. Ele era poucos centímetros menor do que eu, acho que dois ou três. Seus cabelos estavam menores e melhor penteado, além de molhados, o que me fez deduzir que havia tomado banho há poucos minutos. Ele era um pouquinho mais forte e estava cheiroso.

Eu ainda estava espantado enquanto ele sorria como se visse a oitava maravilha do mundo.

— Vem, senta! — Ele passou por mim e sentou no sofá, pegando o controle da televisão e a desligando.

Permaneci parado por um momento, ainda não crendo que eu tinha me encontrado.

“Isso está muito errado.”

— Vem! — Ele chamou de novo, ansioso.

Saí do canto e, sem piscar, o olhava com atenção. Eu não demonstrava uma boa reação, era como se estivesse vendo um fantasma sentado na minha frente. Oposto a mim, o outro Thomas ainda sorria e me apreciava com olhos curiosos. Estava vendo um menino de dezesseis anos ali.

Sentei não tentando pensar em mais nada por mais nada fazer sentido, mas falhei miseravelmente. Minha cabeça estava cheia de perguntas, cheia de teorias. No ano em que eu estava agora mamãe estava viva. Ela devia estar no trabalho.

— Qual o dia da semana? — Questionei.

— Sábado! — respondeu muito rápido, atento a mim, olhos indo e voltando para todos os lados.

“Ela trabalha mesmo, sempre a noite, será que...”

— Onde está mamãe?

— Trabalhando. Como veio parar aqui? Foi enviado? Tá rolando alguma parada apocalíptica em 2020?

— O mundo está bem lá. Quer dizer, o mundo está do jeito que está aqui. Na pousada agora, não é?

— O quê?

— Mamãe.

— Sim, ela está lá. Mas como veio parar aqui, responde por favor! Ou você não pode?

Pensei um pouco. Refleti que eu não devia falar. Alterar algo no passado sempre altera tudo, e muitas vezes para pior. É o que contam as inúmeras histórias fictícias sobre viagem no tempo. Talvez isso se aplicasse a realidade também.

— Acho que não posso contar nada.

— Droga! Tudo bem, talvez seja melhor assim. — E foi como se uma super ideia brotasse em sua mente em seguida. — Mas se você me contar eu juro não tentar alterar nada, por pior que seja!

— Eu me conheço. Você poderia tentar resistir, mas não temos certeza que vai conseguir.

— Então não vai contar nada?

— Acho que preciso comer... — Tirei os olhos dele ao sentir tontura. Os fechei passando a mão na testa. A dor de cabeça se intensificou.

Eu ainda não acreditava no que acontecia. Sabia que não estava sonhando ou tendo um delírio, porque tudo era real demais, mas usar “real demais” para definir isso tudo talvez seja surreal.

— Vou preparar alguma coisa! — Ele se levantou de imediato. Eu, ainda sentado, o vi de baixo para cima. Estava lindo. “Sei que era lindo, mas não imaginava que as pessoas me olhassem dessa forma. Eu perdi tudo isso?”

— Obrigado... — Agradeci. Meu Deus, como era estranho falar isso para mim.

— Parece mais magro, acho então que teve alguma jornada antes de chegar aqui, não foi? Andou muito? Farei algo forte para você comer. Pelo menos continuo bonitão ano que vem! — Ele foi à cozinha, ainda bastante agitado. — Quer frango? Ainda gosto de frango em 2020? — perguntou. — Tenho carne preparada, mamãe fez. Posso pegar ovos e fazer omelete de frango, ou sanduíche de frango. Ou posso esquentar a macarronada para você comer com o frango. Ainda gosta de frango? Quer dizer, ainda gosto de frango?

Senti a minha pressão baixar ainda mais e passei as mãos no rosto, aumento da dor de cabeça e depois início de tontura. Um mal estar acompanhou tudo. Minha visão escureceu de repente. Eu deitei no sofá para evitar cair. Sentia a camisa colando no corpo por causa do suor. “Frango, frango, frango...” era a palavra que rondava a minha cabeça até que eu não tinha consciência de mais nada.

Notas finais
Capítulos inéditos serão postados toda segunda-feira, as 21h! Muito obrigado por me acompanhar até aqui! ❤️