Narcisos
7 Lago
Escutei uma voz distante me chamar.
Era a minha.
Sentia dedos em meu rosto e cabelo. Depois os senti em meus ombros, me chacoalhando com cautela. As imagens começaram a ganhar forma e percebi que estava deitado no sofá de casa. Meu eu se afastou por um instante e sorriu aliviado. Por um segundo o pensamento antigo de que o acontecido sobre viagem temporal fosse um sonho fez sentido, mas voltei a realidade bem rápido. Eu me via sorrindo para mim. Não era uma ilusão, era eu, em carne e osso, um ano mais jovem.
— Consegue me ouvir? — ele perguntou.
Assenti, um pouco tonto ainda, mas recuperando depressa os sentidos. Perguntei com a voz sonolenta:
— Por quanto tempo apaguei?
— Por dois minutos. Foi queda de pressão, não foi? Ou tomou algum remédio antes de vir? Talvez tenha sido efeito colateral da viagem temporal. Isso é tão legal! — Ele olhou para cima ainda sorrindo. — Eu sou um viajante do tempo! Eu sou um viajante do tempo!
Ainda deitado e com muito calor, sentia meu corpo amolecido, o que me fez continuar pelo sofá. Eu admirei o outro Thomas e ele estava tão feliz! Seu sorriso era lindo, seus olhinhos brilhantes me deixaram hipnotizado por um instante. Ele era belo e vivo. Ele estava de pé em frente ao sofá me assistindo com admiração.
O nó voltou a apertar a minha garganta assim que vi a imagem de mamãe em seu rosto. Ela estava viva. Ela estava bem.
Eu achei forças para me sentar e deixei as lágrimas caírem de vez. Desabei ali. Estava entregue e diante de uma nova chance, de uma nova vida.
Estiquei os meus braços e o puxei, abraçando sua cintura e encostado a testa em sua barriga. Eu sentia suas mãos acariciando meus cabelos tentando me confortar e dizendo que tudo ficaria bem. Ele tinha um cheiro tão bom, eu umedeci sua camiseta com minhas lágrimas, mas eu não me importava e ele parecia não se importar também.
Eu queria agradecer pela chance que eu tinha agora, mas não sabia a quem. Eu e mamãe poderíamos ter uma ótima história daqui pra frente. Ela me veria terminar meus estudos. Me veria cursar uma faculdade e comprar uma casa maior para ela. Sofia me veria casar e lhe dar netos, me veria lhe dando conforto e cuidados em sua velhice.
Afastei minha cabeça da barriga de Thomas e ainda o abraçando olhei para seu rosto lá em cima, com o sorriso doce que há mais de ano eu não via.
— Preciso ver mamãe. Eu preciso muito vê-la agora! Vou à pousada.
Ele tirou suas mãos da minha cabeça, se abaixou e ficou face a face comigo, me alertando:
— Você não pode. Eu perguntei se era algum experimento, mas eu pensei melhor. Não foi, não é? Você não chegaria batendo na porta e se surpreendendo comigo se tivesse sido enviado. Então acho que não deveria nem estar falando comigo, quanto mais com ela... Nossa conversa agora é um...
— Acidente? — sugeri e ele concordou. — É, talvez seja, mas eu quero muito ver mamãe. Eu preciso disso mais do que tudo no mundo!
Vi a sua expressão mudar. Seus olhos buscavam respostas nos meus. Ficou preocupado com a minha insistência.
— O que vai acontecer com ela? — questionou.
Não respondi. Não consegui falar nada de imediato, apenas o encarava sentindo os olhos ainda pesados e dor de cabeça. Nenhuma palavra conseguiu sair. Ele não desistiu, queria uma resposta minha. Na verdade, queria várias respostas.
— O que vai acontecer? É hoje? Essa noite? Por favor, me diz que a gente pode dar um jeito! Se você não puder, eu tento! O que vai rolar com mamãe?
Novamente eu não consegui. Não era difícil falar do ocorrido que tirou a vida de mamãe, era difícil falar para o Thomas que o Thomas seria o responsável por tudo. Que o Thomas já tinha sido o responsável. Eu, como um covarde, conversei várias vezes com a minha imagem no espelho e falei coisas terríveis para mim, e agora não conseguia nem ao menos falar para ele sobre a tragédia.
“O que está acontecendo comigo?”
Como em um reflexo tardio, tentei mudar de assunto:
— Você disse que ia fazer alguma coisa de carne.
— De frango!
— É, estou com fome. Preciso repor minhas forças.
— Não vai querer falar nada agora?
Olhei para um dos cantos da sala, demonstrando que não queria. Limpei as lágrimas do rosto com as mãos e ele voltou a se levantar.
Minha cabeça estava a mil. Me sentia um covarde novamente. “Ele é só um espelho! É só um espelho! É só um espelho! Fale!”
Thomas virou as costas para ir à cozinha e peguei em sua mão imediatamente. Ele se virou novamente para mim e fiz um sinal com a cabeça para que ele sentasse ao meu lado. Foi o que fez. Então lhe expliquei:
— Eu não sei como vim parar aqui. Estava em um lugar e...
— Que lugar? — ele me interrompeu.
— Não importa agora. — Eu não queria que ele ao menos pensasse em ir naquele abismo.
— Está bem... — Thomas tentou ignorar com certa resistência.
— Estava em um lugar e o “ar” mudou. O céu não parecia o mesmo de antes. Pisquei e tudo estava diferente. Vim para esse 2019 de repente, o que significa que talvez eu volte de repente também e por isso preciso abrir o jogo com você antes que seja tarde demais.
Ele me escutava com bastante atenção, concentrado e curioso.
— Mamãe vai morrer em junho do ano que vem.
Seu queixo foi caindo como se quisesse tocar o chão. Ele ficou pálido assim que lhe joguei a bomba:
— Eu fui o responsável.
Ficamos calados por um instante. Ele não tirava seu olhar do meu, me encarava com incredulidade e eu começava a sentir um frio na barriga, torcendo para que ele perguntasse qualquer coisa porque eu não estava mais conseguindo focar na continuação do diálogo.
Thomas finalmente abriu a boca.
— Responsável? Eu? — Ele se aproximou um pouco mais e eu percebia um semblante tristonho surgindo bem mais notável que antes. — Foi... — Ele engoliu a seco — proposital?
— Não! Mas a culpa é minha, de qualquer forma...
Lhe contei então como tudo aconteceu.
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Estava nublado e foi em uma sexta-feira a tarde, mais especificamente dia 5 de junho de 2020, e fazia tanto frio! Mas eu queria sair. Tínhamos marcado que após irmos à escola iríamos almoçar e ir ao lago, localizado no sul da cidadezinha.
Mamãe começou a mudar de ideia por causa do clima, poderia cair uma tempestade e só Deus sabe o que iria ocorrer em seguida. Os temores dela estavam certos. Intuição de mãe não costuma falhar.
Havíamos planejado tudo há semanas e fiquei insatisfeito de desmarcar o passeio, não fazendo questão de esconder a irritação. Mamãe argumentava comigo, que poderíamos ir em outro dia quando o vento não estivesse tão forte, mas eu queria porque queria. Queria ter uma tarde diferente e talvez o sol até aparecesse para nós.
Ela cedeu.
Nos arrumamos e fomos ao lago. Ela não demonstrava mais nenhuma preocupação, mas hoje acredito que ela estava apenas disfarçando para não me deixar insatisfeito.
Eu fui mimado demais naquele dia e paguei caro por isso.
As canoas estavam disponíveis para aluguel, mas o dono delas aconselhou que fôssemos rápidos, pois o “tempo é traiçoeiro.”
Conversamos e damos boas risadas. Ela era ainda mais linda quando sorria. Chegou a ficar nervosa quando a canoa balançava, porque tinha medo daquela coisa virar. As águas estavam agitadas por causa do vento que ficava mais forte. Remamos sem destino, apenas seguindo cada vez mais fundo. Estávamos os dois com coletes salva-vidas.
Vimos que o céu estava a cada minuto mais cinza e melancólico. Eu olhava para cima e comecei a sentir certo receio. Não foi o tempo que eu queria ficar ali, mas pelo menos foi alguma coisa.
Ela achou melhor voltar e concordei dessa vez. Já era comum vermos pequenas ondas se formaram.
A correnteza estava forte.
Enquanto eu remava, abri as pernas e encostei os pés nas laterais, um de cada lado, fazendo movimentos para que a canoa balançasse ainda mais, pois estava divertido ver mamãe assustada com algo aparentemente inofensivo. Ela, ainda sorrindo um pouco nervosa, me pedia para parar.
De longe, e cerca de uns cinquenta metros, eu via o dono da canoa dando sinal para nós, nos pedindo para voltar à margem.
Por estar perto, achei que não houvesse mais perigo.
Desde cedo e ainda sem perceber, eu cavava a cova de Sofia e a levava para o seu sepultamento. Ela foi uma vítima da minha insistência e da minha rebeldia.
Começou a chuviscar.
A correnteza ganhava mais força até que ficou mais difícil remar. Ela tentava também chegar segura em terra, e por isso, bem mais preocupada do que eu, remava forte.
Após fazer uma força, o remo que estava em minha mão direita simplesmente quebrou, mas me inclinei tão rápido para pegá-lo que caí na água em uma balançada da canoa.
A correnteza foi me arrastando para trás. Nós sabemos nadar, Thomas, mas estava mais forte do que eu.
Mamãe se desesperou e o dono das canoas pegou uma que estava próximo a ele para tentar vir ajudar.
Ela pegou um dos remos e o esticou para que eu o pegasse e consegui, mas nesse momento, com o lago mostrando de sua ferocidade e o meu peso do outro lado da madeira, ela caiu também. Com a cabeça acima da linha d’água, gritei por ela quando a canoa vazia era arrastada por cima de nós, atingindo a cabeça dela, que desmaiou no mesmo instante, pois percebi que parou de se debater.
Seu corpo boiava de bruços enquanto a água invadia os seus pulmões.
Fui até ela e tentei erguê-la, mas eu não conseguia, estava sentindo o lago me levar para mais distante ao mesmo tempo que me puxava para as profundezas, o colete que não permitia.
Eu nunca me senti tão desesperado em toda a minha vida. Não consegui racionar direito, não conseguia me mexer direito. A falta de domínio sobre o meu próprio corpo me deixava em agonia.
O dono chegou depressa, pois estava a favor da correnteza. Ele guardou logo o celular, pois no caminho ligou para uma ambulância ao perceber que a situação ficava desastrosa para mim, e principalmente para ela.
Ele me pegou pelos braços, firme sobre o barco, e me puxou para dentro, o que me fez largar mamãe involuntariamente.
Eu estava exausto e só tinha forças para demonstrar meu desalento e preocupação. Minhas lágrimas se perdiam na umidade do meu rosto.
Ele remou para mais distante e também puxou o corpo de mamãe para dentro da canoa...
Por coisa pouca, eu perdi muito.
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— Tentamos de tudo, Thomas, mas nada adiantou. Eu fiquei... nem sei descrever como eu fiquei. Eu e o cara tentamos reanimar ela, mas mamãe não dava sinal, não me dava retorno. Ele nos levou até a margem e não demorou para uma ambulância aparecer. E depois... Depois recebi a notícia de que ela tinha partido.
Thomas segurava a minha mão e ele chorava, também silenciosamente.
Não esperava um ato de ódio dele contra mim e eu estava certo. Thomas me abraçou, apoiando o queixo em meu ombro.
Foi o abraço mais acolhedor que recebi depois de muito tempo. Eu fiquei em silêncio o abraçando de volta. Foi horrível ter que lhe contar toda a história e reviver cada momento, relembrar do último olhar que Sofia lançou para mim: um olhar desesperado e doloroso.
Conviver com toda a cena em minhas memórias foi a segunda pior coisa que já aconteceu, e eu sabia que iria lembrar de tudo pelo resto da vida, não importando se ela seria longa ou não...
Thomas, sussurrando em meu ouvido, me prometeu:
— Não vou deixar isso acontecer, confie em mim, está bem? O seu futuro está guardado comigo. E ela está salva agora.
A partir desse momento eu confiei que o meu destino estava seguro e que mamãe poderia viver por longos anos no meu futuro, só que não pensei de imediato que não era assim que as regras funcionavam...
O tempo é traiçoeiro.
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