08 de novembro de 2020.


Havia água por todos os lados. Era escuro e eu não conseguia ver o azul do céu, tão pouco qualquer vestígio da luz do dia. Ao longe escutava seus gritos agonizantes a me chamar, clamando por socorro, mas a correnteza era forte demais. Eu tentava me aproximar e mal conseguia mover qualquer músculo do meu corpo frágil.

Eu não fui o suficiente.

Assim que despertei me veio a sensação de fadiga. Como de costume eu não queria me levantar, tanto que passei mais de uma hora deitado, assistindo o YouTube pelo celular e com fome, mas sem disposição para preparar o café da manhã. Se não me falhe a memória era domingo, o que elevou a minha indisposição. A janela do quarto estava fechada, mas eu percebia que fazia sol lá fora pelo calor que eu sentia por debaixo das cobertas.

Era costume meu ficar deitado em uma mesma posição por muito tempo, o que me fazia sentir que eu era parte daquela cama. Quando eu me tocava disso, sentia uma angústia que, na hora, era inexplicável para mim. O calor aumentava, sentia os olhos pesarem pela repentina — porém fraca — vontade de chorar pela agonia por estar nessa situação por mais um maldito dia!
Resolvi me mexer.

Me levantei quando a fome aumentou e senti a minha pressão baixar, mas nada ao ponto de me fazer desmaiar, apesar da visão ter escurecido por alguns poucos segundos. Eu estava vestido por uma bermuda de tecido fino. Estava descamisado e ao olhar para o lado vi o espelho na parede, próximo à cama. Conseguia me ver por inteiro e não gostava daquele reflexo. Era a imagem de um rapaz mais magro que no ano anterior, com os ossos marcados nas costelas. Ele estava nitidamente abatido e sem estímulos. Os cabelos um pouco longos, mesmo que ainda não chegando a alcançar os ombros. As olheiras aparentes denunciavam a insônia durante as noites. Era apenas um coitado.

Com um pequeno esforço continuei me olhando para tentar acumular um pouco mais de desprezo. “Oh, Tom... Por que ainda está aqui?”

Peguei uma camisa cinza que estava entre os lençóis e a vesti.

Olhei ao redor e o quarto, de paredes azuis, estava bagunçado, pois eu não tinha uma disposição para arrumar o cômodo inteiro. Nem me aproximei do guarda-roupa, no pé da cama, para não visualizar a falta de arrumação que havia dentro.

Respirei fundo e me encaminhei até a porta. A abri e já me encontrava na sala. Minha tia assistia televisão, algum programa jornalístico falando de mais uma tragédia que aconteceu na capital do estado.

Tia Rosa — que apesar do nome, não era flor que se cheire, era a responsável legal por mim até que eu fizesse dezoito anos de idade. Faltavam poucos meses, então não iria demorar para me livrar dela. E ela de mim.

Bem, eu a julgava porque ela não gostava de mim, mas sinto que não deveria. Ela tinha seus motivos. Se eu não sou meu fã pelo que eu fiz, por que ela seria?

Ela me ouviu saindo do quarto, mas não falou nada e manteve a atenção no noticiário. Ainda bem. Sua voz me irritava, ela me irritava. Sabia que o sentimento era recíproco. Nós, no entanto, vivíamos escutando a voz um do outro em boa parte do tempo quando estávamos em casa, não apenas por morarmos juntos, mas porque ela fazia questão de tocar na minha ferida direta ou indiretamente. Era um relacionamento complicado...

Na cozinha fui à mesa limpa e vazia, o que logo me causou um elevado estresse. Sim, sei que minha tia não iria preparar o meu café da manhã, mas, assim como quase todas as manhãs, chegar à conclusão que eu teria que fazer esse pequeno esforço tão cedo me fazia sentir mais angústia, o que, consequentemente, me despertava uma raiva.

Eu não parava para analisar o quão bobo isso era, mas eu simplesmente não conseguia controlar o que havia dentro de mim, eu não conseguia controlar mais nada; apenas respirava fundo e metia a mão na massa, isso se eu tivesse o mínimo de disposição. Preparei um suco de laranja e um sanduíche de presunto. Sentei e comi.


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O dia, como de praxe, estava desinteressante; apenas esperava o fim de tarde para me encontrar com a Lisa, a minha única amiga até então. Acredito que não seja nenhuma surpresa se eu disser que não estava com vontade de sair, mas eu tinha prometido um encontro e mais de uma vez, tudo por causa da chatice da garota. Lisa insistiu para que eu pusesse o pé fora de casa algum dia até que finalmente cravou uma data, a de hoje.

Não contei que eu ia ao abismo quase todas as noites, mas não faria nenhuma diferença, teria que “espairecer” em um fim de tarde, segundo ela; ver o sol se pôr e essas coisas banais que todo mundo acha que vai resolver tudo só porque são bonitas.

Enquanto o momento não chegava, fiquei o início da tarde deitado na grama do meu quintal.

O ambiente era espaçoso. A grama já estava mais alta do que deveria. Tia Rosa até cogitou chamar um jardineiro para deixar tudo arrumadinho, mas não passou de palavras. O quintal era cercado por uma cerca alta de madeira e haviam flores amarelas no chão, encostadas nos cantos. Ao centro de tudo, uma casa da árvore que eu tinha desde a infância. Cabiam umas três pessoas lá dentro. Era azulada com um telhado marrom. Na parte frontal havia a porta pequena com uma escada de corda pendurada através do tronco da grande árvore sem frutos. Ela fazia uma sombra abençoada! Com seus enormes galhos abraçando a casinha, ela se destacava em meio à vizinhança. Da frente de casa era possível ver suas folhas verdes no topo. Diferente de tudo a sua volta, ela não parecia envelhecer.

Encostada ao tronco, minha bicicleta.

— Ainda acho que seria uma boa ideia cortá-la — disse tia Rosa através da porta da cozinha. Não virei meu rosto para vê-la. Devia estar com a mesma blusa branca da manhã. Não sabia se estava apenas passando e me viu, até que percebi sua voz, estava diferente. A mulher estava comendo algo. Devia ter parado para receber um ventinho também.

— Eu já disse que não quero — rebati. Apesar da escolha de palavras, minha voz estava mansa.

— Você nunca quer nada. — Ela também falava com calma. Queria ver sua expressão, mas a falta de vontade de encarar a criatura era maior. Permaneci com meus olhos para o céu. — Poderia usar o espaço para construir alguma oficina, sei lá. Pensar em ganhar algum dinheiro. É nisso que as pessoas pensam e estão certas em pensar assim. A pensão de Sofia e os seus dezessete anos não vão durar para sempre.

— Eu espero mesmo que não. Nascemos com prazo de validade, eu sei... Já escutei isso.

— Às vezes esse prazo é antecipado. — Era mais que óbvio para mim o que ela insinuava. — É por isso que deveria pensar em crescer. Você já não fala mais como uma criança, Thomas, seria bom, não sei, pensar em crescer em atitudes também. Ou tanto faz. Não cabe a mim decidir o seu rumo, não é? O que acho uma pena. Seria interessante ver o meu sobrinho focado.

Ouvi passos se distanciando e não mais a voz fina dela.

Fechei os meus olhos e engoli suas palavras a seco, mais uma vez.

“Deixe que tudo entre.”

Em seguida me veio uma vontade danada de chorar, mas engoli o choro também. Eu já estava me achando feio há um tempo, chorar pioraria a minha situação e meu rosto não ficaria tão inchado para quando eu me encontrasse com Lisa logo mais. Pensei que seria mais adequado guardar qualquer sentimentalismo para o meu canto escuro, refletir de alguma forma sobre o que tia Rosa falou. Refletir sobre esse meu possível crescimento.

Mais do que nunca o mundo me dava medo. Eu não queria encarar ele e sabia que as palavras dela entraram em um ouvido para sair pelo outro, principalmente usando a desculpa que ela usou de palavras venenosas.