Narcisos
3 Encontro
08 de novembro de 2020.
“Em um instante estarei em casa de novo.”
Pensava ao montar na minha bicicleta para me encontrar com Lisa. Eu estava na frente de casa, pondo o pé direito sobre o pedal para gerar impulso. Usava um sapatênis e calça jeans, ambos pretos, e uma camisa vermelha sem estampa. Meus cabelos úmidos — se era por causa de água ou oleosidade, deixo a cargo de sua interpretação — estavam penteados para trás. Eu estava cheiroso. Antes de sair me olhei no espelho após ficar pronto e me achei bonito.
Antes de todos os acontecimentos eu me achava lindo. Era difícil passar em frente de qualquer superfície refletora e não me observar por um segundo, seja para me admirar, para ver se algum fio de cabelo estava fora do lugar e todas essas besteiras vaidosas. Não posso dizer que pensava o mesmo depois que me deixei lado.
Iniciei a pedalada enquanto tia Rosa permanecia em casa.
Em alguns minutos o sol começaria a se pôr então o clima já não estava mais tão quente. O vento fresco era bem-vindo.
Nunca gostei de pedalar em alta velocidade, então seguia com calma para o meu destino observando tudo em volta. A cidade não era grande e nem tão movimentada. Pelo percurso via senhoras reunidas conversando na calçada de alguma delas e crianças brincavam de alguma coisa boba envolvendo corrida. A vida parecia tão simples para eles. Talvez fosse e, se não, eu desejava do fundo do meu coração que pudessem passar por qualquer problema, menos psicológico.
Eu sei, todo mundo terá um momento assim um dia, mas era mais reconfortante imaginar que todos em volta, conhecidos e desconhecidos, estavam bem consigo mesmos.
Continuei a minha trajetória sem perceber que já estava um tantinho animado, ou algo semelhante. Só sei que não me sentia mais tão indisposto. Não era como se eu quisesse de fato ir ao encontro, mas não estava mais reclamando mentalmente por ter esse compromisso. As coisas pareciam agradáveis por um momento; acho que foi a pedalada, gostava de fazer isso, tanto que, sinceramente, nem conseguia me interessar em ter uma moto por enquanto.
Nada pela cidade parecia fora do lugar. A pousada onde mamãe trabalhava no turno da noite estava aberta e ficava assim vinte e quatro horas por dia. Ainda era um pouco difícil passar por ali. As vezes eu ia visitá-la e a via tomando conta da recepção. Levava algum lanche que eu mesmo preparava. Ela ficava feliz.
Tirei logo o meu olho do prédio e segui meu percurso.
Minutos antes de chegar no parque passei pela casa vazia do senhor Levi. Ele era um senhor de aproximadamente cinquenta anos de idade que desapareceu em 9 de novembro de 2010. O aniversário de desaparecimento seria no dia seguinte. Foram semanas de buscas. Os filhos, desesperados, estavam sempre divulgando o ocorrido na esperança de receberem qualquer ligação com alguma pista de onde ele pudesse estar. Ninguém ligou.
A casa estava vazia desde então. De vez em quando alguém ia limpar. Eu não sabia mais se era a filha dele ou se ela mandava alguém, mas tudo ficava do jeito que estava antes do Levi sumir.
Claro, devo confessar que a maioria dos cidadãos, eu incluso, achava que ele estaria morto em algum ponto longe da cidade, provavelmente só seus ossos restavam agora e talvez nem isso.
Descobri um dia depois o possível paradeiro do senhor Levi...
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Quando entrei no parque, ainda sobre a bike, me lembrei dos bons momentos de passeio que tive, seja com mamãe ou com antigos amigos. Era legal escutar o som das folhas das árvores balançando ao passar do vento enquanto jogávamos conversa fora. A atmosfera do ambiente era perfeita para isso, para comemorações, para uma cochilada e tudo que seja agradável ao ser humano.
Lembra de quando falei que achava estranho o pessoal não ir ao abismo para suprir seus desejos íntimos? Minha teoria é que só não iam por medo de caírem mesmo, porque não era exatamente difícil encontrar preservativos e latas de cerveja jogadas pelos cantos vez ou outra, pois o parque é sempre aberto e enorme.
Haviam inúmeras árvores de inúmeras espécies, vários arbustos floridos por todas as partes, um mais lindo que o outro; bancos de metal e madeira; tudo o que qualquer parque ecológico tem direito. Vários caminhos, tanto de paralelepípedos quanto de barro.
O espaço era gigante, então era seguro pedalar por ele sem ter o risco de bater em alguém. Ah, devo mencionar que, apesar de uma coisa ou outra jogada pelos cantos, estava sempre limpo, pois era o principal ponto de encontro das famílias e dos grupos de amigos.
Avistei a grande fonte com pessoas sentadas no gramado em volta dela e uma dessas era a Lisa. Não era difícil notar a menina porque ela, nessa época, tinha o cabelo pintado de vermelho. Cheguei próximo e ela sorriu para mim.
Deitei a bicicleta ao lado direito dela e sentei ao seu lado esquerdo. Lisa parecia feliz. Talvez a fonte bonita em frente a tivesse deixado assim. Era tão azul! Era calma e não representava perigo para ninguém. Fragmentos dos últimos momentos de mamãe piscaram em minha cabeça. Ao centro havia um simples chafariz jogando água para todos os lados. Não era grande coisa quando se tratava de decoração, mas era o que tínhamos.
— Se sente melhor? — ela perguntou olhando em meus olhos. Talvez não quisesse ouvir um mentiroso “sim”, então precisaria de uma verdade vinda de dentro de mim. Ela tinha dessas manias.
— Por enquanto, sim. — Joguei meu olhar para a fonte. — Não sou a pessoa mais feliz do mundo, mas neste momento me sinto tranquilo. E você?
— Eu me sinto viva. Recomendo.
— Obrigado pela recomendação, minha depressão foi curada agora — ironizei sorrindo para não parecer tão arrogante.
— Tom, você estaria melhor se procurasse ajuda psicológica... de um profissional. Tem condições de pagar. Mas não adianta eu falar sobre isso pela milésima vez porque vou ser ignorada, não é, amorzinho? — Odiei ela ter ido direto para esse assunto.
— Não toca nesse assunto, por favor! Não vim aqui pra isso. Se você veio, perdeu seu tempo. Se quer me ver bem de verdade, a gente pode burlar as regras daqui e tomar banho na fonte, na frente de todo mundo.
— Pode ir. Vai ser legal te ver tirando a roupa.
Eu ri.
— Só tiro para mim.
— Triste, mas voltando, também não vim aqui para falar dos seus sentimentos, a não ser que queira, vim aqui para mostrar a você, o teimoso, que existe lugar fora do seu quarto. Não é o mundo todo, mas é alguma coisa. — Lisa fechou os olhos se mostrando decepcionada. — Não era o discurso que eu queria fazer. Ele era mais longo e motivador, eu acho.
E olha que ela disse que não queria falar sobre sentimentos...
— Então a senhorita está tirando momentos do seu tempo preparando discursos pra mim? — Sorri mais uma vez por achar a atitude dela fofa. — Lisa, para com isso. Não quero ser ingrato, mas está perdendo o seu tempo... Não se preocupa tanto comigo, está bem? Sou quase um adulto e vou me virar, ando bem mais focado e estou até estudando. É fim de ano e daqui a pouco começam as provas daquela maldita escola. Quero um oito. Se eu chegar a uma nota nove, perfeito!
— Seus olhos entregam toda a mentira que sai da sua boca. Não nasci ontem, Tom.
— É uma pena, porque não estaria falando agora. — Pus a mão em suas costas e puxei um fio de seu cabelo vermelho. Ela não expressou um pingo de incômodo. Ela era boa.
— Eu vim aqui para ter uma conversa chique sobre paz e reflexão, mas você não me ajuda, desperta a minha face audaciosa e não gosto disso. Tenho saudades da sua também, a propósito.
— Minha face audaciosa não existe — brinquei.
— Deve existir dentro do seu quarto para gostar tanto de ficar nele.
Revirei os olhos nessa hora. Ela parecia não entender. Ninguém nunca parecia entender. Eu não gosto de me mexer para socializar porque no fim das contas estarei tão sozinho quanto se eu permanecesse isolado.
Lisa percebeu o meu incômodo, então desabafou:
— Olha, Tom, eu não sou nenhuma psicóloga. Eu não posso, eu não consigo te ajudar além de fazer uma piada sem graça para te ver sorrir; não consigo te ajudar além de querer estar perto de você e sei que não me pediu nada disso, mas eu não posso ficar sem tentar fazer qualquer besteira que seja para te ver mais leve, porque eu tenho medo de onde você pode chegar. Eu tenho medo de que um dia chegue a notícia de que... De que caiu. — Ela pôs a mão em meu braço, o apertando forte, olhando fixamente em meu olhar. — Eu só quero que um dia você chegue pra mim e diga “sabe a minha vida? A que ainda tenho chance de viver? Eu vou tentar”. Eu só preciso que se cobre menos e que se ame mais.
— Lisa, eu...
— Eu sei que é fácil falar, eu sei, fácil demais... mas é a única coisa que está em meu alcance agora.
Lisa largou o meu braço, respirando fundo e olhando para o chão. Eu senti dó naquele momento. Comecei a ficar um pouco triste ao vê-la rapidamente abalada. Infelizmente minha atenção foi mais em suas expressões faciais do que em sua mensagem.
— Lisa, eu agradeço por tudo, mas, mais uma vez, peço que pare. Essa luta não é sua. Não precisa se desgastar, ok? Eu me viro, prometo! — Cruzei os dedos em um sinal de promessa, de uma falsa promessa.
— Tá bom. Vou acreditar. — Eu sei que ela não acreditou. Como eu disse, ela era boa. — Mas você sabe que pode me chamar, não sabe? A qualquer momento. Porque se fizer alguma besteira, faço uma maior com você. Tom, eu juro! Não ri! Tô falando muito sério.
— Mas a meta não era me fazer rir? — Cheguei mais perto e abracei a sua cintura. Ela apoiou sua cabeça em meu ombro.
— Era. É. Você fica mais lindo sorrindo.
Foi um bom fim de tarde, um dos melhores que eu tive em meses. Era bom ver um rosto bonito com uma alma boa. Lisa era assim. Nos conhecemos há uns dois anos e, ao lado de Hugo, éramos um trio imbatível, ou nem tanto. Infelizmente Hugo se afastou de nós pouco após o início do meu luto. Foi outro baque, mas desse consegui me levantar mais depressa. Não me importa tanto hoje. Quando o vejo pela escola me bate uma saudade, mas sigo minha vida sem ele. Não tenho tudo o que preciso ou o suficiente, mas tenho uma coisa boa e se chama Lisa.
Sei, eu falei lá no início que estava sozinho porque queria, mas ainda era verdade. Eu não tinha planos de fazer Lisa absorver meus tormentos também. Queria que ela ficasse longe de qualquer sentimento ruim vindo de mim.
Eu a queria feliz.
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