Notas iniciais
Oi oi gente! Bom, este capítulo foi mais bem planejado que os dois anteriores, espero que gostem! Sem delongas, boa leitura! Ah, sei que bastante pessoas acompanham essa fic, porém não tem interagido muito com o autor. O que há meu povo, amo vocês! ♥ Preciso de seus comentários com criticas para saber se estou errando ou acertando com a história... :/

[...]

É engraçado como

As coisas funcionam

Uma ironia tão amarga

[...]

Você tem muita coragem

Mas não tem espinha

[...]

True Friends – Bring Me The Horizon

I

A mesa já não mais ostentava tantos bibelôs. Os adornos que lhe atribuíam simpatia viam-se desfalcados pela falta de poucos que, em conjunto, denotavam certa diferença – no entanto Ruy pouco se lembrara de qualquer um em especifico. Não obstante, atentou-se novamente ao animal que lhe havia chamado à atenção naquela fatídica manhã.

O colchão ainda figurava na sala apertada, próximo aos pés inquietos de Ruy. Sobre ele pairava uma confusa falta do que era esperado – não se via presente o corpo de Sara. De qualquer forma ainda se era apresentado da mesma maneira: um fino lençol – o qual cobria parte do corpo da jovem – enrugara-se por toda a extensão do revestimento.

Desviou sua atenção ao anfitrião. Raul estava de pé logo atrás do balcão da cozinha, disperso em uma corrente pessoal de pensamentos os quais negligenciavam a presença de Ruy.

A falta de atenção com o convidado lhe assegurou certa discrição; calado, com as mãos entrelaçadas entre os joelhos, buscava uma maneira eficaz de burlar o desconforto e conter o nervosismo. Empenhava-se em não transparecer as reais sensações de estar novamente ali, naquela sala. A aparente não desconfiança de Raul para com as intenções daquele que permaneceu durante longos períodos a frente de seu apartamento trancado favorecia Ruy em sua defesa.

As janelas permaneciam entreabertas, permitindo a iluminação parcial de todo o ambiente, estendendo-se desde o âmbito o qual estava, contornando a cozinha e permeando o pequeno corredor que levava ao que ainda não era conhecido pelo convidado. Assim como lembrara – além de Sara, obviamente – os cômodos eram aconchegantes e diminutos. Abertos e arejados. No entanto, diferentemente do dia em que acordou ao lado da morte, o lugar muniu-se de uma atmosfera convidativa – não mais eram paredes frias e espaços vazios que confidenciavam solidão.

Havia algo que consolava os receios de Ruy perante as desconfianças sobre si.

Julgou ser a vivacidade de Raul.

Procurou pela foto junto aos bibelôs em uma repentina inquietação. Mesmo não tendo ainda despertado qualquer questionamento racional de Raul, Ruy preocupava-se com explicações; conclusões. Ansiava por respostas. Não se contentava apenas com a segurança momentânea que sentia, precisava entender o que havia acontecido. Em uma busca rápida, não demorou por sentir a falta do sorriso eternizado da jovem.

Direcionou o olhar para Raul, o qual lhe fitava com olhos semicerrados. Assustou-se com o afronte e imaginou, por um instante, ter tido os pensamentos invadidos por um questionador incisivo. A culpa o fazia temer com seus pensamentos gritantes e acusadores. Procurou não fugir ao encare.

Como homem, gozava da prerrogativa do ser racional – pensar, imaginar, discutir em uma voz única e não compartilhada. Porém Raul parecia partilhar da mesma voz. Ruy temia que seus pensamentos ecoassem além das barreiras da prudência e desaguassem, como enxurrada que a tudo leva, naquele que lhe despertava o interesse.

A pupila dilatou-se à parte de sua atenção. Os pés, antes firmados no chão, se suspendiam em uma nuvem lúdica e densa de desespero. O cabelo estava molhado em poucos pontos e o calor, antes não sentido naquela agradável manhã – em um aspecto meteorológico – permutava os tecidos de Ruy. Observou-o movimentar os lábios como presságio do que estava por dizer.

Temeu qualquer cobrança.

–Expresso ou Macchiato? – Inquiriu.

Sobreveio um suspiro por parte de Ruy, que antes se viu acuado. Perpendicular ao aliviamento se deu o sentir do contato frio de algo próximo ao calcanhar direito.

Sobre o colchão, Sara ainda questionava o vazio.

II

Pouco notou o tardar do dia. Imaginou o quão lindo poderia estar o sol além das persianas fechadas, estas que asseguravam um ambiente escuro e instigante. Deduziu que os ponteiros do relógio – o qual podia ouvir em sons frequentes e característicos vindos da cozinha – já apontavam meio-dia. Estipulou meia hora como taxa de erro.

A cama estava estranhamente fria. Os dedos de Bárbara pousavam sobre o colo enquanto os cabelos esparramavam-se pela adorada extensão do travesseiro. A calcinha úmida remetia o prazer buscado anteriormente, causando em Bárbara um sentimento de culpa comum ao pecado.

Em estado de inércia fitava o escuro, não sabendo em alguns momentos se ainda estava com os olhos abertos. Sentindo o pesar das pálpebras, não sabia dizer se havia dormido – estava em transe, era como definia para si mesma. Os lábios secos estavam levemente afastados, permitindo a permuta dos ares quente e frio entre os meios. Os seios livravam-se do enrijecer característico do desejo – não havia se desligado por muito tempo, concluiu.

Levou as mãos ao cabelo onde, cuidadosamente apanhou todos os fios esparsos, levando-os em uma única direção – sobre os ombros, as pontas se findavam no meio da altura dos seios. Bocejou como reflexo do cansaço e contraiu os pés. Com o movimentar da perna, acabou por bagunçar toda a extremidade inferior do lençol.

Com um impulso único e ajuda dos braços, se sentou na borda da cama. Não procurou por seus sapatos, pois ainda os sentia nos pés; não os havia os retirado ao pousar sobre o colchão. Olhou para o lado sem razão aparente, buscando a estabilização dos sentidos. Recomposta, levantou-se do leito e guiou-se através da luminosidade vinda, provavelmente da cozinha – banheiro talvez.

Estava de pé diante da sala, onde pôde ver a camisa abandonada sobre a poltrona – Ruy ainda não retornara. Tentou por si mesma não esboçar qualquer descontentamento, porém a falta do mesmo era visível em sua previsibilidade – Bárbara se importava e não conseguia esconder.

Ele lhe provoca o mistério. Ela não o ama, tem clara certeza disso. Dentre todas as suas incertezas, o amor não é uma delas. Não ama a si mesma; não se engana com isso. Bárbara buscava em Ruy algo que faltava a si própria – elemento o qual não lhe cabia descrição. Ela sabia sobre ele o que nem mesmo Ruy sabe sobre si. É um grande paradoxo existencial.

Intencionais eram suas ações. Todas elas: claras e objetivas. Tinha um intuito, uma finalidade. Foco, principalmente. Não batera por vaidade naquela porta durante aquela manhã. Apercebera a demora de Ruy para chegar a seu apartamento e não deixou de esperá-lo por um só momento. Atenta estava ao corredor por meio da privacidade do olho mágico, não somente vendo-o em sua chegada como também sentindo o perfume amadeirado deixado com sua passagem.

Perfume rompido por uma fragrância enjoativamente doce de uma mulher.

Bárbara não sabia quem – não talvez além do nome – mas Ruy havia estado com alguém durante aquela noite.

Não importava, ela seria única a partir do momento em que ele a recebesse em seu corpo.

Conseguira o que desejara: estar com ele. No entanto, os resultados da sua entrega não se viam evidenciados. Ruy não a procurara como pensara que seria. Pelo contrário, pareceu negar a possibilidade de tê-la novamente bastando o chamar. Não esboçou qualquer sentimento, nem lúdico, tão pouco carnal. Para Ruy não passara de um momento, imaginava Bárbara.

Apesar disso, ela se faria presente – sem temer a intromissão ou recear o incômodo.

O aroma de lavanda que antes se expandira pelo cômodo, oriundo da camisa há pouco lavada já não mais permutava os sentidos dela. Deixou o ambiente mais uma vez sem se importar com a peça.

Dirigiu-se a cozinha onde se deparou com evidências claras do tempo – além do relógio, obviamente – as janelas não tinham sua transparência obstruída por qualquer meio; cortinas ou afins. A luminosidade regente naquele lugar o caracterizava como aconchegante e hospitaleiro – incomum a uma esfera tão vazia, com morador único.

Diferentemente de Ruy, Bárbara optou por não usar a cafeteira comumente usada por ele. Preferiu por preparar a bebida de modo tradicional e trabalhoso; como aprendera enquanto menina. A água espalhou-se pelo recipiente, preenchendo-o rapidamente. O açúcar, em maioria, acumulou-se no fundo enquanto uma pequena quantia diluiu meio ao liquido atribuindo-lhe um tom mais turvo; esbranquiçado. Deixou ao fogo e pouco pensou acerca de vigiar o fermentar.

Caminhou ao oposto da cozinha, sentindo os pés em contato com o piso frio que seguia uniforme. Encarou rapidamente a mesa – adornada por poucas frutas em uma maneira falha de atribuir vivacidade a todo aquele apartamento – tendo assim uma ligeira lembrança do que ocorrerá. Por poucos segundos interrompeu o pequeno trajeto.

Além das memórias, observou o exterior. Através do vidro pôde ver o nada. Poucas coisas resistiam no horizonte ao elevar das alturas – era a visão que tinha sobre Deus ou qualquer credo que a circulava. Não havia nada além de nós; sobre eles ou sob o sol.

Uma fina camada branca acumulou-se na superfície da água, proveniente do aquecer da solução. Antes mesmo que fossem atentadas as primeiras bolhas resultantes da ebulição, Bárbara procurou adiantar o que tinha por fazer. Despejou poucas colheres de pó – que estranhou muito por Ruy o ter além das capsulas das diversas variações da bebida – junto ao coador. Pouco aguardou até o liquido atingir o ápice de sua temperatura. Com movimentos cuidadosos despejou a água fervente e apreciou o transformar da mesma, adotando um tom escuro e exalando um forte – e agradável – aroma único.

Sentou-se em uma das cadeiras que cercavam a mesa quase vazia e, junto a xícara quente a qual segurava cuidadosamente, se pôs a pensar sobre Sara enquanto esperava por Ruy.

III

Notou a frieza de seu suor escoar pela lateral do rosto. A dor pulsava incessante na cabeça que fraquejava, tomando-lhe toda a atenção que tinha por seu redor. Tentou estabilizar-se perante o corpo de Sara.

Raul permanecia a alguns metros, observando-o intrigado enquanto não respondia a sua pergunta. Decidiu pelo expresso.

Ao passo que o anfitrião preparava as boas vindas – com um sorriso mascarado o qual Ruy já havia se atentado, concluindo parecer somente uma característica de um perfil leviano – calado permanecia o convidado perante a loucura. Os pés, antes impacientes, agora firmavam-se em busca do equilíbrio. As mãos contornavam-no o rosto e desciam das maçãs às bochechas, causando o atrito com a própria pele.

Procurava desvencilhar o olhar do corpo inerte. Sara estava de costas para Ruy, em posição semelhante a como havia guardado em sua memória remanescente, mas sobressaltavam poucas diferenças. As pernas esticavam-se até próximo de Ruy, não estando mais flexionadas, como anteriormente. Os braços que protegiam os seios da total nudez agora já não desempenhavam o mesmo papel – devido a posição, pouco pôde admira-los, no entanto apercebeu-se de sua vulnerabilidade. Pensou por um instante em se levantar e seguir até o encontro de Raul, no outro cômodo permitindo-se assim ver o rosto admirável daquela mulher, todavia foi contido por uma ânsia imediata ao pensamento de encará-la mais uma vez – temeu por seu estado. Pouco viu qualquer sinal de decomposição na parte visível de seu corpo, contudo receou.

Já com as bebidas nas mãos, Raul se dirigiu a sala onde Ruy estava a encarar o colchão vazio em intervalos de tempo – fitava algo desviando em seguida o olhar confuso e assustado. Sentou-se cuidadosamente em uma cadeira a frente do sofá onde alarmado estava o convidado, preocupando-se com um possível derramar do café.

– Você a vê? – Questionou Ruy.

– Não há nada aqui. – Respondeu sem remedeio, não chegando a sequer olhar para o lado. As mãos começavam a se incomodar com o calor dos copos. – A que tanto encara naquele vazio? – Interrogou logo após a seca resposta.

Em um momento de lucidez – causado pela resposta crucial de Raul para uma pergunta mal formulada – Ruy ponderou acerca do que realmente via. Sara não estava lá; não havia por que estar. Estava morta, não lhe podia causar mal – cabia a ele, somente, saber sobre seu perecer.

Fechou pesadamente os olhos, abrindo-os antes mesmo de poder contar os segundos.

– Tem razão. – Levou a mão ao rosto onde, como esforço para se ver livre da imaginação, pressionou os olhos. – Não há nada ali.

Raul atentou-se ao colchão, onde nada viu – como presumira anteriormente. Decerto, a voz de Ruy não denotava qualquer sinceridade; não havia sido honesto. Cortês, Raul procurou não insistir em tamanho desconforto.

Entregou a bebida ao amigo e ambos a degustaram simultaneamente. Era perceptível a distinção da postura de ambos: tenebroso, Ruy segurava o recipiente com preocupação, contornando-o com as duas mãos. Fugia a boca à medida que o café sofria as movimentações das mãos trêmulas. Além disso, sentava-se com as pernas afastadas, apoiando os cotovelos nos joelhos como apoio e curvando levemente as costas. Já Raul mantinha-se ereto. Com o Expresso em uma só mão, repousava a outra sobre a perna esquerda levemente afastada de seu par. O calor da bebida lhe provocava o suor, o mesmo não lhe impedia de tomá-la – mesmo sentindo um pequeno incomodo no lábio superior devido à quentura.

– Por qual razão me recebeu? – Indagou surpreendentemente Ruy, deixando expressa na fala uma segurança não sentida em sua imagem.

– Não há razão. – Sorveu uma pequena quantia de café, encarando o questionador na espera por uma tréplica. Uma fina camada de vapor tomou sua visão.

– Tem de haver. – Pressionou.

– Havia uma razão para estar aqui? – Contra-atacou. Observou surgir em Ruy à necessidade de um propósito. Não o motivo real, mas sim qualquer aceitável a conversação; acreditado por Raul. – Não há o que confidenciar. – Ponderou. – A racionalidade é uma grande banalidade contemporânea.

– Não faz seu feitio dissertar sobre filosofias. – Refutou.

– Talvez seja por que não acredite em “feitios”. – Desprezou; era perceptível na voz de Raul a desaprovação na mesquinharia expressa na fala de Ruy. – Tão pouco me preocupo com filosofias. Classificar-me assim deve ter sido uma concepção sobre você mesmo.

– Touché. – Disse seguidamente às palavras de Raul.

– Só não creio que deva existir uma razão. – Elevou o ombro esquerdo e sequer desviou o olhar do rosto de Ruy, que continuava a apreciar o gosto cafeinado.

– Arquiteta bem as palavras. – Concluiu Ruy.

– Não entendo por que tamanha defensiva. – Refutou Raul. Deu-se um silêncio imediato. Os dois, mais uma vez, degustaram juntamente o café.

– Talvez não tenha uma razão. – Frente à resposta provocativa, Raul riu. – Obrigado pelo isqueiro.

– Já havia agradecido anteriormente. – Sorriu. – Não há de quê.

Perpetuou um silêncio consentido por ambos. Raul já havia terminado de degustar o expresso quando passou a esperar o finalizar do outro. Ruy procurou estender aquele momento bebendo em pequenas quantias. A ausência de falas possibilitava a ele pensar em como não gerar outros questionamentos os quais não conseguiria mentir de forma convincente. Até agora sua fuga era baseada na prerrogativa de duplicar as respostas vagas do anfitrião.

Finalizou finalmente o café, deixando o copo ao lado dos bibelôs se empenhando em não desarruma-los.

– Há quanto tempo mora por aqui? – Perguntou.

– Há bastante tempo. Não como uma vida, mas já se passaram semanas. – Respondeu prontamente Raul, levantando-se de sua posição de conforto para levar os copos à cozinha. O convidado o acompanhou.

Frente a resposta, a curiosidade de Ruy em saber sobre Sara se aguçou. No entanto, não soube como dar continuidade as interpelações sem que temesse parecer duvidoso. Nunca teve certeza sobre seu tato jornalístico.

– Eu o vi há algum tempo. – Lembrou-se Raul. – Encostado sobre a pilastra tombada, um pouco adiante da fachada do prédio. Lembro-me de tê-lo visto deixando este lugar, um tanto quanto... Nervoso? – Virou-se para ele do balcão.

Seu rosto não lhe era estranho desde que o admirou entre a fumaça de seu cigarro. O homem o qual lhe propiciou um café era a única testemunha da estada de Ruy no apartamento de Sara – como imaginava anteriormente.

– Não estava nervoso. – Negou. – Cansado talvez. – Procurou desviar as suspeitas.

– Há garotas ótimas por aqui. – Riu maliciosamente Raul. Ruy concordou timidamente.

Deixou a água morna e corrente molhar os copos sujos. Secou-os rapidamente e os colocou no escorredor junto a outros elementos. Seguiram novamente até a sala e se sentaram em seus respectivos lugares. Ruy procurou não examinar o colchão.

– Aqui não parece um lugar comum de se morar. – Iniciou uma nova conversa. – Veja bem, são blocos abandonados.

– Nunca procurei por conforto. – Raul entrelaçou os dedos e curvou-se até os joelhos em posição semelhante à de Ruy. – Já me acostumei com aqui, foge aos aluguéis mais ao centro. Suponho que procura por um também. – Ruy encarou-o firmemente. – O único motivo que penso por estar aqui.

– Sim. – Concordou.

– Posso ver se há um disponível. – Propôs Raul. – Basta me deixar um contato. Telefone talvez.

– Celular?

– Não, telefone. – Repetiu. – Fica mais fácil para mim. – Levantou-se e seguiu até o corredor desconhecido por Ruy. Voltou rapidamente com um papel e caneta em mãos.

–Se assim deseja... – Rabiscou um número não condizente com o seu real. Não buscava por um apartamento e tão pouco desejava qualquer encontro futuro com Raul. Já não lhe convencia nem o desejo de querer saber o que havia acontecido com Sara. – Aqui está... – Entregou em suas mãos.

– Fique atento! – Avisou Raul. – Entrarei em contato.

– Ficarei. – mentiu.

Jogou o papel e a caneta sobre o colchão ao descaso.

Encararam-se a procura de qualquer outro assunto.

– Você... mora sozinho por aqui? – Insistiu Ruy já não sabendo mais se deveria ou não dar continuidade ao mascarado interrogatório.

– Pensa em dividir apartamento? – Questionou. – Não há o por quê cogitar isto. Há vários disponíveis...

– Não soe como um corretor. – Riram. – Na verdade este não foi o propósito da pergunta. Digo, há alguém que more junto a você? Uma mulher, talvez?

– Não. – Respondeu. Ruy esperou por uma justificativa. – Não há qualquer mulher que more aqui. É isso que procurava? – Intimidou. – Não se preocupe! – Riu frente ao nervosismo de Ruy. – A mulher com quem dormiu deve estar em um destes blocos ou sofrendo uma overdose em qualquer viela subjacente.

– Seu sarcasmo é surpreendente. – Aderiu a provocação.

– Prazer, Raul. – Apresentou-se ironicamente.

– Deixe-me ir agora. – Despediu-se. – Não esqueça de procurar um apartamento. – Repetiu em busca de parecer aceitavelmente verdadeiro. Raul parecia acreditar.

– O encontrarei sem dúvidas. – Prometeu. Soou ambíguo.

Seguiram até a porta onde Ruy foi tomado por uma nostalgia não tão agradável – o contato com a maçaneta pela terceira vez. Pequenos detalhes.

– Antes de partir gostaria de perguntar... – Ruy procurou se desvencilhar de seus temores.

– Diga.

– Você conhece alguma Sara? – Perguntou diretamente. – Mara, talvez? – Disfarçou.

A resposta de Raul não se deu em seguida, este procurou lembrar-se de tal nome.

– Não, não que me lembre. – Respondeu novamente. – Não é válido guardar nomes de mulheres como as que rodeiam por aqui. – Aconselhou. – Hoje elas se chamam Sara, amanhã... – Ruy o interrompeu.

– Compreendo. – Concordou. – De toda a forma, caso saiba algo acerca de qualquer Sara, me comunique. É tão importante quanto o apartamento. – Pediu descartando ter dado um número falso; não se atentou ao detalhe.

– Ligarei. – Quem mentira agora era Raul.

Despediram-se com o balançar das cabeças e um aperto de mão.

Frente à porta fechada um único pensamento ecoou em uníssono pela cabeça de ambos: filho da puta mentiroso.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Esperando as opiniões u.u