Notas iniciais
1. Peço desculpas pela demora trazendo a vocês um capítulo maravilhoso, complexo e deveras tenso. 1.1. Tensão a qual os fará construir as mais variadas especulações. 2. Primeiramente gostaria de esclarecer que certos preconceitos expressos na trama são unicamente ficcionais e não devem ser encarados como ofensas reais. 2.1. Caso alguém sinta-se ofendido, peço desculpas e compreensão pela liberdade autoral e ficcional. 3. Agradeço a quem esteja lendo este capítulo e espero que gostem. 3.1. Boa leitura e assas para a imaginação!

[...]

Eu tenho inimigos, tenho um monte de inimigos

Tenho um monte de gente que tenta drenar minha energia

[...]

Eu liguei pra uma vadia e um Uber, eu tenho algum lugar pra estar.

[...]

Energy – Drake

I

Pesados estavam seus pensamentos. Em um cansaço contínuo devido à espera perecia Bárbara: sem dizeres e prazeres. Apoiada permanecia sobre a mesa, contemplando onde nada havia; estática. Os pés descalços pouco se incomodavam com a gelidez do piso – um sobre o outro, acostumados estavam com a condição. As pernas começavam a denotar certo desconforto em decorrência da posição: friccionadas. A muito já abandonara a postura, colocando-se em posição curvada. O cabelo caia amassado nos ombros em decorrência da inquietude da mesma e os lábios eram mordidos constantemente em sinal de ansiedade e procura.

Perdera a noção de quanto tempo estava a esperar. Nem mais procurava saber as horas no relógio acima do armário – pequeno e sem graça. Realmente condizente com toda a esfera daquele apartamento: frio e padrão. Tão pouco se atentara ao soar dos movimentos dos ponteiros como fazia nos primeiros minutos. Percebera pelo ambiente o fraquejar do sol e o caracterizar da noite – o que a irritava profundamente. O café, já frio, não lhe despertava mais o interesse.

Perante a morbidez de Bárbara, deu-se um ruído o qual lhe chamou a atenção. Ao longe, passos pareciam tomar o corredor onde espiara por Ruy naquela noite. Considerou sua chegada apenas com o tilintar das chaves e o destrancar da porta. Por instinto, correria em busca de satisfações não prometidas por meio de questionamentos desagradáveis e inoportunos, como imaginava. Por orgulho, permaneceu.

Em seu peito pulsava um coração acelerado.

Junto à chegada de Ruy deu-se a invasão parcial no ambiente inicial – a sala única – de feixes da luminosidade abundante no exterior. Logo foram cessadas pelo bater da porta, evidenciado pelo mesmo barulho o qual anunciara seu retorno. Bárbara esperou por vê-lo diante da porta a qual ligava a cozinha ao pequeno corredor. Forçou-se a não procura-lo no espaço, recorrendo ao encare do abstrato na posição habitual. Atentou-se ao movimentar dos ponteiros e estranhou a ausência de qualquer palavra, colocação ou questionamento daquele que deveria estar surpresou por sua estada. Virou-se na esperança de reencontrá-lo, tendo visto somente a penumbra além das paredes.

Levantou-se a procura de mais uma bebida.

Ruy a vira esperando-o pacientemente na cozinha, rodeada por poucas xícaras – o que, de toda a forma, evidenciava o exagero. Aproveitou-se do ponto cego o qual estava – Bárbara não observava o corredor, permanecendo-se de costas a ele. Guiou-se a meia luz e seguiu até os cômodos inferiores. Abatido estava devido ao dia maçante e questionamentos persistentes, não encontrara respostas, tão pouco lembranças. Tudo se tornara ainda mais suspeito e duvidoso, mesmo ele se questionando se haveria mais com quê se importar. Farto de pensar andou vagarosamente até o banheiro onde, silenciosamente correu a trinca garantindo-lhe a privacidade que normalmente teria sem a presença de Bárbara.

Naquele instante negava aos instintos, desejos e procuras.

Buscava o sentir das águas as quais pudessem lhe atribuir calma e relaxamento.

Tirou suas roupas preguiçosamente. Peça por vez. Deixou-as no chão ao descaso. Sequer desabotoou corretamente a camisa, tão pouco retirou o cinto. Não se curvou para livrar-se dos sapatos, tendo dificuldades em retirar as meias com os pés doloridos. Notou não ter vestido a cueca e não estranhou o costume. Encarou-se no espelho por vaidade e confrontou a idade ao ver impresso na face uma jovialidade antes não sentida. Riu silenciosamente ao questionar-se a qual ponto a exaustão poderia lhe afetar o discernimento.

Seguiu finalmente ao chuveiro. O ligou e ajustou a temperatura – desatento estava a qualquer som exterior. Deixou que as correntes contínuas e quentes lhe tomassem as costas pesadas. Repousou as pálpebras e apoiou-se a parede a sua frente, procurando no escuro do não visto o relaxamento e a privacidade. Sentia as pernas fraquejarem devido ao esgotamento do dia que se seguia, abriu os olhos e, em meio à visão tomada pela água que descia por seu rosto, viu as paredes brancas do pequeno cômodo sem nitidez.

Recompôs-se sob o chuveiro, guiando as mãos ao cabelo encharcado, jogando-o para trás com o levar dos dedos. Elevou a cabeça, demarcando a mandíbula, afastando levemente os lábios antes secos. Entregou-se novamente a tenebrosidade e buscou pelo bater das gotas em sua pele inflexível. Sentiu-as rasgando-lhe a garganta; confortando-lhe o coração gelado que mal pulsava. Pouco notou o esvair da tensão e o relaxamento dos músculos.

Sentiu seu toque.

Primeiramente na cintura. Os dedos macios percorrendo a virilha e o baixo do abdômen. Procurando-o, desejando-o. Apercebeu-se de sua presença ao ter contato com sua pele única e indescritível. Sua fragrância mantinha-se íntegra, a parte da ausência de qualquer outro odor meio ao vapor que se estendia naquele ambiente. As unhas atiçavam-no nas costas, puxando-o os cabelos em procura de sua nuca e de seu eu.

Notou o enrijecer de seu sexo e a afloração do desejo e da procura do feminino. Sentiu a glande em contato com a água e esperou pelos toques daquela que o acompanhava. Entorpecido pelo prazer, hipnotizado por tamanha sedução, cumplicidade e luxúria, virou-se para aquela a quem queria provar. Ainda sem nada ver, sentiu a respiração quente e ofegante de sua companhia em seu peito. Abaixou a cabeça, sentindo a fluidez do liquido quente e reconfortante. Abraçou-a fazendo-a aperceber o pulsar de sua presença e virilidade. Sentiu seus cabelos compridos e pesados tocarem-lhe o ombro enquanto sussurrava em seu ouvido palavras em particular. Antes de beijá-la, sentiu na alma o disparar da razão em um calibre doloroso e incisivo – abriu os olhos em um único tiro, ainda abraçado a ela fitou a porta um pouco além onde viu, em confusão, a tranca a pouco empurrada impedir a entrada de qualquer alguém.

Imóvel buscou a sanidade.

Sentiu-a movimentar-se e notou o encontrar de sua mão ao pênis ainda robusto. Dirigiu seu olhar a um ponto próximo e observou em sua própria pele os fios negros da dama acompanhar, em seu comprimento, o escorrer das águas. Antes que pudesse chama-la pelo nome o qual imaginou, ouviu em seu ouvido esquerdo poucos versos narrados em uma rouquidão incomparável.

Não me deixe com toda essa dor; As noites são tão cruéis; Conserte meu coração; Não consigo seguir em frente.

Teve os lábios beijados e, já não mais calados pelos carinhos de quem buscava entender, confuso chamou por...

– Bárbara?

Semicerrou os olhos e, através da água que lhe entorpecia a vista, mais ninguém viu junto a si. Suspirou como quem emergia de um profundo e demorado mergulho em águas escuras e frias.

Encarou novamente a parede clara a sua frente.

A poucos metros, de uma distância maior do que aquela condizente com os padrões físicos ou unidades reais, especulava Bárbara sobre o amante. A postura impaciente já não mais se era vista em seu semblante, que dera lugar a raiva daquela que não era amada. Assim como os passos no corredor e o bater das chaves, juntamente com o rodar da maçaneta e o arrastar do trinco, o barulho vindo do banheiro denotava a presença de Ruy – e seu desprezo e despreocupação. Riu solenemente do quão ridícula parecia estar, rasgando a própria pele com as unhas enquanto buscava na dor o esquecimento. Levantou-se negligenciando os copos acumulados de café os quais lhe acompanharam durante toda aquela tarde – já não lhe importavam mais – e com passos desconcertados diante da própria vergonha, seguiu a sala onde admirou as sombras e penumbras que preenchiam o ambiente.

Não notou a presença da camiseta anteriormente abandonada, seguiu pelo estreito corredor, guiando-se pelo som do atrito da água com o piso.

Parou frente à porta.

Permaneceu ali, desafiando a quem estivesse além da opacidade. Sentiu nos pés o calor daquele ambiente. Seguiu com as mãos até o ombro, jogando o cabelo para além deste.

Ouviu o findar dos ruídos.

Esperou pelo destrancar enquanto atentava-se a seus movimentos.

Viu-o abrir lentamente a porta enquanto sua visão era tomada pela translucidez parcial proporcionada pelo aquecer da água. Levou as mãos novamente ao ombro onde, delicadamente, empurrou a tira de pano que sustentava os seios, exibindo-os em uma falsa inocência. Contemplou sua silhueta e nudez, esperando-o tomá-la pelos braços, explorando-a em seus pecados.

Ruy a observou clinicamente, não temendo por tamanha vulgarização. Deixara a toalha intocável rente ao lavabo, evitando o limitar de sua exposição. Sentia com os pés molhados o piso frio e apercebia o descer das gotas remanescentes por suas costas, esgotando-se no rabo.

Inertes, esperavam por uma resolução.

– Se eu dissesse que quero seu corpo agora... – Bárbara o encarou ao ser interrompida.

– Você usaria isso contra mim? – O maxilar marcado denotava impaciência. Pegou-a pelo braço grosseiramente, tirando-a de seu caminho. Desviou de seu rosto perplexo e dirigiu-se até o quarto, no qual abriu as venezianas e contemplou, ainda nu, a paisagem urbana; artificial e assimétrica. Pouco importava a ele o pudor.

Surpresa e desnorteada, Bárbara seguiu pelo piso molhado, encontrando-o em sua posição exibicionista.

– Filho da puta. – rogou junto à porta escancarada. – Você é um grande filho da puta!

Ignorou-a mais uma vez, ouvindo-a, com sua voz doce e provocativa, coisas que não lhe importavam.

– E é isso que me excita – Virou-se a ela – e estimula.

Andou vagarosamente até ela, beijando-a delicadamente em consolação. Meticuloso, afastou-se em interrupção, despertando-a da entrega e da conformidade. Pronunciou-se ainda próximo os seus molhados lábios.

– Pouco sei sobre você, além do seu nome e o cheiro da sua calcinha. Não acha que está exagerando?

Viu-se em Bárbara o espanto. Suas órbitas saltaram diante ao afronte, nunca pensara que Ruy se importaria com algo além de sua fertilidade. Pouco especulou sobre tal questionamento cujo mal conseguiria discorrer. Desviou ao fitar do companheiro, recolocando em seu lugar a alça de sua blusa.

– Babaca. – Afastou-se daquele que a intimara, seguindo apressadamente pelo corredor até a porta da sala. Ruy não a acompanhou. Abriu a porta que dava a além do apartamento, fechando-a com um bater agressivo e deseducado. Seguiu o homem até a janela onde se pôs a pensar sobre o devaneio durante o banho: estava com Sara, pensara, mas sentia em sua voz e trejeito aquela a quem atacara.

– Por quê? – Sussurrou para si mesmo.

Além das reflexões de Ruy, já distante de sua arrogância atípica, Bárbara apoiava-se em uma parede ao passo que esmurrava a mesma em impaciência. Não acreditara que haveria tanta recusa no que se propôs a almejar. Não se recordava mais sobre qualquer fundamento. Queria ver-se saciada, desejava devorar o masculino; explorar o que lhe parecesse viril, imponente, complexo e misterioso.

Ruy atendia os requisitos ao sanar-lhe a sede, matando-lhe a fome e o desespero.

II

Desatento permaneceu a cerca sobre tudo que lhe rondava há incontáveis minutos. Em sua mente vazia e conturbada ressoava em ciclos o rosnar de um motor – barulhento e incômodo, o qual lhe causava uma dor aguda e persistente ao passo que se aproximava. Entre a dispersão e a lucidez, degustava de lembranças sensitivas oriundas das mais diversas – esquecidas e desconhecidas – vivências.

Deu-se o rematar daquele ruído e, instintivamente, esperou pelo chamar de seu nome do meio. Imaginou o estacionar daquela grande merda – adjetivo o qual associava ao carro deixado pelo pai tão quão velho e nojento – em uma sombra vasta do carvalho no qual quebrara o braço há alguns anos. Sentia o frescor de aquele dia transcorrer pela sua pele juvenil, arrastada pela brisa vinda em conjunto com o alvor daquela manhã; do ambiente emanava a sutil fragrância de pêssego fresco e flores do campo, estes que lhe faziam se sentir bem e revigorado, já que comumente não ia à escola em dias de tamanha temperatura.

Ouviu o bater da porta do Volkswagen, seguido de outro barulho semelhante – desta vez vindo da cozinha. Ambos deram sequencia aos passos pesados da mãe que carregava consigo sacolas de papel preenchidas com enlatados e refrigerantes – imaginara. Notou ter escutado seu gato descer pelas escadas a procura de qualquer mimo; havia-o encontrado na estrada em uma ida até a cidade com a mãe. Apercebeu-se de seu silêncio. A vinda de sua genitora ao seu quarto fora anunciada pelo ranger dos degraus, estreitos e desuniformes.

Despertou antes de relembrar o que se acontecera após ser pego durante sua primeira tragada; o iniciar de seu vício e desgraça.

Estático manteve-se enquanto procurava esquecer-se gradativamente daquelas lembranças a quais sonhou. Dormira de maneira pouco confortável, esticando-se entre a cabeceira e o pé da cama. Com a cabeça suspensa, via inversamente a continuidade do corredor, tendo ao fim dele a sala onde podia ser notado o braço esquerdo da poltrona. O sangue acumulava-se à periferia e Ruy podia sentir o inchar de seu crânio. Levantou-se sentindo uma leve dor em suas costas.

Sentou-se frente ao telefone, no limitar do colchão – pouco se recordava agora do que antes lhe afligia.

Contemplava a maciez de seu lençol e o conforto que a solidão lhe proporcionava.

Único perante si sentia-se seguro. Mesmo seus temores estarem fundamentados acerca de si próprio, não via ameaça em sua imagem – não como apercebia em outras figuras. Eram como se seus medos fossem projetados naqueles que lhe rondavam sorrateiramente. Um inocente a quem cabe o arrependimento e não a culpa; ou o terror. Aquele o qual acusações são incabíveis, porém praticadas pelo mesmo contra seu próprio eu.

Talvez a companhia lhe fizesse mal.

Constatava isto ao tentar se lembrar de Sara.

(Não se lembre dela!).

Sua sombra projetada pela meia luz vinda de qualquer cômodo atrás de si figurava única junto a ele. Sem identidade ou essência em nada se diferenciava daquele o qual lhe servia como modelo. Inflexível e desumana, não esboçava coisa alguma além de escuridão e superficialidade. Talvez não fosse apenas a incidência da luz em seu corpo e a ausência da mesma em sua silhueta expressa naquela parede. Quiçá fosse seu próprio reflexo em toda a sua falsa – e momentânea – complexidade; Ou talvez o verdadeiro o qual refletido estava em sua não comprovada existência – vazia e contestável.

Levantou-se seguindo até sua janela, por onde permaneceu durante um bom tempo após o embate com Bárbara. Já não mais expondo sua masculinidade, procurou não mais permanecer naquele mesmo lugar. Andou até a cozinha onde não estranhou a permanência dos diversos copos sobre a mesa; pouco se importou com tamanha desordem. Procurou por restos da bebida em sua máquina de café e espantou-se desta ainda estar limpa – observou o coador deixado sobre a pia e amaldiçoou a vizinha por tamanha prenda.

Sentou-se na cadeira onde horas antes Bárbara o esperou fielmente, esta destacada das demais em decorrência de sua posição não condizente com seu par. Fitou os recipientes – alguns ainda mantinham resquícios do liquido negro e bem cheiroso, agora já frio e sem graça – organizando-os de acordo com sua quantidade e tamanho. Apoiou-se sobre os cotovelos e buscou com o que se distrair.

Lembrou-se de Raul e de sua péssima impressão. Suspeito era acerca de sua personalidade e inverdades – como julgava suas colocações. É claro que, temeroso como si só, Ruy jamais deixaria transparecer o real motivo o qual o levara até Raul – aliás, sequer era essa a intenção. Assim como mentira, julgava ter o outro mentido para si também; eles não eram tão inocentes. O que faria aquele homem no apartamento no qual jurou ser de Sara? Haveria um motivo de sua presença. No entanto toda e qualquer desconfiança que Ruy poderia de ter acerca de tamanha coincidência esbarravam em suas amnésias e incertezas. Poderia ser Sara qualquer outra a qual jamais saberá o passado? Pouco duvidava acerca de sua morte. A gelidez de sua pele jamais o faria pensar em sua não vista vivacidade. Para entender onde Raul poderia se encaixar primeiramente Ruy precisaria recordar o que havia acontecido naquela noite.

Impossível – já tentara inúmeras vezes.

Talvez fosse melhor continuar negligenciando preocupante situação.

Seguiu com as mãos até ao mais distante copo, completando assim o que havia planejado. Estranhou a ausência de qualquer cor contrastante examinando seu interior; ao seu fundo, acumulado estava o pó branco o qual tinha contato há mais de quinze anos – cocaína. Preocupou-se rapidamente com o porquê de Bárbara ter deixado em sua mesa tal substância, o que rapidamente foi deixado de lado pelo desejo e a vontade. Em uma busca súbita e frenética pelo entorpecer, pouco se privou do vicio e da irracionalidade. Despejou sobre a mesa uma única fileira; em sua mão trêmula se era vista a precoce abstinência. Sem o auxilio que qualquer coisa que lhe era comum, aspirou rapidamente àquilo que engenhosamente preparou, sentindo em si o aflorar do inexplicável.

Apercebeu o bater forte do coração sinalizando sua robustez e autenticidade. Talvez as sinalizações sentidas não fossem inicialmente fruto de seu consumo e sim ilusões oriundas da mesma ação. Não importava a ele estar realmente aproveitando ou sendo enganado por seu subconsciente, até por que, mesmo ao tardar, domado seria pelo pó.

Porque tu és pó e ao pó da terra retornarás! Debochou.

Pressentiu a euforia correr por sua linfa ao passo que escapava por entre os lábios poucas risadas – baixas e maliciosas – regadas a ofensas e blasfêmias ensurdecedoras. Tenso permanecia sob a própria soberba e ironia. Pensava em vinhos e virgens ao som de harpas e assovios ritmados pelo balançar dos pés inquietos. Dentre elas a mais pura e desejada por onde irradiava a mais cega luz. Os seios fartos chamavam o mais intimo pecador. Os olhos sombreados e fortemente marcados contrastavam com os tons pastéis predominantes em toda a visão. A calça jeans de cintura baixa o fazia lembrar-se dela. Da noite em que a viu naquele bar no quilometro cento e sessenta e três, próximo ao único posto daquela rodovia em alguns quilômetros além daquelas prostitutas e veteranos de porra nenhuma – incrivelmente não. Um pouco distante estava um marco policial.

Riu em desespero na medida em que percebeu estar enlouquecendo sobre Sara mais uma vez durante aquele dia.

III

A sensação vigorosa da qual gozava inicialmente o deixava gradativamente enquanto apercebia o enfraquecer de tais efeitos. O apetite retornara tomando-lhe o estômago e a vontade de prosseguir; já não mais ansiava qualquer banalidade as quais perseguia com infantilidade; pouco temia estar sendo observado, o que não mais despertava uma agressividade moderada. A lucidez chegara como uma agulha: perfurando-lhe a pele. Era um despertar lento e indesejado.

Tencionava munir-se de mais narcóticos, mas lembrou-se de não tê-los mais em seu apartamento – nada além de cigarros que não lhe saciavam mais. As bebidas quentes as quais pouca mantinha findou-se há alguns finais de semana, dias em que se viu como agora. Dentro do armário superior, um pouco a direita da mesa onde se despejara em morbidez com o nariz ainda sujo, garrafas vazias evidenciavam tal necessidade.

Esperava pela depressão comum após o uso.

Levou a mão até a boca onde despejou um longo e profundo bocejo; de cansaço e frustração. Pouco acima, esfregou o nariz avermelhado buscando apagar as evidências do uso inapropriado. Endireitou-se sobre a cadeira, adotando uma postura ereta a muito esforço. Com a visão embasada, procurou pelas horas no relógio um pouco adiante – não soube se haviam se passado trinta ou quarenta e cinco minutos desde que cheirara o único, e querido, filete.

Foda-se, pensou.

Levantou-se um pouco tonto; buscava pelo descanso em melhores condições. Antes mesmo de virar-se em direção ao corredor ou sequer cogitar deitar-se na cama – novamente – alarmou-se com o som de telefone – atípico para quem poucas relações mantinha. Caso estivesse em suas condições normais, não tardaria tanto em saber, antecipadamente, que se tratava de Álvaro, o maldito invocador de suas responsabilidades.

Guiou-se sorrateiramente, seguindo o som que se repetia irritantemente a passos confusos. A realidade ainda fundia-se com sombras e duplicações, não obstante seus sentidos ainda eram afetados pelo consumo.

Apoiado nas paralelas paredes do corredor, quase se desequilibrou ao cruzar a porta entreaberta do banheiro. Adentrou ao quarto pela porta totalmente aberta, a qual não representava qualquer obstáculo. Jogou-se na cama ao invés de contorná-la para alcançar o criado mudo de onde emanava aquele som.

Deitado de costas – como em uma capa da Rolling Stones – pegou o telefone as cegas, ouvindo-o antes mesmo de pousá-lo em sua orelha direita.

– Enfim, o que encontrou por lá? – Questionou Álvaro com seu timbre único e duvidoso. Não soou como o cretino que sempre aparentava ser. Talvez fosse apenas uma ilusão de Ruy.

– Deixe-me procurar pelo bloco. – Almejava parecer íntegro para manter sua credibilidade a muito perdida. Esforçava-se em não parecer aéreo e desconexo; confuso. Zelava por não atropelar-se com as próprias palavras.

Tateou a procura de suas anotações sem ao menos notar não trajar mais a mesma roupa – a qual agora repousava sobre o chão úmido do banheiro não arejado.

Deu-se o suspirar profundo de Álvaro do outro lado da linha, em impaciência.

– Oh, parece que não escrevi muito a respeito. – Salientou. Risonho procurava não demonstrar despreocupação.

– Diga o que anotou. – Cobrou.

– Ah, me deixa ver... – Ruy preso estava à própria desculpa. Nada havia anotado ou sequer descoberto; nada que interessava a Álvaro ou até mesmo lhe tirasse as próprias dúvidas. Completou – Eu saí com uma garota próximo ao quilômetro cento e sessenta daquela rodovia ao oeste, aquela com paisagem desértica e gaivotas que planam aos finais das tardes.

– O que há Ruy? – Questionou confuso – Está mesmo em suas faculdades mentais? Ou tenta debochar de mim?

– Anotei mais algumas coisas... – Ruy olhou em sua mão como quem buscava entender o próprio manuscrito meio a alguns borrões. Mesmo não havendo nada escrito ali, procurava agregar a toda aquela situação a mínima e contestável verossimilhança. Encorajado pela loucura momentânea talvez sequer mais sentida, já que a realidade já lhe tomava mais os pensamentos do que seus devaneios; despejou sobre aquele homem suas raivas e frustrações – o quão o aclamado – porém fracassado – Álvaro Mendes, homem adepto e modelo profissional, é um veadinho. O mesmo que não transa com sua esposa com a falsa prerrogativa do trabalho e do cansaço enquanto gasta horas em sites pornográficos e homossexuais – esqueceu-se de apagar seu histórico, senhor Álvarola? Talvez suas cobranças não passem de desculpas para me ver pensar com a cabeça de baixo. Pegue este emprego e suas falsas oportunidades e enfiem-nas no rabo!

Notou-se um silêncio de surpresa e espanto do outro lado da linha. Antes mesmo de qualquer pronúncia frente à humilhação, Ruy o calou novamente com suas palavras direcionadas.

– Antes que me pergunte qualquer coisa daquela vadia, saiba que nada sei. – Sequer despediu-se ao arremessar o telefone para longe, arrancando-o agressivamente do filtro de linha.

Puta que pariu. Pensou.

Distante da postura adotada por um homem em esgotamento, Álvaro chamou pela secretária, ainda com o telefone em mãos.

– Traga-me um copo d’água, por favor?!

Próxima àquele a quem agora temia, separada por poucos centímetros naquele bloco, Bárbara ouvia atenta a todas as palavras ditas em desgraça, vibrando à medida que via em Ruy a imposição a qual queria ser pressionada em seus lençóis.

Notas finais
Teorias e perguntas nos comentários! Até a próxima e abraços!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.