Notas iniciais
Oi pessoal, tudo bem? Neste capítulo o nosso protagonista estipulará um ultimato sobre si mesmo. Também haverá o adentro de uma nova personagem. Boa Leitura!

Eu que falei nem pensar
Agora me arrependo roendo as unhas
Frágeis testemunhas
De um crime sem perdão

[...]

Refrão de Bolero -Engenheiros do Hawaii

I

Secos estavam seus lábios. Meio a pensamentos ambíguos tentava-se desvencilhar do gosto amargo dos ansiolíticos, ao passo que permutava sensações variantes entre o medo e o desespero. Estes que, em sua percepção afetada e descomunal, estreitavam-se em um laço contínuo e indistinguível. Via-se ainda limitado pelos comprimidos e não relutava em sucumbir a seus efeitos. Tocava a plenitude dos céus e isso era reconfortante – não mais sentia o corpo consistente. Do alto das nuvens não se podia ver as cidades – e elas eram como seus temores. Pontiagudas e altas eram as dimensões urbanas como presas bestiais. Com suas faces múltiplas e adjacentes encaravam-no infames. Ínferos ansiavam por sua queda, famintos. E do alto de seu orgulho e arrogância em achar-se inatingível, ria de seus demônios ao passo que os perdia de vista mediante as alturas nublas. E então caiu. Lentamente. Passou a ouvir os gritos e as buzinas. E as cobranças nos altos dos prédios. Ruiu entre os blocos e se desesperou com o negrume da realidade. E pôde sentir o rugir pestilento – podre e ensurdecedor, emergir abaixo de si. E levar consigo suas lágrimas ao alto. Pregando-lhe o temor e o despertar.

E no lúgubre onde se encontrava, mais nada viu.

II

Manuseou para a esquerda. Em movimento reverso voltou ao ponto de origem, onde sentiu um leve sangramento. Repetidas vezes realizou os mesmos movimentos com curtas variações decorrentes de uma má escovação. Sentira o hálito mais uma vez e se contentou com o mau-cheiro abrandado pela essência química da pasta de dente. Nunca pensara como os ansiolíticos lhe causavam tão mau cheiro – o gosto amargo ainda padecia no fundo da língua.

Observou-se no espelho – não mais pensando em Sara. Notou como sua barba estava por fazer e isso aguçou sua virilidade, em contrapartida terminou por arranhar seu eu profissional e ético –“Procure, ao menos, manter-se apresentável. Há uma conduta de trabalho a ser cumprida perpendicular ao código estético. ” – Soou em agudo e bom som a voz do chefe em seus ouvidos. Transcorreu os dedos gastos entre o cabelo, sentindo os fios percorrem seu tato em um frenesi contínuo. Já acumulavam certo comprimento e a cobrança de seu superintendente veio novamente a sua cabeça: ignorou e admirou-se mais uma vez. Buscou algum platinado o qual lhe acusasse seus trinta anos, mas se deparou com entretons de castanho escuro. Levou os dedos a pele próxima aos olhos e tentou distinguir as olheiras. Encarou-se e não notou como o tom de seus olhos jazia em uma mistura desconhecida de azul com verde escuro – tão pouco sabia que Sara adorara a cor de seus olhos.

Afastou-a de seus pensamentos logo pela manhã. Em uma análise real e cruel do que pudera ter acontecido entre as paredes frias daquele lugar inóspito, Ruy deparou-se com a grande possibilidade de ser um assassino em potencial – nem se quer discordou por que sabia que não conhecia a si mesmo. Anseia por não ter sido ele seu ceifador, mas desacredita a si mesmo. À sua consciência e responsabilidade. Com uma frieza assassina – nata ou não a ele – escolheu por esquecê-la. Almejava descobrir se tal decisão teria reciprocidade por parte da culpa – e da morte.

III

Ouviu-se o bater contínuo e moderado na porta. Ritmado, ecoava tanto no corredor como na sala vazia de Ruy. Repetia-se ao passo que este demorava a atender, revelando o anseio do visitante em ser atendido. A passos largos deixou a cozinha, negligenciando o que antes fazia. Seguiu a sala por um corredor estreito, reparando que deixara a janela aberta desde que jogara o café ao relento. Seguiu a porta abrindo-a de imediato sem ao menos olhar pelo olho mágico – o barulho ininterrupto o irritava profundamente.

Observou-a encará-lo curiosa. Do ‘alto’ de seu um metro e sessenta – Ruy sempre fora bom com estimativas, curvava a cabeça em um ângulo arredondado para estabelecer contato direto com seus olhos. As mãos uniam-se na altura do quadril e isto era claramente um sinal de timidez – por mais que sua aparência a acusasse de parecer uma ninfeta desejável. Demorou a inferir que se tratava de sua vizinha.

– É bom vê-lo novamente – gracejou com os lábios rosados e brilhantes desviando rapidamente o olhar para um ponto cego em relação a Ruy – há tempos não o via pela manhã.

Questionou a si mesmo ao ouvi-la comemorar por estar o vendo novamente, o quanto ficou longe de sua vida corriqueira. Não havia se atentado que, da mesma forma que não se lembrava de

(Não lembre-se dela)

Também não recordava de qualquer momento anterior ao despertar no apartamento de

(Ela está morta, Ruy)

Por um momento se viu angustiado.

– Vejo que há muito tempo não trabalha – deu continuidade a mulher a suas afirmações. Fitava-o curiosa por não a responder, tão pouco por não estar excitado – ela não notou qualquer elevação em sua cueca.

Lembrou-se de estar seminu.

– Acho que – caótica estava sua cabeça – acabei por perder a noção do tempo.

Deu-se um silêncio por todo o corredor ao passo que ele se lamentava por ter respondido de forma tão tola e inacreditável.

– Algo como um hiato – finalizou. Não apercebera o quanto ela lhe aflorava os desejos.

– Sim – respondeu de imediato – algo como um descanso autoral. A pouco soube que é jornalista. Então tudo faz completo sentido. – Sorriu fazendo parecer estar realmente interessada em sua profissão. Ruy não entendia o real sentido de sua presença àquela altura e se interferiu sobre seu tato com as mulheres. Claramente se oferecia a ele, mas relutante estava diante de sua libido

(Você a matou, seu grande SAFADÃO!)

e seu instinto.

– Foi bom revê-lo – balbuciou quebrando o silencio; sua excitação tornara-se evidente pela elevação dos bicos de seus seios – espero que não desapareça novamente! – Sorriu simpática. Seu semblante lembrava o de

(A VAGABUNDA ESTÁ MORTA, CARALHO!)

(Esqueça essa vadia imunda, seu merda!)

Inquiriu-se o porquê de ter se lembrado dela. E de seu sorriso. Antes mesmo de tentar se recordar de algo mais preferiu esquecê-la novamente.

(Você sabe que não quer se lembrar).

Fitou o abstrato além do corredor onde, em silêncio, desejou tragar um pouco de maconha.

– Vejo que não está muito bem – observou o cair das gotas de suor da testa gélida de Ruy. Afagou seus ombros um pouco acima dos seus, elevando o braço. Condensou os lábios em sinal de preocupação frente à inanição do homem apoiado na abertura da porta de seu apartamento; desejou estar excitada em um momento mais oportuno. Moveu o globo ocular passando a encará-la friamente, como se estivesse retornando à consciência. Como quando despertou dos ansiolíticos. Alisou sua face sentindo o atrito com a barba, abrindo levemente a boca como um sinal de demência – ou dúvida. Sentiu um frio percorrer a espinha e terminar em um ‘aperto’ no seu escroto.

Não se lembrava da última vez que sentira os sintomas da abstinência. Tão pouco de alguma outra ocasião onde ela tivesse aparecido de forma tão abrupta – e rápida: havia se dopado na noite anterior. Imaginou o quanto sua ansiedade poderia precipitá-las – e agravá-las simultaneamente ao desejo de resistir a elas e não se entregar mais uma vez. Em uma mescla de sentidos revoltos e desordenados, ouviu ao longe a voz feminina de sua companheira de corredor dizer em uníssono – em conjunto com a duplicação de seus próprios dizeres vinda das ilusões perceptivas de Ruy, o que poderia fazer para ajudá-lo. Notou o fraquejar das pernas e o ruir de sua estabilidade física – sentiu-se como um bêbado ao sair de um bar na madrugada paulistana, duro e desonrado. Antes que perdesse por completo a consciência, pôde senti-la amparando-o; suas mãos já não mais estavam em contato com a madeira espessa da guarnição da porta de seu apartamento.

Lembra-se apenas de ter sentido seu perfume.

E de como aquilo fora reconfortante – e nostálgico.

IV

Manteve seus olhos abertos. Por grande parte do tempo a lucidez não se viu presente. Fora tudo como um grande devaneio – uma tormenta passageira nada comparada a várias outras antes enfrentadas. Sobre a poltrona de sua sala – aquela mesma, velha e solitária em um cômodo onde nada fora orquestrado, preferiu não mais procurar entender sua mente confusa e inconstante. A sua frente, sentada sobre a mesa de centro estava ela, fitando-o em uma indiscrição gritante

– Me admira muito ainda vê-la presente – em um tom áspero e afetado não se preocupou em olhar a quem se dirigia.

– Crise de abstinência – arrebatou com maestria sem deixar-se ferir pelo desprezo estampado na voz de Ruy – Nunca sei como agir perante elas. São como um alarme natural que nos alerta quando precisamos de uma nova dose – ele a observou com admiração. Em seus olhos via-se: humano e falho. Vicioso. Negativo. Contentou-se por não mais estar sozinho e sorriu à medida que via a sua frente um apoio imoral. Antes que pudesse perguntar seu nome, sentiu suas mãos em contato com as suas, e então se calou onde qualquer palavra poderia riscar a perfeição que o silêncio proporcionava aquele instante.

Notas finais
E aí, gostaram? Espero que sim. De adianto garanto que os capítulos serão mais compridos e um pouco menos complexos - utilizarei mais diálogos. Garanto também que a qualidade da escrita permanecerá a mesma ;) Aceito sugestões para o nome da vizinha ;) Não esqueçam de comentar o que acharam! Abraços!