Namoro por Aluguel
30 Stop, don't talk to me
Notas iniciais
Meu telefone vibrou uma vez, ignorei-o completamente. Vibrou pela segunda vez, mas continuei ignorando (quem que que estivesse querendo falar comigo, poderia esperar o episódio de Grey’s Anatomy acabar). E então, vibrou uma terceira, uma quarta, uma quinta e tantas outras vezes seguidas que perdi a conta. Pausei o episódio, digitei a senha e abri a aba de notificações.
40 mensagens de 2 conversas
Tio Otávio @ Família S2: O grupo Morreu?
Miguel Belafonte: vc tá aí?
Miguel Belafonte: Ana?
Miguel Belafonte: ANA!!!!!!!! É URGENTE
Miguel Belafonte: ANAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
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Cliquei na notificação que abria a conversa com Miguel.
“o que foi?” Digitei.
“GRAÇAS A DEUS! Pq demorou tanto?”
“Porque eu tenho uma vida, Miguel.”
“ Sem brincadeirinhas agora, preciso te falar algo MUITO sério”
“Sem brincadeiras? Olha quem fala...” Digitei
“ Ana, preciso que jure não ficar brava comigo”
— Lá vem. — Falei em voz alta.
“ Não prometo nada, mas posso tentar”
“Olha, primeiramente eu preciso que você entenda que não foi proposital”
“FALA LOGO!” Digitei, impaciente.
“todo mundo da faculdade sabe sobre nosso namoro.”
“sobre o contrato?”
“não, Ana. Eles acham que nós namoramos de verdade”
A lista de xingamentos e mensagens que mandei depois disso não merece ser divulgada.
“Calma,pense nisso como uma evolução do namoro kkk”
“MIGUEL, VOCÊ ESTÁ RINDO? VOCÊ OUSA RIR EM UMA SITUAÇÃO DESSAS?”
“Qual é, é só mais gente pra enganar, nada demais.”
“MIGUEL EU VOU TE MATAR!”
“ calma, você está muito nervosa”
“CALMA?????????????”
“ Olha, eu sei que foi errado divulgar isso, mas foi um acidente. Eu estava bebendo”
“EU NÃO QUERO SABER!”
“ desculpinha por isso”
“Desculpinha? Sério?”
“ perdão?”
“Miguel, vai se ferrar.”
Jogando o celular na cama, voltei a assistir o episódio. Eu queria matar Miguel, condena-lo à guilhotina e pendurar sua cabeça decapitada em alguma praça da cidade para servir de exemplo. Sustentar essa mentira era difícil, e agora graças a ele terei de fingir em mais um lugar. Seria isso alguma piada do universo?
O celular continuava a vibrar incessantemente. Visualizei as mensagens de Miguel sem nem prestar atenção ao que diziam, depois deliguei o celular. Queria que ele sentisse pelo menos um pouquinho da raiva que eu sentia naquele momento.
Mal sabia eu que não responder seria uma das piores decisões que eu tomaria neste ano.
* * *
— Ana. — Chamou minha mãe, abrindo a porta do meu quarto. — Você está aí há muito tempo, não acha que é hora de sair um pouco?
— Só mais esse episódio. — Resmunguei.
Ela acendeu a luz, fazendo-me encolher como um vampiro à luz do sol.
— Nem mais um episódio, mocinha. Sai daí agora. Além disso, sua amiga veio te devolver o livro.
Livro? Pensei O último livro que emprestei e que até agora não voltou foi a um colega de escola que mudou de cidade há anos.
— Anda logo. — Minha mãe disse. — A moça está com pressa.
Contra minha vontade, desliguei a televisão,troquei de roupa (afinal, não pegava bem sair na rua com um pijama velho) e amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo. Quando fui até o portão, deparei-me com Miguel acompanhado de uma garota que eu não conhecia.
— Se você não vai até a mensagem, a mensagem vem até você. — Ele disse.
Uma pacífica cena de minha pessoa saltando até Miguel para socar o seu rosto surgiu em minha mente.
— Garoto, você quer apanhar? Porque essa é a única explicação para vir até aqui. E quem é essa menina? — Indaguei.
A garota (que, por sinal, era um pouco mais nova que eu), disse que ganhara trinta reais apenas para segurar um livro e entrega-lo para mim. Feito isso, ela saiu andando pela rua.
—Sabia que a avó dela mora aqui nesse bairro? Ela estava entediada e aceitou uns trocados em troca de um favor e...
— Eu não quero saber. O que te fez levantar o traseiro do sofá da sua casa e vir até aqui? — Interrompi.
— Tendo em vista que você não me respondeu, fui obrigado a tomar medidas drásticas.
— Vir até a casa de uma garota profundamente irritada e ainda por cima interromper a maratona de séries dela? Eu chamaria isso de medidas suicidas, e não de medidas drásticas.
Ele revirou os olhos.
— Bom, eu estaria maratonando séries também, mas graças ao vácuo que você me deu fui obrigado a sair de casa.
— Se você tivesse mantido a sua boca fechada poderia estar até em Nárnia agora e eu nem iria ligar. Mas não, você tinha que ter aberto essa boca e revelado pra todo mundo.
— Ana,seja razoável. Eu já tinha bebido um pouco e acabei me animando. Além disso, só algumas pessoas ouviram, o resto ficou sabendo porque elas fofocaram.
— Elas não teriam o que fofocar se você tivesse controlado a suas palavras!
— Por que está tão preocupada com isso? São só mais algumas pessoas, é só continuar fingindo na faculdade.
— E se eu quiser ficar com alguém, Miguel? Como sugere que eu faça isso se eu tenho um “namorado”? — Indaguei, fazendo aspas com as mãos. —E isso sem contar que eu não deveria fingir na faculdade, porque é lá que está o começo da minha futura carreira como arquiteta. E se essa informação vazar? E se meus pais descobrirem que, até onde o povo acredita, eu estou namorando? Eu não estou disposta a apresentar um namorado de mentira para eles, Miguel.
Ele estava de cabeça baixa.
— Me desculpe, Ana. Eu sei o quanto isso te irrita, eu sei que errei em revelar isso. Mas agora não tem conserto, eu não posso voltar atrás. Só te peço para fingir por uns meses e depois nós pensamos em um meio de nos livrarmos disso.
— Nós não vamos pensar em nada. Você me colocou nessa roubada, arranje um jeito de me tirar.
— Vou pensar em algum plano. Por favor, me desculpe.
Sem responder, fechei o portão e voltei para dentro de casa.
— Está tudo bem? — Minha mãe perguntou quando voltei ao meu quarto — Você parece um pouco brava.
— Estou bem, mãe. É que a filha da mãe da menina se acusou a dizer que não gostou da história.
Rindo, minha mãe disse:
— Existem erros piores do que esse.
* * *
Havia um pequeno texto na contra-capa do livro, escrito por Miguel. Eram seis linhas de puro pedido de desculpas e a sétima dizia que o livro era um “presente”. Coloquei-o dentro da bolsa para não me esquecer de devolver à Miguel. Aquele livro não iria comprar a minha boa vontade em continuar fingindo.
Havia dias em que eu pensava em desistir desse contrato, mas então me lembrava que meu salário no Mocca café era baixíssimo e que meus pais tinham uma casa inteira para cuidar, além dos gastos com Lucas. Se eu desistisse disso, eles teriam que se sacrificar muito mais só para me ajudar a bancar os estudos. Isso não seria justo com eles e nem com o meu irmão.
Então, eu devo aguentar até o máximo. Viver na mentira até onde der, porque eu preciso disso. De certa forma, a mentira era o que sustentava a minha vida verdadeira.
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