Namoro por Aluguel
31 Cora sabe encarar
Notas iniciais
Segundas-feira são conhecidas mundialmente como sendo o pior dia da semana por vários motivos: voltar à rotina exaustiva após um fim de semana relaxante, se dar conta que após a segunda ainda tem mais quatro dias de trabalho/estudo até o próximo sábado e também por ser a véspera dos ataques às torres gêmeas. Sim, segundas feira são do mal.
Entretanto,na lista de motivos para a segunda feira ser o pior dia da semana nenhum ser humano incluiu que esse seria o dia em que, ao descer do ônibus sem Melissa (que estava doente) no ponto em frente a faculdade, eu daria de cara com Miguel e um de seus fiéis escudeiros.
— AMOR! — Ele gritou, fazendo com que todos os olhares dos passageiros fossem direcionados a ele. — MEU DEUS QUE SAUDADES DE VOCÊ!
Antes que eu pudesse fazer cosplay de Barry Allen/ Flash e sair correndo , fui envolvida em um abraço esmagador.
— Finja. — Ele sussurrou. — Todo mundo queria ver o casal andando junto pelo campus.
— E que tal você fingir sua morte? — Sussurei de volta, antes de me afastar do abraço e repetir a frase de algum filme romântico de sessão da tarde. — Eu sei, amorzinho. Mal conseguia respirar sem você.
— O amor é lindo. — Disse um dos amigos de Miguel. Aquele era Fernando, um rapaz de cabelo raspado, porte atlético e que tinha muita massa muscular e pouquíssimo Q.I. — Quem diria que alguém ia conseguir agarrar o vacilão do Miguel, hãn?
O rapaz deu um soquinho no meu ombro e me segurei para não devolver o soco bem no meio de sua face.
— Eu o agarrei? — Respondi. — Ele quem ficou se rastejando atrás de mim,implorou para que eu lhe desse uma chance.
— Ah, garotão. — Respondeu Fernando, dessa vez dando um soco no ombro de Miguel. —Esse safado traiu o movimento dos parças solteiros. Vacilão!
Em apenas cinco segundos, fui capaz de ter uma visão completa do total de palavras que Fernando usava no dia a dia. Uma a cada três incluíam vacilão.
— Foi inevitável. — Disse Miguel, me encarando de um jeito que quase me fez vomitar meu café da manhã. — Mozão, o que acha de irmos para a sala?
— Acho ótimo. — Respondi. —Até mais, Fernando.
— Tchau , vacilões.
Andamos rapidamente até a sala, mas não pude deixar de notar os olhares e murmurinhos direcionados a nós.
A sala estava vazia, o que me permitiu dar um tapa “de leve” na cabeça de Miguel.
— Ai! — Ele reclamou. — Por que isso?
— Por me chamar de mozão. Cara, esse apelido é ridículo. E esse — Disse, dando outro tapinha. — É por me meter nessa fria.
Ele fez uma careta.
—Precisava mesmo fazer isso? — Perguntou. — Ninguém desconfiou, nem o Fernando.
— É claro que ele não desconfiou, Miguel, seu amigo só pensa em malhar.
— Isso é mentira, ele pensa em garotas também.
Contei até três mentalmente.
— Você não percebeu os olhares?
— É assim que é ser eu, amorzinho. — Disse Miguel, com ênfase na última palavra. —Todo mundo olha pra você o tempo todo.
— Não é sempre que se vê uma anta como você andando pelo campus da faculdade.
— Uma anta muito bonita, se me permite dizer.
Ignorei o comentário.
— Isso não vai dar certo, Miguel. Eu posso sentir.
— Chegou a Srta.pessimista.
— Prefiro ser a Senhorita pessimista do que ser o Sr. Otário que esqueceu de pentear os cabelos.
Na mesma hora, Miguel levou as mãos ao cabelo.
— Mas que droga! Já comecei a segunda com o pé esquerdo.
— Se fosse só você...
Uma leva de alunos chegou na sala de aula, fazendo com que eu e Miguel parássemos de conversar para começar com a atuação.
— Aqui, querida. — Ele disse, apontando para o fundo da sala. — Aqui tem duas carteiras vazias.
Fazendo a minha maior cara de garotinha apaixonada, marchei até a cadeira vazia ao lado de Miguel. O professor entrou na sala apenas um segundo depois.
Algo me diz que hoje vai ser um inferno.
* * *
Eu nunca havia ficado tão feliz pelo fim de uma aula quanto hoje. Os alunos saíam da sala apressados, ávidos para saírem do campus o mais rápido possível. Comigo não era diferente.
— Ei. — Disse Miguel, levantando-se de sua cadeira. — Aonde pensa que vai?
— Para o Mocca Café. — Falei, já com a mão na maçaneta da porta. — Se esqueceu de que eu tenho um emprego?
Há essa altura, já não havia mais ninguém além de nós na sala de aula.
— E você se esqueceu de que, tecnicamente, namoramos? Temos de estar sempre acompanhado um pelo outro.
— Miguel, até os namorados de verdade andam desacompanhados às vezes. Eles são namorados, não gêmeos siameses.
O rapaz caminhou até mim.
— Agora podemos ir. — Disse ele, entrelaçando sua mão na minha. Instantaneamente, a soltei.
— O que foi isso? — Perguntei
— É assim que namorados andam, Ana.
— Ninguém repara nessas coisas, é totalmente desnecessário.
Miguel respirou fundo.
— Pode ser que você não repare, mas a maioria das pessoas sim. Agora para de mimimi e me dê a mão.
De mau grado, estendi a mão e junto de Miguel parti para a liberdade (também conhecida como a meia hora livre que eu tinha entre a faculdade e o turno no mocca café)
Na saída, continuei a sentir os olhares curiosos direcionados a nós. Na maioria das vezes, eram rostos que eu não conhecia ou pessoas que eu sequer sabia o nome. Exceto Cora, é claro. O olhar dela foi o pior de todos, pois ao invés de curiosidade expressa incredulidade e raiva,era como se uma aura vermelha de raiva estivesse rodeando a garota. Suas mãos estavam fechadas em punho e os dentes cerrados, a cabeça se movia conforme andávamos.
Algum tempo depois, ela sumiu de vista.
— Você viu aquilo? — Perguntei à Miguel.
— A Cora? É claro que eu vi, na verdade estou impressionado por ela não ter saído correndo e estrangulado nós dois. Já imaginava até a manchete do jornal “garota insana estrangula ex-ficante e sua falsa namorada em uma faculdade da cidade”.
Agora que ninguém mais estava por perto, soltei a mão de Miguel.
— Você quer uma carona até o trabalho? — Ele perguntou, apontando para o carro.
— Pode ser.
* * *
Miguel estacionou o carro em frente ao Mocca café, destravando as portas.
—Chegou sã e salva.
Ainda colada ao banco, desafivelei o cinto.
— Me lembre de nunca mais andar de carro com você.
— Ai Ana, pare de drama, eu nem ando tão rápido assim.
— Você é um péssimo motorista. Anda rápido demais, apoda pela contramão e faz péssimas curvas. É um milagre que eu esteja viva.
Ele revirou os olhos.
— Eu sou um ótimo motorista, e nada do que digam poderá mudar esse fato. — Ele respondeu, rindo.
— Se você é um bom motorista eu não quero nem saber o que é ser um mau motorista.
Conversamos um pouco até que eu descesse e fosse para o trabalho. Eu estava na calçada quando Miguel me chamou.
— Ainda não acabou seu discurso sobre ser um bom motorista? — Indaguei.
— Não. — Disse ele, sorrindo. — Eu só queria dizer que fiquei preocupado com a Cora. Sabe, ela é uma boa pessoa, mas parecia estar com muita raiva. Se ela se aproximar de você, me ligue na hora.
— Até parece. — Respondi. — Se ela chegar perto de mim eu ligo para a policia. Eles têm armas, você não.
— Ana, é sério. Qualquer coisa é só me ligar.
—Está bem.
— Tchau, se cuida. — Disse ele, dando a partida no carro.
— Você também.
Dei meia volta e entrei no café.
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