Namoro por Aluguel
20 New York, New York.
Notas iniciais
Primeira segunda feira de férias. Eu poderia ter pego banco de horas, ficado assistindo séries no sofá de casa ou dormindo até meia dia. Mas, infelizmente, estou congelando atrás do balcão do Mocca Café.
— Ana. — Chamou Melissa. — Você está me ouvindo?
— Estou, sim. — Menti.
— Não, você não estava me ouvindo. Como sou boazinha, irei repetir. Se lembra do João, o cara da agronomia?
— Lembro.
— Então, ele descobriu meu número. Fica me mandando mensagens o dia todo, e aparentou ser bem legal. Chamou-me para sair, mas não sei o que fazer, digo, ele pode ser gente boa, mas é um galinha.
— Sempre achei que ele fosse metido.
— Bom, ele é. Mas também é legal.
— Personalidade bipolar. — Resmunguei,tirando sarro. — Quer um conselho? Saia com ele. Se for muito chato ou for além do flerte, me avise que eu ligo fingindo que uma emergência aconteceu.
— É um bom plano, mas ele é safado. Não quero sair com um safado.
— Então não saia.
— Mas, ao mesmo tempo, ele é sensível e...
— Mel, você é bipolar. — Concluí. — Mais bipolar do que o clima. Ontem à noite, estava calor, choveu de madrugada e agora está frio.
— Ana, é a terceira vez que você reclama do frio em dez minutos. Eu percebi o frio assim que sai de minha cama quentinha repleta de cobertas.
Debrucei-me no balcão. O Mocca café estava vazio desde abrimos as portas.
Após o que pareceu-me uma eternidade, um rapaz adentrou, fazendo o sininho da porta tocar.
Para minha enorme surpresa, era Miguel. Contive-me para não comentar sobre o incidente com Carmem, ao invés disso, fiquei imaginando se o garoto apanhou depois que fui embora. A julgar por seu sorrisinho torto, era óbvio que não.
— Amorzinho. —Ironizou ele. — Estava morrendo de saudades de você.
— Ele sempre faz isso? — Melissa indagou para mim, acenei a cabeça em concordância — Haja paciência.
— Ela adora isso, Melani.
— Meu nome é Melissa, queridinho.
— Tanto faz.
— Vai comprar alguma coisa ou só passou para esgotar minha paciência? — Indaguei.
— Na verdade, passei para dizer que eu e minha família iremos viajar.
— Isso significa que estarei livre?
— Mais ou menos. Teremos que mandar mensagem pelo Facebook de vez em quando.
— Tudo bem. — Respondi. — Só por curiosidade, vocês vão para onde?
— Nova Iorque, a cidade que nunca dorme.
— Caramba! — Deixei escapar. — Diane também vai?
— Não, ela vai ficar, alguém precisa cuidar da empresa do meu pai. E também,ela se preocupa com o bebê. Além disso,ela se casou,logo deve constituir sua própria família e viver com seu próprio dinheiro. Por esses e outros motivos,nunca irei me casar.
— Realmente, você é bem mimado.
— Me orgulho disso. Bom, agora tenho que voltar para casa, disse que iria abastecer o carro e já estou na rua há uma hora.
— Diga que a fila estava enorme.
— Não sou um mentiroso, Ana. Não sou você.
Senti-me corar, cada nervo do meu corpo querendo arrastar o rosto de Miguel no asfalto. Cerrei a mão em punhos e respirei fundo, então ouvi a risada do rapaz.
— Meu Deus, você precisava ver o quanto se zangou. Francamente, você não sabe brincar.
— Vá se ferrar. — Disse eu.
—Vou me ferrar no topo do Empire State, observando Nova Iorque de cima. Melhore o humor, querida, você é como minha falecida bisavó. Falando em bisavó, quando eu voltar da viagem terá que comparecer a um almoço na casa de minha avó materna, combinamos os detalhes depois.
— Ok, agora saia do meu ambiente de serviço.
— Bye, bye, honey. — Ele disse, sorrindo. — Tchau, Mércia.
— É Melissa! — Ela gritou, mas Miguel já estava do lado de fora. — Idiota.
— Acha que eu devo pedir um aumento? — Indaguei.
— Com toda a certeza. — Melissa disse. — Ele é um saco.
— Tomara que o avião dele caia. — Falei,em tom de brincadeira.
— Tomara que seja atropelado na quinta avenida.
— Tomara que a estátua da liberdade caia e o esmague. — Continuei.
— Ou, quem sabe, ele visite Hollywood e o letreiro despenque, fazendo com que ele role barranco abaixo. — Melissa sugeriu.
Imaginando a cena, comecei a rir.
— Mel, você é do mal.
— Tomara que ele vá para Washington e derrube café no presidente,então ia ser preso e morto na cadeira elétrica.
— Acho que o Obama não ia condenar um rapaz por derrubar café no terno dele.
— Xiu, deixe minha mente maligna trabalhar. — Ao dizer isso, ela fez uma careta. Recomecei a rir, continuando com as possíveis causas de morte de Miguel nos Estados Unidos.
— Chega. — Falei, após uns dez minutos. — Vou ter um infarto de riso.
— Essa coisa nem existe, amiga.
— Então serei a primeira a morrer disso.
— Às vezes eu me pergunto por qual motivo sou sua amiga. — Melissa falou, dando de ombros. — Eu merecia alguém estável mentalmente.
— Ah,cale a boca. — Falei, entre risos.
* * *
Meu celular vibrou com a chegada de uma mensagem. Desbloqueei a tela e fui conferir o que era.
“Ana, vem me buscar” — Lucas.
Contrariada, digitei :
Lucas, você sabe que horas são? Eu estou no trabalho, irmão, não posso ceder aos seus luxos. Por que não quer ficar na escola?
Após alguns segundos, veio a resposta.
“Porque estou com medo. Por favor, venha me buscar, estou no banheiro feminino do pátio.”
“Lucas, não tem como ir te buscar. A escola não tem um fantasma, agora saia do banheiro e vá para a sua sala de aula. Agora saia do banheiro feminino nesse exato momento, antes que uma menina chame a diretora.”
“Não tenho medo de fantasmas aqui, tenho medo dos garotos que falaram que iriam me bater e que estão me procurando por toda a escola agora. Por favor...”.
“Vá para a sala da diretora”
“Tem um deles de tocaia lá, se dividiram em todos os corredores da escola, estou escondido no único banheiro onde não iriam me procurar.”
Olhei no relógio que ficava ao lado da caixa registradora. Eram dez e meia, não ia dar para esperar até o horário do almoço. Meus pais estavam trabalhando, eu era a única que poderia ir até a escola e buscar Lucas. Xinguei em voz alta.
— O que aconteceu? — Melissa indagou
— Meu irmão está sendo procurado por alguns valentões da escola e não consegue se virar sozinho.
— Coitado. — Mel suspirou. — Meu pai costumava me contar sobre como era perseguido por valentões. As meninas gostavam dele, já que ele era educado e gentil, então os garotos ficavam com inveja... Ele faz tanta falta lá em casa.
O pai de Melissa havia falecido alguns anos atrás.
— Eu sei. Será que a Sra. Austen me deixaria sair para pegar meu irmão?
— Provavelmente, não. Mas, caso você não se lembre, ela está doente e não aparecerá na loja tão cedo.
— Você está sugerindo...
— Sim, eu estou sugerindo que você saia escondida e volte depois.
— Isso é encrenca, Melissa.
— É isso ou seu irmão vai ficar com o olho roxo. Vai logo, Ana, tem um ônibus que sai em cinco minutos no ponto da avenida principal.
Saí correndo, de uniforme e tudo o mais, precisava chegar logo até a avenida. Arfando, dobrei cada esquina e cheguei até na esquina do ponto.
Só para ver o ônibus passando rapidamente bem à minha frente. ‘
— Merda! — Gritei,chamando a atenção de uma criança que estava do lado contrário da rua.
Por que tudo tinha de dar errado?
Caminhei até o ponto de ônibus e sentei-me no banco desconfortável de metal. Será que demoraria muito até que outro ônibus com o mesmo destino passasse por ali?
Apoiei meu queixo em uma das mãos, esperando pela condução. Alguém estacionou o carro na esquina, desceu do carro e foi até onde eu estava. Involuntariamente, escondi o celular.
— Ana! — Gritou uma voz, reconheci-a como a de Tobias. — O que faz aqui?
— Esperando um ônibus, não é óbvio?
— Ei, por que a grosseria?
— Desculpa. — Falei com sinceridade— Estou um pouco nervosa, só isso.
— O que aconteceu?
— Meu irmão se meteu em encrenca na escola dele, saí no meio do expediente e perdi o ônibus. A escola dele fica um bocado longe, então irei demorar um século.
— Onde fica a escola dele?
— Perto de casa, uns dois quarteirões de distância.
Ele pareceu refletir sobre algo, depois acrescentou:
— Eu posso te levar lá. Estava de bobeira mesmo.
— É muita gentileza da sua parte, mas não posso aceitar.
— Na verdade, pode sim. Vamos, entre no carro.
— Nesse caso,obrigada pela carona.
Ele sorriu.
— Disponha.
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