Namoro por Aluguel
21 Meu irmão bobão
Notas iniciais
— Eu preciso entrar, moça. — Implorei, na secretaria da escola de Lucas.
— A senhorita não pode entrar no colégio, mas diga-me onde está seu irmão que o buscarei.
— Você não entende, ele não vai sair de lá se outra pessoa for. Qual é, já fui aluna dessa escola, não farei mal algum.
— Desculpe-me, mas se permitir que entre, serei demitida. Aliás, onde ele está? E por que veio busca-lo no meio do período de aula?
— Valentões, é claro. Agora me deixe entrar. — Falei, encarando os óculos de grau que se apoiavam no enorme nariz da secretária que falava comigo.
— Desculpe, mas a senhorita não irá entrar.
Bufei.
— Ele está no banheiro feminino do pátio, se não me engano. Vá e chame-o, mas duvido que sairá sem ouvir minha voz.
— Espere aqui na recepção. — Disse ela, abrindo a porta que dava acesso à escola.
Quando a fechou bruscamente, sentei-me em uma das confortáveis cadeiras pretas.
— Essa mulher é chata. — Falei a Tobias. — Na minha época, a secretária era gente boa.
— Talvez esteja em um dia ruim. — Ele disse, passando uma das mãos pelos cabelos.
— Bom, eu saí do meu serviço sem permissão, perdi o ônibus e fui impedida de entrar na minha antiga escola de ensino fundamental, se ela está em um dia ruim, eu também estou. A única coisa boa de hoje foi saber que a praga viajou.
— Quem viajou? — Tobias indagou, encarando-me.
Droga, eu deixara escapar.
— Meu vizinho. — Menti. Isso estava se tornando frequente.
— Você parece mentir. — Disse ele, olhando em meus olhos.
—Saiba que não estou.
A porta se abriu, livrando-me de mais mentiras.
— Poderia me acompanhar, senhorita? Lucas exigiu que você fosse busca-lo.
— Foi o que eu disse. — Falei, embora minha mente estivesse pensando na música turn down for what e em minha face adornada pelo tão famoso óculos que a representava. — Com licença, Tobias, volto já.
O vi cobrir a boca, em uma tentativa de esconder o riso. Talvez também estivesse pensando na mesma coisa que eu. A mulher, que descobri ser Cristina, me guiou até a cantina. Haviam duas portas, uma delas indicava o banheiro masculino e a outra o feminino. Um garoto que estava vindo em nossa direção voltou correndo para sei lá onde. Seria um informante dos valentões?
— Lucas, sua irmã está aqui. — Disse a tal Cristina, de má vontade.
— Ana Clara? — Indagou ele.
— Por acaso, você tem outra irmã?
A porta de uma das cabines se abriu devagarinho e meu irmão saiu cabisbaixo. Sem cerimônia, ele correu até mim e pulou em meu colo, fazendo com que eu me desequilibrasse com seu peso.
— Ei, rapaz, o que aconteceu? — Indaguei, preocupada.
— Podemos conversar em casa? — Ele disse, ainda fitando o chão. Delicadamente, ergui sua face, constatando que um horrível roxo emoldurava seu olho esquerdo.
— Lucas do céu, o que é isso?
— Me tire daqui. — Ele disse firmemente — Por favor.
— Quem fez isso em você? — Indagou Cristina. — Devemos ir à diretoria.
— Não, eu quero ir embora. — Meu irmão falou. — Amanhã ou depois resolvemos isso.
— Mas...
— Deixe-o. — Intervi. — Hoje ele não está se sentindo confortável, podemos conversar sobre isso depois.
— Nesse caso, tudo bem, mas se lhe causaram isso, esses cidadãos não irão sair impunes.
— Não sairão. — Lucas disse. Depois, virou-se para mim. — Ana, me tira daqui logo.
Apoiando uma das mãos em suas costas, conduzi-o até a secretaria.
* * *
— A nossa casa é na outra direção. — Meu irmão disse para Tobias.
O rapaz insistira em me levar de volta ao trabalho.
— Sua irmã precisa voltar ao trabalho. — Tobias disse, com sua natural mansidão.
— Terei de ficar no Mocca?
— Sim, você terá. — Respondi. — É bem melhor que ficar escondido no banheiro feminino. Aliás, você não me contou como ganhou esse olho roxo e nem porque os garotos te perseguiam.
— Eles se zangaram comigo, o líder deles me deu um soco e eu corri até o banheiro.
— Quem é esse menino? — Perguntei. — Diga-me e eu juro que o estrangulo e...
— É o Danilo, aquele que antes era meu amigo.
Recordei-me do garoto.
— Aquele que nos visitava aos sábados?
— Esse mesmo. Ele mudou bastante nos últimos anos.
— Prometo que conversarei com a mãe dele quando voltar do trabalho. Aquele pestinha vai levar uns belos cascudos!
— Não, deixe que eu mesmo faça vingança. — Meu irmão disse, determinado. — Danilo morre de medo de palhaços e, por coincidência, tenho uma fantasia de palhaço em casa.
Sorri, deliciando-me com a imagem de Danilo choramingando pela escola enquanto meu irmão o perseguia com sua roupa de palhaço. Porém, por ser a irmã mais velha e responsável, tive de dizer o que mamãe diria:
— Ah, querido, isso não é bom. A vingança empobrece a alma e para nada serve.
— Está repetindo o discurso de mamãe. — Resmungou o pestinha. — Eu sei que você quer que eu me vingue.
— Sabe o que seria melhor? — Tobias pronunciou-se. — Se todos da sala ignorassem esse tal Danilo. Poderiam dizer que a burrice dele era contagiosa e que era melhor se manterem afastados. Cara, o garoto ia sair correndo na hora.
— Quem diria que a mente de Tobias poderia traçar vinganças? — Falei, em tom de brincadeira.
— Minha mente traça muitas coisas, Ana, se passasse mais tempo comigo saberia disso.
— O que não me falta é vontade de fazer tal coisa...
— Eca, vou vomitar. Parem de flertar na minha frente. — Lucas disse, abrindo a janela do carro. Depois, gritou para a rua: — Dois safados não me respeitam, tirem-me daqui!
— Cala a boca, sua praguinha. — Falei, rindo. — Ninguém estava flertando.
— Bom, talvez eu estivesse...
— Nesse caso, você flerta muito mal. — Ri.
— Queria estar morto. — Lucas murmurou no banco de trás.
— Cale a boca.
* * *
— Bom, obrigada pela carona. — Agradeci à Tobias enquanto meu irmão corria para dentro do Mocca Café.
— Foi um prazer ajuda-la.
Abri minha bolsa, retirando a carteira.
— Não devo ter muita coisa aqui, mas deve ajudar com o combustível...
Tobias colocou a mão sobre a minha, que vasculhava a carteira.
— Nunca pediria dinheiro por isso, Ana.
— Nesse caso, o que faço para retribuir?
Ele pareceu pensar por um minuto, depois disse:
— Poderia conceder-me a honra de um piquenique no domingo à tarde, o que acha?
— Nada mal. Pode ser às quatro? Nos encontramos em que lugar?
— Eu te busco em casa, será um prazer.
— Tudo certo, então. Preciso voltar ao trabalho, mas nos vemos no domingo. — Falei, indicando para o Mocca. — Muito obrigada, você me ajudou muito hoje.
— Antes que volte, preciso fazer mais uma coisa. — Disse ele, puxando-me para perto. E então, me beijou, um breve e delicado beijo. Depois, se afastou. — Até mais.
Sem conseguir dizer coisa alguma, apenas acenei e fiquei na calçada até que seu carro sumisse de vista. Sentindo borboletas no estômago, voltei para dentro do Mocca Café.
— Até que ele não é tão pamonha quanto imaginei. — Melissa disse. — Embora Você –sabe- quem seja bem melhor.
Sem entender, meu irmão disse.
— Voldemort é melhor que Tobias?
— Um dia você saberá, amiguinho. Agora, faça sua chantagem com a Ana.
— É verdade. — Meu irmão se animou. Me dê um doce ou conto ara a mamãe que você beijou um garoto no local de serviço.
— Faça isso e contarei a ela sobre sua vingança. — Rebati enquanto lavava as mãos no banheiro. — Agora deixe-me examinar o seu machucado.
— Droga, você sempre vence. — Reclamou o baixote, caminhando até o banheiro. — Sabia que a Sra. Austen quase veio ao Mocca?
Engasguei com a saliva.
— O que?
— Ela ligou. — Explicou Melissa. — Perguntou se algo estava faltando e disse que viria caso estivesse bem de saúde. Agradeça à gripe, minha amiga.
— Obrigada gripe. — Ironizei enquanto colocava uma embalagem de vegetais congelados sobre o olho roxo de meu irmão. — Agora veja se temos creme de arnica aqui.
— Que tipo de cafeteria tem arnica? — Melissa disse, rindo.
— Sra.Austen é vidrada em remédios, se lembra? Vá vasculhar a mesa dela, aposto que deve achar.
— Sim senhora.
Minutos depois, Mel voltou, com um tubinho na mão.
— Seu creme, Majestade. — Disse, fazendo uma reverência fajuta.
— Fique quieta. — Falei, rindo. Depois comecei a aplicar o creme ao redor dos olhos de meu irmão.
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