Namoro por Aluguel
23 Confusão mental.
Notas iniciais
O dia amanhecera belo e com boa temperatura. Os pássaros cantavam, os pedestres faziam caminhada e os carros passavam em velocidades variadas. Uma leve brisa bagunçava meus cabelos de forma delicada (isso é extremamente raro, já que quase sempre os fios ficam grudados no meu gloss) e, por incrível que pareça, o modo aleatório do player de musica do meu celular selecionara uma melodia da qual eu gostasse. Só uma coisa poderia arruinar esse dia, e essa coisa vinha caminhando em minha direção.
— Amor! — Gritou, de forma falsa, Miguel. — Revirei os olhos enquanto ele me dava um abraço. — Ah, meu amor, senti tanta saudade...
— Pode parar de encenar, nenhum conhecido está nos olhando. — Falei.
Ele sorriu, me soltando.
— Adoro quando fica irritada. — Zombou. — Sentiu minha falta?
— Nem um pouco. — Falei. — Por mim, você poderia ter sido atropelado.
— O mundo perderia seu habitante mais belo e inteligente.
— E mais bocó também. Encontrou seu amor verdadeiro em Nova Iorque?
— Não. — Lamentou — Mas achei alguns amores passageiros que foram maravilhosos. Tinha uma garota chamada Lindsay e, cara, ela era sensacional...
— Poupe-me dos detalhes. — Interrompi.
— Eu não darei detalhes, querida. Não quero que fique enciumada, afinal, você é única para mim.
— Se isso fosse verdade, me atiraria do décimo andar do prédio mais próximo.
Miguel gargalhou.
— Tem certeza de que não sentiu minha falta? — Indagou ele, com cara de cachorrinho abandonado.
— Certeza absoluta. Adorei ficar algumas semanas sem ter alguém para me encher o saco. — Falei, embora tivesse sido ruim não ter alguém para fazer tal coisa. Assim que tive esse pensamento, policiei-me. De onde aquilo tinha vindo?
— Mas, para seu azar, eu voltei. — Miguel suspirou. — Me acompanhe, deixei o carro na esquina.
— E quem disse que irei para sua casa? — Reclamei. — Só vim para perguntar sobre quais presentes você trouxe à sua “namorada”.
— Ter a chance de fingir me namorar já é um presente, querida.
Revirei os olhos, enojada.
— Tenha dó, você não é o Ian Somerhalder.
— Ian quem? — Ele perguntou, confuso.
— Deixa pra lá.
Virei-me e comecei a andar até o lugar onde seu carro estava estacionado. Em alguns segundos, Miguel me ultrapassou e destrancou as portas do veículo. Como de costume, fiquei calada durante todo o percurso, apenas observando o celular de Miguel tocar e receber mensagens. Porém, no dia de hoje, nenhuma garota ligou.
— Sorria e finja estar com saudades de mim. — Aconselhou Miguel. — Fazendo isso, antes do café da tarde estará dispensada. Esse sábado está bonito demais para que eu o desperdice olhando para sua cara.
Ofendida, dei-lhe a língua.
— Saiba que eu sairia antes do café com ou sem sua “permissão”. Tenho um encontro.
— Tobias de novo? — Indagou o rapaz. — Se eu fosse você tomaria cuidado, ele bonzinho demais. Talvez seja exatamente o contrário.
— Olha quem fala. — Rebati.
Os portões do condomínio de Miguel se abriram, e após cumprimentar o porteiro, o rapaz dirigiu até sua casa. Havia um senhor cuidando do jardim que antecedia a casa e, na garagem, somente o carro de Carmem estava estacionado. Percebendo que eu observava, Miguel se manifestou.
— Meu pai está trabalhando em no começo da tarde de um sábado, não que isso seja novidade. — Disse, com a voz cheia de amargura. — Depois de uma infância inteira, você se acostuma.
Em resposta, não disse nada. Aquilo não era o tipo de coisa que pudesse ser medido em palavras. Pensei em um Miguel criança, esperando o pai voltar do trabalho que parecia nunca ter fim para poder jogar xadrez, bola ou até mesmo para contar sobre o episódio de seu desenho preferido. Não era uma visão muito boa sobre a infância, para ser sincera.
— Venha ,amorzinho. — Zombou. — Vamos ter um dia normal entre namorados.
Revirando os olhos, me soltei do cinto de segurança e saltei para fora do carro. Caminhamos lentamente até a casa de meu “namorado”, e, ao abrir a porta, deparei-me com a mesma aparência intacta e “acabei de ser limpa” de sempre. — Mãe! — Gritou Miguel. — Cheguei.
Em alguns segundos, Carmem apareceu na ponta da escada. Estava diferente, com roupas mais simples, chinelos e com um óculos apoiado no nariz.
— Olá, Ana. — Cumprimentou. — Miguel, pode vir aqui por um segundo? Obedecendo à mãe, ele subiu até onde ela estava. Enquanto isso, fiquei encarando o chão. Alguns segundos depois, o rapaz já estava ao meu lado.
— Me siga. — Disse. — Vamos para o meu quarto. Fiz o que foi-me dito e, depois que já estava acomodada em uma poltrona, Miguel encostou a porta.
— Vai querer jogar? — Perguntou, apontando para seu videogame.
— Por que não? — Respondi. E, de fato, jogar era melhor do que morrer de tédio.
Sentei-me na ponta de sua cama, pegando o controle mais próximo.
— Isso é bem invasivo. — Comentou Miguel.
— Eu sentar na sua cama?
— Não, você jogar videogame comigo. No geral, é algo que gosto de fazer sozinho.
— Coloque na sua lista de “primeiras vezes”. O tópico “uma falsa namorada jogando videogame” me parece ser bem interessante.
— Infelizmente, está longe de ser o tópico mais interessante da minha vida.
O jogo começou e, após algumas partidas, eu já havia me irritado.
— Odeio perder. — Reclamei. — Você poderia ser mais bonzinho e me deixar ganhar pelo menos uma vez.
— Sonhe com isso, amorzinho.
— Não me chame de “amorzinho”, é um pouco assustador.
Miguel virou-se para mim.
— Tudo bem, amorzinho.
— Às vezes me pergunto como consegue ter amigos ou garotas interessadas em você.
— Eu sou lindo, legal, inteligente e uma pessoa de caráter maravilhoso. Como não iriam se apaixonar por mim?
— Esqueci-me de mencionar que é bem modesto. — Ironizei.
— Você é péssima utilizando sarcasmo e ironia, sei lá, essas palavras não se encaixam em você. Talvez devesse continuar sendo apenas chata.
— Eu não sou chata. — Protestei, levantando-me e indo até a poltrona pegar minha bolsa. — Você que é infantil e boboca.
— Boboca? Meu Deus, esse é o xingamento da minha avó para quando eu quebrava algum vaso de sua casa.
— Não vou te falar mal de verdade dentro da sua casa. Seria um quase suicídio.
— Me chamar de infantil é quase a mesma coisa.
— Existe um grande abismo entre a verdade e o desrespeito. O que eu disse foi verdade, o que eu queria ter dito seria desrespeito.
Ele se levantou, indo até mim.
— Então realmente pensa que sou infantil?
— Existe alguém que não pense?
Algo nos olhos de Miguel se acendeu. Ele encostou-me a parede rapidamente, prensando-me com seu corpo. Estava extremamente próximo de mim, de forma que eu pudesse sentir sua respiração.
— Vou te mostrar quem é o infantil, Ana Clara. — Disse, grunhindo.
— Me solte, estou ficando assustada.
Ele prensou-me ainda mais, agora estando a apenas alguns centímetros de distância. Entreabriu os lábios, que agora estavam quase encostados nos meus. Em uma atitude impensada, elevei meu joelho até suas partes baixas e liberei ali minha força. Miguel caiu, soltando um grito.
— Caramba, garota. Não achei que você não levasse nada na brincadeira.
— Eu estava prensada contra uma parede e você se aproximava. Achava que eu iria ficar imóvel? E, falando sério, aquilo não me pareceu uma brincadeira.
— A garota americana adorou brincar...
— Eu não sou uma de suas “minas”, exijo respeito. Não ouse fazer esse tipo de coisa novamente.
Em meio a uma expressão de dor, ele meneou a cabeça.
— O que você tem nesse joelho? Concreto?
— Ossos. — Respondi. — Parece-me que não prestou atenção nas aulas de biologia. Quer que eu te ensine quais são os órgãos vitais mais sensíveis? Ou então as consequências de cortar uma parte do corpo irrigada por muito sangue?
— Não, Não. Estou legal assim.
Tinha a plena consciência de que eu estava vermelha feito um pimentão. Sentia a raiva fluir em mim e uma constante voz em minha cabeça incentivando-me a espancar Miguel até que seu cérebro estivesse aparente. Mas, como uma pessoa bem educada, apenas abri a porta do quarto e fiquei do lado de fora enquanto ele se recuperava de meu chute.
Porém, ao mesmo tempo em que a raiva se espalhava por meu corpo, algo diferente fazia a mesma função. Não sabia o que era, mas dizia-me que eu deveria ter aproveitado a oportunidade de me perder nos braços do tão famoso Miguel Belafonte.
Chocalhei a cabeça, enojada com a ideia. Que diabos eu estava pensando?
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