Namoro por Aluguel
24 A sementinha da dúvida
Notas iniciais
— Ele fez o que? — Indignou-se Melissa, após eu relatar o incidente na casa de Miguel.
— E ainda reclamou quando eu o chutei nas partes baixas. — Resmunguei. — Ele é um idiota.
— Tenha certeza de que é,você não é uma das vadias dele. — Foi exatamente o que eu disse.
Ela franziu o cenho, claramente irritada com a situação. As aulas da faculdade haviam retornado no dia de hoje e, para a surpresa de todos da turma, Miguel finalmente comparecera a uma aula. Sequer dirigiu-me o olhar e, em minha opinião, era melhor assim.
— Mas, para ser bem sincera, acho que você deveria ter aproveitado a chance... — Sugeriu minha amiga.
— O que?! Ficou maluca?
— Qual é, Ana. Quantas garotas podem dizer que Miguel –todo poderoso- Belafonte roubou um beijo seu?
— Isso não é motivo para orgulho, mas sim uma tremenda falta de respeito.
— Ah, qual é. Vai me dizer que nunca ficou a devanear sobre o que aquela boca divina poderia fazer?
— Não, nunca fiquei. Tenho coisas mais importantes com o que me preocupar.
Melissa, não se dando por convencida, continuou a papear enquanto mexia nos cachos de seu cabelo. Para minha felicidade, um cliente entrou no Mocca café, interrompendo a amiga.
— Posso ajuda-lo? — Indaguei, seguindo o procedimento padrão enquanto o rapaz fechava a porta do estabelecimento (algumas pessoas, mesmo sabendo que a porta funcionava por pressão, insistiam em fechá-la)
— Eu quero falar com você. — Disse o cliente, virando-se para o balcão. Tirou seu capuz, revelando a habitual cabeleira negra.
— Funcionários não podem conversar em horário de serviço, Miguel. — Chiei. — Vai querer um café ou algo para comer?
— Cara, me desculpa por ontem. — Disse, ignorando o aviso. — De verdade, eu não quis te ofender.
— Veio até aqui para dizer isso? — Indaguei.
— Sim, não consegui dormir direito. Achei que você gostaria, sabe? Todas as garotas gostam.
— Eu não sou todo mundo. Sou contratada para fingir te namorar, não para fazer as coisas que namoradas fazem.
— Eu sei. — Disse, baixinho. — Você me perdoa?
— Tá. — Resmunguei. — Apenas não tente novamente.
— Só se você pedir...
Recebeu de mim um olhar fulminante, então se calou.
— Tem balinha aí? — Disse, mudando de assunto.
— Sim, vai querer uma?
— É.
Deu-me dez centavos e saiu do Mocca café feliz e saltitante, com uma balinha na boca.
— Uau. — Espantou-se Melissa. — Miguel veio mesmo pedir desculpas?
— Alguém me disse que o mundo iria acabar em breve. Na hora, duvidei, mas agora começo a acreditar. — Zombei. — O apocalipse está chegando.
— Pode crer que sim. Se quer saber, ele fica muito fofo pedindo desculpas.
— Eca.
Mel riu de minha expressão de nojo. Também ri, tentando me lembrar da carinha de dó que o rapaz fizera. Ao lembrar, não pude deixar de concordar com Melissa, ele estava realmente muito fofo. E eu, certamente, estava doida.
* * *
— Mãe! — Gritou Lucas. — A Ana me bateu.
Revirei os olhos, desprendendo minha atenção do grosso livro cuja leitura fora solicitada por um professor da faculdade.
— Ana, deixe seu irmão em paz. — Minha mãe respondeu, já na porta de meu quarto.
— Ele invade meu quarto, quebra um anjo de porcelana e ainda tem o direito de sair sem nenhum hematoma? Quem dera eu pudesse trocar de vida com Lucas.
Apoiando-se no batente, minha mãe conferia a cabeça de Lucas.
— Dar um tapa na cabeça dele não é a solução.
— Não foi um tapa. — Corrigi — Foi um peteleco, coisa leve.
— Eu vou contar para o papai. — Disse Lucas, tentando me intimidar.
— Conte sobre isso e eu conto sobre a Júlia.
— Quem é Júlia? — Minha mãe perguntou, confusa.
Meu irmão ficou tão vermelho quanto acaju.
— É a paquera de Lucas, mãe. Uma garotinha da escola e...
— Fique quieta! — Ele gritou, depois saiu correndo escondendo o rosto nas mãos.
Mamãe lançou-me um olhar reprovador.
— Não precisava fazer isso, Ana. Não é atitude de uma mulher, mas sim de uma criança.
— Ele estava mentindo, mãe, apenas me vinguei.
— Estou decepcionada. — Disse ela, com o mesmo tom de voz que usava em todas as vezes em que eu era criança e fazia algo errado. Depois, saiu de meu quarto chamando por meu irmão.
Um pouco arrependida, voltei a ler o livro. Conviver com um pirralho de nove anos é difícil, se querem saber, pois ao mesmo tempo m que deseja protegê-lo e ama-lo, deseja também jogar-lhe contra a parede e despachá-lo para o Paquistão.
Alguns minutos depois, papai chegou em casa e a perfeita atuação de drama de meu irmão teve seu início. Papai, que já estava acostumado comesse tipo de situação, apenas disse que eu não tinha o direito de bater em meu irmão e que ele não podia mexer em minhas coisas sem permissão. Cerca de vinte minutos depois, Lucas corria de um lado ao outro da casa, nem um pouco triste.
* * *
— Ei, Ana. — Chamou-me Tobias, correndo pelo campus. — Preciso falar com você.
Parei no meio do caminho e esperei até que um Tobias ofegante me alcançasse.
— O que foi? — Indaguei, curiosa.
— Um minuto, por favor. — Disse, apoiado nos joelhos enquanto arfava. — Tem algo para fazer sábado a noite?
— Creio que não, por quê?
— Pensei que podíamos ir àquele festival de comida asiática.
— Claro, eu adoraria.
— Posso passar na sua casa lá para as seis da tarde?
— Pode sim.
Terminamos de combinar os detalhes e, quando ele saiu, retomei meu caminho. Infelizmente, trombei em algo. Ou melhor, alguém.
— Não simpatizo com esse cara. — Resmungou Miguel. — Ele parece ser muito certinho e simpático e, na verdade, ninguém é assim.
— E desde quando preciso que você simpatize com alguém? Fique fora de minha vida amorosa e farei o mesmo com a sua.
Esperei que ele fizesse alguma gracinha, mas apenas semicerrou os olhos.
— Tome cuidado, Ana. Você é uma boa garota.
— Se você diz...
Retomei meu caminho, embora as palavras de Miguel ecoassem em minha cabeça. Haveria alguma chance de que ele estivesse certo sobre Tobias? Tão repentinamente quanto veio o pensamento foi embora. Nada do que Miguel dissesse poderia ser levado a sério e, além do mais, ele não conhecia Tobias.
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