Namorada de Natal
10 Capítulo 10: Tradições de família e ceia.
Notas iniciais
Após o que seria o momento mais constrangedor que minha família poderia organizar, Jéssica e eu conseguimos nos afastar do pessoal que ainda dançava. Aos poucos mais alguns de meus parentes foram se afastando também, deixando somente minha mãe e meu pai juntos aproveitando o momento.
Servimos com alguns pedaços de carnes que meu tio fazia no churrasco, um tipo de aperitivos que meus tios e meu pai sempre fazia antes da ceia principal. O ambiente pareceu esquentar considerávelmente após o momento discoteca, evitei pensar demais no que houvera instantes passados e me fixar apenas no pensamento de que teria uma semana inteira para que ela cumprisse seu acordo comigo.
O que em mim causava um certo tipo de alívio por ter em mente que seriam poucos dias, naquele segundo trouxe-me uma estranha sensação de tristeza.
Talvez eu estivesse já acostumado com a ideia de tê-la por perto, conhecendo um lado meu que muitos jamais conseguiram e vendo que por detrás do autor de livros de terror existia um rapaz comum como qualquer outro que poderia ser encontrado em São Paulo.
Seguimos em silêncio enquanto comemos carne, após o evento onde dançávamos evitei olhar demais para Jéssica, temia que se o fizesse acabaria descobrindo algo a mais.
A música logo foi interrompida quando o seu volume foi abaixado até que todo o ambiente fosse dominado apenas pela fala das pessoas presentes.
— Temos meia hora antes da meia noite, vamos até a ponte para ver os fogos! — Quem estava no microfone dessa vez era minha mãe, seu anincio sobre o horário e o que faríamos despertou em mim um algo importante que deixei de avisar a Jéssica.
Como se um botão tivesse sido apertado em mim, as lembranças do que minha família costumava fazer ao dar meia noite veio à tona juntamente com uma lista de xingamentos dos quais Jéssica poderia usar contra mim. Minha sorte era que estava com minha família e ela manteria seu papel, não teria coragem de me xingar na frente de todos.
Pelo menos era isso em que eu acreditava.
— Meu Deus... — Murmurei ao lembrar-me do que viria quando estivéssemos já na ponte, algo do qual eu simplesmente me esqueci e não a preparei. Tão pouco preparei-me a mim. — Camila!
A chamei segurando em seu braço e puxando-a para perto de mim, enquanto todos seguiam para a ponte de onde poderíamos ver o show de fogos de natal. Jéssica olhou-me sem entender nada, estava quase reclamando de minha atitude, que confesso eu, ter sido um tanto desnecessária.
— O quê?...
— Eu esqueci de avisar sobre uma coisa — Falei quase sussurrando para ela, não queria que os demais me escutasse. Fui considerado por ela um rapaz sistemático demais e admito que o fazia sem percebe, porém de todas as coisas para as quais eu poderia tê-la preparado a principal delas sequer passou por minha cabeça.
Eu não tive tempo para avisa-la, minha mãe nos pegou de surpresa e puxou-nos para os demais, no deixando um lado do outro. Essa seria minha chance de lhe dizer o que precisava, contudo fui interrompido pela segunda vez.
— Camila eu não sei se o Diogo te avisou, mas viemos de uma família cheia de tradições e superstições que levamos adiante e seguimos como algo bem sagrado — Conforme Marli começava a explicar o que iria acontecer em poucos segundos, eu buscava em minha mente alguma desculpa esfarrapada para cortar ou impedir aquele momento. — A mãe da minha avó dizia que quando da meia-noite para celebrarmos o natal, cada casal deve fazer um pedido e se beijar durante a queima de fogos.
A última frase causou-me um demorado frio na espinha, a sensação estava longe de ser algo bom.
— Ela acreditava que o ato do beijo concretizava o pedido. E assim teremos não só o nosso desejo realizado como também prosperidade e amor até o próximo natal. — Minha irmã Roberta completou a fala de minha mãe, neste mesmo segundo Jéssica virou o rosto na minha direção, encarando-me entre a surpresa e indignação.
Engulo seco.
— Diogo nunca mencionou isso — Disse ela, o rosto firme tentando disfarçar a cobrança pelo aviso. Eu já nem sabia mais como olhá-la sem que sentisse que seria fuzilado somente com o olhar que recebia dela.
— Essa será a primeira vez que ele irá participar da nossa tradição! — Roberta me lembrou muito animada, deixando claro que nada do que eu diria faria com que eu fugisse daquilo.
— Finalmente escritor! — Gritou meu tio Otávio, erguendo a lata de cerveja que tinha em mãos. Comemorando minha primeira participação numa tradição que eu mesmo não entendia direito.
Mais alguns de meus primos e até as crianças gritavam com a bagunça, mentir sobre estar namorando faria com que eu escapasse da zoação com minha vida amorosa, contudo trazer a falsa namorada só fez com que eu continuasse a ser o alvo das piadas.
— Três minutos pessoal! — Gritou a irmã de minha mãe, Marilene. Ela segurando a mão de seu marido enquanto todos se arrumavam para que cada um conseguisse a visão de onde aconteceria o show de fogos.
— Isso é mesmo sério? — Jéssica perguntou mais baixo, olhando-me assustada; mas eu bem sabia que ela estava apenas irritada pela minha falta de aviso sobre isso.
— Infelizmente sim. — Respondi. Achando toda aquela situação tão ruim quanto ela.
Constrangedora até.
— Está na hora gente, façam seus pedidos! — Gritou minha mãe, alegre. Olhei para o céu escuro, pensando no que pediria; mesmo que eu não acreditasse muito nessa tradição de família.
Fechei meus olhos e pedi, sentimento um tanto bobo por isso. Ao abri-los virei-me para Jéssica, ela já me encarava também, sem jeito e evitando olhar-me diretamente nos olhos. Assenti quando ela deu meio passo em minha direção, os demais já estavam se abraçando e trocando beijos após os pedidos feitos.
A cena que antes era evitada por mim estava agora exigindo que eu participasse também, o mundo dava suas voltas e estar naquela situação era uma delas.
Olhei para Jéssica com meu rosto levemente inclinado para baixo, mentalmente um punhado de diversos pensamentos me dominavam, todos eram confusos e sem sentido algum; uma forma de escape para que eu deixasse de pensar demais no que estaria a fazer em poucos segundos. Seria essa a sensação de estar prestes a beijar alguém que você não deveria beijar?
— Vamos logo com isso — Pediu ela mais baixo, ansiosa para que aquilo acabasse logo e compartillhava do mesmo sentimento.
Respirei profundamente antes de me aproximar dela, os demais já estavam em seus respectivos casais. Limpei minhas mãos suadas em minha calça, seria um beijo rápido e nada mais, pensei comigo mesmo. Curto o suficiente para que todo aquele constrangimento acabasse antes mesmo que percebêssemos.
Ela suspirou erguendo o rosto para mim e inclinei mais o meu, era estranho como um ato simples tornou-se o mais terrível para nós. Nossos rostos se aproximaram um do outro muito lentamente até que pude sentir os lábios de Jéssica nos meus, se esperar por uma mensagem sua durante a madrugada já não tinha sido estranho o suficiente, o que aquele beijo gerou ultrapassou todas as barreiras da estranheza.
E o que não deveria durar mais do que alguns rápidos segundos logo saiu de meu controle; como toda a minha vida desde o começo daquele mês. Se existisse em mim alguma vontade para encerrar de vez aquele beijo curto, essa mesma vontade desapareceu completamente no segundo em que nossos lábios tocaram-se.
Fui dominado por uma sensação de que eu poderia cair por ter minhas pernas fracas e tal sentimento cresceu quando Jéssica surpreendentemente levou suas mãos para meus ombros; segurando-me mais próximo a ela. Um calor dominou-me e eu não sabia se seria por causa da temperatura elevada do verão ou se seria por consequência do que fazíamos.
Quando pensei que aquele momento não poderia ficar ainda mais constrangedor e estranho para mim, dei-me conta de que tinha minhas mãos em sua cintura; trazendo-a para mais perto de mim. Haviam muitos detalhes para reparar e que, vieram de uma só vez, desde na forma carinhosa e gentil com que os lábios dela se moldavam aos meus a carícia discreta que recebia dela. Tudo trazendo em mim um misto de sensações e emoções.
Assim que nos separamos um do outro foi estranho, olhávamos como antes, porém tomados por uma vergonha sem igual; algo que era visível em nossos rostos. Nem mesmo o falso pedido de namoro que fiz para Jéssica logo em nosso primeiro encontro gerou algo assim.
Seguimos nos encarando em silêncio até que ela tomou a iniciativa de desviar os olhos de mim e olhar para minha família, alguns dos casais também já haviam se separado e agora assistia a queima de fogos celebrando a chegada do natal. Aproveitei o tempo em que a tinha de costas para mim para que eu conseguisse recuperar o fôlego que por um longo tempo pareceu estar em falta e curto prazo em que fiz isso, reparei que o beijo passou longe de ser algo forçado.
Sentia-me diferente de algum modo, não sabia ao certo onde a mudança ocorreu, mas deixou em evidência algo que eu já havia reparado antes e tentei encobrir outras vezes.
***
A cena da ponte estava longe de ser esquecia e por essa mesma razão evitava que ela ocupasse demais minha mente. Eram quase uma da manhã e agora nos preparávamos para a tão chegada ceia de natal.
O lado ruim de minha família seguir à risca todas as tradições passadas era exatamente essa, esperar até uma da manhã para criarmos, fazer alguns dos pratos de minhas bisavós dentre outras. Minha mãe chegava a considerar como uma religião tudo o que lhe foi passado e apesar de alguns de meus parentes deixar claro que não concordavam com isso, todos acabavam cedendo às algumas delas.
Estávamos sentados à mesa cheia, Jéssica ao meu lado continuava calada desde o beijo trocado e não esperava reação diferente; de uma forma diferente, entendia que ela fora forçada a beijar-me em nome de uma tradição maluca de família. Ainda que houvesse muita conversa entre todos ali, eu e minha falsa namorada evitávamos qualquer meio de comunicação possível.
Demos as mãos para fazer a prece em agradecimento e então cada um se servia.
— Camila eu tenho uma dúvida. — Minha irmã Roberta quebra o silêncio dos pratos se chocando com os talheres. Havia certa bagunça na mesa, claro que nada igual a momentos passados.
— Pode perguntar. — Aquela foi a primeira vez que Jéssica falava algo depois que nos beijamos.
De relance a vi se servir de um pouco de salada, ela olhou-me muito brevemente, gesticulando com a mão como se perguntasse se eu também queria e neguei.
— Por que o seu nome no seu whatsapp está como Jéssica? — Assim que Roberta soltou sua dúvida senti algo travar em minha garganta, pensei em tossir, contudo imaginei que acabaria transparecendo que havia algo de errado.
Preocupado olho para Camila... Jéssica, a morena olhava de volta para a minha irmã com uma expressão tranquila no rosto. Como se a pergunta feita não tivesse sido lá grande coisa.
— Na verdade meu nome mesmo é Jéssica Camila, sou daquelas que tem os pais que adoram nomes compostos então já pode imaginar... — Respondeu muito tranquila, tomando seu lugar ao meu lado após servir-se.
Roberta torceu os lábios ainda em dúvida e olhou-me.
— Diogo não mencionou isso para nós. — Ela cobrou, o mesmo tom e até o olhar eram semelhantes ao de Jéssica de quando ocorreu o caso da tradição.
— Nem ele sabia disso — Riu muito brevemente, olhando-me de relance também e tocando minha mão; primeiro toque desde o beijo. — Mas eu sempre tive uma preferência bem maior por Camila, por isso evito usar o Jéssica, mas no caso do whatsapp foi por costume mesmo.
Eu me mantive calado, sentia-me levemente nervoso com a situação. Ainda que ela tivesse conseguido dar uma bela de uma contornada como se realmente fosse verdade.
— Mas continuem me chamando de Camila, por favor. — Pediu muito gentilmente, por um lado eu estava até gostando de todo aquele fingimento. Jéssica levava jeito para a mentira, algo que eu não conseguiria fazer caso estivesse sozinho.
Passaram-se alguns minutos, todos comiam e faziam mais perguntas para Jéssica. Todas relacionadas apenas a nossa relação amorosa até que meus tios enfim esvaziaram seus estoques de questões.
— Fiquei sabendo que está na faculdade, Camila. O que está cursando? — Dessa vez meu pai quem perguntou, parecia animado em saber que ela estava na faculdade.
Aquela era a primeira vez que alguém fazia uma pergunta a ela que não possuía nenhuma relação com o meu nome.
— Eu faço nutrição na faculdade do centro. — Respondeu Jéssica com um leve tom orgulhoso em sua voz. A faculdade mencionada era conhecida por ser não só uma das melhores, como também muito bem reconhecida pelo país.
Até mesmo eu sentia certo orgulho dela.
— Camila ganhou bolsa cem por cento no curso de nutrição, ficou entre os melhores!— Completei sua fala com a informação que também tinha conhecimento e que ela compartilhou comigo uns dias atrás.
— Nutrição? Não é uma área que da muito dinheiro. — Tio Otávio entrou na conversa, sua fala não supreendeu a quem já nutria um certo ranço por ele pelos comentários sempre desdenhosos que ele soltava quando queria.
Minha falsa na namorada para de cortar a carne e respira fundo de maneira discreta e entendo o que significa. Como se já ouvisse o tipo de comentário sempre que alguém perguntava o que cursava na faculdade. Ela para de cortar a carne e toma um gole de sua bebida.
— Bem, hoje em dia qualquer um acha que pode ser nutricionista por isso acaba tornando-se uma área sem muito reconhecimento. A maioria das pessoas acham que seguir dietas malucas de alguém no youtube é melhor do que passar em alguém que tem formação para tal, além de sequer conhecer o próprio corpo. —Ela da com os ombros, ainda que sua fala deixasse claro o tom de irritação pela fala de meu tio, ela mostrou-se incrivelmente mansa. — E sinceramente, eu não ligo muito para dinheiro, estou fazendo o que gosto e isso basta.
Notei que após a fala dela meu pai sorriu com o canto dos lábios, Jéssica parecia afiada nas respostas que dava para meu tio.
— Namorando um escritor de sucesso como o Diogo eu duvido que esse pensamento continue o mesmo — Tornou a falar, agora ele conseguiu atrair a atenção de mais algumas pessoas. Principalmente a minha, pois sua hipocrisia estava se fazendo presente novamente ali.
— Na verdade, Camila ganha muito mais do que eu em seu trabalho, não é mesmo meu amor? — Entrei no meio da conversa, soltando o talher e tocando sua mão como ela também fizera antes.
Meu tio mostrou-se interessado e curioso.
— No que trabalha? É médica na horas vagas? — A piada dita, por mais que tivesse sido sem graça e pretensiosa tirou o riso de poucas pessoas; de quem eu já esperava tal reação.
— Na verdade não, está falando com a nova nutricionista chefe do Hotel Mercure. — Ela respondeu, fiz questão de mostrar orgulho disso. Pois eu sabia que meu tio abominava uma mulher que ganhasse mais que seu companheiro.
— Hotel Mercure? Aquele do pessoalzinho metido a besta? — Danilo perguntou surpreso, ele já havia trabalhado lá como ajudante de cozinha anos atrás.
Assentimos ao mesmo tempo.
— Exatamente este. — Respondo sorrindo, segurando sua mão mais firmemente. — O pessoal de lá a respeita muito, só a chamam de chefe por lá.
Jéssica me olhou de esguelha.
— Bem-vinda a família Camila, assim como todas as mulheres daqui você além de bonita, também é inteligente e bem sucedida. Exatamente o que uma mulher Barbosa Luz deve ser. — Ele ergueu o copo da mesa como se simulasse um brinde a ela. Por trás disso havia sua real intenção e eu sabia qual era.
— Camila é o que muitos dizem ser areia demais para meu caminhãozinho — Comentei de forma estranhamente carinhosa, trazendo sua mão para próximo de meus lábios e depositei um beijo curto nas costas.
Minha fala surpreende a mim mesmo, pois eu sequer percebi o que havia dito até que recebo novamente o olhar de Jéssica. Seus olhos continham aquele estranho brilho que presenciei uma única vez desde que nos conhecemos, seus lábios se esticam muito levemente num sorriso sincero e que fez meu coração disparar sem que eu conseguisse ter controle sobre isso.
Provavelmente ela achou que disse aquilo apenas para tirar a desdém da fala de meu tio, admito que parte de minha intenção era realmente para isso. Queria mostrar a ele que Camila não precisava de mim, o que se aplicava para a pessoa Jéssica também. Contudo minhas palavras foram proferidas com sinceridade. Durante longos dias eu conheci uma pessoa incrível que estava ali, diante da minha família fingindo ser minha namorada, queria que todos soubessem disso também.
— Isso vai dar casamento. — Brincou Roberta em tom de brincadeira.
Tanto Jéssica quanto eu nada dissemos, até porque o nosso destino depois do ano novo era cada um seguindo seu caminho; como seria antes que nos esbarrássemos ao acaso. A não ser que viéssemos a manter a estranha amizade que tínhamos, isso seria um diferencial.
Disfarçamos a nossa falta de jeito com o comentário dito por minha irmã e voltamos a comer, assim como os demais.
— Eu não acredito que estou vendo isso! — Meu pai cortou o momento breve em que todos estavam em silêncio, pois tinham suas bocas ocupadas com a comida. Ele se levantou, bateu as duas mãos na mesa e olhou enfurecido em direção à minha mãe que estava sentada na outra ponta da mesa.
Assustei-me com seu gesto, alguns pararam o que faziam e o olhavam sem entender muito bem o que acontecia ali. Eu mesmo estava perdido, preocupado, pois nunca o vi daquele jeito antes.
— Mulher como teve coragem de fazer isso com seu marido? Está tentando me matar? Porque tem jeitos mais fáceis que este! — Meu pai praticamente gritou as palavras, alguns de meus tios fizeram menção de também se levantar, o olhavam por poucos segundos e logo mudavam a direção de seus olhares até minha mãe. Como se esperassem que tudo aquilo não passasse de uma brincadeira boba deles.
Marli tinha a testa enrugada, ainda sem entender.
— Do que você está falando, Paulo? Ficou louco? — Perguntou ela, a confusão visível em seu rosto assim como em todos os outros presentes. — Não tem nada de errado com a comida, agora pare de cena e coma. Estamos ceiando e com uma visita, por favor né.
Meu pai mostrou-se indignado.
— Nada de errado? Ela diz, vocês estão vendo como é? — Ele segurou o prato onde sua comida estava, sempre foi conhecido na família por fazer o que seria uma montanha de comida e naquele ano não foi diferente. — E o que me diz sobre esse arroz de forno que fez?!
— E o que tem de errado com ele, Paulo? — Perguntou minha mãe, ela já estava ficando sem muita paciência com ele. — Se não estiver bom é só não comer, o que será bem difícil para você.
Alguns seguraram o riso.
— Uva-passa. — No segundo em que meu pai falou tudo o som uníssono dos talheres sendo solto dominou o ambiente e um silêncio fez-se presente entre nós.
Danilo — o gêmeo de Davi — e Roberta já estavam com os olhos fixos em minha mãe e foram os primeiros as falar.
— Mãe! — Exclamaram ao mesmo tempo.
— Acho que passamos da fase em que todos sabemos que uva-passa é ingrediente proibido na família! — Otávio se pronunciou também, ele assim como meu pai se colacando de pé.
— Diga só por você! — Ana gritou em protesto a favor da uva-passa no arroz. O que acabou puxando uma discussão da qual eu gostaria de ter previsto ou evitado assistir.
— Eu não acredito que você é minha filha e gosta de uva-passa na comida! — Ele gritou, de todos era o que mais parecia enfurecido.
Uma confusão começou ali entre quem deveria ser os adultos da família, até mesmo minha mãe entrou no meio para defender a si por ter posto uva-passa no arroz de forno. Nem todos participavam, quem realmente discutia era os mais velhos da família, quem deveria dar exemplo para as crianças presentes.
— Eu coloco uva-passa até na farofa e vocês nunca reclamaram disso! — Minha mãe gritou de repente, cortando a fala de todos de uma vez só; surpreendendo a família toda.
Todos os olhares se dirigiram a ela, até mesmo Jéssica que parecia perdida em meio a toda a confusão.
— Na farofa?! — Todos gritaram ao mesmo tempo, assustando a Jéssica que, assistia toda a cena com os olhos arregalados; era difícil saber se seria pela surpresa ou medo do que estava acontecendo ali na mesa. Em um momento em que deveria ser entre família e para apenas comermos.
— Está querendo matar todo mundo? — Perguntou meu pai, ainda mais indignado que antes, ele mexia na farofa com a colher específica. — Por que não fez separado?
— Eu não iria cozinhar duas vezes! — Ela gritou descontrolada, Jéssica olhou-me com os olhos mais abertos que antes.
— Faça alguma coisa amor! — Exigiu ela assustada, mas ao mesmo um tanto curiosa com o desenrolar da cena.
Eu e meu segundo irmão mais velho precisamos intervir, ainda que soubéssemos que tudo não havia passado de um breve momento para uma brincadeira. A ceia acabou se prologando mais do que deveria, a uva-passa continuou presente na comida que minha mãe preparou e todos tiveram de comer.
Ela não aceitaria desperdício, muito menos em dia de natal.
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