Namorada de Natal

11 Capitulo 11: Noite.


Notas iniciais
Quem é vivo sempre aparece, só queria dizer que a história está chegando ao fim, assim como o ano também.

Minha mãe nos levava até o quarto, ela ainda se desculpava pela cena da discussão sobre a uva-passa na comida, admito que toda aquela cena não passava de uma brincadeira, porém para minha mãe, Camila ter visto e presenciado como minha família poderia ser... Maluca, isso era motivo para que milhões de desculpas fossem dadas.

Mesmo que Jéssica estivesse repetindo incontáveis vezes que não tinha problema algum no quê presenciou durante a ceia.

— Bem, deixei o quarto separado apenas para vocês até porque você é uma convidada e jamais deixaria que dormisse em meio a roncos e outras coisas desconfortáveis. — Ela nos levou até o último quarto, ele se encontrava no final do corredor longe o suficiente dos outros. Marli abre a porta e então nos revela um ambiente bem diferente do restante da casa, o quarto em questão fora redecorado, pois estava bem diferente da última vez em que estive ali.

Olhei mais atentamente e notei algo incomum. Apenas uma cama de casal e nada mais.

— Hã... Mãe, tem apenas uma cama — Fiz a observação, apontando com o queixo para que ela também olhasse. Ela me olha como se minha fala tivesse sido absurda e sem sentido, me senti ofendido.

— Ah Diogo, por favor né! Acha mesmo que vou cair nessa de que vocês não dormem juntos? Ainda mais nos tempos de hoje — Ela responde, levando a mochila de Jéssica para o quarto. A morena calou-se, entrou no quarto devagar e olhou ao redor, como se procurasse por uma segunda cama. — Somos todos adultos aqui, não há problema algum nisso.

— Mãe eu acho que...

— Diogo, eu não briguei com os demais para que cedessem o quarto só para vocês a toa, — Me interrompeu. Fiquei surpreso ao dar mais atenção a sua fala. — Eu sou uma mãe moderna e não uma mãe burra. Fiquem à vontade.

Dizendo isso ela saiu do quarto e fechou a porta, impossibilitando que qualquer um de nós dissesse algo a ela sobre a cama. Se o beijo já não tivesse dado a cota de constrangimento para uma noite de natal, ter de dormir na mesma cama que Jéssica com toda certeza o faria.

— Acabei de mudar de ideia, quero o dobro do valor! — Jéssica anunciou quando enfim nos vimos sozinhos, tinha os olhos fixos na cama e depois me olhou cruzando os braços.

Eu poderia pensar em muitas coisas para serem ditas naquele instante, porém a surpresa dominava-me e as palavras simplesmente não se formavam ou se completavam em minha boca.

— O quê? — Questionei, incrédulo. Espantado com o que acabara de ouvir da morena.

— Eu não sabia que teríamos de dormir na mesma cama, não sabia que teríamos de nos beijar... — Ela parece hesitar ao dizer a última palavra, ainda que fosse estranho que ela não mostrasse nenhum arrependimento ao relembrar nosso beijo incomum.

Suspiro. Estávamos novamente retrocedendo para o assunto do dinheiro e nosso acordo.

— Okay, se isso for fazer você ficar quieta. — Respondi, jogando minha bolsa no chão. Eu mesmo já não ligava mais para o que ela acabaria pedindo, acho que depois de tudo o que houve para apenas uma única noite, pagar a ela o dobro do que ela já teria não parecia ser um problema.

— O quê? Não vai tentar me convencer a fazer um novo acordo nem nada disso? — Questionou curiosa, as sobrancelhas arqueadas, surpresa.

Camila, eu estou com sono, cansado e acabei de presenciar a cena mais constrangedora de toda a história da minha família. O que eu mais quero agora é dormir e tentar esquecer tudo o que aconteceu hoje. — Suspirei outra vez, cansado. — Quer o dobro do valor? Por mim tudo bem, mas por favor, vamos dormir logo.

Ela permanece calada por um tempo e então concorda com a cabeça, pega a bolsa que minha mãe fizera questão de colocar sobre a cama e corre ao banheiro. O tempo que tenho sozinho permite que muitos dos pensamentos que me perturbam se confundem mais do que antes, havia percebido um certo furo em toda a nossa farsa natalina, mas só a mencionaria depois de uma boa noite de sono.

Ela voltou já trocada depois de alguns minutos, o pijama era um conjunto de um short até acima de suas coxas e uma camisola de alcinha. Nada muito revelador nem que a deixasse exposta demais para outros olhos.

— Eu quero dormir do lado esquerdo, se você não se importar é claro — Pediu ela. Olhando-me seriamente.

Nada disse. Apenas caminhei para o outro lado da cama enquanto ela já arrumava o travesseiro e o lençol que usaria para se cobrir. Esperei até que ela já estivesse deitada e apago a luz, deitando-me logo em seguida.

A luz que vinha dos pisca-piscas que estavam do lado de fora iluminavam parcialmente o quarto e eu conseguia a visão de sua silhueta deitada ao meu lado. Jéssica estava de barriga para cima, segurava o lençol até a altura do pescoço como se temesse que ele escorregasse de seu corpo.

Um longo silêncio levantou-se entre nós, era de se esperar que isso viesse a ocorrer depois da noite que tivemos. Por dias me preparei para tudo o que poderia acontecer nessa ceia, porém não apenas a noite em questão, mas toda a minha família mostrou-se uma grande surpresa. Em todos os sentidos.

Perguntei-me se fazer Jéssica passar por tudo isso valeria a pena. Se passar por isso valeria a pena para mim também.

Olho para a moça deitada ao meu lado, o que deveria ser apenas um acordo simples onde Jéssica fingia ser minha namorada para evitar piadas tornou-se uma junção de acasos que só se viam em filmes da sessão da tarde. Desde o beijo a aquele momento onde dividíamos uma cama porque minha mãe tinha certeza de que éramos um casal moderno.

— Diogo? — Ela me chama, a voz baixa demais para que eu conseguisse ouvi-la com muita clareza.

— O que foi? — Perguntei de volta enquanto desviava meus olhos dela, sentia que toda a nossa situação já estava tomando um rumo estranho demais. E manter o contato só piorava tudo.

— Eu não sou nutricionista chefe do hotel, só estou estagiando como substituta da Andreia por uns meses — Ela comentou no mesmo tom baixo, seu rosto na mesma posição onde os olhos se mantinham fixos no teto do quarto.

— Eu sei disso. — Respondo olhando também para o teto, o cansaço em mim existia, mas estando já deitado ele pareceu sumir de repente. — Achei estranho que estivesse na faculdade e já neste cargo...

— Só estiquei um pouco porque estava de saco cheio do seu tio Otávio... Sem ofensa.

— Não ofendeu. — Respondi. Lembrando-me perfeitamente do semblante de meu tio ao ouvi-la dizer no quão bem sucedida já era. — Meu tio não gosta de mulheres independentes e bem, foi muito bom ver ele de queixo caído.

Rimos brevemente antes de voltar ao mesmo silêncio de antes, foi estranho pensar que dividíamos a mesma cama, mas evitávamos nos tocar ou ficar próximos demais do outro. O que existia entre nós era uma grande e grossa barreira invisível que nos mantinha afastados.

Seguimos os minutos olhando para o teto, calados e deixando que o silêncio falasse por nós, em meu interior eu não conseguia deixar de lado o momento em que Jéssica e eu nos beijamos. Como fora ao mesmo tempo estranho fazer isso com ela e... Bom. Como as mãos femininas gentilmente tocaram-me e meu ato inconsciente de segura-la pela cintura.

Suspirei baixo fechando os olhos, deveria ter sido um beijo rápido de curtos segundos e acabou tornando-se algo a mais. Questionei em minha mente como Jéssica estaria se sentindo e relação a isso, ainda que ela tivesse mencionado o beijo muito brevemente, ela não mencionou nada mais sobre o ocorrido.

Tudo era um verdadeiro mistério.

Virei-me na cama num ato automático dando-me de cara com Jéssica de costas para mim, não sei em qual momento ela fez isso, mas agora eu só enxergava suas costas. Dormir com uma garota pela primeira vez sem ter qualquer relação com ela não estava em meus planos, não fazia parte do acordo que fiz com Jéssica.

Passei a dar-me conta de que ela estava sacrificando mais do que realmente foi o combinado, desde ter de enfrentar os tantos comentários de meu tio a ter de beijar-me e agora dormir comigo. Manter aquela mentira realmente valeria a pena?

— No que está pensando tanto? Consigo ouvi-lo pensar daqui — Perguntou me assustando, pois achei que ela já estaria dormindo.

— Sobre a mentira. — Falei, aquele fora apenas o primeiro dia e muito já saiu do controle, não queria nem pensar no restante da semana.

Jéssica mudou a posição e virou-se de frente para mim, ela não pareceu muito surpresa ao ver-me de frente para ela.

— O que tem? Quer desistir?

— Eu não sei — Fui honesto em minha resposta. — Era para tudo ser de um jeito e isso está tomando um rumo do qual eu não estou gostando.

Ela uniu as sobrancelhas, percebi que a frase final se aplicava em muita coisa do que ocorreu em uma noite apenas.

— Eu penso no que irá acontecer se a sua família descobrir que mentimos sobre Camila — Ela diz, cortando qualquer pensamento que veio em minha mente. Parte de sua fala tinha razão, ninguém se esquecia disso por muito tempo e seria provável que eu acabasse evitando meus parentes para não ter de ouvir os comentários a respeito.

A outra parte simplesmente não tinha uma opinião sobre o assunto.

— Acho que já exigi demais de você para uma noite — Argumentei, de repente tudo o que eu estava falando parecia soar como uma desistência de mim.

Jéssica se mantém em silêncio por alguns segundos curtos, a escuridão do quarto não permitia que eu visse com muita clareza seu rosto, mas eu sabia como ela estaria me olhando no momento. Descobri que conseguia sentir o peso de seu olhar sobre mim e não era diferente ali.

— Bem, a gente nem pensou nisso quando fizemos o acordo e este foi nosso primeiro erro, se a sua família não tivesse essa tradição teríamos passado a ceia toda como dois amigos na frente de todos... Acho que o beijo nos ajudou um pouco, de uma maneira bem inusitada. — Disse. Era a segunda vez que ela mencionava nosso beijo na conversa e não pude deixar de reparar em minha reação ao ouvi-la.

Eu consegui apenas concordar.

— Eu sei que está com medo de como será o resto da semana, mas podemos agir como um casal normal — Comentou. — A gente finge que se ama, briga um pouquinho... Um dia de cada vez até a virada.

Pensar em como seria a festa da virada fez meu estômago revirar fortemente e por esse mesmo motivo fico em silêncio, pensando um pouco. Como eu tinha feito durante toda a noite.

— Você falou sério quando disse que queria o dobro do que eu vou te pegar? — Perguntei de repente, acho que queria apenas desviar o assunto, mas na realidade ele retornou a um momento do qual eu queria tentar deixar de lado um pouco.

— Não. Claro que o que houve hoje e isso aqui de fato não estava no acordo, mas acho que iria acabar acontecendo uma hora outra — Pude imagina-la dando com os ombros. — Claro que você deveria ter me avisado sobre a tradição da ponte...

Passei a mão por meu cabelo.

— Acredite, eu teria de falado se ao mesmo tivesse me lembrado disso — Desculpei-me. — Passei tantos anos apenas esperando dar a meia-noite que simplesmente me esqueci desse detalhe.

Ela concordou, fazendo um barulho com a voz mostrando concordância.

— Sua família acredita mesmo nisso? Que fazer o pedido e beijar o companheiro ou companheira realmente traz sorte? — Ela questionou com curiosidade presente em sua voz.

— Sim. Antes era só do lado da minha mãe, mas depois todos começaram a seguir a tradição — Expliquei rapidamente, ajeitando-me do lado em que estava deitado. — Teve um natal em que não fizeram isso e nossa... Eu nunca vi uma família tomada por uma maluquice como foi naquele ano.

Recordei-me, o acontecimento que antes era evitado por toda a família passou a ser comentado com mais frequência e trazia risos de todos os lados.

— Você acredita nisso?

— Não sei dizer — Dei com os ombros. — Parte de mim acha tudo isso apenas um ritual com a desculpa de beijar a meia-noite, mas a outra parte se empolga em segredo quando precisa pensar em um pedido. Você acreditou?

Jéssica fica em silêncio por poucos segundos.

— Saberei se acredito ou não só em janeiro — Sua resposta veio de forma evasiva e fiquei tentado a perguntar o motivo, porém não era da minha conta e deixei a ideia de lado.

Quando o silêncio novamente levantou-se entre nós, as luzes dos piscas-piscas do lado de fora voltaram a iluminar minimamente o quarto e nossos rostos, era possível agora vê-la parcialmente. Calados continuamos a encararmos o outro, isso já viera a ocorrer desde o momento em que havíamos chegado para a ceia, quando dançamos juntamente com os demais e momentos antes de nos beijarmos. Encarar Jéssica aos poucos pareceu uma mania que eu não sabia se conseguiria deixar de lado.

— Logo vamos ter de pensar no motivo do nosso término — Ela comentou do nada, sua fala trouxe-me a lembrança de que em uma semana tudo acabaria.

— Temos tempo para pensar nisso — Rebati, não queria ter isso ocupando minha mente. Não por enquanto.

Consigo vê-la concordar com o rosto e outra vez estávamos a encarar o outro sem nada dizer, algo estava acontecendo isso passou a ficar meio óbvio e gostaria de saber se ela também percebia isso e se sim, como estava agindo sobre.

— Diogo... — Ela diz meu nome e gosto de como ele soa em sua voz, faz com que algo em meu interior cresça e deixe tudo mais difícil.

Eu não respondo de imediato, apenas erguo meus olhos em sua direção e a vejo abrir novamente a boca para continuar sua fala, porém Jéssica parece desistir disso logo em seguida; antes mesmo que uma palavra pudesse se formar. Enrugo minha testa, curioso? Interessado no que teria a me dizer e mexo-me outra vez, minha ação, porém faz com que eu corte um pouco a distância entre nós e logo percebo o quanto isso torna-se perigoso.

Jéssica suspira, consigo ouvi-la fazer isso e para minha surpresa ela também se move, ainda que não teve diferença alguma no que ela fizera, dou conta do quão próximos estávamos do outro. Sinto o momento exato em que meu corpo trava por total quando ela leva a mão gelada até meu rosto, tocando os curtos fios quase inexistentes de minha barba; próximo demais de meus lábios.

Pergunto-me o que estaria acontecendo ali? O que estávamos fazendo um com o outro? Jéssica estaria apenas brincando comigo? Reagindo conforme... Eu mesmo não consigo encerrar meu próprio pensamento, minha mente torna-se confusa demais onde os pensamentos se perdiam e apenas o rosto dela era nítido.

Sou surpreendido quando mais um de meus atos impensáveis outra vez me fez tomar uma decisão que eu bem sabia que mudou absolutamente tudo. Não sei em que momento isso aconteceu, foi rápido. Quando percebo, Jéssica estava mais perto e nossos rostos mais próximos até que pela segunda vez naquela noite estragamos o acordo que tínhamos.

Dessa vez por vontade própria.

Diferente de como o nosso primeiro beijo aconteceu, aquele foi melhor e... Mais sentimental. Jéssica tinha as duas mãos em meu rosto, seus dedos afundados em meu cabelo já desarrumado enquanto seus lábios se encaixaram nos meus com estranha perfeição.

Acho que meu lado mais lógico e consciente deveria interromper aquele ato, isso seria o correto a fazer antes que pudéssemos arruinar o acordo.

Contudo minha resposta vem na forma de um beijo a altura do qual recebia e por mais estranho que foi, eu não queria parar e muito menos senti constrangimento em beija-la de volta.

Notas finais
Nada mais clichê do que uma única cama e o casal ter de dormir junto... Aí aí.