Namorada de Natal
1 Capítulo 1: Mentira contada, caminho sem volta.
Notas iniciais
Boa Leitura.
Era segunda feira e para ser mais específico, exatamente dia 03 de dezembro.
Ou seja, faltavam um pouco mais de duas semanas para o tão esperado natal e suas alegrias que tal data proporciona para todas as pessoas. Porém para mim o dia em questão que estava chegando aos poucos perdeu todo o seu encanto e magia do qual sempre mencionei ao citar que esta era uma das minhas datas preferidas de todo o ano.
O que deveria ser um dia de festa, a costumeira comemoração alegre entre família e amigos tornou-se meu pior pesadelo depois que tanto minha família por parte de pai quanto por parte de mãe enfim se uniram em prol de algo maior como a união entre os Barbosa e os Luz. Eu deveria saber que algo parecido viria a acontecer após meus quatro irmãos enfim encontrarem o grande amor de suas vidas e até tinha preparado-me para tal situação, contudo eu não esperava que isso viesse a se prolongar por quase dez anos.
E as namoradinhas, Diogo? Conseguia ouvir a junção de vozes de todos meus familiares fazerem a mesma pergunta como faziam todos os anos. Que se tornaram mais frequentes após a união entre meus parentes.
A pergunta não me incomodava tanto até meus vinte e dois anos, sabia que isso era algo que todo parente que não me acompanhava diariamente faria ao me encontrar. Mas isso acabou virando um tipo de piada interna entre os Barbosa e os Luz. Como se fosse lei que quando acontecesse alguma reunião de família, fosse no natal ou em qualquer outra data festiva, a pergunta deveria ser feita.
Por todos. Sem exceção.
A questão sobre a minha vida amorosa que não existia parecia ser bem mais interessante do que meus feitos como um jovem escritor de grandes best-sellers vendidos pelo mundo afora antes de completar trinta anos.
— Então Di, vai confirmar presença no jantar ou não? — Distrai-me quando a voz da minha irmã caçula tornou a fazer a pergunta de momentos atrás. Lembrando-me do real motivo de sua presença em minha casa. — Preciso de uma resposta, tipo, agora.
Encaro a jovem de vinte anos sentada de qualquer jeito em meu sofá escolhido a dedo, Roberta era a caçula da família. A última a nascer e consequentemente a queridinha entre todos, mimadas por meus tios e avós. Como a lei do filho caçula exigia que fizéssemos.
— Ainda não sei, preciso terminar meu último livro antes do mês encerrar, revisar alguns capítulos... — Respondo, dando uma velha desculpa que eu bem sabia que não seria aceita; não por ela. Minha resposta não era bem uma mentira, deveria entregar o livro que estava escrevendo antes do fim do mês, pois a editora queria iniciar o próximo ano com sua estreia.
Usá-la para faltar ao jantar parecia uma boa maneira de livrar-me de um possível constrangimento em família.
— Corta essa! Vai poder escrever o livro em casa também. — Protesta, cruzando os braços e olhando-me como se estivesse brava comigo. — Trate de inventar outra desculpa, uma que seja convincente ao menos.
Suspiro. Mesmo que já esperasse que Roberta não a aceitasse, não havia pensado em outra que poderia usar sem que envolvesse a entrega do livro. Estava de mãos atadas, sem uma saída digna para escapar do jantar.
— Quem vai? — Pergunto, mais como uma maneira de ganhar tempo para pensar em outra desculpa. Se bem conhecesse meus pais, teriam chamodo todos da família.
Minha irmã pensa um pouco, franze os lábios num bico rápido antes de começar a citá-los um por um. A lista tornando-se mais longa com os nomes conhecidos que eram ditos; ela não esqueceu-se de citar até mesmo os tios piadistas... Meu tormento particular.
— Sabe como a mãe é, chamou eles e mais um pouco. — Falou dando com os ombros, deixando-me levemente preocupado sobre quem seriam os “mais um pouco” que mencionou. — E ela disse que quer todos os filhos dessa vez, não vai aceitar nenhuma desculpa esse ano.
Disfarçadamente coço minha cabeça, agora de fato estava sem uma saída. Mas isso não seria impedimento algum.
— Não vou poder ir. — Solto a frase e coloco-me de pé, me afastando um pouco do olhar suspeito de minha irmã mais nova. Finjo sede e vou até a cozinha, sirvo-me com um copo de água gelada e quando percebo lá está ela.
Roberta está parada entre a divisa pequena entre minha cozinha e sala, os olhos castanhos me encarando como se eu fosse um maldito que acabara de cometer um dos piores crimes.
— É sério mesmo que vai começar com essa merda de novo Diogo?! — A morena bate as mãos em suas coxas, se ela chamou-me por meu nome em vez do apelido de sempre então não era um bom sinal.
Existia uma pequena lista de razões para que Roberta chamasse-me de Diogo. Desde que aprendera a falar sempre fui Di, mas agora, naquele momento em questão era Diogo. Conseguia imaginar alguns dos motivos para tal, porém eu seria um burro se negasse que ela não soubesse a verdadeira razão para eu não querer ir.
— Você precisa parar com essa paranóia de que a gente vai te zoar, sabe que tudo não passa de uma brincadeira tosca, como todas as outras que fazemos com todo mundo. — Tentou uma vez, encostando-se parede como forma de apoio para o corpo menor.
— Não é por isso Rob...
— Cê acha que eu sou alguma idiota? Eu sei que é por isso que não quer ir. Tá com medo de ser o zoado do ano de novo. — Roberta era uma desgraçada por conhecer-me bem até demais. Apesar da minha insatisfação com as piadas sobre mim não serem algo que eu costumava esconder dos outros.
Novamente coço minha cabeça, realmente me vejo sem uma saída adequada ou qualquer coisa que possa ser dita para fugir desse dia em família. Suspiro sentindo-me um pouco mais pesado, para muitos um evento assim poderia facilmente ser visto como algo bobo ou só mais uma reunião de fim de ano.
Para mim e todos que foram convidados, havia a responsabilidade de comparecer ao jantar. Ou tal ausência poderia acabar gerando desavença.
— Eu não gosto das piadas anuais, isso é uma verdade, mas não é por isso que não quero ir... Tenho meus motivos pessoais. — Tento de novo, buscando em minha mente cheia de ideias para futuros livros e nada encontro. Pelo nada que faria com que Roberta acreditasse.
— Então por que? Tem que ter um motivo. — Rebate ela, dessa vez mais curiosa. Era estanho perceber que momentos atrás ela queria apenas uma confirmação de minha presença e no momento que a neguei, a morena fazia de tudo para convencer-me a ir.
Sinto-me perdido. Encurralado, com algo tão simples e bobo que não consigo fugir. Não deveria estar daquela maneira, um homem formado perto de seus trinta anos agindo como o mesmo adolescente de dezoito anos que não queria encontrar a família. Aquele menino de cabelo bagunçado e rosto oleoso fez-se presente em mim com a simples pergunta de Roberta.
Minha mente cria um turbilhão de respostas, algumas mentiras que poderiam vir a serem usadas por mim, mas deixadas de lado por um momento. Lembro-me então de uma piada que vi na semana anterior, não era nada engraçado que tiraria risadas daqueles que a leriam, porém um detalhe pequeno faz com que eu solte a reposta sem ao menos pensar duas vezes no que fazia.
Ou no que ela acabaria gerando como uma futura consequência.
— Este será o primeiro natal que vou passar com Camila e eu não quero que seja um desastre total! — Falo de uma vez, porém baixo. Sem ao menos dando-me conta de minhas próprias palavras. Pareço apenas entendê-las quando vejo o olhar de minha irmã mudar completamente, surpresa e desconfiada ao mesmo tempo.
Animada até.
— Você o que? — Questiona confusa, como se não tivesse entendido minha fala. Por poucos segundos compartillhava da mesma sensação que ela. — Diogo... Quem é Camila?
Engulo tenso por ela ter escutado o nome inventado. Meu corpo trava na mesma hora que ouço o nome da garota inexistente soar em meus ouvidos. O que acabei de fazer? Pergunto a mim mesmo, querendo bater com minha cabeça em algum lugar e desmaiar somente para fugir daquela conversa.
— Camila... — Sussurro mais baixo. Reorganizando meus pensamentos aos poucos e estudando-os com cuidado antes que qualquer palavra saísse por meus lábios. — É minha namorada, oras.
Solto a última frase saindo da cozinha pequena, passando por ela e retornando à sala. Roberta me segue, tem os olhos arregalados ainda desacreditada, eu mesmo não acreditava em minhas próprias palavras. Mas a mentira fora lançada e precisava fazê-la o mais convincente possível. Ela pisca algumas vezes, ainda calada e sem conseguir botar fé em minha resposta até que então solta uma risada alta.
Encaro-a sério, de início sem entender exatamente o motivo, até compreender que ela achara graça do que falei.
— Diogo, eu sei que não quer ir e por mim beleza. Mas mentir assim não faz seu tipo... — Ela continua rindo histericamente, levando as mãos até a barriga. Sua risada alta e escandalosa preenche meu apartamento como uma praga, algo rápido e sem controle.
— Por que acha que tô mentindo? — Pergunto, mais sério. Fixando meus olhos no rosto ainda tomado pela graça de minha irmã. — Acha que é tão impossível assim de acontecer?
Roberta me olha ainda rindo alto e conforme me encarava de volta para de gargalhar lentamente, como se aos poucos estivesse realmente acreditando que era mesmo verdade que tinha uma namorada.
— Espera, isso é sério mesmo? — Pergunta incrédula. — Não tá mentindo sobre essa menina?
— Olhe bem para minha cara, eu pareço com alguém que está mentindo? — Solto a pergunta da maneira mais seria que conseguia, surpreendendo a mim mesmo por conseguir seguir com uma invenção sem sentido por mais de cinco segundos sem deixar transparecer que estava claramente mentindo.
Ela não responde, leva um tempo para formar uma frase que não fosse vogais que gaguejava. Perdida. Se houvesse um jeito de mostrar como meus pensamentos estavam naquele momento, seriam bem semelhantes a expressão de minha irmã mais nova.
— Eita, por que não contou logo de cara sobre isso, seu imbecil? — Ela avança até mim dando-me um cutucão forte em meu braço esquerdo.
— Eu sabia qual seria sua reação — Minto novamente, apesar de não fazer parte de minha personalidade soltar mentiras, ter feito pela primeira vez não mostrou-se tão trabalhoso como imaginei que seria. — E agora imagine se eu chegasse com ela...
— Mas é por isso que precisa ir! — Me interrompe, quase saltando na minha frente como uma criança feliz. Uma reação um pouco desnecessária. — Levá-la vai calar a boca de geral, vão ter que pegar outro coitado para zoar.
Ignorei a ofensa disfarçada. Minhas mãos começaram a suar, senti o ambiente quente e abafado. Bem diferente do real clima daquele dia.
Eu precisei parar para pensar no que diria em seguida, pois minha resposta seria definitiva para um compromisso que teria de cumprir. Se negasse viveria em paz, tendo em minha consciência de que não precisei estar diante de uma família toda alimentando uma mentira criada em um momento onde o desespero me dominou. Entretanto se eu aceitasse teria a chance de calar a todos, como Roberta dissera que eu deveria fazer. Porém seria egoísmo de minha parte continuar mentindo para apenas limpar meu nome de uma piada sem graça.
Respiro fundo, minha resposta final me levaria a um caminho do qual não poderia mais voltar. Independente de qual delas eu daria.
Encaro minha irmã mais uma vez, meu coração batendo fortemente contra meu peito de maneira assustadora, pisco uma vez mais lentamente. Adquirindo mais firmeza e controle sobre meu corpo, escolhendo bem cada reação que viria assim que soltasse a resposta.
E então crio enfim a coragem de fazer o necessário para me ajudar.
— Levarei Camila para a ceia de natal no dia 24.
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