Namorada de Natal
2 Capítulo 2: A namorada para a mentira.
Apenas um dia se passou desde que menti na maior cara de pau para minha irmã e após sua saída de meu apartamento, recebi o equivalente de duzentas mensagens em meu celular, isso contando apenas no grupo da família que eram relacionadas a mim e claro em Camila.
Minha namorada inexistente que agora, teria de encontrá-la por ai e levá-la para o jantar de natal em família.
Já era de se esperar que uma novidade como a que revelei no dia anterior chegasse aos ouvidos de todos muito rápido e que todos tivessem a reação que lia nas mensagens, isso era algo inevitável e impossível de ser controlado, ainda mais vindo de minha irmã. Infelizmente sua língua eu jamais poderia e conseguiria controlar.
Meu celular continua a tocar, recebendo novas mensagens a cada dois segundo. Eu não precisava lê-las para saber sobre qual seria o assunto de todas elas, desde o anuncio do meu namoro minha família só tinha um único assunto, alguns dos meus tios faziam perguntas das quais eu não saberia como responder enquanto outros apenas faziam piadas sobre meu relacionamento inventado. Parecia que estava vivendo num tipo de looping infinito no qual eu só conseguiria livrar-me depois do natal.
Paro na calçada ignorando por completo meu celular em meu bolso ainda a tocar com o recebimento de novas mensagens, dou-me conta da besteira que fiz ao contar uma mentira que, não só envolveria a mim, como também precisaria envolver alguém para fazer isso. Novamente sinto a incontrolável vontade de bater-me, tamanha minha estupidez em fazer o que fiz. Um homem com vinte e nove anos agindo como um adolescente.
A corrida pela busca de alguma mulher para fingir ser minha namorada se iniciou no exato momento em que soltei tal mentira. Os dias estavam correndo, as horas também e logo seria véspera de natal, precisava ter Camila comigo naquele maldito jantar.
Retorno a minha caminhada, meus pensamentos estavam tão distantes e bagunçados que nem mesmo a confusão de pessoas na rua me incomodava como antes. Época de final de ano era sempre uma loucura, principalmente no centro onde a maior concentração de lojas estavam. Esbarrei em algumas pessoas, mas tinha a mente tão longe da realidade que sequer importei-me com o contato.
— Droga. — Murmuro vendo-me sem saber o que fazer, parando novamente no meio do caminho, olho para a loja ao meu lado. Era uma cafeteria na realidade, não estava lotada nem nada, seria um bom lugar para se pensar. Pois era tudo o que eu precisava naquele momento.
Decido entrar, coloco meu aparelho telefônico no modo silencioso para não ser incomodado com toques e nada que viesse dele. Sou imediatamente recebido pelo cheiro forte e delicioso de café fresco a preencher todo aquele estabelecimento. Ao fundo uma música da atualidade tocava no volume adequado para um lugar como aquele. Faço meu pedido sem nem mesmo me importar com o que iria beber, queria apenas um momento para me organizar e pensar como iria fazer para encontrar alguma garota que fosse louca o bastante para concordar em me ajudar a alimentar uma mentira desnecessária.
Respiro fundo enquanto aguardo, correndo meus olhos pelos clientes presentes. Havia um número considerável de mulheres ali dentro, todas diferentes uma das outras e únicas à sua maneira de ser. Observá-las daria-me uma base de como tentaria encontrar alguém que pudesse ser uma falsa namorada para mim, mesmo que não fizesse a mínima ideia de como seria isso.
— Aqui está seu pedido. — Agradeço e já pago a bebida quente, andando até encontrar algum lugar vazio.
No percurso não deixo de observar todas as mulheres que meus olhos conseguiam alcançar, isso não era algo que costumava fazer e tão pouco fazia parte de quem era. Recluso e incrivelmente desajeitado, seriam as qualidades corretas para descrever-me, mentiroso? Esse defeito entrou na lista ocupando o primeiro lugar.
Paro ao ver algo que conheço e muito bem. A capa do livro fora uma escolha difícil, lembro-me bem de ter passado quase um mês inteiro tentando montar o que seria a capa perfeita para meu primeiro best-seller — queria chamar a atenção — e lá estava ele. Cobrindo a leitora. Tremelico meus dedos livres ao meu redor, olhando para os lados como um perfeito suspeito preses a cometer um crime.
Avanço. Novamente sem pensar em minha ação ou na consequência que ela poderia trazer não apenas para mim, mas também para a garota que abordaria.
— Hum... Com licença. — Gaguejo pousando minha mão sobre a cadeira, atraindo a atenção da moça que, abaixou o livro e olhou-me. O momento de seus olhos se arregalando ao reconhecer-me pareceram daqueles filmes clichês, seria engraçado se meu desespero não tivesse tomado conta de mim e forçado-me a cometer atos que jamais faria em sã consciência.
— Posso me sentar? — Pergunto, como alguém que não quer nada além de um assento livre.
A desconhecia gagueja algumas vogais sem nexo, não sabendo como reagir a minha presença e entendia seus motivos. Após alguns segundos rápidos ela parece se recompor e se acalma, o livro ainda aberto sobre a mesa redonda onde um copo grande de cappuccino fora perfeitamente posicionado juntamente a um prato com alguns pães de queijo.
— É... É c-claro! — Ela tenta sorrir sem que parecesse nervosa, pergunto-me se seria certo continuar com aquilo. Ainda poderia acabar com tal palhaçada antes mesmo que fosse iniciada. — Está servido?
Ela oferece-me os pães e recuso o mais gentil possível, estava sem fome alguma. Tomava o café apenas para ajudar-me em uma questão idiota que me ferraria mais futuramente.
Nada digo de imediato, preciso pensar e ver como minhas palavras soariam ao serem faladas em voz alta, já estava em maus lençóis pela mentiria. A última coisa que precisava era piorar minha situação com uma completa estranha.
— Então, está gostando da leitura? — Pergunto curioso, como autor ao encontrar algum leitor era comum que tal pergunta fosse feita. Se ela estivesse gostando ou não, gostaria de sua opinião sincera.
Ela solta um muxoxo levemente desdenhoso, querendo dizer que minha pergunta teria uma resposta óbvia.
— É claro. — Diz sorrindo, mostrando os dentes retos e perfeitos demais. — Ainda estou na metade, mas já posso dizer que está de longe sendo o melhor livro de terror que já li esse ano.
Aceno com a cabeça.
— Não estou dizendo isso só pra puxar saco... É verdade mesmo. — Justifica, mas não há necessidade para isso. Confiaria em sua fala.
Voltamos a ficar em silêncio outra vez, a desconhecia sem nome continua a me encarar no conhecido misto entre a surpresa e alegria, afinal, quais eram as chances de encontrar um autor do livro que está lendo?
Ansioso e tomado por um nervosismo dos quais só faziam-se presente em mim quando estava prestes a lançar algum livro novo, olhá-la sabendo que minha mente já formava a proposta para a desconhecia não ajudava muito. Engulo com certa dificuldade, meu dedos batucando pela mesa, nem mesmo o café que tinha em mãos me era atrativo.
— Então... Eu ainda não sei o seu nome. — Puxei assunto, sabendo no quão péssimo era para possuir tal habilidade.
Os olhos negros da desconhecida voltam para mim, ela leva um tempo curto para responder-me. Parece desconfiada de algo e não era por menos.
— Jéssica. — Diz com naturalidade. Sorrindo em seguida de forma gentil demais, tornando a tarefa ainda mais difícil.
Talvez eu devesse simplesmente levantara-me daquela mesa e procurar por outra garota, não poderia facilmente escolher a primeira que me apareceu apenas por ela coincidentemente estar lendo um dos meus livros.
Respiro fundo, minhas mãos estão suadas de forma anormal e descontrolada.
— Jéssica eu tenho uma proposta para te fazer — Falei de uma vez, novamente sem antes pensar direito em minhas palavras. Percebi que o nervosismo deixava-me indiferente à possíveis consequências de minha fala. — Sei que somos dois desconhecidos, mas entenda que estou desesperado.
Jéssica encara-me mais desconfiada que antes, discretamente seus olhos correm para os lados como se temesse que viesse uma fala absurda e horrenda. Ela poderia esperar por algo que viesse a ser absurdo.
— Gostaria que fingisse ser minha namorada durante o natal. — Soltei as palavras sem ao menos perceber como dizê-las em voz alta pareceu ridículo. Imaginei que se evitasse a enrolação poderia ser mais fácil, contudo isso somente deixou tudo ainda pior do que realmente era.
Sua reação foi imediata. Seus olhos se arregalaram numa fração curta e rápida de segundos e sua boca se abriu, pronta para dizer algo, porém absolutamente nada saiu de seus lábios. Jéssica ficou imóvel em seu lugar, piscando incrédula e sem uma reação que pudesse ser dita como algo positivo.
Estava descontrolado, mentindo para minha família e agora esperando uma resposta a um pedido absurdo e urgente.
— E-eu... Hã? — Jéssica gaguejava de forma incoerente, confusa e completamente perdida. Não a culpava por sua reação em vista ao que fora pedido. — Okay, isso é alguma piada? Se for eu vou entender...
— Não, não é piada. — Digo seriamente, surpreendendo a nós dois. Eu poderia facilmente identificar-me como alguém prestes a surtar, seria mais sensato de minha parte escolher o caminho mais fácil e claro, aquele que não envolvia mentir para um número alto de parentes.
E por mais que houvesse tal vontade em mim, de fato estava disposto a voltar atrás e acabar de vez com aquela palhaçada que eu mesmo comecei, a força encontrava-se em falta. Ou se ainda estivesse comigo, ela não se sobressaia pela mentira.
— Isso não pode ser mesmo sério... — Ela riu, nada muito escandaloso. — Quer dizer... — Jéssica não conseguiu terminar sua frase sem que uma onda de vogais gaguejadas fossem ditas. Sua fala não tinha sentido algum.
Deixo o copo com meu café sobre a mesa, como não o estava bebendo mais não vi razão para mantê-lo em mãos. Pousei as duas mãos sobre a mesa, respirando fundo mais uma vez, mesmo que eu quisesse pensar melhor no que iria lhe dizer, notei que se o fizesse acabaria voltando atrás. Pois meu lado mais sensato não permitiria que eu continuasse seguindo com aquilo.
— Menti para minha família dizendo que levaria uma namorada como acompanhante no dia do jantar de natal e agora todos estão achando que essa menina existe — Novamente soltei as palavras de uma só vez, atingindo-a a leitora desconhecida com uma verdade que apenas eu sabia. — Caso eu não leve ninguém ou conte a verdade serei linchado por todos.
Sua expressão tornou-se confusa.
— Linchado? — Questionou-me com uma careta, pude perceber um misto de sentimentos entre o deboche e claro, a confusão. Aos poucos seu rosto jovem e bonito foi tomado por algo que seria decepção e tinha uma pequena ideia do motivo para isso. — Não pode contar a verdade, não é?
Mostro um aceno positivo com a cabeça. Eu tinha tal opção, de fato tinha, mas no momento não era a mais viável.
— O quão desesperado está? — Ela pergunta após um longo momento em que fizemos silêncio novamente, de início pareço não compreender exatamente o que ela queria dizer com a questão, mas a respondo mesmo assim.
— Ao ponto de fazer de tudo para que eu tenha alguém comigo no dia vinte e quatro. — Respondo com honestidade, mesmo achando que tais palavras soassem como um homem desesperado e até mesmo um tanto infantil. Ouvi-las em voz alta só trouxeram em mim a certeza que já conhecia: Eu era um grande idiota.
Jéssica parece me avaliar mentalmente, os olhos tornam-se mais astutos e pensativa ela fecha o livro sobre a mesa e cruza os braços.
— Eu aceito. — Responde. Espantando-me totalmente, pois na realidade essa não era a resposta que esperava. Tinha noventa e nove por cento de certeza de que ela não concordaria e sairia correndo para longe. Não foi isso o que aconteceu. — Mas precisa ter em mente que, já que eu vou fazer parte da sua mentira familiar, espero ser beneficiada com isso.
Fico sem uma resposta, a parte de ela ter concordar havia compreendido com clareza, porém ela queria se dar bem com isso?
— Eu acho que não entendi muito bem o que você quis dizer com...
— É muito simples, Diogo. — Ela interrompeu-me, dizer meu nome como se fôssemos próximos pareceu-me estranho, algo dentro de mim fez-se presente mesmo que eu não soubesse ao certo o que seria. — Eu concordar e ajudá-lo a manter essa mentira só te fará se beneficiar, seja lá o que você for ganhar com isso, mas eu também quero sair ganhando de alguma maneira.
Abro minha boca sem uma resposta imediata, surpreso. A mesma moça que lia um de meus livros com atenção, estava agora diante de mim mostrando-se ser uma negociadora?
— O que você quer em troca? — Pergunto relutante, pensando que aquela seria uma boa hora para anunciar que desisti de tal ideia. Entretanto quando pensei melhor no que estava fazendo percebi que Jéssica apenas seguia a música que eu mesmo comecei a tocar; internamente já estava me arrependendo.
— Quinhentos reais o dia que passar com você e sua família. — Sua fala me pega totalmente desprevenido, sinto que acabaria caindo para trás a qualquer momento e sou forçado e segurar-me na mesa.
Foi como receber um grande soco no rosto sem que eu visse de qual lado ele viera, meu coração acelerou, mas não por causa de ansiedade ou nervosismo. A moça na minha frente estava pedindo a mim quinhentos reais para fingir ser a inexistente Camila.
— O quê?! — Minha voz se altera um pouco, mas não parece fazer muita diferença para ela que acabara que conhecer-me pessoalmente. — Você não pode estar mesmo falando sério.
Jéssica deixa a cabeça pender para o lado e seu olhar muda novamente, ela agora olhava-me muito séria. Não havia humor algum em seu rosto.
— É um valor justo, já que eu vou sacrificar o meu natal em família para alimentar sua mentira. — Devolveu, muito certeira em seu golpe ao ponto de deixar-me novamente sem reposta imediata. — Está pedindo que eu me exponha para um monte de desconhecidos fingindo ser uma namorada que você inventou sei lá o porquê, obviamente não vou passar o dia com a minha família mesmo que eu já tivesse planos para o dia. É mais do que justo.
Palavras sem nexo saem de meus lábios, estou incrédulo. Pego de surpresa por uma ação que já deveria ser esperada, após um pedido inusitado que fizera a ela. Parte de mim concordava, era um valor justo levando em conta os pontos levantados, porém havia outra parte de mim que não simplesmente não conseguia concordar com tal acordo. Se é que poderia chamá-lo disso.
Levo um tempo para pensar a respeito e Jéssica parece entender isso, pois volta com sua leitura. Retornando a mesma moça de momentos atrás.
— Quantos anos tem? — Pergunto antes de dar minha resposta final, novamente vendo-me em uma situação onde as consequências seguintes seriam de acordo com o que eu viesse a lhe dizer.
— Isso é importante? — Devolve com outra pergunta, olhando-me por cima do livro.
— Claro que é. — Digo como se fosse óbvio demais que eu precisasse saber de sua idade. Cancelaria tudo se estivesse lidando com uma adolescente.
— Vinte e sete. — Responde. Mas não levo muita fé, Jéssica possuía um rosto que chegava a ser quase pertencente a uma jovem que sequer chegou aos seus vinte anos. — Não diga nada, você tem quase trinta anos, mas parece um rapaz de vinte e dois e nerd.
Confessa, novamente me surpreendendo. Jéssica aos poucos se mostrava uma pessoa sem papas na língua, pouco importando-se com qual seria minha reação.
— E então, vai concordar? — Ela outra vez me questiona, tinha seus olhos agora fixos no livro em mãos.
— Com uma condição: — Faço uma pausa, conseguindo atrair sua atenção para mim. — Seu nome precisará ser Camila.
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