Najas do deserto
2 Takus
Notas iniciais
Me certifico de que todos estão protegidos na cidade média enquanto caminho para o palácio, a areia chegou a cobrir casas por inteiro na cidade baixa e perdemos reservatórios de água, mas o número de baixas é zero, pela primeira vez fomos rápidos o suficiente. Os túneis pelo qual me locomovo estão intactos, foram feitos há séculos para abrigar os nobres que ali moravam. Falando neles, ao chegar na cidade alta sou abordada por vários:
—O vento derrubou a estátua do rei!— Oh, que absurdo. -A areia invadiu a minha garagem! Vai arranhar a pintura do meu carro! – Nossa, que tragédia. Malditos riquinhos ridículos e fúteis. Há crianças que poderiam ter morrido lá embaixo! Estações de tratamento que podem ter sido contaminadas e plantações que devem ter sido devastadas! Mas não fará diferença para vocês, certo? É nisso que penso todos os dias.
O luxo da entrada do castelo me enoja, ouro, prata e pedras preciosas ornamentam grandes holos onde a imagem do rei é exibida com muito orgulho por ele mesmo. Minhas roupas fedem a suor e sujam um luxuoso tapete tecido com a mais fina seda de Larov que segue até a sala do trono, os cachos de meus cabelos parecem acumular mais areia que minhas roupas e são uma afronta aos empregados, me sinto bem e ao mesmo tempo culpada com isso.
Uma grande e pesada porta dupla esculpida em mármore branco e encrustada com esmeraldas é a “humilde” entrada que Takus ostenta. Aquele lugar era para ser uma fortaleza para todos do reino, um lugar para que os súditos procurassem auxílio de seu monarca e enxergassem a boa figura de um comandante, como na época de Maria, conhecida por todos como a Grande Rainha. Ela era boa, gentil, possuia belos olhos e cabelos castanhos, alta, humilde e casada com Herl, o Rei Seco. Eu a chamava de mãe.
Com passos preguiçosos me dirijo ao trono e sinto o olhar de meu padrasto sobre mim, estou pouco me fodendo. Levanto o olhar e encaro-o, ele segura um pedaço de batata mordido em uma das mãos e uma coxa de frango na outra, sua grande boca engordurada se abre e a única coisa que consigo sentir é desprezo. Nós de Aarcav somos, em grande maioria, completamente vegetarianos devido à falta de condições para criar animais. Plantamos em lugares parcialmente protegidos da luz do sol e é pouco o que conseguimos colher, imagina ter que dividir a comida com os animais, ter trabalho para cuidar deles e no final matá-los para se alimentar. Que desperdício, mas mesmo assim o rei gasta recursos com animais.
—Você está me escutando Arel? Sua criaturinha mais ingrata.— o rei balbucia cuspindo pedaços de comida enquanto fala de boca cheia.
—Sim, senhor. Estou.— Não faço ideia do que ele está falando.
—Então me responda! Por que foi ajudar a escória de sua cidade? Você é da realeza, não deve se misturar a esse povinho.— A voz cheia de arrogância me preenche e de repente sinto a necessidade de um banho. Não aguento mais esse idiota.
—Você quer mesmo saber o que fui fazer na cidade baixa? – Minha voz explode e ecoa pelo grande salão. – Eu fui fazer o seu trabalho, seu grande babaca! É a quarta tempestade de areia este mês e a única coisa que você faz é soar a porra de um alarme e sentar sua grande bunda nessa porcaria de trono! As pessoas lá embaixo estão morrendo, ficando sem comida e água! E é aquele pessoal, que você chama de escória, que te sustenta, que planta e colhe o que você come, que costura as roupas que você veste, que cozinha e limpa para você, além de te proteger! Dá para, pelo menos uma vez, você agradecer a eles e perguntar se estão todos bem!? – Dou uma longa golada de ar e percebo que ainda tenho muito mais para dizer.
—Já acabou? – Ele me interrompe aproveitando a pausa.
—Não. Eu não acabei. Você sabe que a qualquer momento Ceaar irá atacar? Eles irão aproveitar que estamos fracos por causa dos desastres. Mas você está pouco se importando, não é mesmo? Vai enviar seu grande exército e pronto. O pior é que você não faz isso pelo povo, faz isso para proteger a própria barriga. Como é que minha mãe deixou você se aproximar dela?
—Sua grande pirralha. Acha que estes insultos vão me ofender? Eu sou o Soberano Rei deste deserto! Nenhum outro reino é mais forte que o meu! Ninguém pode me atingir! – Posso ver a raiva nos olhos dele. — Você é que é uma oportunistazinha, igual a sua mãe! Você e aquela sua copiazinha, Lia.
—Oportunista? Como ousa? Quem obrigou minha mãe a se casar foi você! E em seguida você a matou! —Lágrimas quentes de raiva rolam por minhas bochechas.
—Sua mãe se suicidou, você sabe bem disso, querida. — Ele saboreia a última palavra, posso sentir a falsidade. Eu sei que é mentira, minha mãe amava a vida como nenhuma outra. Ele debocha do reinado dela.—E agora você quer o trono para si. Lidera exércitos particulares protegendo ali, distribuindo comida aqui, tudo para conquistar os meus súditos e liderar uma conspiração contra mim, não é mesmo?
—Não faço por mim, faço pelo povo. – Respondo brevemente e me viro. Mas meu espírito não me permite sair assim, então, ainda de costas, complemento: - E, olha, seria uma ótima ideia essa, mas vou deixar você para os jacarés de Ceaar. – Saio pisando duro, os passos soando pela sala.
Durante minha infância sem minha mãe, Takus me deu diversos castigos por respondê-lo e exigir que ele fizesse algo pela população. Da última vez que discutimos assim Takus me colocou nas masmorras junto a outros 20 prisioneiros, apanhei junto a eles, comi os restos da nobreza e tive de fazer minhas necessidades na frente de todos. Foi quando decidi que me tornaria o pior pesadelo de meu padrasto.
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