Notas iniciais
“A vida é ou uma aventura audaciosa, ou não é nada. A segurança é geralmente uma superstição. Ela não existe na natureza.” Helen Keller

Minha irmã me aguarda em meu quarto, dou de cara com ela assim que abro a porta. Ela exibe um grande sorriso debaixo de cabelos longos e escuros, é alta como eu, mas possui os olhos e o nariz de nosso pai. Seríamos bem parecidas se não fossem minhas cicatrizes, apesar de recentemente ela também ter ganhado algumas.

Acontece que eu não consigo esconder nada de Lia e quando tentei me disfarçar para lutar por Aarcav, não demorou dois meses para que ela descobrisse e me pedisse para se reunir ao exército. O problema é que minha irmã não foi treinada, nossa mãe estava grávida quando meu pai morreu e era ele que me treinava. Ele costumava dizer que um dia eu seria a responsável por defender a cidade. Parecia até que ele já sabia do destino de nossa morada.

—Escutei a gritaria na sala do trono, você está bem?—Lia me pergunta com sua voz doce, porém firme.

-Aquele hipócrita do nosso padrasto! Eu não o suporto! Outra tempestade e ele não fez nada de útil! Eu não aguento mais, Lia! –Desabafo, chorando de raiva.

—Fica calma. Nossa equipe teve sucesso total, não perdemos ninguém dessa vez, apenas um dos reservatórios foi atingido e a plantação está intacta!— Ela faz uma pequena pausa, como se pensasse uma segunda vez antes de falar. — As meninas realmente ajudaram, Ar... Já pensou no que eu te disse?

—Em coloca-las na Alfa? Nem sonhando. Já deixei claro o que penso, elas não sabem nem segurar uma arma, muito menos lutar com espadas! A única útil é Seraphine, que pode usar seus conhecimentos de farmácia, mas em campo ela é inútil se não souber se defender. Como curar se estará morta em menos de 10 minutos?— Faço a pergunta no exato momento em que alguém bate na porta e entra sem cerimônias.

É Maria, a pequena de pele branca, cabelos com cor de crepúsculo e os olhos mais bonitos de toda Aarcav. Ela parece fraca, com seus braços e pernas tão finos, porém seu rosto é marcado pela sua história, pela morte de seu irmão e por sua determinação. Atrás dela está Seraphine, com um vestido longo que costumava ser muito luxuoso antes das tempestades mas que agora não passa de um trapo esfarrapado e sujo, no entanto, a bruxa parece se sentir muito confortável com o tecido fino e leve que marca suas costelas sobressalentes e a pele manchada. Seu cabelo tem a cor do fogo e cai pelas laterais do rosto, destacando seus misteriosos olhos castanhos e as sardinhas que considero muito charmosas.

—Desculpe-me Arel, achei que ainda estava com o rei.

—Você deveria treiná-las, Ar.— Lia continua, como se não houvéssemos sido interrompidas, levantando uma das sobrancelhas quando termina a frase. Espertinha, fez de propósito para que eu não dissesse na frente de suas amigas o quão provável é a morte delas.

—Treinar quem?— Uma ruga surge na testa de Seraphine.

—Vocês, mas Arel disse que vocês morreriam em questão de segundos.

—E é verdade, o máximo que sei é utilizar um bisturi nos feridos.

—Viu só? Até ela admite, irmã! A entrada delas no meu exército é inviável, nem mesmo na Gama.— Eu gesticulo enquanto falo. A morte de Seraphine, Maria e Escarlet seria uma terrível tragédia devido à sua nobreza, causaria pânico pois a cidade alta nunca foi atingida pelos ataques de Ceaar. Os Ceaarianos são conhecidos como o povo jacaré, eles são avançados em tecnologia bélica, tem uma antiga briga com meu povo e são altamente religiosos. Em sua maioria, possuem queloides feitas durante um ritual no qual eles se apresentam ao seu grande deus Mboi Tu'i, da mitologia guarani, muito presente na antiga Térdes.

—Você não me deixou terminar, Arel. Nós realmente não sobreviveríamos sem treinamento, mas estamos dispostas a aprender. Coloque-nos na divisão Alfa, sua divisão, e nos treine. Pense em seu povo, princesa. Pense até mesmo em seu exército, quanto mais gente melhor.

—Vocês não entendem o que acontece se vocês morrerem? A nobreza entra em crise! E se todas nós morrermos na batalha? O que será de Aarcav? Pensem vocês em nosso povo! Nós somos o futuro.

—Arel, qual seria diferença de nos ter em seu exército agora?— Dessa vez é Maria quem se pronuncia. — Já te ajudamos em todas as missões dentro da cidade, você apenas nos tornaria oficiais. E quer saber? Eu não tenho nada a perder. Sou órfã e meu irmão está morto, tudo o que quero é vingança.

—“Dentro da cidade”, exatamente. Tornar vocês oficiais implicaria em missões nas quatro cidades. Os conflitos com Ceaar estão cada vez mais frequentes, soube que eles tem roubado projetos de Apatia e tenho certeza de que eles estão se preparando para algo grande. Vocês precisam estar seguras, a partir de hoje não quero nenhuma de vocês se aventurando durante os ataque, principalmente você, Lia.

—Mas não é justo!— Lia levanta da minha cama, claramente irritada.- Você já iniciou os meus treinos! Eu estou me preparando!

—Foi tudo uma tolice. Eu errei em tentar te preparar, acabei te expondo mais do que deveria.— Novamente o som da porta me interrompe, desta vez é Escarlet, ela veste uma calça camaleão, que permite que ela mude o estilo da peça cada vez que ela quiser, outra vantagem é o regulador térmico interno, muito útil para quem mora no deserto. Sua blusa parece grande demais para ela, uma das alças da blusa lhe cai sobre os ombros enquanto ela desenrola o tecido que antes protegia seu rosto.

—Desculpa o atraso. O Olheiro estava me passando as últimas informações sobre a tempestade. Poucos foram os danos na cidade alta, a média teve um dos reservatórios infectado e a baixa foi completamente devastada. Os cidadãos estão abrigadas no galpão do avião que foi para Larov e que provavelmente não chegou lá... Desculpem, eu pareço ter interrompido algo.

—Tudo bem, já estávamos concluindo. Vocês que escutaram o que eu disse, passem as informações para Escarlet e por favor saiam do meu quarto, hoje o dia foi cansativo e quero dormir.— Termino esta frase enquanto tiro minha blusa e vou em direção ao banheiro. Escuto Lia murmurar algo e sair batendo os pés, uma delas bate com força a porta de meus aposentos e eu não ligo nenhum pouco, desde que estejam seguras. Termino de tirar as roupas cheias de areia e as jogo no Aspirador, uma grande máquina que consegue tirar qualquer particula, célula morta e bactéria presente nas roupas. Me olho no espelho e noto como meus ossos, antes protuberantes, sumiram em meio aos músculos que agora são mais do que nítidos em meus braços, pernas e abdomêm, as cicatrizes também aumentaram e tenho certeza de que vou estranhar o dia em que meu corpo não apresentar um hematoma.

Com o frio que faz a essa hora, agradeço pelo sol não permitir que a água se mantenha fria. Meus pensamentos sobre o dia escorrem junto com a água que cai do chuveiro e descem pelo ralo, tudo que quero agora é não pensar. Termino meu banho, visto apenas uma calcinha e camiseta e demoro um pouco para deitar, olhando pela janela de meu quarto enquanto reflito.

Quilômetros de areia se estendem até Larov, a cidade mais próxima, com seus altos muros e grandes brasões com um gavião real dourado em seu centro. O céu noturno me encanta com toda sua escuridão, a lua é a única luz agora, posso ver o vento batendo nas dunas e incomodando seres que se escondem do frio da noite. De canto de olho, vejo uma luz em meio ao deserto mas ela se apaga com a mesma velocidade que se acedeu, já estou tão cansada que não tenho mais certeza de que vi aquilo mesmo, então ignoro e me deito. É quando os sonhos começam.

Notas finais
Esse foi difícil! Mudei o final umas 6 vezes até me sentir satisfeita hahaha Espero que tenham gostado! Não esquece o comentário
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.