Nada é real até que se acabe
3 Ansiedade
Notas iniciais
"And the risk that might break you
Is the one that would save
A life you don't live is still lost."
"E o risco que talvez quebre você
É aquele que pode te salvar
Uma vida não vivida continua perdida."
O funeral passou incrivelmente rápido. Não que ela esperasse que se alongasse, pensava que esse tipo de evento – se é que se podia chamar assim – era melhor passar rápido. Kurenai tinha seu rosto inchado pelo choro e Hinata a abraçou diversas vezes, nunca saindo ao seu lado.
Seu coração pesava. Dizer adeus a um professor tão querido como Asuma não era simples, ainda mais ela que agora também era professora. Por isso, sentia como se o propósito do Sarutobi em sua vida havia sido também apreciar essa profissão e ajuda-la em sua formação. Ele foi uma das pessoas que a ensinou a apreciar o ofício.
A casa de Kurenai estava bem cheia. Hanabi não saia ao lado de seu namorado Konohamaru, que ainda estava em lágrimas, Sakura também estava acompanhada de Sasuke – o que a deixara extremamente surpresa e feliz pela sua amiga – Sai e Tenten também estavam lá. Por ironia, apenas Naruto não havia chego. Não sabia muito bem como se sentir em relação a isso. Respirou fundo, enchendo o copo de água pela terceira vez e tomando de uma vez. Todas aquelas pessoas juntas em um pequeno espaço a deixava bastante ansiosa.
— Hinata.
A voz sem emoção chamou sua atenção. Atrás dela estava Sai, com uma expressão difícil de interpretar.
— Quanto tempo, não é? Ino me disse que viria.
Ino e Sai agora eram um casal. Tinha que se acostumar a isso.
— Sim, bastante. Como você está?
— Estou bem, Sai. Obrigada.
— Você não mudou nada desde o tempo de escola.
Hinata não sabia dizer se aquilo era um elogio ou não.
Um som vindo da sala chamou a atenção. Alguém acabara de chegar. Ouviu a voz de Konohamaru dizendo nii-chan.
— Naruto chegou. Isso é bom, Konohamaru pode se acalmar. Não acha?
Não deu tempo da Hyuuga responder. A figura do Uzumaki aparecera na cozinha segundos depois, segurando um copo. Sentiu parar de respirar. Ele parecia apressado, mas impecável num terno sob medida, com a gravata fora do lugar e os primeiros botões da camisa abertos. Hinata também segurava o copo, mas com o seu coração batendo forte e as mãos trêmulas, decidiu deixar o copo em cima do balcão. O olhar dele chegou a ela.
— Naruto, que surpresa!
— Oi Sai. Oi Hinata. – O olhar dele passou rapidamente por ela.
Não sabia se era alguma peça do destino ou sua imaginação, no entanto o tempo só havia melhorado tudo nele. A pele continuava bronzeada – seria possível que ele tomasse tanto sol assim? – Os cabelos espetados sem direção certa, os ombros mais largos, e a barba por fazer. Quente. Ele sempre parecia estar quente. Sentiu com dezessete anos de novo. Aquilo não era um bom sinal.
— Vim buscar água para Konohamaru. Ele ainda não parou de chorar.
Hinata caminhou saindo de perto da pia, indo para o outro lado da cozinha.
— Que coincidência, Hinata e eu estávamos falando de você.
A Hyuuga olhou para Sai não entendendo da onde vinha aquele comentário, ela sequer havia respondido o comentário que ele havia feito sobre Naruto, como era possível que os dois estivessem falando sobre o Uzumaki?
Ouviu um riso sem graça vindo do loiro.
— Sobre o que?
— Nós não estávamos.
Hinata respondeu rápido. Até perceber que essas eram as primeiras palavras que dirigia a ele depois de seis anos. Péssima escolha de palavras. Agora ele a estava encarando sem entender. Ele e Sai. Ficou aliviada que a voz de Hanabi chamando por Naruto havia o tirado da cozinha a passos rápidos.
Despediu-se de Sai e saiu pelos fundos da casa, no mesmo jardim que estava há momentos atrás com Sakura. Puxou o ar com força. Isso a lembrava porque não queria ter voltado a Konoha depois de todo aquele tempo. Não soube quanto tempo ficou lá atrás, até ouvir o barulho da porta de abrir de novo e Naruto aparecer a sua frente.
— Ei, tudo bem?
Ela o olhou longamente. Imaginou que ela, provavelmente, estava sendo distante demais.
— Sim. Eu só estou tomando um ar. – Mentiu, ainda o olhando.
Como ela nunca o havia visto de terno? Ele ficava muito bem.
— E você?
— Trabalhando muito. – Isso não respondia muito à pergunta dela. Era claro que ele estava trabalhando muito, sendo quem era agora.
Ela fez um sinal com a cabeça, concordando, mesmo que aquilo não tivesse sido uma pergunta. Não fazia ideia do quanto esses encontros seriam esquisitos.
— Eu sei que isso pode parecer presunçoso, mas... – Desde quando ele usava palavras como “presunçoso”? – É bom ver você.
Ela não conseguiu responder. O sorriso dele havia a deixado sem palavras.
—/-
De uma forma incomum, todos eles haviam concordado em ouvir Kiba que sugeriu juntar todos ali para ir ao bar que costumavam ir no fim dos expedientes, às sextas-feiras. Ela havia insistido que ficaria com Kurenai em casa, mas logo Kurenai a convenceu em ir, para matar as saudades dos velhos tempos e aproveitar. Hanabi também garantiu que ficaria mais algumas horas por ali com Kurenai e Konohamaru. Talvez sua mentora e sua irmã tivessem esquecido que ela não havia aproveitado tanto assim sua adolescência, para ter memórias realmente boas para recordar.
O lugar era apertado, dividia-se entre um balcão comprido, um corredor e umas mesas encostadas numa parede só de vidros que dava para a rua. O grupo era grande, juntaram-se em duas mesas. Propositalmente Hinata escolhera sentar ao lado de Sakura, próximo a parede. E, por sorte, Naruto do mesmo lado da mesa que ela, tirando a visão que teria dele caso sentasse do outro lado.
Todos começaram a conversar e ficou aliviada por ninguém ali ter começado um assunto diretamente com ela. Seu estômago parecia embrulhado e continuava sentindo seu peito apertar. Eram os sintomas da ansiedade. Avisou Sakura que voltaria logo e foi para o banheiro. Sabia que estava sendo infantil e bastante insegura. Olhou-se para o espelho. Respirou fundo. Decidiu não voltar à mesa e foi em direção ao bar.
— Pode me trazer um Aperol spritz, por favor.
O som do bar não estava alto. Agradeceu não precisar gritar para o bartender.
— Acho que nunca vi Hyuuga Hinata algo alcóolico.
Ela olhou para o lado. Naruto estava sentado, com uma long neck na mão estranhamente a vontade.
As mãos de Hinata começaram a suar.
— Eu já sou maior de idade, não se preocupe.
— Eu nunca tive que me preocupar com você.
— O que quer dizer?
Ele deu outro gole e sorriu a ela.
— Você é sempre consciente demais.
Não soube dizer qual o tom ele usara. O bartender entregou a bebida alaranjada a ela. Laranja. A cor favorita dele, pelo menos na adolescência. Que ironia.
— Consciente demais?
Ele a olhou nos olhos. Um sorriso de canto o mostrou ainda mais relaxado.
— Você sempre teve muito juízo.
Hinata deu um longo gole na sua bebida. Sorriu a ele rapidamente, pensando se aquelas palavras teriam algum significado a mais. Naruto continuava ao lado dela.
— Nós precisamos conversar, Hinata.
Engoliu um longe gole de seu drink, ainda sem olhar diretamente ao loiro ao seu lado.
— Sobre o quê?
Naruto virou seu corpo em direção a ela.
— Você não acha que temos algo pendente a resolver?
Ela suou frio. Sentiu ficar sem chão quando ele a olhou profundamente.
— Você. – O bartender chamava Naruto. – Mandaram essa cerveja para você. Daquela mesa.
Ao apontar no fundo do bar, umas quatro mulheres acenavam para ele. Hinata aproveitou que Naruto olhou para a mesa e saiu às pressas levando seu drink.
A noite passou rápida e Hinata fugiu dos olhares do Uzumaki até o momento de irem embora. Cada um pegou seu carro e ela aproveitou a carona de Kiba até a sua casa. Chegando em seu quarto sentiu seu celular vibrar.
Eu não desisti da nossa conversa. Durma bem ;)
No entanto, a mensagem de Naruto não a surpreendera tanto quanto a anterior. Sentiu um frio na espinha. Na foto de perfil uma loira sorrindo. Nada menos que Shion.
Olá Hinata, tudo bem? Eu soube que está em Konoha. Será que poderíamos conversar?
—/-
“O envelope na mão de Hinata era rosado. Seu rosto estava em escarlate. Pensara em desistir, em sair dali o mais rápido possível. Agradeceu que os corredores da escola estavam vazios e que o sinal não havia tocado ainda. Faltavam quinze minutos para o horário da saída para o intervalo.
Viu de longe Ino correr até a sua direção, sorrindo. Logo atrás, saindo de uma das salas, vinha Sakura, segurando seus livros. Hinata não tinha dúvidas de que as duas estariam ali com ela naquele momento. Segurou mais forte o envelope, quase o amassando. Estava insegura. Ainda não concordara totalmente com aquela ideia.
— Hinata, meu Deus, você está suando frio! – A Yamanaka pegou uma de suas mãos, que estava gelada.
— I-Ino... S-Sakura... Não sei se isso é uma boa ideia. – Hinata gaguejava. – E se... E se ele me odiar depois disso?
— Hinata, você ama esse panaca desde o jardim de infância! – Sakura praguejava. – Já faz quase quatro meses que você está dando essas aulas particulares pra ele, e estamos no último ano! Você não pode perder essa chance!
Ino sorriu a Hinata.
— Não deu certo quando a Sakura se declarou para o Sasuke, mas não tem por que não dar certo para você, Hinata!
— Cala a boa, Ino-porca! – Sakura pegou a mão livre de Hinata e as três começaram a caminhar em direção a outro corredor, onde ficavam os armários. Elas pararam na frente de um armário em específico. – Vai Hinata, coloca a carta aí antes que o sinal bata!
Ela colocou a carta entre uma das aberturas de ventilação do armário. Seu coração bateu mais forte. O olhar de Sakura e Ino a encorajaram.
— Vai dar tudo certo, Hina!”
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