Nada é real até que se acabe
4 Lámem
Notas iniciais
"You beat your head upon your wall
You disconnect yourself from it all
We know that you're so beautiful and so untouchable
And I want to get in so bad, and I don't know how
No, I don't know how."
"Você bate sua cabeça na sua parede
Você se desconectou de tudo
Nós sabemos que você é tão linda e tão intocável
E eu quero tanto te alcançar, e eu não sei como
Não, eu não sei como.”
O cappuccino nas mãos dela estava quente e o cheiro era extremamente adocicado, do jeito que gostava. Sakura e Ino haviam pedido um café e um suco. Por um momento lembrou-se dos tempos de escola em que as três frequentavam aquele mesmo café. O lugar não era longe, não era caro e, anos atrás, era cheio de adolescentes. Diferente dos dias atuais em que o movimento parecia menos juvenil.
Hinata lembrou-se de um dia em que as três estavam ali, no mesmo local, algumas semanas antes de começarem o ensino médio. As três prometeram umas às outras que o colegial seria diferente. Que tomariam coragem e lutariam pelos seus sentimentos que as permeavam desde o ensino fundamental. Havia sido uma promessa sincera, cheia de sentimentalismo, mas difícil de cumprir. Sorriu com a lembrança, porém preferiu não comentar nada.
— Eu sinto falta desse clima da escola, sabe? – Ino tomou um gole de seu suco. – Sem preocupações com trabalho, com casa. Só estudando para as provas e pensando em garotos.
Todas riram. Hinata sorveu de seu cappuccino.
— Shion me mandou uma mensagem ontem.
O silêncio que se seguiu durou poucos segundos.
— O que ela queria? – Sakura disse, alto demais.
— Ela quer conversar comigo. – Hinata evitou o olhar de suas amigas por um instante. – Não só ela, Naruto também quer conversar.
— Isso é culpa minha, Hina. Fui eu quem dei seu número para ele.
A Hyuuga olhou para sua amiga Sakura. Ela já desconfiava disso.
— Ele ficou insistindo, sem parar. Falei para ele que você não ia gostar e ele me prometeu que só queria resolver as coisas com você.
— Tá tudo bem Sakura-chan. – Hinata tomou mais de seu cappuccino. – Eu só acho que não há nada mais para resolvermos.
— Uma conversa com ele seria ótimo. – Ino disse e segundos depois que o garçom deixou um sanduíche em sua frente. – Por mais que eu saiba o quanto Naruto errou com você, acho que ele não é uma pessoa ruim.
Sakura soltou um riso sem graça.
— Diferente da Shion.
— Quanto a Shion... Talvez ela esteja tentando se desculpar com você pelo o que fez no passado.
— Por que você diz isso? – Sakura diz, olhando incrédula para a loira.
— Porque foi o que ela me disse quando pediu o número da Hinata.
Todas à mesa ficaram em silêncio. Hinata e Sakura ainda olhavam surpresas para Ino. Sakura estava boquiaberta.
— Ino, por que você deu o número da Hinata?
A loira terminou de mastigar seu sanduíche e olhou para a Haruno.
— Shion deve esse pedido de desculpas a Hina. Acho que já passou da hora de ela se desculpar. Além de que agora ela está toda good vibes e sabe que errou.
Sakura suspirou alto, escolhendo não continuar discutindo com Ino.
— Você já sabe o que vai fazer Hina?
Hinata olhou para suas amigas. Ela entendia a intenção das duas. Ela sabia que precisava fazer as pazes com o seu passado para que esquecesse e continuasse sua vida tranquilamente. Ela podia mentir, dizer que aquilo não era mais importante, mas seu coração ainda sentia tudo o que havia vivido nos seus dias de adolescente.
— Acho que vou aceitar conversar com Shion.
—/-
Não demorou para chegar na casa de seu pai. Planejou o que faria pelo resto de seu fim de tarde, quase noite: responder alguns e-mails da escola, planejar as aulas que daria dali duas semanas e responder Shion. Não sabia exatamente o que responder a ela, ou se realmente queria responder. Decidiu pensar nisso depois de um banho quente. Chegou na casa de seu pai e ouviu algumas vozes na sala. Tirou os sapatos, trocando por um par de chinelos mais confortáveis e foi em direção a sala. A casa era grande e luxuosa, porém ainda era um ambiente bastante familiar.
Por um momento, prendeu a respiração inconscientemente. Na sala da casa de seu pai, estava Hanabi, Konohamaru e Naruto, olhando com muita atenção a tela de tv. Nas mãos de Konohamaru e Naruto estavam dois controles de um videogame. Os dois falavam alto com empolgação.
Ela parou logo na entrada de sua sala e seu coração batia rápido. Era como se estivesse vendo um Naruto de dezessete anos, no banco reserva, gritando para os outros jogadores durante uma partida de baseball organizada pelo professor Maito Gai. Seus olhares se encontraram e ela não conseguiu dizer palavra alguma. Felizmente sua irmã resolveu dizer alguma coisa.
— Hina, que bom que chegou! Estávamos esperando por você! – Hanabi foi até ela e a puxou pelo braço. Hinata podia jurar que vira um sorriso diferente no rosto de sua irmã. – Os meninos estão jogando futebol. Você quer jogar?
— Não Hana, tudo bem. – Ela se aproximou da onde os dois estavam. Ambos já haviam pausado o jogo. – Boa noite.
Naruto se levantou rapidamente.
— Boa noite.
— Hina, o Naruto estava esperando por você.
Ela o olhou de pé. Ele também havia crescido mais desde os tempos de escola. Ao contrário dela que continuava baixa. Hinata estava na altura do peito dele.
— Me desculpe, eu não sabia que você viria-
— Eu disse que ia te ligar, mas ele não deixou. – Hanabi disse, enquanto caminhava para a cozinha.
— Não tem problema, eu não avisei mesmo. — Coçou a nuca, parecendo estar sem jeito. – Eu vim até aqui pra saber se você quer sair.
— Sair? E-Eu não sei, eu estava até agora na rua.
Sem surpresa alguma, Hinata voltara a gaguejar. Konohamaru aparecera no meio dos dois.
— Seria ótimo sair! Tô morrendo de fome!
Ouviu um grito de Hanabi na cozinha, que voltava com um balde grande de pipoca.
— Não, Kona, nós vamos assistir filme agora, lembra?
— Que filme?
— Aquele que eu queria, lembra? – A Hyuuga dizia o puxando pela mão para voltar para o sofá. Konohamaru, ainda sem entender, foi se sentar ao lado de sua namorada.
Naruto riu e voltou seu olhar a Hinata. O olhar dele nunca mudara.
— E então, que tal um lámem?
—/-
Ichiraku Ramem era o estabelecimento mais conhecido pela sua geração. Era próximo da escola, era barato e gostoso, e o dono era o senhor mais simpático da rua. Ali e o café eram os dois locais que Hinata e seus amigos frequentavam. No entanto, no nos últimos meses do terceiro ano, ela evitava ir ao Ichiraku. Naruto frequentava o local com a sua namorada. Lembrar daquilo, ali, com ele, não havia sido uma boa ideia.
As mesas, a decoração, até mesmo o cheiro era o mesmo. Viu Naruto cumprimentar a atendente com entusiasmo. A Hyuuga percebeu que pela intimidade com a atendente ele ainda frequentava o local assiduamente.
— Como você pode ver, eu não mudei muito. – Ele disse, sorrindo, após fazer seu pedido para a moça sorridente demais. – Continuo vindo aqui.
Saber que ele não mudara era ambíguo a ela. Não sabia dizer se era bom ou não. O sorriso dele continuava uma armadilha, assim como seu olhar.
— É o melhor lámem de Konoha, certo?
— Exatamente! – Ele riu.
Hinata sorriu, sincera. Ele sempre dizia isso.
— E você? Mudou muito?
Não sabia como responder aquela pergunta. Voltou seu olhar ao balcão, pensando.
— Acho que não. – Ela deu de ombros.
— Eu espero que não. Soube que agora você é professora. Literatura, certo?
— Sim, sou. Dou aula do sétimo ao primeiro ano do ensino médio.
— Eu aposto que pra você não é nenhum desafio. Quer dizer, você foi a minha professora. Depois de mim qualquer aluno é fácil!
Duas travessas arredondadas, cheias e quentes foram colocadas à frente dos dois.
Naruto riu, pegou o par de hashis de dentro da embalagem de papel. Hinata olhou para ele, minuciosamente. O rosto dele não mudara muito. Tinha o contorno mais definido, a barba deveria ter sido feita há dois dias, no máximo, já que não estava alta, mas nem tão rala. Ele era lindo. Usava alguma loção pós barba de cheiro cítrico e parecia sempre de bom humor. Sentiu seu estômago apertar e uma vontade imensa de sumir dali. Ele parecia tão límpido, tão radiante, que se sentiu diminuída estando por perto. Ele chamava a atenção. Ele tinha um brilho próprio. Pensou em uma desculpa. Dor de cabeça. Essa desculpa era sempre incontestável.
— Naruto, eu-
— Me desculpe começar a comer assim, sem nem te esperar. Eu tô um pouco nervoso por estar aqui com você, sabe? Inquieto. – Ele a olhou profundamente. Hinata não conseguiu dizer nada. Naruto sempre transmitia sinceridade. – Eu não quero fazer besteira.
Seu coração começou a bater forte.
— Não se preocupe com isso. – Ela segurou o ar e soltou, sorrindo. – Vamos comer antes que esfrie.
O lámem tinha o gosto exato que se lembrava. Hinata compreendia o porquê ele ainda era fã do Ichiraku Ramem e não era para menos. Os dois pagaram pela refeição – na verdade ele fizera questão de pagar o dela – e começaram a caminhar pela praça movimentada que havia ali nas redondezas. Outro local igualmente nostálgico.
— O Asuma-sensei era um cara muito legal. Ele, o Kakashi-sensei e o Iruka-sensei tinham muita paciência comigo.
— A perda dele é muito triste. – Hinata voltou seus olhos ao chão mas logou levantou sua cabeça. — Konohamaru está melhor?
Naruto colocou as mãos nos bolsos.
— É, mais ou menos. Hanabi está ajudando bastante. Eu dei a ele uns dias de folga também.
Havia se esquecido que Konohamaru e Naruto trabalhavam juntos. Pensou que os dias de folga fariam bem ao namorado de sua irmã depois da perda do tio. Seria de grande ajuda. Naruto e Hinata continuaram caminhando, conversando sobre amenidades. O Uzumaki tinha um dom incomum de fazê-la sentir-se à vontade sem grandes esforços. Os dois acabaram chegando na frente da casa de Hiashi. Ficaram em silêncio mais uma vez. Naruto a olhava intimamente.
— Preciso entrar. Ainda tenho algumas coisas para resolver.
— Quanto tempo você vai ficar em Konoha?
— Por volta de mais dez dias.
O Uzumaki se aproximou mais dela.
— Hinata. – Respirou fundo, chamando a atenção dela. – Eu preciso que você me dê mais oportunidades.
— Do que você está falando? – As mãos dela começaram a tremer.
— Eu tenho tanta coisa para te dizer, é só que... – Soltou o ar com força – Eu quero resolver o que ficou para trás. E não adianta você dizer que não há nada porque nós dois sabemos que isso não é verdade.
— Naruto, por favor, eu-
Hinata mal percebeu quando ele se aproximou ainda mais e se inclinou até ela, beijando-lhe rapidamente sua bochecha esquerda. Suas mãos tremeram e seu coração batia rápido, trazendo-lhe um desconforto conhecido em seu estômago.
— Eu vou voltar a te procurar. Boa noite.
Ele sorriu a ela. Outro de seu sorriso em que ela via todos os dentes. Outro sorriso dele sincero. Ficou estática, sem ação alguma na porta da casa seu pai. Acompanhou com os olhos quando ele acenou e entrou em seu carro. Ela podia jurar que o viu sorrir ainda mais.
Entrou rapidamente para dentro de casa. Ainda no hall de entrada, tirou seu celular do bolso. Respondeu a mensagem sem hesitar.
Olá Shion. Podemos nos encontrar amanhã. Onde e que horas?
—/-
“As batidas na porta eram seguidas e insistentes. Ouvia Sakura e Ino chamando por ela, mas em sua cabeça apenas uma imagem se repetia, sem fim. Naruto e Shion se beijando, sem pudor, encostados no carro dele, no estacionamento da escola.
Sentiu seu coração sendo despedaçado em pequenos e minúsculos pedaços. Ela havia deixado a sua declaração há algumas horas atrás no armário de Naruto. Será que aquilo era vingança? Levantou-se rapidamente abrindo a porta, quando Sakura disse que iria derrubá-la.
— Se acalma, Hina, por favor! – Ino abraçou a Hyuuga enquanto Sakura ainda parecia estar furiosa, dando voltas pelo banheiro.
— Eu vou matar o Naruto! Aquele idiota! Desde quando ele tá com a Shion? Justo hoje!
Hinata se abraçou ainda mais em Ino. Não tinha forças para parar de chorar.”
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