Nacht Des Jagers
3 Capítulo II - Primeira missão.
Notas iniciais
Agradecimentos: Obrigada por ler e comentar LadyShelley, Sweet, luna95 e Aki. Obrigada também à Aki por favoritar a fic e à Flavinha Malik por recomendá-la logo no primeiro capítulo, encantada com a recomendação *U*
É só isso, espero que gostem e boa leitura!
Lembro-me claramente de minha infância e ela está repleta de perdas traumáticas e dolorosas...
Eu tinha uma irmã gêmea, ela se chamava Olívia. Éramos melhores amigas; dividíamos segredos, brincávamos juntas, ajudávamos uma à outra no colégio e nas tarefas domésticas. Eu adorava Olívia. Até que um dia ela adoeceu gravemente, estando entre a vida e a morte, o que abalou toda a família. Lembro-me de como fiquei triste por ela, fugia do colégio apenas para ficar com ela no hospital, ela precisava de mim.
Graças a Deus Olívia foi curada. Fiquei tão feliz! Papai e mamãe haviam comprado um cachorrinho para nós, para comemorar a volta de Olívia. Então, eu e ela decidimos ir passear com Chibi — foi como o chamamos -, foi quando um carro ignorou uma placa de "pare" numa esquina e atropelou minha irmã. Infelizmente, ela não resistiu e Chibi acabou fugindo no meio da confusão. Tentei ao máximo ser forte para não chorar, mas às vezes meus olhos ardiam entre as lágrimas. A única coisa boa foi que conseguimos encontrar meu cachorrinho. Mesmo assim, não seria a mesma coisa... Tomar banho sozinha, fazer as tarefas sozinhas, as atividades no colégio sozinha, dormir sozinha em meio a escuridão... Parecia tudo tão solitário.
Então, meus pais passaram dois anos brigando. Por quê? Porque após a morte de Olívia minha mãe passou a beber excessivamente e meu pai acabou a traindo, então, eles sempre brigavam bastante. Até que, em uma noite da qual ambos ficaram bêbados, minha mãe engravidou novamente. Ficamos todos tão felizes! Alguém para preencher o vazio deixado por nossa querida Olívia. Tanto que os dois pararam de brigar, meu pai passou a ser fiel e minha mãe parou de beber. Queríamos tanto ele... Ah, sim! Seria um menino e minha mãe decidiu chamá-lo de Raymond. Não gostava muito desse nome, mas o aceitei, então, para que o deixasse mais "fofo", passei a apelidá-lo de "Ray". Ajudava minha mãe sempre que possível e com essa harmonização, passei a fazer mais companhia aos meus pais. Minha mãe começou a ensinar-me a bordar e pintar, enquanto meu pai ensinava-me a pescar. Eles diziam que tinham orgulho de mim, que era a filha perfeita e que queriam que eu educasse Ray para que ele fosse como eu.
E então, no meu aniversário de sete anos, o dia de Ray nascer finalmente chegou! Só podia ser o momento mais emocionante de minha vida. Meu irmãozinho nasceria no dia do meu aniversário, seria como o meu presente de parabéns! Papai e eu levamos a mamãe para o hospital e por lá esperamos durante horas até que a enfermeira aparecesse com meu irmãozinho em seus braços, ela entregou-me ele para que eu o segurasse. Não é legal?! Pois é! E depois a enfermeira disse que queria conversar com o papai. Fiquei um pouco confusa porque o papai parecia triste, então ele me disse que mamãe havia ido para o céu. Fiquei muito contente, acreditando que ela havia virado um anjo. Aí ele me explicou que ela não havia virado um anjo e sim, morrido. Fiquei muito triste também, primeiro havia perdido Olívia e depois perdi minha mãe, pelo menos, ainda tinha Ray. Papai explicou que para o nascimento dele, o sacrifício da mamãe foi necessário, porque ela queria muito que ele viesse ao mundo.
Dois meses depois, as coisas seguiram "normalmente". Entre aspas porque meu pai havia entrado em depressão, com isso, tive que cuidar sozinha da casa e de meu irmãozinho. Sorte que meus tios nos visitavam todos os dias.
Certo dia, voltei do colégio, indo direto para casa e a encontrei toda revirada e bagunçada, entrei em desespero, pensei que um ladrão havia invadido a casa. Raymond chorava bastante, corri pela casa procurando-o até encontrá-lo caído no chão de seu quarto. O peguei em meus braços e fui à procura de meu pai. Entrei no banheiro, encontrando meu pai e deparando-me com um cenário chocante. Lá estava ele, caído ao chão com a cabeça sobre a tampa da privada, seus pulsos estavam cortados, porém, ele não estava morto, não havia conseguido atingir a artéria. Seu sangue pingava, manchando a cerâmica branca e brilhante. Ele sussurrou meu nome fracamente e então se levantou, indo até a cozinha. Apenas o segui e observei tudo, incapaz de impedir a tragédia que estava para acontecer. Ele pegou uma faca e a enfiou em seu próprio pescoço, retirando-a logo em seguida, bem diante de meus olhos. Fiquei lá o observando morrer enquanto seu sangue jorrava sobre mim e o bebê, não por sadismo, estava assustada, paralisada, não sabia o que fazer. Tudo que pude fazer foi gritar após seu corpo cair ao chão.
Depois disso fui adotada por meus tios e eu e meu irmão passamos a viver com eles, seguindo uma vida normal. Não consegui esquecer o passado, afinal, se o esquecesse, todo o sentido de ter vivido desapareceria, todavia, consegui seguir enfrente...
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Era outro dia comum e ensolarado, estava no colégio, faltava pouco para que a aula acabasse. Para minha sorte, a senhorita Queens — professora de artes — havia deixado com que perambulássemos pelo colégio a procura de alguma inspiração para pinturas, desenhos, esculturas, entre outros. Decidi ficar deitada sobre a grama recém-cortada, observando as nuvens claras que tingiam o céu azul-celeste. Gostava de fazer isso porque as nuvens deixavam com que minha imaginação voasse livremente, criando imagens no céu. Acabei fazendo um rascunho em meu caderno de desenhos, o usaria como base para uma pintura.
Coloquei-me sentada, mudando de posição e pude perceber a senhorita Queens aproximando-se cautelosamente, olhando por cima de meus ombros para ver o que eu havia desenhado.
— É o céu. — falei — Apenas um rascunho, na próxima aula farei uma pintura.
— Certo. — concordou, virei-me para olhá-la — Ficou muito bonito, Christa.
— Obrigada. — agradeci timidamente.
— E como está Lúcia? — perguntou.
— Ela vai bem, parece que está melhorando. — respondi.
Senhorita Queens sorriu.
— Que bom. — comemorou — Muito generoso de sua parte sacrificar seu tempo livre para ajudá-la, tenho orgulho de você, minha aluna exemplar.
Senti minhas bochechas esquentando. Adorava receber elogios, como qualquer um, entretanto, não sabia direito como recebê-los e ficava um tanto constrangida.
— Obrigada, senhorita Queens. — murmurei — Apenas quero ajudar aqueles que necessitam, é uma forma de me sentir útil.
Ela alisou meus cabelos. Realmente gostava muito da senhorita Betty, ela me lembrava um pouco minha mãe.
— Bem, sei que não devo fazer isso, mas... — ela fez uma pausa — Vou te liberar cinco minutos mais cedo.
— Jura? — perguntei alegremente.
— Sim. — respondeu, seu sorriso se alargou — Pode ir.
— Muito obrigada, senhorita Queens. — agradeci.
— Por nada. — respondeu — Ah e, por favor, me chame de Betty.
Eu apenas assenti, com a mesma expressão sorridente. Levantei-me e corri até uma árvore próxima, aonde havia deixado minha mochila, então, peguei-a e a coloquei em minhas costas, indo até o ponto de ônibus logo em seguida. Todos os dias, eu tinha de correr para não perder o ônibus, pois ele saia exatamente no horário em que éramos liberados. Sentei-me calmamente no banco de espera do ponto e vasculhei os bolsos de minha mochila à procura do dinheiro para tarifa até que a encontrasse. Por morar numa cidade pequena e pouco conhecida, a tarifa era mais barata que a das cidades vizinhas, apenas R$ 1,50. Então, com o dinheiro em mãos, subi ao ônibus e já paguei por minha passagem, passando pela roleta e correndo direto para o banco mais alto, não sei porque, mas por algum motivo — um tanto besta e infantil — sempre adorei sentar no banco mais alto. Tirei de minha mochila meu celular e meus fones de ouvido, foi quando percebi no celular duas chamadas que não haviam sido atendidas noite passada. Fiquei um tanto confusa, afinal, nunca ignorei chamada alguma de minha tia, então... Fora o motivo da qual eu não havia atendido? E também, o que havia feito noite passada? Lembrava-me vagamente do que havia acontecido, após ter saído da casa de Lúcia, minha memória falhava. Dei de ombros, se não me lembrava, então não era algo realmente importante.
O ônibus começou a se mover. Observava todo o trajeto enquanto ouvia música, até que chegasse ao ponto desejado. Uma coisa que sempre — e com "sempre" digo "desde que comecei a visitar Lúcia" — fez com que me considerasse um pouco sortuda, era que o ponto de ônibus ficava logo em frente à casa da família Mercedes, tinha apenas que atravessar a rua. Desci do ônibus e atravessei a rua, parando com o indicador tocando a campainha, rapidamente dona Mercedes me recebeu.
— Christa, pode entrar! Seja bem-vinda, menina. — cumprimentou.
— Obrigada. — sorri — Ahn, com licença. — murmurei antes de entrar na casa.
— O almoço já está quase pronto, Lúcia está no quarto, fique a vontade. — falou.
Assenti timidamente e caminhei até o quarto de Lúcia. Ela estava deitada em sua cama, assistindo televisão, notei que usava um lenço floral em volta da cabeça. Ao me ver entrando em seu quarto, seu rosto se iluminou, o que me deixou muito contente.
— Oi Lúcia! — cumprimentei.
— Oi Christa! — respondeu.
— Então, como você está? — perguntei, aproximando-me de sua cama.
— Bem, o médico veio pela manhã e disse que estou melhorando, em breve estarei curada. — respondeu.
— Que bom! Isso é uma ótima notícia, Lúcia! — falei.
— Mas... Quando eu melhorar, você irá parar de me visitar? — perguntou um tanto temerosa.
— Claro que não, virei sempre que possível, o único problema é que quando você estiver curada, terei de auxiliar outra criança, entende? — respondi.
— Tudo bem. — ela sorriu.
— Quando estiver curada, irei apresentá-la a minhas amigas e iremos sair juntas sempre que eu estiver livre. — falei.
— Obrigada, você tem sido muito boa para mim. — disse Lúcia.
Apenas sorri em resposta.
— Tem para casa? — perguntou.
— Hum, hoje não! — respondi — Ainda bem, não é mesmo? Assim podemos nos divertir mais.
— Claro. — concordou — Mas o que iremos fazer?
— Não sei. — respondi — Pensamos nisso depois do almoço, pode ser?
Lúcia assentiu. Segundos depois dona Mercedes nos chamou, dizendo que o almoço já estava pronto. Ajudei Lúcia a se levantar e a guiei até o banheiro, já pude perceber que ela estava realmente melhorando, caminhava com mais facilidade. Lavamos as mãos e em seguida fomos até a sala, puxei uma cadeira para Lúcia e uma cadeira para dona Mercedes, sentando-me à mesa em seguida. Esperamos por alguns minutos até que o senhor Mercedes chegasse e se juntasse a nós.
Após o almoço, levei Lúcia para um breve passeio no parque. Durante a tarde, recebeu uma visita de sua professora particular, apenas fiquei a observando enquanto ela estudava, como jovem aprendiza de pedagoga, observar aquele momento iria me ensinar bastante. E depois que a professora foi embora, Lúcia e eu fomos jogar alguns jogos que ela tinha do Super Mário.
O crepúsculo estava se aproximando, encerrando o dia. Despedi-me de Lúcia e dona Mercedes, seguindo até o ponto de ônibus. A rua estava ficando cada vez mais quieta e após alguns minutos as luzes dos postes se acenderam. O ônibus estava demorando mais que o habitual, talvez estivesse preso no trânsito. Meu celular apitou, anunciando uma nova mensagem, rapidamente fui verificar. A mensagem dizia: "Venha até o beco próximo ao cruzamento das ruas Cornélio e Dom Antônio, Hunter Vanguard.". Não entendi por um momento, quem seria Hunter Vanguard? Então, um fragmento de memória da noite anterior veio a minha mente. Hunter Vanguard não era algo desconhecido e sim, algo que me era familiar. Assim como era instruído na mensagem, caminhei algumas quadras até estar no cruzamento da rua Cornélio com a rua Dom Antônio, olhei ao redor, procurando por algum beco e ao encontrar, dirigi-me até ele. Estava vazio, sem nenhum sinal de vida, a não ser por um gato preto que miava por lá. Olhei ao redor, procurando por algo fora do normal. Nada. Aquilo me deixou bastante confusa. Foi quando um sujeito usando um traje preto surgiu e me agarrou, cobrindo minha boca. Fui arrastada até um carro estilo Mercedes c180 preto e com os vidros escurecidos, dentro do carro deparei-me com uma garota não muito mais velha que eu e um outro jovem. Se me lembro bem, seus nomes eram Petra e Ezio.
— Olá Christa, bom revê-la. — cumprimentou-me Petra, um sorriso exagerado estava estampado em seus lábios.
— E aí, Christa! — disse Ezio.
— O-Oi. — gaguejei — Pra que tudo isso?
— Iremos levá-la até a base secreta da Hunter Vanguard. — respondeu Petra — Espero que não tenha nenhum compromisso, porque vamos tomar um pouco de seu tempo para treinos, entendeu?
Apenas assenti. O outro jovem, James, sentou-se ao meu lado no banco de trás. Encolhi-me, desconfortável. Ezio continuou a dirigir, seguindo por um trajeto da qual eu não conhecia muito bem, passando por aquele bairro em que nos encontramos pela primeira vez. O carro parou em frente a um casarão antigo e abandonado, Petra disse para descermos do carro. Os segui até o casarão, o cenário havia me surpreendido um pouco, afinal, não era aquilo que eu imaginava como base secreta, desde que havia sido mencionado, estava fantasiando um local como aqueles dos filmes de ação. Talvez devesse deixar de ser tão imaginativa. Entremos na casa, estava escura e empoeirada, parecia que não recebia uma faxina há décadas.
— É aqui? — perguntei, tentando não parecer rude.
— Bem, mais ou menos. — disse Ezio — A base fica no porão.
— Porão? — perguntei.
— Sim, porão. — respondeu James.
Observei James retirar o tapete antigo que cobria quase todo o chão da sala de estar, revelando o que parecia ser a porta de um alçapão. Em seguida, observei Ezio empurrar uma pequena estante que ficava próxima a uma parede, revelando uma alavanca. O jovem abaixou a alavanca e a porta do alçapão se abriu, apresentando-nos uma escada que levava ao subsolo. Petra agarrou meu pulso e me guiou pela escada e foi quando me deparei com o cenário parecido com o que eu esperava. Era uma sala de estar comum, entretanto, havia outras portas no local, algumas abertas e por trás do arco das portas abertas pude ver o que parecia um laboratório, uma área para experimentos e uma área para treinos.
— A Donzela deve estar no laboratório, vamos logo começar seu treinamento. — disse Petra, guiando-me para um dos quartos — Começaremos com pontaria, sabe como usar uma pistola?
— Sei. — respondeu — Meu pai gostava de caçar patos, me ensinou muito sobre armas.
— Interessante. — comentou a garota — Isso será bastante útil. — Petra pegou um par de protetores de ouvido — Tome isto, atirar aqui pode causar surdez parcial ou completa, então, é melhor usar isso.
Coloquei os protetores de ouvido e então ela jogou-me uma pistola, parecia um calibre 38. Verifiquei a munição, eram balas comuns, me perguntava como balas comuns matariam lobisomens, vampiros e outros seres sobrenaturais.
— Aqui você utilizará de munição comum, quando formos para o campo de batalha lhe entregaremos munição de verdade. — falou — Com munição de verdade quero dizer: balas de prata, para lobisomens, e balas específicas para demônios e vampiros. Normalmente é isso que costumamos enfrentar. Todavia, se encontrarmos outro ser, como um nephilim*, munição para demônios deve bastar.
Assenti. Petra se colocou atrás de uma parede de vidro e deixou-me num campo aberto, já estava marcada no chão a distância que eu deveria manter do alvo. E lá estava ela, uma silhueta de papelão. Também já estavam marcadas as áreas da qual eu deveria atirar, analisei o alvo por um momento, os locais eram a cabeça e o coração. Calculei rapidamente a mira e atirei, acertando o lado esquerdo do peito, a localização do coração. Em seguida, acertei na cabeça, mesmo sendo desnecessário. Olhei para Petra e ela ergueu seus dois polegares. A silhueta de papel caiu ao chão, revelando outra silhueta que havia sido pintada na parede. Preparei-me para atirar novamente quando a porta foi aberta, por reflexo, olhei diretamente para o local, era Donzela.
— Petra, venha cá. — chamou — E traga Christa também, por favor.
Donzela desapareceu de cena, fechando a porta logo atrás dela. Petra saiu de trás da parede de vidro.
— O que ela disse? — perguntou.
— Disse que devemos segui-la. — respondi.
Petra agarrou meu pulso e me guiou para fora do quarto. Fomos até a simples sala de estar onde estavam Donzela, Ezio e James.
— Os chamei aqui porque encontrei um caso de possessão demoníaca. – Donzela logo anunciou – O que quero de vocês é que exorcizem esse demônio e o eliminem. Fui clara?
— Sim, senhora! – responderam os outros três.
— Mas... Donzela, irá cuidar de Christa durante nossa ausência? – perguntou Petra.
— Não. – respondeu – Vocês irão leva-la para missão, será uma ótima experiência para ela.
— Mas Donzela, o treinamento dela mal começou, seria muito arriscado leva-la para enfrentar um demônio! – Petra insistiu.
— Está querendo questionar minhas ordens, Petra? Está me contrariando? – perguntou Donzela com uma pontada de sarcasmo, Petra abaixou a cabeça – Nunca se esqueçam de quem é a líder aqui, sei muito bem o que estou fazendo! Minhas ordens são leis, fui clara?!
— Sim, senhora! – repetiram.
— Então vão! – ordenou.
Petra acertou meu braço com uma cotovelada e seguiu escada acima como Ezio e James, eu os segui. Saímos do casarão, entrando de direto no carro, as coordenadas fora passadas para o que parecia ser um GPS que estava conectado ao computador da base. Ezio acelerou e assim fomos até o endereço.
Chegamos ao que parecia ser um sobrado na beira de uma estrada deserta, as luzes da casa estavam apagadas. Descemos calmamente do veículo e seguimos até a porta. James bateu duas vezes e todos ouvimos um grito feminino, foi o suficiente para que o jovem arrombasse a porta. Subimos as escadas, indo até o segundo andar – de onde havia vindo o grito –. Ezio foi acendendo as luzes de cada um dos cômodos que encontrávamos, até chegarmos a um quarto, onde – após a luz ser acessa – nos deparamos com uma idosa comendo o coração de uma jovem moça, a cena era perturbadora. Aproximamos lenta e cautelosamente da idosa, parecia que estava entretida demais com a carne da jovem, até que ela virou-se para nós, revelando seus dentes pontudos e órbitas negras. Ela soltou um grito desumano, o que fez com que eu me arrepiasse, a cena me lembrava daqueles filmes de terror. Observei James tirar um vidro com água de dentro de seu casaco, poderia deduzir que aquilo era água benta. Percebi que a idosa possuída se alterou. Suas unhas cresceram até se tornarem garras e então, ela pulou sobre James, arranhando seu rosto e em seguida correndo como um animal para fora do quarto. Corremos atrás dela, descendo as escadas de volta ao primeiro andar. Ezio acendeu a luz da sala de estar, olhamos ao redor, procurando pela idosa. Ouvi um barulho estranho e um líquido preto que cheirava a podridão caiu sobre meu ombro, hesitante, olhei para cima e lá estava a maldita velha: com suas mãos e pés a mantendo no teto e a cabeça virada ao contrário, me encarando. Queria muito gritar, mesmo assim, sabia que não devia fazê-lo. Ela pulou sobre mim, nesse momento meu sangue gelou e fiquei paralisada, para minha sorte, Petra havia atirado contra a velha, fazendo com que ela se desviasse de mim. Em seguida, a velha pulou novamente na minha direção, mas eu me encolhi no chão, desviando. Ela acabou caindo sobre Petra, apenas assisti sua língua se esticando para tocar o rosto de minha parceira enquanto ela chutava o rosto da idosa.
— Saí pra lá, bicho feio! – gritou.
Olhei ao redor, procurando algo que pudesse usar para ajudar Petra. Acabei pegando uma cadeira dobrável de alumínio e corri até elas, acertando a velha com a cadeira. A velha caiu para o lado e impulsionou-se para que saltasse para o outro lado da sala. Corremos até ela.
— Christa! – gritou Ezio. Eu o olhei e um crucifixo foi atirado para mim, eu a agarrei, percebendo que estava molhada e pegajosa.
— Christa! – gritou James. Olhei para o outro lado e um pequeno livro foi atirado para mim, eu o agarrei – Quando chegar a hora, leia isso!
Observei os dois acelerarem e pularem contra a velha, agarrando seus braços e mantendo-a no chão. Aproximei-me rapidamente, não sabia o que fazer, mas pelo que via em filmes, teria que impulsionar aquele crucifixo contra o lado esquerdo de seu peito – na região do coração – e ler em voz alta o que estava escrito naquele livro. Assim o fiz. Já sabia o que estava escrito, era a oração do Pai Nosso, porém, estava em latim, então o li com um pouco de dificuldade. Enquanto lia, observei à velha se debater e gritar, enquanto a casa toda estremecia. Assustador. Até que tudo se acalmou e a velha desmaiou.
Suspirei aliviada, acreditando que tudo havia acabado.
— Ainda não acabou. – disse Ezio – O demônio está pela casa, temos que destruí-lo.
— Christa, cuide da senhora, iremos procurar e matar o demônio. – disse Petra.
Assenti em concordância. Os três saíram da sala, espalhando-se pela casa. Peguei a idosa em meus braços e sentei-me no chão, deitando sua cabeça sobre minhas pernas. Senti uma estranha sensação, como se estivesse sendo observada e em seguida a atmosfera ficou pesada, tensa, quase que sufocante. Olhei para um canto da sala, diretamente para o teto e uma sombra escura foi se formando. Naquele momento, arregalei os olhos, apavorada. A sombra foi se tornando numa criatura negra, esquelética, alta, com asas como as de morcego e chifres. A criatura rosnou e veio até mim, agarrei a idosa em meus braços e corri, tropeçando em meus próprios pés. Ousei olhar para trás e a criatura estava apoiando-se na parede, ela abriu suas asas e voou até mim, agarrando-me. Fui obrigada a olhar em seus olhos, pareciam arder em chamas, comecei a ouvir uma estranha voz dizendo algo que eu não conseguia entender, apenas a ouvia. O demônio abriu sua boca e começou a sugar minha alma, fui paralisada, incapaz de me mover, sentia-me tonta também.
— Christa! – ouvi Petra gritar – Use sua pistola!
Pistola? Mas que pistola?
— Petra colocou uma pistola em seu casaco sem que você percebesse, atire na cabeça ou no coração dele! – gritou James.
Olhei para meu casaco, realmente havia uma pistola ali, entretanto, seria incapaz de pegá-la. Houve um estrondo, um tiro fora disparado contra a cabeça do demônio, eu o observei desintegrar-se, tornando-se uma sombra e em seguida desaparecendo. Voltei ao normal, ainda enfraquecida.
— Você está bem? – perguntou Petra, aproximando-se de mim.
James e Ezio vieram logo atrás dela. Ouvimos sons de passos e todos olhamos para a mesma direção. Fiquei surpresa ao avistar Donzela ali.
— D-Donzela... – gaguejou Petra.
— Estou decepcionada. – falou.
Levantei-me rapidamente enquanto Donzela se aproximava e então, inesperadamente, ela acertou-me com um tapa, direto no rosto. Estava confusa, não havia entendido a ação de nossa líder.
— Donzela, por quê?! – perguntou Petra.
— Cale-se, não se intrometa! – ordenou – Estou decepcionada com você, Christa. Foi incapaz de usar sua pistola e lutar contra o demônio, apenas fugiu e esperou que seus parceiros a salvassem!
— Donzela, ela ainda é uma novata inexperiente, seu treinamento mal havia começado quando foi dada a missão. – argumentou James.
— Cale-se! Já disse para ninguém se intrometer. – ela gritou – Deveria ter usado seus instintos, mas, invés disso, fugiu como uma covarde, que vergonha... Não pense que só porque você é uma novata que pegaremos leve, dê tudo de si. Não pode viver na sombra de seus colegas! – olhei para meus parceiros, estavam todos cabisbaixos, então, abaixei a cabeça também – Já tomei minha decisão, a partir de agora, serei eu quem irá treinar Christa Rohrmann!
Notas finais
Nephilim: São seres metade anjo, metade demônio. Não são considerados híbridos.
P.S. Se por acaso eu deixar de responder o seu review, peço que não se chateie por isso, apenas sou preguiçosa, não tive tempo ou não vi o seu review.
Beijos o/ Até o próximo!
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