Na mira do inimigo

8 Capítulo 8 - Amarguras


...

Anna ajeitou uma última vez o broche do FBI no terno do pai. As rosas brancas do caixão envolviam todo o corpo de Jones. Seus cabelos castanhos ainda estavam fixados em um topete, mas seus olhos azuis estavam fechados. Simon e Gael estavam cabisbaixos, as lágrimas escorriam dos seus olhos sem parar. Anna havia soltado os cabelos naquele dia. Seu pai dizia que, daquela maneira, ela era bastante parecida com sua mãe, a mulher que ele havia amado mais do que tudo. Anna fazia um esforço enorme para conter seu pranto, mas não impedia que lágrimas de dor e culpa escorressem pelo seu rosto. Abraçado ao seu peito, estava um elefantinho de pelúcia que seu pai havia dado á ela no dia em que sua mãe morreu. Anna ajeitou o bichinho dentro do caixão, e, com a ajuda de dois funcionários, o fechou e lacrou. O enterro foi em clima de dor e respeito, pois todos estavam na presença de um grande homem, um grande herói, que deu sua vida para salvar duas. Quando o caixão foi colocado na cova, Anna, Gael, Simon e Alice jogaram rosas e terra sobre a superfície de madeira. Alice estava se sentindo o pior ser humano do mundo, pois acreditava ser a causa direta da morte de Jones. Quer dizer, se ela tivesse corrido, como Simon pediu, ele ainda estaria vivo. Ela sentia os olhares de pena sobre ela, o que a deixava pior ainda. Embora estivesse arrasada, Anna ainda sim envolveu Alice em seus braços, dizendo para a garota que aquilo não fora culpa dela. Porém, Alice discordava. Ainda sim, ela acreditava que se ela tivesse corrido Jones não teria se sacrificado. Depois de colocarem coroas de flores, faixas, rosas e mensagens de despedida em cima da grande lápide de mármore, as pessoas que vieram prestar sua solidariedade a Anna foram embora, deixando assim os quatro amigos sozinhos. Anna ainda estava abraçada a Alice, e Simon e Gael se juntaram as duas, formando um grande abraço coletivo. A dor daqueles quatro não era algo que pudesse se compreender sem se ter sentido, ainda mais a de Anna. Só quem perde um pai, uma mãe ou os dois sabe como é esse sentimento. Ainda sim, seus amigos podiam sentir um pouco dela também. Anna se ajoelhou sobre o túmulo de seu pai, despedindo-se uma última vez dele. Depois, se juntou aos seus amigos, e os três deixaram o cemitério sem olhar para trás, pois era assim que Jones gostaria que fosse.

...

*** Três meses depois***

– Alice?

–...

– Alice, você está aqui? – a voz de Simon soava preocupada.

– Simon? – Alice disse, esfregando os olhos.

– Alice, você está bem? – perguntou Simon, se sentando ao lado da garota. Os olhos dela estavam irritados e lacrimejando. Sua catana estava caída poucos metros diante dali. Os dois estavam em um corredor escuro, próximo da escadaria que levava á academia.

– Sim – disse ela, abraçando-se aos joelhos .

Simon levantou uma sobrancelha e encarou Alice. Ela o olhou de volta e deitou em seu peito, dobrando as pernas. Simon a envolveu com um dos braços, e um longo silêncio se formou. Não era um silêncio pesado nem ruim, mas sim um silêncio bom, onde eles podiam refletir. Finalmente, depois de alguns minutos, Simon perguntou:

– O que você faz aqui?

– Não sei.

– Hum.

– O que você faz aqui?

– Vim ver se você está bem.

– Hum.

–...

–...

– Por que você se esconde tanto da gente? – perguntou Simon.

Alice levantou a cabeça do peito do garoto de forma que pudesse olhar no fundo de seus olhos.

– Por quê eu tenho vergonha.

– Vergonha de quê?

– Você sabe... a Anna.

– Alice, você não tem que ter vergonha, receio e muito menos culpa. Todos nós sabemos que não foi culpa sua o que aconteceu com o pai dela – afirmou Simon.

– Sabe Simon... Enquanto eu estava sendo refém naquele lugar eu achei que iria morrer. E, depois de uns dias, eu acabei me conformando.

– Não diga isso...

– Eu preciso dizer. Sabe, quando você me encontrou, eu entrei em desespero, pois eu acreditei que iriam te matar também. Eu não fazia ideia de quem você era, mas fiquei com medo mesmo assim.

– Eu também ficaria.

Simon pôde sentir a dor crescendo no olhar da garota.

– Simon, eu deveria estar morta agora, não Jones. Eu...

– Alice, pare. – disse Simon, quase se impondo diante dela.

– Eu fui colocada em segundo plano pelas pessoas daqui.

– Como assim em segundo plano? – indagou Simon.

– Você não sabe mesmo? – perguntou ela.

– Sei o quê?

– Simon, eu saí correndo e implorando socorro daquela boate na frente de vocês três. Eu implorei por ajuda por aquela equipe, eu estava toda ensanguentada, eu vi meus amigos morrerem ali. Mas ninguém me ajudou. Eles estavam tão focados em salvar vocês três que me deixaram para trás. E foi assim que, numa fração de segundo, um dos homens me agarrou pelo pescoço e tapou minha boca, me arrastando até uma van onde eles me levaram até aquele depósito e me torturaram.

– Alice, o que você está dizendo? – Simon se levantou, um pouco transtornado.

– Estou dizendo que eu poderia ter sido salva a tempo. – A garota estava soluçando — Poderia não ter sido sequestrada, torturada, passado por tudo o que eu passei e ainda ter que carregar a culpa da morte do Jones nas minhas costas.

– Alice...

– Simon, eu não vou conseguir reparar nunca o que eu fiz indireta ou diretamente á Anna e Jones. Mas eu não fui a única que fracassou.

Ela se levantou e colocou a catana nas costas, deixando Simon sozinho. Ele estava muito pasmo com o que acabara de ouvir. Como poderiam ter largado aquela garota indefesa sozinha? Como? Os pensamentos dele foram interrompidos por uma doce voz.

– Simon? – a sombra de Gael apareceu na claridade no final do corredor – Simon?

Simon levantou os olhos e caminhou até Gael.

– Gael?

– Sim?

– Posso falar com você um instante?

...