Na Ruína dos Deuses - Sombra das Pétalas
1 Sombras, Luz e Fogo.
Notas iniciais
A Senhora das Sombras caminhava para a floresta, deixando para trás a cidade em chamas. A brisa soprava a fumaça na direção oposta, mas ela já não se importava mais com isso; os gritos da metrópole morriam na distância.
Ajeitou a capa sobre a criança que levava no colo. Não sofria com o frio e nem com as cinzas, que agora cobriam seus chifres retorcidos e longos cabelos negros. O tecido escuro fazia a pequena figura diminuir mais ainda. Queria mantê-la segura; a noite estava gelada e para onde iam poderia ser assustador.
Pretendia ignorar os passos que a seguia o máximo possível. As grevas contra a estrada de terra batida anunciavam aquela presença irritante. Continuou sem pressa; uma vez que entrasse na floresta, ele não ousaria fazer mais nada.
– Devolva a criança. – Ele sacou a espada, apontando para a figura antes que sumisse nas trevas.
– Sua definição de “devolver” precisa ser revisada. – Estava a um passo de chegar a segurança do manto verde. – E não venha com aquela história de “proteção” – Ela olhou por cima do ombro, focada na fera de fogo que ainda pairava sobre a cidade – um dragão enlouquecido não é um bom trabalho.
O Senhor da Luz brilhava como um amanhecer na noite, seus olhos claros irradiavam determinação para conseguir o que queria. Trajava armadura completa, adornada de branco e dourado. Ele veio para lutar, não para respeitar os domínios.
– Se quebrar o acordo, não haverá mais nada para proteger seus preciosos demônios.
Permaneceram um momento em silêncio, imóveis. A Senhora das Sombras voltou para a criança adormecida. Passou a mão em sua cabeça para acorda-la.
– Ei, amor. – Ela sussurrou, tocando levemente em sua testa – Com sono?
A criança segurou com força as roupas escuras, esfregando os olhos com a mão livre. Ela abaixou, deixando que os pequenos pés sustentassem seu próprio corpo. Os inocentes olhos fitaram-na confusos.
– Terei que deixar-te – Ela sorriu, com um olhar triste. As frágeis mãos a seguravam com toda a força que tinha. – Vai ficar tudo bem.
A Senhora das Sombras se levantou, livrando-se do fraco agarro.
– Iremos nos ver novamente. Tenho certeza de que irá me encontrar.
– Não faça promessas vazias – O Senhor da Luz aproximou-se.
– Morda a língua antes de falar de mim, caro irmão.
Ele não respondeu. No horizonte, o sol surgiu, o dia nasceu, enquanto a noite se retirava, melancólica. Antes que pudesse perder a criança para os olhos de sua inimiga, o guerreiro embainhou a espada e a pegou nos braços.
Não deixaria que ela tivesse mais uma vitória.
~X~
Caro gatinho,
Soube que virá para Steliar em alguns dias, e confesso que estou surpreso. Há anos não presencia a Cerimônia de Formatura da Academia Imperial. Algo lhe chamou atenção neste grupo de formandos? As caçadas estão ficando difíceis? Espero que não planeje renunciar sua posição; sentirei sua falta.
Vou lhe adiantar que as noites estão frias essa época do ano, e os hotéis cheios. Sabe, para um selvagem como você, a cidade grande pode ser movimentada. Tome cuidado quando chegar.
Estará responsável pela seleção para a sua Companhia? Como sempre, escolho os meus a dedos, então teremos a chance de nos encontrarmos. Espero que não se importe se tiver alguns de seus caçadores roubados.
Sugiro que comprimente a Família Imperial. Não estão muito satisfeitos com a sua conduta, recentemente. Menos a princesa. Ela não desistiu de se casar com você. Fico feliz que não seja ela a primeira na linha de sucessão. Procure não puxar briga com os Lagartos.
Desejo-lhe boa viagem,
O Pássaro Carmesim.
~X~
Caro frangote,
Vá se fuder.
O Tigre Branco
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