Na Ruína dos Deuses - Sombra das Pétalas
2 Noite de Formatura
Notas iniciais
Ennis trancou a porta, se apoiando contra a porta como tentasse manter um monstro do lado de fora. Ofegante, ele se deixou relaxar. Provavelmente estava seguro ali. Sentou no chão, ainda encostado na porta e respirou fundo.
– E aqui vemos o mais forte dos caçadores derrotado por uma garotinha – A voz melodiosa soou pelo cômodo, sem nenhum sinal de preocupação.
– Cala a boca, Shane. – Rosnou o Tigre Branco.
– Muito agressivo para alguém se escondendo no meu escritório.
Suspirando, Ennis apenas olhou ao redor. De fato, aquele era um escritório com a cara do Pássaro Carmesim. Carpete e cortinas em tons de vinho, paredes rubras com desenhos em dourado e móveis de madeira negra com parte acolchoada coberta de vermelho. A maioria dos padrões eram quase espiralados ou lembravam pena.
Shane estava deitado em um dos sofás no canto próximo a janela, lendo uma lista de papeis soltos. Desleixado, exatamente como Ennis se lembrava, vestia o uniforme formal da Companhia dos Pássaros Vermelhos: o jaquetão vermelho aberto, cheio de adornos, e a calça na mesma cor. Sua boina estava jogada no chão, deixando seus cabelos castanhos avermelhados soltos, as pontas, normalmente viradas para fora, amassadas no braço do sofá.
– Ainda não acredito que conseguiu montar seu quarto de bagunça particular aqui, de todos os lugares.
– Melhor do que no quartel dos Lagartos.
Ennis hesitou por um momento, mas sorriu, retirando o quepe branco da cabeça, e ajeitando seus cabelos brancos.
– Verdade. O que está fazendo? – Ele mencionou com a cabeça na direção de seu amigo.
– O que você deveria estar. Vendo as fichas dos formandos. – Shane ergueu os papeis, mostrando-os.
– Não é como se você fosse pegar algum novato – O Tigre levantou, indo sem pressa até o sofá.
– Bom, eu acho que vou levar alguns. Estavam na sua lista, espero que não se importe.
– É com Honora que você tem que lidar. Vim apenas por formalidades. Só faço questão de levar o Rangester.
Shane lentamente deixou uma das fichas de lado e sorriu como se nada tivesse acontecido.
– Temos dois dias até a cerimonia – Continuou – Quer sair para caçar? Pelos velhos tempos.
Os dois ficaram em silencio por um momento, os olhos azuis do Pássaro brilhando tanto quanto os âmbar do Tigre.
– Pelos velhos tempos.
~X~
A Academia Imperial brilhava mais do que o Palácio das Luzes naquela noite. Kaine não podia evitar ficar fascinado, mesmo que tivesse estudado por lá durante os últimos 3 anos de sua vida. Olhando de fora dos portões, os grandes cristais iluminavam as paredes brancas dos prédios principais, fazendo-os parecer maiores do que realmente eram, e destacando cada detalhe da arquitetura que deixara passar em seu dia-a-dia.
Encostado em uma árvore, na calçada da Avenida Principal, Kaine apenas observava o enorme fluxo de pessoas entrando. Boa parte era composta por alunos vestidos em seus uniformes de gala, seguidos de suas famílias. Aqui e ali, passavam grupos das quatro Companhias. Alguns flutuadores particulares paravam apenas dentro da Academia. Gente importante, imaginava.
– Por Kleen... – Resmungou baixinho, olhando para o relógio na torre principal do portão.
Não se importava em ficar do lado de fora, mas se esperasse mais, iria se atrasar para a cerimônia. Havia aquele murmurinho de múltiplas conversas, e a brisa do mar soprava com certa força. Cheirou o ar; ótimo, tudo o que precisava era uma tempestade chegando. Virou a cabeça, tentando ver algum animal dos Jardins próximos, mas nada se movia por lá. Suspirou, desejando que pudesse entrar logo.
– Kaaaaaaaaaaine! – A voz aguda soou antes que pudesse desviar, e o pequeno garoto o agarrou em um abraço apertado – Você me esperou mesmo!
– Claro que sim! – Respondeu, tentando não cair
O garoto soltou Kaine, deixando-o respirar um pouco. Os dois sorriram. Teseu estava arrumado como sempre, notou, mas ele ficava bem melhor com o uniforme formal da Academia. A jaqueta verde escuro e calças pretas caiam muito bem no corpo esbelto do garoto. Não que fosse cometer o mesmo erro novamente, mas se estivesse com o uniforme feminino, com certeza o confundiria com uma garota novamente.
Seus longos cabelos pretos estavam perfeitamente arrumados, as pontas loiras contrastando com as cores da academia. Ele puxou Kaine pelo braço, arrastando-o para o portão.
– Vamos nos atrasar!
– E a culpa é de quem? – Kaine começou a correr atrás do amigo, passando pela multidão que entrava sem muita dificuldade.
– Vejamos quem chega primeiro no auditório, então! – Riu, soltando o amigo e acelerando o passo, habilidosamente desviando das pessoas e logo sumindo de vista.
Sem hesitar, Kaine acelerou também, mas não conseguiu avistar Teseu novamente. Parou em frente à entrada do prédio principal. As estátuas de Kleen e de Ameria protegiam a grande porta de madeira, essa noite aberta. Não tivesse estudado ali por tanto tempo, talvez tivesse parado para admira-los.
Se a cerimônia de formatura fosse no auditório, havia um caminho mais rápido.
Entrou no prédio, logo se afastando das pessoas que seguiam para a ala leste e subindo as escadas para o segundo andar. Conhecia o lugar como a palma da mão, seria fácil chegar no auditório por ali. Enquanto o primeiro andar era a parte administrativa da Academia, o segundo era onde ficavam as salas de aula. Correu pelo emaranhado de corredores e portas, aproveitando o que provavelmente seria a última vez pisando naquele piso de madeira e sentindo aquele cheiro de papel antigo.
Logo, chegou a porta de vidro, que ligava o segundo andar a parte mais alta do auditório. Havia um grande desnível para que toda a plateia pudesse ver o que se passa no palco, além dos camarotes. Empurrou a porta e entrou. Finalmente conseguindo uma boa visão geral. A maioria dos alunos formandos estavam nas primeiras fileiras, enquanto alunos ainda em curso e famílias sentavam no meio. Cheirou o ar novamente, tentando encontrar algum rastro daquele perfume normal de Teseu, enquanto seus olhos castanhos varreram a linha dos alunos. Sorriu; pelos corredores, seu amigo deveria ter ficado preso naquele mar de pessoas.
Seu corpo tencionou apenas quando notou uma mão tocando seu ombro. Imediatamente, se virou, se afastando e levando a mão para a cintura, onde, em situações normais, sua rapineira estaria.
Só então Kaine percebeu o quão idiota estava sendo.
Um olhar um pouco melhor o fez se sentir a pessoa mais idiota do mundo. A mulher a sua frente tinha porte de soldado, vestindo um dólmã militar branco, com detalhes em preto, e uma saia cinza escuro. Seu rosto carregava uma expressão severa, e devia estar em seus 30 anos, sem perder uma beleza serena. Seus cabelos negros estavam presos em um coque, e sua maquiagem era simplista. No peito, carregava algumas medalhas e no braço o símbolo de Sub-General. A única na história da Companhia dos Tigres Brancos.
Honora Devine. Não havia uma alma na Academia que não conhecesse seu nome.
Kaine fez uma reverencia, e permaneceu abaixado.
– Perdão! – Fechou os olhos, se amaldiçoando por não ter pensado no porquê de uma entrada tão óbvia estar tão vazia.
A mulher o observou por um momento, antes de se dirigir ao garoto.
– Levante-se. Qual é o seu nome, formando?
Sua voz era fria e firme, mas não havia sinal de crueldade ou repreensão. Hesitante, o garoto levantou, olhando de canto de olho para a parte do auditório estava. Na parte traseira, estavam apenas membros efetivos das quatro companhias, separados pelas cores dos uniformes. As Tartarugas Negras, os Dragões Azuis, o Pássaros Carmesins e os Tigres Brancos. Engoliu seco e olhou para a Sub-General, se apressando para organizar as palavras de sua resposta.
– Kaine Jewell.
– Kaine Jewell, – Ela repetiu, fazendo-o ficar ainda mais nervoso – Os alunos ficam na parte mais baixa do auditório por um motivo.
– S-só estava de passagem. – Teve que respirar fundo para manter a compostura – E-estava procurando um amigo. – Fez uma pequena pausa, esperando que a mulher dissesse algo, mas ela permaneceu em silêncio – Achei q-que um ponto mais alto pudesse ajudar.
Ela não respondeu de imediato; seus olhos castanhos perfurando a alma de Kaine.
– Para que Companhia deseja entrar? – Ela perguntou, sem alterar o tom de voz. O garoto arregalou os olhos, surpreso. Vendo a demora do formando, continuou – Seja sincero. Não está aqui para agradar ninguém.
– Tartarugas Negras, senhora. – Respondeu, tentando desviar o olhar.
– Entendo. – A Sub-General abriu um sorriso indecifrável, virando-se para voltar a seu assento – Boa sorte em achar seu amigo.
– S-sim! Obrigado! – Kaine fez outra reverencia rápida e desceu correndo, logo se juntando aos outros formandos e achando Teseu lhe dando a língua.
Não teve coragem de reclamar, mas tinha certeza de que teria ganhado a corrida se não tivesse sido interrompido no meio do caminho. Em pouco tempo, o auditório lotou, e sua última ligação com a Academia seria rompida.
~X~
Por mais que Steliam seja um império prospero, há muito mais ameaças do que a Família Imperial gostaria de admitir. Por isso, para proteger o Povo da Luz, as quatro Companhias existem.
Os Dragões Azuis, a força de combate principal. Responsável por proteger e expandir as fronteiras, assim como controlar rebeliões. Apenas acionados em caso de extrema necessidade, são o exército tradicional. Vivem seus dias de glória, banhados nos espólios da Guerra aos Demônios.
As Tartarugas Negras, a Companhia de Proteção Civil, protegem as ruas e investigam os crimes civis. Os mais presentes no dia-a-dia das grandes cidades, e os menos preocupados com o que acontece fora de seus muros. Cada crime deve ser punido.
Os Pássaros Carmesins, a Companhia de Proteção Real, são a guarda pessoal da nobreza e de funcionários de alto escalão. Por mais que sejam a Companhia mais pública, também possuem uma longa sombra. Ninguém escapa de suas garras.
Os Tigres Brancos, a Companhia de Caça, são o maior ponto de interrogação do império. Poucos realmente entendem como sua hierarquia interna funciona, e como agem. Responsáveis por exterminar as bestas que vivem nas sombras das florestas. Ninguém vê um tigre até o momento do bote.
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