Notas iniciais
Espero que gostem! Não acho que tenha ficado tão bom ou tão longo quanto deveria, mas vou me esforçar para capítulos futuros. Os personagens que não apareceram nesse vão aparecer no próximo capitulo! Ainda estou aceitando personagens, principalmente femininas.

Ennis trancou a porta, se apoiando contra a porta como tentasse manter um monstro do lado de fora. Ofegante, ele se deixou relaxar. Provavelmente estava seguro ali. Sentou no chão, ainda encostado na porta e respirou fundo.

– E aqui vemos o mais forte dos caçadores derrotado por uma garotinha – A voz melodiosa soou pelo cômodo, sem nenhum sinal de preocupação.

– Cala a boca, Shane. – Rosnou o Tigre Branco.

– Muito agressivo para alguém se escondendo no meu escritório.

Suspirando, Ennis apenas olhou ao redor. De fato, aquele era um escritório com a cara do Pássaro Carmesim. Carpete e cortinas em tons de vinho, paredes rubras com desenhos em dourado e móveis de madeira negra com parte acolchoada coberta de vermelho. A maioria dos padrões eram quase espiralados ou lembravam pena.

Shane estava deitado em um dos sofás no canto próximo a janela, lendo uma lista de papeis soltos. Desleixado, exatamente como Ennis se lembrava, vestia o uniforme formal da Companhia dos Pássaros Vermelhos: o jaquetão vermelho aberto, cheio de adornos, e a calça na mesma cor. Sua boina estava jogada no chão, deixando seus cabelos castanhos avermelhados soltos, as pontas, normalmente viradas para fora, amassadas no braço do sofá.

– Ainda não acredito que conseguiu montar seu quarto de bagunça particular aqui, de todos os lugares.

– Melhor do que no quartel dos Lagartos.

Ennis hesitou por um momento, mas sorriu, retirando o quepe branco da cabeça, e ajeitando seus cabelos brancos.

– Verdade. O que está fazendo? – Ele mencionou com a cabeça na direção de seu amigo.

– O que você deveria estar. Vendo as fichas dos formandos. – Shane ergueu os papeis, mostrando-os.

– Não é como se você fosse pegar algum novato – O Tigre levantou, indo sem pressa até o sofá.

– Bom, eu acho que vou levar alguns. Estavam na sua lista, espero que não se importe.

– É com Honora que você tem que lidar. Vim apenas por formalidades. Só faço questão de levar o Rangester.

Shane lentamente deixou uma das fichas de lado e sorriu como se nada tivesse acontecido.

– Temos dois dias até a cerimonia – Continuou – Quer sair para caçar? Pelos velhos tempos.

Os dois ficaram em silencio por um momento, os olhos azuis do Pássaro brilhando tanto quanto os âmbar do Tigre.

– Pelos velhos tempos.

~X~

A Academia Imperial brilhava mais do que o Palácio das Luzes naquela noite. Kaine não podia evitar ficar fascinado, mesmo que tivesse estudado por lá durante os últimos 3 anos de sua vida. Olhando de fora dos portões, os grandes cristais iluminavam as paredes brancas dos prédios principais, fazendo-os parecer maiores do que realmente eram, e destacando cada detalhe da arquitetura que deixara passar em seu dia-a-dia.

Encostado em uma árvore, na calçada da Avenida Principal, Kaine apenas observava o enorme fluxo de pessoas entrando. Boa parte era composta por alunos vestidos em seus uniformes de gala, seguidos de suas famílias. Aqui e ali, passavam grupos das quatro Companhias. Alguns flutuadores particulares paravam apenas dentro da Academia. Gente importante, imaginava.

– Por Kleen... – Resmungou baixinho, olhando para o relógio na torre principal do portão.

Não se importava em ficar do lado de fora, mas se esperasse mais, iria se atrasar para a cerimônia. Havia aquele murmurinho de múltiplas conversas, e a brisa do mar soprava com certa força. Cheirou o ar; ótimo, tudo o que precisava era uma tempestade chegando. Virou a cabeça, tentando ver algum animal dos Jardins próximos, mas nada se movia por lá. Suspirou, desejando que pudesse entrar logo.

– Kaaaaaaaaaaine! – A voz aguda soou antes que pudesse desviar, e o pequeno garoto o agarrou em um abraço apertado – Você me esperou mesmo!

– Claro que sim! – Respondeu, tentando não cair

O garoto soltou Kaine, deixando-o respirar um pouco. Os dois sorriram. Teseu estava arrumado como sempre, notou, mas ele ficava bem melhor com o uniforme formal da Academia. A jaqueta verde escuro e calças pretas caiam muito bem no corpo esbelto do garoto. Não que fosse cometer o mesmo erro novamente, mas se estivesse com o uniforme feminino, com certeza o confundiria com uma garota novamente.

Seus longos cabelos pretos estavam perfeitamente arrumados, as pontas loiras contrastando com as cores da academia. Ele puxou Kaine pelo braço, arrastando-o para o portão.

– Vamos nos atrasar!

– E a culpa é de quem? – Kaine começou a correr atrás do amigo, passando pela multidão que entrava sem muita dificuldade.

– Vejamos quem chega primeiro no auditório, então! – Riu, soltando o amigo e acelerando o passo, habilidosamente desviando das pessoas e logo sumindo de vista.

Sem hesitar, Kaine acelerou também, mas não conseguiu avistar Teseu novamente. Parou em frente à entrada do prédio principal. As estátuas de Kleen e de Ameria protegiam a grande porta de madeira, essa noite aberta. Não tivesse estudado ali por tanto tempo, talvez tivesse parado para admira-los.

Se a cerimônia de formatura fosse no auditório, havia um caminho mais rápido.

Entrou no prédio, logo se afastando das pessoas que seguiam para a ala leste e subindo as escadas para o segundo andar. Conhecia o lugar como a palma da mão, seria fácil chegar no auditório por ali. Enquanto o primeiro andar era a parte administrativa da Academia, o segundo era onde ficavam as salas de aula. Correu pelo emaranhado de corredores e portas, aproveitando o que provavelmente seria a última vez pisando naquele piso de madeira e sentindo aquele cheiro de papel antigo.

Logo, chegou a porta de vidro, que ligava o segundo andar a parte mais alta do auditório. Havia um grande desnível para que toda a plateia pudesse ver o que se passa no palco, além dos camarotes. Empurrou a porta e entrou. Finalmente conseguindo uma boa visão geral. A maioria dos alunos formandos estavam nas primeiras fileiras, enquanto alunos ainda em curso e famílias sentavam no meio. Cheirou o ar novamente, tentando encontrar algum rastro daquele perfume normal de Teseu, enquanto seus olhos castanhos varreram a linha dos alunos. Sorriu; pelos corredores, seu amigo deveria ter ficado preso naquele mar de pessoas.

Seu corpo tencionou apenas quando notou uma mão tocando seu ombro. Imediatamente, se virou, se afastando e levando a mão para a cintura, onde, em situações normais, sua rapineira estaria.

Só então Kaine percebeu o quão idiota estava sendo.

Um olhar um pouco melhor o fez se sentir a pessoa mais idiota do mundo. A mulher a sua frente tinha porte de soldado, vestindo um dólmã militar branco, com detalhes em preto, e uma saia cinza escuro. Seu rosto carregava uma expressão severa, e devia estar em seus 30 anos, sem perder uma beleza serena. Seus cabelos negros estavam presos em um coque, e sua maquiagem era simplista. No peito, carregava algumas medalhas e no braço o símbolo de Sub-General. A única na história da Companhia dos Tigres Brancos.

Honora Devine. Não havia uma alma na Academia que não conhecesse seu nome.

Kaine fez uma reverencia, e permaneceu abaixado.

– Perdão! – Fechou os olhos, se amaldiçoando por não ter pensado no porquê de uma entrada tão óbvia estar tão vazia.

A mulher o observou por um momento, antes de se dirigir ao garoto.

– Levante-se. Qual é o seu nome, formando?

Sua voz era fria e firme, mas não havia sinal de crueldade ou repreensão. Hesitante, o garoto levantou, olhando de canto de olho para a parte do auditório estava. Na parte traseira, estavam apenas membros efetivos das quatro companhias, separados pelas cores dos uniformes. As Tartarugas Negras, os Dragões Azuis, o Pássaros Carmesins e os Tigres Brancos. Engoliu seco e olhou para a Sub-General, se apressando para organizar as palavras de sua resposta.

– Kaine Jewell.

– Kaine Jewell, – Ela repetiu, fazendo-o ficar ainda mais nervoso – Os alunos ficam na parte mais baixa do auditório por um motivo.

– S-só estava de passagem. – Teve que respirar fundo para manter a compostura – E-estava procurando um amigo. – Fez uma pequena pausa, esperando que a mulher dissesse algo, mas ela permaneceu em silêncio – Achei q-que um ponto mais alto pudesse ajudar.

Ela não respondeu de imediato; seus olhos castanhos perfurando a alma de Kaine.

– Para que Companhia deseja entrar? – Ela perguntou, sem alterar o tom de voz. O garoto arregalou os olhos, surpreso. Vendo a demora do formando, continuou – Seja sincero. Não está aqui para agradar ninguém.

– Tartarugas Negras, senhora. – Respondeu, tentando desviar o olhar.

– Entendo. – A Sub-General abriu um sorriso indecifrável, virando-se para voltar a seu assento – Boa sorte em achar seu amigo.

– S-sim! Obrigado! – Kaine fez outra reverencia rápida e desceu correndo, logo se juntando aos outros formandos e achando Teseu lhe dando a língua.

Não teve coragem de reclamar, mas tinha certeza de que teria ganhado a corrida se não tivesse sido interrompido no meio do caminho. Em pouco tempo, o auditório lotou, e sua última ligação com a Academia seria rompida.

~X~

Por mais que Steliam seja um império prospero, há muito mais ameaças do que a Família Imperial gostaria de admitir. Por isso, para proteger o Povo da Luz, as quatro Companhias existem.

Os Dragões Azuis, a força de combate principal. Responsável por proteger e expandir as fronteiras, assim como controlar rebeliões. Apenas acionados em caso de extrema necessidade, são o exército tradicional. Vivem seus dias de glória, banhados nos espólios da Guerra aos Demônios.

As Tartarugas Negras, a Companhia de Proteção Civil, protegem as ruas e investigam os crimes civis. Os mais presentes no dia-a-dia das grandes cidades, e os menos preocupados com o que acontece fora de seus muros. Cada crime deve ser punido.

Os Pássaros Carmesins, a Companhia de Proteção Real, são a guarda pessoal da nobreza e de funcionários de alto escalão. Por mais que sejam a Companhia mais pública, também possuem uma longa sombra. Ninguém escapa de suas garras.

Os Tigres Brancos, a Companhia de Caça, são o maior ponto de interrogação do império. Poucos realmente entendem como sua hierarquia interna funciona, e como agem. Responsáveis por exterminar as bestas que vivem nas sombras das florestas. Ninguém vê um tigre até o momento do bote.