Na Ruína dos Deuses - Sombra das Pétalas
3 Martes e Companhias
Notas iniciais
No fim, Kaine teve que considerar uma derrota. De alguma forma, Teseu não só chegou a tempo, como teve tempo de achar um lugar para comprar churros. Conseguiram lugares na última fileira da área dos formandos, o mais longe possível do palco. Ainda havia certo murmurinho, mas as preparações já haviam acabado e mais nenhuma alma vagava pelos corredores.
Ainda assim, não conseguia relaxa. Teseu sempre chamou atenção, com seus traços delicados e curvas femininas, mas sentia um olhar diferente dos de desejo que a dupla recebia. Discretamente, Kaine tentava identificar a origem, mas não havia como fazê-lo de forma a não deixar obvio que buscava algo.
De certa forma, invejava Teseu por sua calma. O garoto sempre conseguia manter espíritos altos, mesmo quando os professores pareciam querer matar seus alunos. Não pode deixar de dar um sorriso e respirou fundo; é claro que tudo daria certo.
–Kaine, cê tá bem?
Pensando melhor, a Sub-General não precisava ter se deslocado para lidar com um aluno perdido, e duvidava que Honora Devine, em toda sua seriedade, gastasse seu tempo para assustar um aluno.
– Ei! – Teseu deu-lhe um peteleco na testa.
– Hum? – Kaine demorou para finalmente processar o que havia acontecido, fazendo uma expressão de do e logo cobrindo o ponto que o garoto acertou – Pra que isso?
– Você não estava me ouvindo! – Teseu cruzou os braços – Tá tudo bem? – Ele franziu o cenho, preocupado.
– Ah, sim, sim... – Desviou o olhar, querendo fugir dos olhos verde-água.
– Ahã, sei – O garoto de cabelos compridos estivou as mãos e puxou o rosto de Kaine de volta para si – E você consegue esconder alguma coisa. Fala logo.
Não havia como escapar das garras de Teseu quando ele decidia algo, mas ainda assim não queria preocupa-lo com seus pensamentos idiotas. Tentou resistir mais um pouco, mas acabou por fim cedendo.
Abriu a boca para responder, e os sinos da Academia tocaram, imediatamente silenciando o auditório. Teseu bufou, fazendo bico, frustrado, mas soltou o amigo e focou no palco.
Salvo... E com alguma sorte, o assunto seria esquecido em questão de minutos.
O corpo docente subiu ao palco, e logo o tédio tomou conta dos formandos.
~X~
Kaine não queria ter pego no sono, mas duas horas de discurso do velho diretor não ajudaram, mas o fato de não ter sido o único a dormir no auditório ajudou a aliviar sua culpa. Teseu o acordou pouco antes do homem passar a voz, e, pelo visto, ele se manteve acordado a base de churros.
Sério, quantos ele comprou?
Tentou não se importar tanto. Teseu possuía segredos que seriam eternos mistérios.
– Então, caro diretor – A voz cansada da doce e idosa enfermeira interrompeu, e quase deu para ouvir o alivio coletivo – Acho que já podemos prosseguir com a entrega dos Martes, não? Não quero que mate de tédio os alunos que tive tanto trabalho para manter vivos.
– Ah, claro, Senhora Rayne! – O diretor tentou retomar a ordem em meio aos grupos concentrados de risos – Senhores das Companhias, não tomarei mais de seu tempo. Peço que se dirijam as salas para que possam receber nossos formandos.
Não foi preciso que se repetisse; as fileiras de trás levantaram, saindo pelo segundo andar. Considerando que os membros das Companhias eram obrigados a terem se formado na Academia Imperial, eles pareciam ter pouco respeito pelo diretor, visto que iniciaram o murmurinho novamente.
Kaine queria ter prestado atenção nos movimentos de cada grupo, mas só então percebeu que Teseu havia engasgado em churros enquanto tentava conter o riso.
Esforçando-se para não entrar em pânico, bateu nas costas do amigo, e ele surpreendentemente desengasgou sem fazer mais barulho que os oficiais nas fileiras de trás. Um pouco envergonhando, apenas lançou aquele olhar de “eu vou viver” e deu um sinal de “okay”. Kaine suspirou aliviado, e o diretor pediu silêncio novamente.
– Chamaremos grupos por professores-responsáveis, então prestem atenção.
Os principais professores sentaram à longa mesa no fundo do palco, e o diretor começou a chamar os grupos, dois por vez.
Cada aluno é designado a um professor-responsável no começo do ano letivo, dependendo das matérias escolhidas, e este é quem tem a palavra final sobre a aprovação. Como Kaine e Teseu haviam escolhido as mesmas matérias desde de que entraram na Academia, estavam no mesmo grupo.
Os garotos esperaram enquanto os alunos dos professores chamados enchiam e esvaziavam as filas para receberem seus Martes e os emblemas das Companhias para qual seriam designadas. Cinco ou seis grupos foram chamados antes que o nome “Alicia Thorn” saísse da boca do diretor.
Teseu levantou, puxando Kaine antes que este pudesse reclamar, arrastando-o até a pequena fila que já se formava em frente a professora de esgrima de duelo. O garoto de cabelos longos colocou o amigo na frente, dando um sorriso confiante.
Kaine, porém, não conseguia deixar de ficar com o coração apertado. Assim que soube que seria aprovado naquele ano, pediu para todos os seus professores o recomendassem para as Tartarugas. Não havia motivo para que fosse para outra Companhia.
Mas Honora Devine ainda assombrava sua mente.
– Jewell? – A voz da professora de duelo o tirou de seus pensamentos – Vamos, querido – Ela chamou, puxando o “r”.
Deu um passo, ficando de frente a mesa e bateu continência. A mulher sorriu. Magra e em forma, seu rosto fino e severo carregava um fio de orgulho.
Ela era uma mulher cruel, mas uma boa professora.
Ao seu lado, uma grande caixa guardava os cristais transparentes, emitindo certa luz fraca. Ela estendeu a mão, pegou um e ofereceu para o formando.
Ainda nervoso, Kaine pegou seu Marte. A pedra era relativamente pequena, mas a segurou com as duas mãos. Engoliu seco, e concentrou sua energia no cristal, como havia treinado na última semana. A luz incolor tomou um tom esverdeado, mudando de cor e tornando-se seu.
– Querrido, sei que conseguirr seu Marrte é emocionante, mas temos uma fila hoje.
– Ah, desculpa, senhora – Kaine guardou o Marte no bolso, querendo logo ter a chance de admirar mais o cristal.
– Tudo bem – ela pegou um pedaço de pano preto de um cesto em cima da mesa e entregou para o garoto – Fiz uma recomendação muito boa parra seu irmão, agorra vá logo e não o deixe esperrando.
– Sim, senhora! – O garoto bateu continência novamente, sorrindo, e acelerou o passo para sair do palco.
Desceu junto com um formando de outro grupo, mas parou do lado da porta. Claro que iria esperar por Teseu.
Com o coração na garganta, olhou fascinado para o pedaço de pano preto. Bordado à mão, o emblema das Tartarugas Negras trazia certo conforto. Mordeu o lábio inferior, ansioso. O casco envolvido pela serpente era incrivelmente bem feito. No canto, uma pequena estrela amarela o fez sorrir.
– Eu acho que nunca vi alguém tão feliz em ser enviado para as Tartarugas.
Kaine pulou para o lado, afastando-se do homem que espiava por cima de seu ombro. Hoje não era seu dia. Só não mencionou para onde guardava sua rapiera pois o choque do encontro com Honora ainda estava fresco em sua mente.
O homem apenas sorriu. O garoto franziu o cenho. Ele usava um sobretudo cinza esverdeado, provavelmente com mais fivelas do que o necessário. Sua aparência era jovial, seu rosto carregava certa inocência, mas algo sobre ele gritava anos de experiência, mesmo que não conseguisse definir o quê. Seus olhos verdes brilhavam como os das raposas do Jardim. Seus cabelos não pareciam ter sido penteados, mas os fios castanhos avermelhados caiam de alguma forma no lugar, curvando para fora.
– E-eu tenho um irmão na Companhia, senhor. – Kaine assumiu posição de sentido, torcendo para que ele perdesse o interesse.
– Aproveitar família para subir mais rápido? – Ele levantou a sobrancelha.
– Não, não, – Kaine se apressou para responde, acenando negativamente com a cabeça – Meu irmão é um oficial baixo, só quero poder trabalhar com ele.
–Entendo – O homem retomou o sorriso enigmático – Por que ainda não foi dar a boa notícia para ele, então?
– E-estou esperando um amigo – O formando aproveitou a chance para poder desviar o olhar, virando a tempo de ver Teseu descendo do palco. Já ia levantar o braço para acenar quando notou algo estranho.
Teseu não estava sorrindo. Esperava que o amigo estivesse ainda mais animado, afinal, ele não parava de falar das Tartarugas a pelo menos um mês. Ao invés disso, o garoto desceu a passos lentos, olhando para o pano que carregava na mão, com uma expressão perdida.
Sem se importar com o homem, Kaine foi até o amigo, preocupado.
– Ei, Teseu? – Chamou, tirando o garoto daquele estranho transe. Ele piscou, olhando para o pano preto que o outro carregava.
– Ah, você conseguiu ir para as Tartarugas! – Ele forçou um sorriso.
– Sim, mas tá tud-
Teseu ergueu o pedaço de pano vermelho, interrompendo a pergunta. O Pássaro Carmesim bordado abria as asas, orgulhoso na imagem, e Kaine não pode deixar de ficar boquiaberto.
– Matheus Maxweel? – O homem se aproximou, chamando a atenção dos dois. Teseu apenas acenou positivamente com a cabeça – Prazer, sou Shane Aartsen – Ele esticou a mão – General da Companhia do Pássaro Carmesim.
Alguns formando passaram pelos três, sem olhar duas vezes. Teseu acenou positivamente com a cabeça e apertou a mão do General, ainda surpreso.
– Espero que não se importe com a falta de comitiva, eu até teria tido tempo para preparar algo melhor, mas certo idiota não deixou.
O garoto, ainda em choque, pode apenas concordar.
– Ainda temos que discutir os detalhes da sua entrada, então – Ele voltou sua atenção para Kaine – vou roubar seu amigo um pouco, Jewell. –Shane colocou o braço nos ombros de Teseu, e foi levando-o para as fileiras traseiras.
E os dois deixaram Kaine sozinho, ainda tentando processar o que havia acontecido. Primeiro, Honora. Agora, não só havia conhecido O Pássaro Vermelho – O general, basicamente dono da Companhia mais prestigiosa das quatro – como Teseu havia sido admitido; algo que apenas um aluno em três anos consegue, em uma média generosa.
Viu mais alguns alunos passando, saindo do auditório.
Piscou duas vezes, tentando recobrar o foco. Agora sozinho, deixou o coração afundar. Pelo visto, ele e Teseu iriam para Companhias diferentes.
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