Na Real
37 Capítulo 37 - Você me conhece?
Notas iniciais
Na Real — Capítulo 37
No dia seguinte Aioros passou cedo no hospital para ver Camus, antes de ir para o seu trabalho. O médico atendia alguns pacientes no Hospital Geral de Athenas, mas só casos de emergências, uma vez que pediatria de lá era só para casos de emergências de trauma.
Sorriu ao ver a porta do quarto aberta e a luz acesa, ainda eram seis da manhã, rezando para que o rapaz estivesse em melhor estado naquele dia.
— Bom dia Camus.
Quando entrou no quarto viu o rapaz sentado na cama, mas alguma coisa estava estranha, Camus o olhou de uma forma que nunca havia feito antes.
Olhou de forma provocativa, dos pés à cabeça, passou a língua entre os lábios e sorriu sedutor. – Bom dia você.
— C.Camus. — Gaguejou o médico corado por estar sem graça pela forma que o ruivo o encarava.
Girando os olhos como se estivesse farto das pessoas o chamarem pelo nome errado o jovem respondeu. — Aquário doutor, meu nome é Aquário! Como pode um médico esquecer o nome do paciente? Vou ficar ofendido assim. — Aquário ralhava de forma meiga e dengosa.
O fato de ter sido preparado por Aldebaran, sobre essa peculiaridade no comportamento de Camus, fez com que Aioros compreendesse que não estava na frente do filho mais velho de seu professor, não racionalmente falando.
— E qual o seu nome então? — Perguntou o médico que precisava entender o que estava acontecendo.
— Já disse doutor, eu me chamo Aquário.
— Você é o Camus! E pare já com isso! — Aioros pediu firme.
— Não, eu não sou aquele idiota. Eu sou o Aquário! — Respondeu Aquário também com o olhar firme e desafiador.
Naquele momento uma médica entrou no quarto. — Olá, bom dia eu me chamo Hilda, sou sua médica. — A moça falou cumprimentando o paciente.
Aquário ergueu a sobrancelha encarando a moça e depois olhou para Aioros. — Se ela é minha médica, você quem é?
— Eu sou seu amigo. — Respondeu Aioros.
— Eu não o conheço. — Respondeu Aquário e a médica então pediu.
— O senhor pode me dar licença, preciso conversar com meu paciente. — Pediu a médica fazendo sinal para que Aioros não a questionasse naquele momento.
O médico assentiu e foi se retirar, mas antes que saísse do quarto, Aquário falou. — Se quiser ser meu amigo, será um prazer bonitão. — E piscou para o médico sorrindo malicioso.
Aioros nada respondeu, saiu do quarto completamente confuso, sentou na sala de espera aguardando a Dra. Hilda ir ter com ele.
Após algum tempo, a médica chamou Aioros para sua sala.
— Como vai Dr. Aioros, agora poderemos conversar com calma. O senhor é parente ou tem algum grau de parentesco com o paciente? — Questionou a médica.
— Eu sou o que ele tem de mais próximo a família, o pai dele era um amigo e foi meu mentor na faculdade. Conheço o Camus desde que ele era apenas um menino.
Assim Aioros explicou toda situação de Camus e de seus irmãos, que perderam a mãe no parto do irmão caçula, da depressão do pai, da morte do pai presenciada pelo garoto antes de completar quinze anos de fato, a fuga do país francês com os dois irmãos menores, o aliciamento feito por Saga, a exploração sexual que o jovem sofreu durante aqueles cinco anos, por fim o sequestro que o levou até ali.
A médica tomava nota das coisas que Aioros dizia enquanto o incentivava a falar mais.
— O senhor sabe me dizer se já presenciou o senhor Camus em surto?
— Não! Eu realmente nunca vi nada de diferente nele, mas acha mesmo que ele pode estar apresentando um distúrbio dissociativo de personalidade? Acha que existe tal patologia de fato? — Perguntou Aioros incrédulo. — Acho que o Camus está apenas tentando fugir da realidade.
A médica encarou o homem à sua frente e fechou os olhos suspirando, como que pedisse aos deuses paciência para lidar com a falta de conhecimento do seu interlocutor.
— Dr. Aioros, o policial que estava acompanhando o Camus disse que ele tem um namorado e dois irmãos menores, está correto? – Perguntou a médica ignorando a pergunta do médico.
— Sim, é verdade! O Milo está no hospital, se recuperando do tiro que levou quando foi participar do resgate do Camus, mas ele está fora de perigo. – Apressou se em acrescentar.
— Eu realmente vou precisar falar com todos que conhecem o Camus, que convivem com ele, para que eu possa confirmar o diagnóstico de TDI e para decidir a melhor forma de tratá-lo.
— Mas os meninos são apenas crianças, não acho que seria correto participa-los dessa situação.
— Obviamente, as crianças não entenderiam, mas eu preciso falar com o namorado, com amigos pessoais, visto que ele não tem família, não posso formar um diagnóstico com base no depoimento de um policial que o conheceu durante uma investigação. e de um médico que atende o irmão menor, preciso das informações das pessoas próximas a ele.
Aioros pensou em refutar a médica dizendo que não era apenas o médico de um dos irmãos de Camus, mas uma rápida análise de consciência o fez se calar, de fato durante anos é o que ele foi para Camus, o médico de Isaak.
*-*-*-*-*-*-*
Aioria olhou sua imagem novamente pelo retrovisor do carro, bagunçou um pouco os cabelos para parecer menos engomadinho e saiu do carro indo em direção ao pequeno prédio de apartamentos onde Marin morava.
Moça estava deitada em seu tapete felpudo lendo uma revista de turismo que apontava as melhores casa noturna da Grécia quando ouviu a campainha do seu apartamento tocar, não estranhou, aquele prédio não havia porteiro. Olhou pelo olho mágico e viu se tratar do bonitão engomadinho, amigo do namorado de Camus.
— Aioria Bom dia.
— Oi Marin, Bom dia.
Os dois ficaram se olhando um tempo até que a moça quebrou o contato visual um tanto descabreada.
— Me perdoe, entre por favor.
O rapaz entrou e ela fechou a porta atrás dele, colocando os pensamentos no lugar perguntou a única coisa que de fato a interessava.
— Você tem notícias sobre o Camus?
— Na realidade tenho. – Respondeu o rapaz ainda de pé. – Nós o resgatamos. – A advogado usou a palavra “nós”, mas quem realmente foi ao resgate de Camus, foram seus amigos.
A moça arregalou os olhos e pegando nas mãos e o levando para o sofá. – Me diz como está meu amigo, me conta tudo.
Após Aioria contar tudo que houve com Camus durante seu resgate, o tiro que Milo tomou, o ferimento do ruivo e o seu estado mental.
— Meu Deus Aioria, que coisa horrível. – Disse a moça, mas logo em seguida se levantou dizendo. – Eu vou me arrumar, preciso ver o Camus agora.
— Eu vim aqui por isso, preciso te levar ao hospital, a medica quer falar com você, com Milo e com Aioros, que eu acho que são as pessoas mais próximas ao Camus tirando os meninos.
— Sim, sim tem razão, vou trocar de roupa e já sairemos.
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— Vamos Shura minha roupa, por favor! – Pedia Milo impaciente no quarto do hospital.
— Cara, se acalma, o médico ainda vai vir te ver, a gente nem sabe se ele vai te dar alta. – Shura tentava argumentar, mas sem sucesso, pois Milo o fuzilou com os olhos.
— Vocês não entendem, não é? Eu preciso ver o Camus, estar com ele. – Tentava explicar seus motivos. – Ele deve ter passado o inferno durante esse tempo em que esteve preso pelo canalha do Saga. Vocês o viram, viram como ele está fragilizado, eu preciso estar com ele, cuidar dele. Eu amo o Camus! Ele é o amor da minha vida achei que isso já tivesse ficado Claro.
Shura trocou olhares com o namorado e parceiro de investigação e Carlo foi quem falou.
— A gente sabe e a gente entende, sério mesmo, isso já ficou bem claro pra gente. – Voltando a olhar para o namorado acrescentou. – Milo a gente precisa conversar sobre o ruivo, sobre o estado dele antes de você ter alta.
Milo sentou a cama apreensivo. – O que foi que houve com Camus? Que diabos vocês estão me escondendo? Ele foi ferido, ele também foi baleado e é grave?
— Milo, calma, calma. – Shura tranquilizou. – Fisicamente ele está bem.
— O que quer dizer com isso? Fisicamente? Que porra está acontecendo?
Carlo e Shura trocaram olhares mais uma vez e então começaram a relatar tudo que aconteceu com Camus nos últimos tempo durante o cativeiro.
O surto ao agredir a comparsa de Saga quando se viu preso em cativeiro, o castigo no quarto escuro, o assassinato do jovem Mime, o assédio de Saga em querer humilhá-lo e subjuga-lo e toda as demais agressões que o ruivo passou no cativeiro.
Milo ouvia tudo transtornado, no final do relato o jovem Kapino chegou a sentir náuseas.
Encarou os amigos com um certo desgosto ao dizer. – Vocês deixaram que ele passasse por tudo isso? Vocês poderiam ter tirado ele daquele lugar desde o primeiro dia?
— Milo entenda, estamos há anos tentando pegar o Saga não podíamos colocar tudo a perder naquele momento, não estando tão perto. – Foi Shura quem respondeu.
— DESGRAÇADOS! EU CHOREI POR VOCÊS, PELA SUA MORTE E COMO ELA AFETAVA A VOCÊ. – Cuspiu apontando para Shura e Carlo.
— Milo acha mesmo que o Camus teria alguma chance se não tivéssemos acabado com o império do Saga? – Carlo perguntou. – Nós sabemos que o Camus passou por coisas horríveis, mas acredite tínhamos policiais com ele e tentamos protege-lo de todas as formas, só não contávamos com o surto psicológico, mas fizemos todo o possível para concluir as investigações o quanto antes. Acredite estamos falando de centenas de rapazes e moças que eles traficavam, eles tinham juízes, chefes de policias e muita gente perigosa com eles. O Camus não teria a menor chance se não tivéssemos acabado com eles, vocês não teriam a menor chance.
Milo sentou na cama e deixou as lagrimas caírem, tudo que ouviu era muito pesado, ouvir que uma pessoa estranha passou por tudo aquilo já provocaria náuseas, mas ouvir que Camus, seu amor foi vítima de tanta maldade fazia seu coração doer.
— Eu preciso sair daqui eu preciso ver o Camus, ficar com ele, dar apoio a ele depois de tudo isso.
— Milo temos que ver o médico e... – Shura não terminou de falar pois foi cortado por Milo.
— Pro inferno o médico, pro inferno tudo! Eu não vou ficar um minuto mais longe do Camus!
O médico bem que tentou pedir a Milo que ficasse mais um dia em observação, mas o escorpiano exigiu sair naquele momento e o médico o fez assinar um termo de responsabilidade isentando o médico e o hospital pela alta adiantada.
E assim Milo saiu com os amigos direto para o hospital onde Camus estava.
Uma vez no carro Milo pegou seu celular e ligou para Buba, a babá que estava cuidando dos meninos
— Buba tudo bem aí?
O jovem Kapino teve que escutar um grande sermão sobre não ser de aço para se meter com pessoas perigosas, que ele deveria explicações etc.
— Buba tá tudo bem comigo, o tiro foi de raspão ninguém tinha que ter ido aí colocar abobrinhas na sua cabeça. — Disse olhando feio para seus amigos que realmente não tinham culpa de nada, visto que foi o Aioros quem foi a casa do jovem Kapino.
Milo só desligou o celular após ter notícias dos pequenos genros, e ficou tranquilo ao saber que os meninos estavam na escola e que o linguado do Sr. Aioros disse aos meninos que Milo havia viajado a trabalho.
No hospital Milo foi para o andar que os amigos disseram estar Camus, mas ao chegar na sala de espera teve um leve sobressalto ao ver Marin, Aioria e seu irmão Aioros, na sala de espera.
— Milo, por Deus você está bem? Eles me contaram o que houve com você. — Perguntou Marin com real preocupação.
— Oi Marin, isso foi uma bobagem. — Respondeu Milo para evitar a ênfase em si e manter o foco no namorado. — Onde está o Camus? Eu preciso falar com ele.
— Estamos todos aguardando a médica, ela quer conversar com todos que são próximos ao Camus, pra ela fechar o diagnóstico e começar o tratamento. — Quem respondeu foi Dr. Aioros.
Ao ver a expressão confusa do amigo de seu irmão, Aioros olhou para Shura e Carlo e perguntou. — Ele está sabendo do Camus/Aquário? Dos detalhes?
— Não os detalhes, contamos por alto. — Shura respondeu.
— Alguém pode me explicar que porra é essa?
— Acho que eu posso, eu sou a Dra. Hilda Polares, psiquiatra do senhor Le Blanc. — Falou a médica entrando no recinto. — Gostaria que os amigos e familiares do senhor Camus viessem comigo, por favor.
Todos se olharam em busca de informações, mas como nenhum deles sabia o que estava acontecendo ficaram em silêncio e seguiram a médica.
Ao chegarem no local, Milo notou a presença do grandalhão que foi em seu escritório o intimidar a mando de Saga, uma moça oriental e um outro homem que Milo sabia ser o chefe de polícia.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? Eu preciso ver o Camus, depois de tudo que aconteceu, eu preciso estar com ele, devo isso a ele. – O namorado de Camus pediu tenso, está em vias de surtar.
— Milo por favor, o assunto é sério. – Avisou Aioros.
“Meu Deus será que aconteceu alguma coisa com o Camus depois que eu perdi os sentidos?”
A moça oriental se levantou e se apresentou. – Bom dia, eu sou a Dra. Saori Kido, sou consultora psiquiatra forense, o Delegado Shion me acionou há alguns dias questionando sobre o que estava acontecendo com o Sr. Camus e... – A moça não conseguiu concluir sua fala pois foi cortada por Milo que estava impaciente.
— Como assim questionada há alguns dias? O Camus foi liberto anteontem!
— Milo, temos que ouvir o que elas têm a dizer. – Aioros pediu.
As médicas se olharam e Hilda perguntou. – Vocês estão a par do que está acontecendo com o Sr. Camus.
Somente Milo e Marin disseram que não.
Milo odiava a sensação de ser o último a saber.
Então a Dra. Hilda conversou com eles, os colocando a par de tudo.
— Mas isso não é possível, eu estive com ele, era ele, o meu Camus. – Contra pôs Milo duvidando daquele diagnostico.
— Milo infelizmente é possível sim, eu estive com ele hoje pela manhã e acredite, não era o Camus. – Foi Aioros quem disse.
Aldebaran estava em silêncio ouvindo aquele debate, sentia-se muito culpado pelo estado mental do jovem.
— Eu vi acontecer, vi quando o Aquário tomou posse do Camus. – Disse o gigante quando finalmente quebrou o silêncio.
— E você quem é? Você trabalha para o Saga, foi me intimidar no meu escritório. – Acusou Milo. – O que diabos um capanga de Saga está fazendo aqui?
Shura apressou-se em esclarecer os fatos para o amigo. — Milo, esse é o oficial Aldebaran, ele esteve como agente disfarçado na operação que prendeu o Saga e acabou com essa célula do tráfico de pessoas.
Aldebaran olhou para Milo e disse. — Eu tenho o Camus com um amigo, no início das investigações achávamos que ele era cúmplice do Saga, que poderia estar envolvido em toda essa sujeira. Mas as investigações continuaram e vimos que o Camus era uma das maiores vítimas do Saga.
Um silêncio constrangedor se fez presente até que Marin o quebrou.
— Mas não faz sentido, “Aquário” foi um personagem inventado pelo Camus, como um nome de guerra, pseudônimo para o “trabalho”. – Revelou a moça.
— Sim, isso pode acontecer, ele criou essa persona para lidar com os traumas, o peso desse tipo de trabalho, talvez a imagem que ele criou do Aquário fosse uma forma de lidar com todo o sofrimento que ele teve durante todos esses anos, como se quem passasse pelos abusos fosse o Aquário e não o Camus. – Saori colocou. – Por isso vocês estão reunidos aqui, precisamos saber quem é o Camus e quem é o Aquário, definir seus papeis e suas personalidades, para que assim a gente possa trazer o Camus de volta de uma vez.
— Meu Deus! Isso não faz sentido! – Milo soltou impaciente.
— Milo, eu vi o Camus perder a sanidade, vi ele se tornar o Aquário e separar de vez a interação de um com o outro. – Disse Aldebaran.
— Se você viu isso acontecer, por que não o tirou de lá? Por que deixou que isso acontecesse com ele? – Questionou Milo tentando não se render às lágrimas e ao desespero.
— Eu não tinha escolha, estávamos no meio de uma investigação que levou anos para chegarmos neste ponto, foram anos para que a gente conseguisse as provas necessárias para colocar o Saga, o Kanon e algumas pessoas importantes atrás das grades, e muitos figurões que são no mínimo cúmplice de toda essa sujeira fugiram do país. Se nós tivéssemos colocado tudo a perder tentando resgatar o Camus, ele e os irmãos estariam com um alvo nas costas para que fossem executados. – Aldebaran explicou sério, por mais que se sentisse culpado por tudo que Camus estava passando, o policial tinha plena consciência de que agiu da única maneira que poderia.
— O Camus só não foi executado em cativeiro porque o Saga tem uma verdadeira obsessão por esse rapaz. Assim que se viu preso em um cativeiro, junto com outros rapazes que soube da duplicidade do trabalho de Saga, o Camus se revoltou, agrediu uma transexual, braço direito de Saga ali no cativeiro. – Explicava o policial.
— A Veronica é cúmplice nessa sujeira? – Perguntou Marin incrédula, conhecia a moça e nunca simpatizou com ela, pois a achava muito bruta com os “GPs” que ficavam em algumas casas noturnas, sim tudo fazia sentido, eles eram vítimas, pessoas traficadas. – A DJ calou-se e deixou o policial continuar quando este confirmou com a cabeça a sua pergunta.
— Qualquer um dos cativos seriam mortos em fazer aquilo com ela, mas o Camus apenas foi levado em surto de raiva para o castigo, um quarto escuro onde ele ficou três dias e noites sem acesso a comida e água.
Tirando os policiais que já sabiam do fato, os demais presentes escutavam aqueles relatos abismados.
— Quando tiraram no do castigo ele estava catatônico, levaram ele para o banho e deram roupas limpas para que ele pudesse vestir, o garoto estava faminto, me lembro se quando eu levei a comida pra ele... – A voz do gigante falhou um pouco. – Ele comeu com os olhos cheios de lágrimas, mas ainda tinha um brilho de resistência ali. Foi quando a Veronica apareceu dizendo que era para o Camus ir até o quarto do Saga.
Milo que estava atento ao relato do policial fechou a mão segurando a raiva, não queria interromper, precisava ouvir tudo que tinha acontecido ao seu namorado quando estava no cativeiro.
— Camus se recusou, disse que não iria mais fazer as vontades de Saga.
Milo sorriu orgulhoso do namorado.
— Os capangas de Saga sabiam que Camus era o preferido do chefe, então não o obrigaram a ir, Verônica que já tinha se arriscado ao colocar o ruivo no castigo então foi falar com o Saga. Quando Saga foi até a cela onde Camus estava com outros três rapazes, Camus disse que não iria mais obedecer, Saga apontou a arma para ele...
Enquanto o policial narrava os fatos, Milo, Marin, Aioros e Aioria e até mesmo as duas médicas ouviam tudo completamente assustados.
... – Camus abriu os braços e mandou que Saga atirasse, que ele já não tinha mais nada a perder...
Milo não conseguiu segurar as lágrimas, Camus estava disposto a morrer, pois achava que ele, Milo, havia armado tudo aquilo, que Isaak estava morto e que Hyoga acabaria num abrigo.
... – Um dos rapazes que estava no cativeiro tentou conversar com Camus, para que ele não enfrentasse Saga daquele jeito, mas ao que parecia Camus desejava a morte, Saga chamou mais uma vez e então no último segundo, Saga virou a arma para o garoto que estava ao lado de Camus e atirou em sua cabeça...
Naquele momento, até as médicas se assustaram com aquele relato.
... – Saga apontou a arma para outro rapaz e disse a Camus que mataria um por um até que ele obedecesse, o garoto não teve outra alternativa, segurou a mão de Saga o fazendo abaixar a arma e foi com ele para o quarto.
— Que coisa horrível! – Soltou Aioros desconfortável.
— No dia seguinte Saga mandou que alguém fosse para o quarto pegar o ruivo e foi aí que eu comecei a perceber que alguma coisa estava estranha. – Continuou o policial. – Saga estava nu assim como Camus, mas o garoto aparentemente não se lembrava de nada do que havia se passado no quarto, ele acusou Saga de ter feito sexo com ele desacordado e Saga o chamava de maluco dizendo que ele esteve acordado e participante durante a noite. Um dos capangas que ficou de vigia na porta do quarto disse que só ouviu o som de risadas e gemidos vindo do quarto durante a noite, mas o Camus que eu tirei de lá pela manhã, foi um Camus completamente destruído e humilhado e...
— Para! Por Favor! – Pediu Milo com o corpo convulsionando pelas lágrimas, a imagem do seu amor, aquele rapaz doce que conhecia passando por tudo aquilo era insuportável para ele. – Eu preciso respirar antes de a gente continuar, por favor.
— Milo pelos Deuses, você acabou de sair do hospital, deveria estar repousando. – Aioros ralhou indo checar a amigo.
— Se vocês quiserem eu posso parar, contar as coisas somente para as médicas. – Disse o policial.
— Não, não. – Disse Milo tentando se recompor, secando as lágrimas. — Para ajudar o Camus eu preciso saber o que aconteceu com ele, é que isso dói, dói muito, saber que a pessoa que a gente ama tenha passado por essas coisas.
Marin também estava chorando, mas em silêncio e amparada por Aioria.
Após o sinal de Milo, Aldebaran continuou o relato.
— Bom, enfim, depois desse dia o Camus sempre apresentava alguns lapsos de memória, mas depois da noite do leilão... ali ele parou de ser o Camus, quem falava e agia era o Aquário 90% das vezes.
— Como foi essa noite do leilão? – Hilda questionou e olhou para Milo. – Tem certeza que deseja ouvir?
Milo confirmou com a cabeça e se calou, Aioria olhava para o amigo consternado, ele estava consolando Marin, mas sabia que Milo estava sendo o mais forte que podia.
— Saga na gana maluca em deixar o Camus o mais submisso possível organizou um leilão onde o ganhador passaria a noite toda com o famoso Aquário. Camus não sabia nada o que estava acontecendo foi vestido apenas com um short látex preto e levado para uma gaiola que ficou pendurada no meio da pista de dança na Santuary, os outros rapazes dançavam em gaiolas laterais, percebi naquele dia que nem todos ali era traficados, haviam michês contratados também, mas voltando, minutos antes dele ser colocado naquele lugar o Camus teve uma crise de pânico, quase perdeu os sentidos, eu tive que fazer um exercício de respiração com ele, quando ele foi levado para a gaiola, ele estava assustado, Verônica dava ordens para que ele dançasse, mas Camus estava atônito, foi quando nos telões começaram a passar imagens dos filmes... Dele em ação nos filmes, foi bem constrangedor para ele, que olhava para a tela, olhava para as pessoas embaixo falando obscenidades e Saga na mesa dele o olhando satisfeito. Foi quando Camus gritou e se abaixou chorando.
— Eu estava muito tenso e o leilão havia começado, as pessoas estavam dando lances, quando...
... – Quando o Aquário apareceu! – Carlo quem completou. – Ele se levantou e começou a dançar de forma sexy e até mesmo um pouco vulgar, não era mais o rapaz que entrou na gaiola.
— SEUS FILHOS DA PUTA VOCÊS DEIXARAM O CAMUS SER LEILOADO COMO SE FOSSE UM OBJETO QUALQUER? – Milo explodiu enfim com Marin concordando em sua indignação.
— Calma Milo, deixa de ser idiota, eu dei o lance maior, a gente estava protegendo o garoto em tudo que era possível. – Carlo respondeu. – Ele foi ao encontro comigo, ok?
— Com você? Como ele estava depois de tudo aquilo? – Marin perguntou preocupada e as médicas incentivaram o policial a falar.
Meio sem jeito Carlo começou a relatar o que havia acontecido. – O garoto chegou com o olhar perdido, um tanto confuso, mas dócil, querendo me agradar, querendo saber minhas preferências no sexo, com o ele deve ter sido ensinado para fazer. Mas eu estava no salão, vi o que aconteceu e sabia que ele não devia estar bem. – Narrava o policial se lembrando daquela noite. – A impressão que eu tive inicialmente é que ele queria fazer o trabalho dele para ficar livre, não sei. Mas eu, como uma pessoa de fora poderia sondá-lo, ao contrário de Aldebaran que precisava manter o disfarce, então tentei conversar. Perguntei a idade dele várias vezes e ele sempre desconversava, para que eu mudasse o foco da conversa...
Milo e Aioria se lembraram das vezes em que também tentaram saber a idade do ruivo perguntando a ele e a forma com que o rapaz sempre mudava de assunto.
... — Como eu soube por Aldebaran, que os rapazes ficam praticamente o dia todo sem comer quando tem atendimento, eu pedi um parmegiana, para que ele se alimentasse, inicialmente ele ficou receoso em comer, como se estivesse quebrando uma regra, mas quando eu disse que vê-lo comendo era meu fetiche ele concordou em ir.
Todos fizeram uma nota mental de lamento ao ouvir aquilo.
Somente após dar a primeira garfada que eu acho que ele se lembrou da fome e avançou na comida devorando tudo com muito apetite, apetite de quem estava sentia fome de fato.
Olhando nos olhos das médicas e nos de Milo, Carlo narrou o fato que chamou sua atenção.
— Enquanto ele comia eu fui fazendo perguntas sobre ele, sobre a vida pessoal como hobbies, lazer, coisas pessoais, notei que ele não soube me responder de pronto e começou a reclamar de uma forte dor de cabeça repentina, disse que estava enjoado, eu o aconselhei se deitar um pouco para dormir, ele assim o fez, mas quando ele acordou seis horas depois...
Narrava Carlo fazendo uma pausa para tentar lembrar os detalhes daquela noite.
... – Parecia que outra pessoa havia despertado, o garoto estava confuso, arisco e envergonhado da pouca roupa que estava usando, e não se lembrava de mim, questionou se eu havia feito alguma coisa com ele, o garoto já não sorria não tentava me agradar, mas ainda assim eu tentei conversar com ele, perguntei se ele precisava de ajuda, mas ele me olhou com medo e negou dizendo que não precisava de nada e que eu poderia avisar o Saga que ele não tentaria fugir.
Todos ficaram em silêncio ao ouvir aquele relato.
— Meu Deus, meu amigo, o que fizeram com você? – Murmurou Marin entre lágrimas e Aioria a abraçou para a consolar.
— Os relatos que ouvimos aqui vão ajudar muito a montar um perfil sobre o caso e sobre o Camus e o Aquário, depois vamos conversar com cada um de vocês individualmente, para montarmos o perfil do Camus e que assim nós possamos o trazer de volta. – Saori explicou agradecida.
— Eu quero ver o Camus, não saio daqui sem que eu o veja. – Ordenou Milo sério, não sairia daquele lugar sem ver e tocar em seu namorado.
*-*-*-*-*-*
Camus estava no pátio da clínica, no banho de sol disponível para todos os pacientes, estava sentado em uma mureta de forma displicente, joelhos dobrados, o braço esquerdo apoiado ao joelho esquerdo, olhar vago para o horizonte. Trajava uma roupa azul claro, como todos os internos daquele lugar, calça e camisa azul claro.
Milo o viu de longe, estava acompanhado das médicas e de Aioros. Marin quis muito ir ver o amigo, mas Aioria a convenceu de ir outro dia, visto que o ruivo havia passado por muita coisa recentemente e a história dele com o Milo estava manchada pelas armações de Saga.
— Milo eu vou com você até lá, se quem tiver ali for o Camus e eu perceber que a conversa de vocês vai fluir sem maiores percalços eu me afasto, mas se for o Aquário ficarei próxima para estudar as falas e as ações dele, ok? — Saori explicou como seria a dinâmica daquele encontro.
— Eu não sei se me sinto bem com isso. — Confessou Milo desconfortável.
— Infelizmente neste momento é o único jeito. — Devolveu a médica séria, não dando outra opção ao namorado de Camus.
Vencido Milo concordou e os dois seguraram deixando Dra. Hilda e Dr. Aioros os observando de longe.
Milo estava tenso, após ouvir todas aquelas coisas, de saber que seu amor havia passado por tantas provações, só queria abraçar o rapaz e tirá-lo dali, cuidar dele com todo o amor que ele precisa.
Caminharam por trás de Camus que não os viu observando e muito menos que Milo estava indo até ele.
Quando chegaram próximo ao ruivo, Milo e Saori trocaram olhares novamente e a moça se afastou.
— Oi — Disse Milo fazendo o ruivo sobressair e olhar para trás.
— Pelos Deuses você me assustou. — Disse o ruivo virando antes de perceber com quem estava falando. Assim que seus olhos se encontraram, o ruivo o encarou por alguns instantes antes de dizer. — Eu conheço você.
Milo sorriu confiante pensando. "Claro que o meu Camus ia lembrar de mim".
— Você está bem? Me disseram que você se machucou. — Perguntou Milo se sentando ao lado do ruivo, mesmo que sua vontade fosse o abraçar e beijar, mas depois de ter ouvido tanta coisa estava receoso.
— Banheiro do aeroporto internacional de Paris. — Aquário disse malicioso mordendo os lábios.
— O que? — Perguntou confuso o loiro.
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— Eu nunca esqueço uma boa foda e essa foi incrível. — Disse Aquário olhando Milo de cima a baixo. — Você me achou, quer repetir a dose?
Milo não sabia o que dizer ou o que pensar, Camus o estava punindo, era a única explicação lógica.
— Como me achou? — Quis saber aquário olhando em volta.
— Você sabe que não foi legal comigo naquela ocasião, não sabe? – Perguntou Milo sondando.
— Qual nada! Demos duas boas fodas, no banheiro do aeroporto e no banheiro do avião, e eu fui BEEEEEM legal com você, pelo que eu me lembro. — Aquário respondeu displicente, totalmente diferente de Camus quando questionado sobre tais acontecimentos.
— Me filmar fazendo sexo e fazer um filme pornô com isso, não foi legal. — Devolveu Milo sondando, aquela coisa de Camus e Aquário não fazia sentido, deveria ter outra explicação. — Transamos mais vezes que isso, esqueceu que fomos para o motel e passamos a noite lá?
— Você está maluco, a última vez que eu te vi foi quando saímos do banheiro do avião. — Tornou Aquário achando graça.
Milo sorriu nervoso. – Ok, nós flertamos no aeroporto, fomos ao banheiro para... Depois flertamos outra vez no avião, fomos novamente ao banheiro e na saída quando estávamos esperando nossas malas, nós conversamos e fomos para um motel onde passamos a noite toda juntos.
— Francamente não me lembro de ter flertado com você no aeroporto, lembro de você me agarrando no banheiro, lembro de ter flertado no avião, afinal você é muito bonito, mas depois? Não lembro. – Respondeu Aquário sem muita paciência.
— Oras francamente...
Milo ia começar a contestar, mas Aquário o cortou perguntando. – Você me comprou de Saga? Ele estava bravo comigo, estava me mantendo preso trancado num quarto e agora eu estou aqui neste lugar, sei que ainda estou preso, pois não posso sair, mas ao menos aqui posso tomar sol.
Naquele momento Milo travou e seu olhos se encheram de lagrimas. Era verdade? Seu Camus havia realmente perdido a sanidade?
— Camus, você está numa clínica, não está preso como estava antes. – Respondeu Milo com doçura.
— Que inferno! Eu sou o Aquário! – O ruivo falou olhando o outro de forma altiva.
Milo olhou para Camus e para Saori que acompanhava a conversa um pouco mais distante, a moça fez sinal para que Milo mantivesse a calma e continuasse a conversa.
— Você não pode me culpar por confundir vocês são iguais, praticamente a mesma pessoa. – Respondeu alfinetando, mais por reação do que por maldade.
Aquário encarou Milo com seus olhos multicoloridos e sorriu maldoso antes de responder. – Eu sei da existência dele, mas ele nem sonha com a minha.
Milo e Saori se olharam chocados.
— O Camus criou você, Aquário não passa de um personagem criado por ele. – Respondeu Milo tentando não se exaltar.
— Acho que é o contrário o Camus é um personagem que eu criei, ele não existe, eu existo! – Respondeu Aquário desafiador.
Mas notando que o homem a sua frente estava ficando irritado e sabendo que não deveria deixar seu novo cliente, chefe ou senhor bravo, Aquário sorriu malicioso e sugeriu. – Eu sou melhor que ele, posso te provar, mas se você quiser trepar comigo chamando o nome dele, eu não me importo, vamos para o quarto?
Milo viu o rapaz se oferecendo com a mão estendida, sabia quer era o Camus, mas também sabia que não era o Camus de fato. – Desculpe eu não consigo.
— Não se preocupe eu estou vendo que está com o ombro ferido, não sou nenhum selvagem, eu vou ser carinhoso, prometo. – Insistiu Aquário, agora com real preocupação, se o cliente reclamasse Saga o castigaria. – Basta que você fique parado, eu faço o todo o trabalho. Você vai gostar.
Aquilo que o Aquário estava propondo estava fora de cogitação, Milo jamais se prestaria a tal papel mesmo morrendo de saudades dos beijos do seu namorado.
— Eu preciso ir, desculpe. — Contudo quando Milo foi levantar Aquário colocou a mão em sua perna e pediu tenso.
— Não diga ao Saga que eu não te agradei, ele vai me levar de volta para aquele quarto, ele vai me castigar, por favor. – Pediu com real temor. – Por favor, eu posso ser quem você quiser, eu serei bonzinho, eu prometo, eu prometo.
Milo não resistiu e abraçou o rapaz que estava tremendo de fato. – Não se preocupe, você está seguro agora, o Saga não vai mais encostar em você, nunca mais.
Aquário assentiu, mas não acreditou, obviamente tudo aquilo não passava de um estratagema de Saga. Então olhou para Milo e disse. – Tudo bem, diga ao Saga que eu vou me comportar, não precisa de artimanhas comigo.
O Jovem se afastou de Milo e voltou a sentar na mureta olhando para o horizonte agora abraçado aos joelhos.
Saori fez sinal para que Milo não contestasse mais e eles se afastaram.
Milo com o coração doendo mais do que quando acordou naquela manhã.
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