Na Real

38 Capítulo 38 - Reencontro


Notas iniciais
Olá pessoa maravilhosa que dedica um pouco do seu tempo para ler essa história. Não vou pedir desculpas pela demora em postar novo capítulo, porque já estou ficando repetitiva com isso, mas é tudo culpa da vida adulta, ela tá cada vez mais difícil. Mas eu sigo em frente e aqui estamos!



Na Real

Milo chegou em casa na companhia de Aioros, estava triste, abatido, deixar Camus naquela clínica doía em seu peito.

- Vamos Milo, você precisa de um pouco de repouso, já passou por coisas demais hoje e eu sei que você deve estar sentindo dor. – Disse o médico. — Você passou por uma cirurgia, está abusando demais.

- A dor física serve para amenizar um pouco a dor na alma que eu estou sentindo. – Declarou Milo, que só naquele instante percebeu esse detalhe.

- Não pense assim, você vai precisar ficar forte pelo Camus e pelos meninos, aliás, Milo, você realmente quer passar por isso? – Questionou Aioros. – Digo, os meninos, o Camus, vocês estão juntos há tão pouco tempo...

- Não termina essa frase. – Pediu Milo sem paciência abrindo a porta da casa.

- É sério Milo, o Camus pode estar com TDI ou pode estar com esquizofrenia, é nessa idade que esses distúrbios mentais começam a aparecer, dezenove, vinte anos, a coisa pode ficar bem pior e...

- Aioros, por favor! Eu amo o Camus e adoro os meninos, eles trazem luz a minha vida, eu os escolhi como família. – Milo abaixou a voz ao dizer. – Meu pai foi o responsável pelo que aconteceu ao Camus, pela sorte deles. Cuidar deles é o mínimo que eu posso fazer, entende isso?

- Já foi provado isso? – Questionou o médico.

- Pela justiça ainda não, mas eu sei que o Velho Kapino está envolvido nesta sujeira.

Os rapazes pararam de falar quando ouviram a voz de Buba se aproximando.

- Oh Milo, meu garoto! – A ex babá de Milo foi o abraçar. – Você quer me matar de preocupação? Fui ao hospital te visitar assim que deixei os garotos na escola e me disseram que você se deu alta, imagine uma coisa dessas? – Ralhou a babá.

- Desculpa Buba, mas eu liguei falando que eu estava bem.

- Mas não que se deu alta do hospital.

Milo ia tentar se defender quando ouviu a voz do Hyoga, que vinha correndo para abraçá-lo como já tinha virado um hábito entre eles.

- Hyoga cuidado. – Disse Buba e o menino parou quando viu que Milo usava uma faixa imobilizando seu ombro e braço.

- Milo, o que aconteceu? Venha eu cuido de você. – O menino o pegou pela mão e o guiou até o sofá o fazendo se sentar. – Quer uma almofada? Tá doendo?

- Hyoga, chega de tanta pergunta, deixa o Milo respirar. – Isaak quem falou chegando na sala logo após o irmão menor.

O garoto já andava sozinho e sem a ajuda de muletas, mas obviamente seus movimentos eram mais lentos que os de seu irmão.

- Tudo bem Isaak. – Disse Milo, e olhando para o menor explicou. – Eu lutei contra uns caras maus, foram uns dez caras e eu bati em todos deles, eu tô machucado, mas eles estão em pior estado, não é Aioros?

O Médico sorriu, pois não estava preparado para aquela lorota, mas concordou fazendo careta como quem afirmasse uma grande mentira. – Ah é verdade, Milo saiu batendo em todo mundo, mas estava apanhando, eu cheguei e fiz os bandidos fugirem, tanto que ele está ferido e eu estou inteiro.

Todos sorriram, apesar de que Hyoga estava realmente acreditando na história.

- Milo, grande herói, vá para o seu quarto descansar, que eu vou preparar algo para você comer. – Ordenou Buba.

- Eu te ajudo Milo. – Hyoga falou solicito, mas Isaak pediu. – Mano vá ajudar a Buba com o lanche dele e eu o ajudo a ir para o quarto, tá bom?

O menino concordou e foi com a Babá para a cozinha, Isaak então olhou para Milo e Aioros e perguntou à queima roupa. — Isso tem a ver com o Camus, não é?

Milo e o médico se olharam confusos, não haviam se preparado para aquele tipo de questionamento.

- Isaak... Eu.

- Onde ele está? Ele está vivo? — O adolescente perguntou com medo da resposta.

Milo olhou para o médico mais uma vez, suspirou fundo, fez um gesto com as mãos para que o garoto se sentasse ao seu lado. — Nós conseguimos resgatar o Camus, ele está vivo!

- Meu Deus! Mas isso é incrível! Por que ele não veio com vocês? Ele ainda não me perdoou pelas coisas que eu falei pra ele, não é? — Perguntou o garoto aflito.

- Não diga bobagens Isaak, o Camus jamais guardaria rancor de você, aliás, o problema dele é outro. — Disse Milo pensando em contar, talvez não toda a verdade, mas meia verdade ao cunhado.

- Como assim, por que o Camus não veio com vocês?

- O Camus teve um problema, ele perdeu a memória. No momento ele não se lembra da gente. — Contou Milo analisando a reação de Isaak, quando ouviram a voz de Hyoga ao fundo.

- Ele perdeu a memória igual nos desenhos?

- Hyoga! — Assustou se Milo, não esperava que o menino ouvisse aquilo, mas não poderia desmentir, perderia a confiança do menino.

- Você não deveria escutar a conversa dos adultos! — Ralhou Isaak.

- E desde quando você é adulto? — Respondeu o menino com certa razão e olhando para Milo ele falou. — É só a gente bater na cabeça dele do outro lado que ele volta a se lembrar da gente! — Depois olhou para o Dr. Aioros para a confirmação do médico para sua ideia.

Milo não pode deixar de sorrir pela ingenuidade do menino.

- Não Hyoga, não funciona assim, é um pouco mais complicado que isso. – Respondeu o médico sem ter certeza de que contar a verdade dos fatos para os meninos era o melhor a se fazer.

O namorado de Camus pegou a mão do menino e o fez sentar ao seu lado, achou por bem não esconder as coisas dos garotos, Isaak por ser mais velho talvez tivesse mais compreensão das coisas, mas Hyoga era muito inteligente e até maduro para sua idade, obviamente Milo não contaria todos os detalhes sobre o estado do irmão, mas era bom os situar de algumas coisas.

- Vou contar a vocês tudo que precisam saber, ok?

Os meninos confirmaram com a cabeça e Milo continuou.

- O Camus está a salvo, e isso é o mais importante, o Saga não vai mais poder fazer mal a ele.

Os meninos sorriram e se abraçaram com aquela informação.

- Mas as coisas que ele passou nas mãos do Saga durante esses anos, as coisas que ele tinha que fazer. – Milo olhou para Isaak que entendeu o "tipo de coisas" que ele estava falando. – Fizeram com que o Camus criasse um tipo de personagem para se proteger, para que a mente dele se protegesse, conseguem entender?

Os meninos negaram com a cabeça, aquilo era bem confuso.

Aioros que estava sentando em uma poltrona próximo a eles tentou ajudar. — O Camus passou por coisas muito pesadas, muito grave e digamos que a mente dele criou um personagem para se proteger, tipo o Bruce Wayne e o Batman, o Camus é o Bruce Wayne, mas para ele aguentar as coisas que ele tinha que passar nas mãos do Saga ele criou o Batman.

- Ele é Bruce Wayne, sem o dinheiro? – Hyoga perguntou sério. – Esse é o problema?

- Não Hyoga, isso é uma metáfora, um exemplo apenas. – Explicou Isaak um tanto sem paciência, não por maldade, mas por ansiedade em tentar saber o que estava acontecendo com o irmão. – Pelo que eu entendi o mano criou um personagem na cabeça dele, o Aquário?

Tanto Milo quanto Aioros ficaram desconcertados com o fato de Isaak ter ciência sobre o famigerado Aquário, apesar de saberem desse fato, aliás, foi esse fato que levou o garoto a emergência há alguns meses.

- Aquário? – Perguntou Hyoga achando graça.

- É só um exemplo, Hyoga. – Milo apressou-se em responder.

- Que exemplo maluco. – Riu o menino.

Milo, Isaak e Aioros trocaram olhares fugazes e Aioros continuou a falar. – Pois então, o que está acontecendo com o Camus é que essa outra personalidade está tomando conta da cabeça dele. E ele não se lembra da gente.

Os meninos ouviram tudo com atenção e cada um ficou calado com seu próprio pensamento, Milo estava exausto sentia seu ombro latejar junto com sua cabeça, Aioros percebeu que o loiro não estava bem.

- Milo, agora é sério, você realmente precisa descansar já abusou demais.

O jovem Kapino concordou e tentou se levantar, com certa dificuldade, foi auxiliado por Aioros e Isaak, Hyoga foi na frente para arrumar a cama para que o cunhado deitasse.

........

Milo estava deitado em sua cama, os pensamentos martelando sua mente, o medo de que seu Camus nunca mais fosse o mesmo. Tinha certeza que o amaria fosse como fosse, sempre sentiu atração e tesão pelo corpo de Camus, mas amor de fato, sentiu por sua essência, em conhecê-lo melhor, a delicadeza de sua alma, a generosidade do seu coração, e por que não dizer, a pureza do seu coração.

Envolto a esses pensamentos, Milo ouviu pequenas batidinhas na porta.

- Milo? — Ouviu o sussurro da voz de Hyoga.

- Hyoga o que houve? — Milo perguntou sem fazer movimento para se levantar, o que não precisou fazer de fato, visto que o menino assim que ouviu a voz do cunhado já foi entrando no quarto.

- Eu vim vê como você está. — Avisou o menino, colocando a pequena mão na testa do cunhado para verificar se ele estava com febre.

Milo sorriu internamente, os três irmãos sempre cuidaram um do outro, o escorpiano sentia falta disso em sua vida, seus pais só se preocupavam o nome da família e escândalos, mas tudo com eles era quase sempre formal e impessoal, não fosse Buba sua babá cresceria sem saber o que era carinho e afeto.

- Já tomou seus remédios? Que horas você tem que tomar novamente?

Antes que Milo pudesse responder alguma coisa, os dois ouviram uma batidinha na porta e a voz de Isaak se fez presente. — Hyoga deixa o Milo em paz. — Sussurrou o garoto temendo incomodar o cunhado.

- Tudo bem Isaak, eu estou acordado. — Respondeu Milo.

- Milo desculpa você precisa descansar, Hyoga vamos. — Chamou o irmão.

- Espera, eu preciso falar uma coisa com o Milo.

- Amanhã você fala, ele precisa descansar, ele tá machucado não tá vendo?

- Tudo bem Isaak, eu estou acordado. — Milo ligou o abajur iluminando um pouco o quarto. — O que foi Hyoga?

O menino sorriu e sentou na cama de Milo. — É sobre o mano.

Milo e Isaak ficaram esperando o menino falar.

- Eu estava pensando, se o Batman quiser ser o Batman vinte quatro horas por dia, lá dentro dele, ele ainda vai ser o Bruce Wayne, não é? Por mais que ele seja o Batman, o Bruce Wayne está lá dentro, porque ele É o Bruce Wayne.

Milo olhou para o menino apiedado e culpado, tudo aquilo era demais pra ele. — Hyoga...

- Da mesma forma é com o Camus, por mais que esse Aquário esteja no comando, o Camus tá lá dentro também, porque ele É o Camus! A gente só precisa descobrir como e trazer ele de volta. – Explicou o menino com os olhos esperançosos, aguardando a confirmação do cunhado para a sua explicação.

- A gente vai conseguir trazer o Camus de volta, tenho certeza disso! — Disse Milo.

Hyoga o abraçou e apesar do menino querer dormir no quarto de Milo, como fazia com seu irmão mais velho, Isaak o levou embora por fim explicando que Milo precisava descansar por estar ferido.

Milo não contestou pois realmente estava cansado e deixar os meninos dormirem em seu quarto sem que Camus estivesse por perto não seria de bom tom.

Assim que os meninos saíram, Milo adormeceu em seguida .

Estava exausto!

..............

- Caramba que dia! — Aioria entrou na sala de Milo comentando, estavam exaustos.

Milo estava recostado em sua cadeira com os olhos fechados pensativo.

Haviam muitas pendências na empresa, com a "fuga" de Klaus e com Milo ferido tudo estava uma loucura, Milo deu uma procuração para que Aioria tomasse as decisões em sua ausência, coisa que não agradou muito os acionistas, mas os dois conseguiram reverter todas as situações.

- Eu fico preocupado com você Milo, não se recuperou direito do seu ferimento, já teve que voltar ao trabalho, está cuidando de duas crianças e ainda tem o lance do Camus. — Comentou Aioria com real preocupação.

- Não são duas crianças, é uma criança e um adolescente. — Corrigiu Milo.

- O trabalho, os meninos eu consigo tirar de letra, o Camus fez um excelente trabalho com eles, os dois são incríveis. — Comentou Milo com admiração. — O que me dói mesmo é não ter o Camus bem e sadio ao meu lado, nunca vou perdoar o Saga e a corja de malditos que trabalha pra ele por terem feito as coisas horríveis que fizeram a ele.

- Como ele está? — Quis saber o amigo.

- As médicas só me deixam vê-lo de longe. Ainda é o Aquário, mas já avisei que não aceitarei ficar longe dele.

- Sim, o Aioros me contou que elas precisam entender como é essa personalidade de Aquário, antes dele ter acesso a família, ou as pessoas próximas.

Milo ficou encarando a vista de sua janela pensativo.

- Eu estava pensando em como as coisas aos poucos passaram a fazer sentido. — Comentou Kapino.

- Em que sentido? — perguntou o amigo.

- Os vídeos que o Camus gravou de nós..

- O que tem eles?

- A inconsequência desse ato, só poderia ter saído da mente de alguém tão jovem. — Explanou Milo se referindo a idade do namorado.

- Você tem razão, é o tipo de idiotice que a gente faz na juventude, a gente mesmo já fez tanta merda. — Comentou Aioria, o que Milo concordou com a cabeça.

- Milo?

- Que?

- Vai continuar namorando esse rapaz?

- Achei que isso já estava claro há meses.

- Mesmo sabendo a idade real dele?

- Aioria, ele é maior de idade.

- Mas ainda assim, é bem mais novo que você.

Milo ficou em silêncio, amava Camus como nunca amou ninguém em sua vida, a diferença de idade não era um empecilho para ele, mas seria para Camus?

Será que eu estou errado em querer o Camus apesar de tudo?

- Milo, não coloque merda na sua cabeça. — Pediu Aioria ao ver como o amigo ficou abalado.

- Você colocou a merda na minha cabeça.

- Me desculpe, não foi minha intenção. É que cara! Esse rapaz mexeu muito com você. Eu nunca pensei em te ver namorando um novinho. — Explicou Aioria sorrindo.

- Aioria, o Camus é mais maduro que nós dois juntos. Ele tem mais experiência de vida que a gente. — Milo se emocionou ao completar. — Esse rapaz já passou por tanta coisa na vida, que eu não daria conta de passar a metade.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo e Aioria brincou.

- Bom, o Shaka também tá pegando um novinho. Então relaxa!

Milo sorriu, se até o Aioria estava sabendo do romance de Shaka com o seu assistente é porque o chefe do laboratório não estava mais conseguindo ser discreto.

...........

Aquário estava andando pelos corredores da Clínica acompanhado de um enfermeiro quando chegaram em frente a uma sala, o enfermeiro deu três batidas e abriu a porta.

- Bom dia, o rapaz está aqui.

- Peça que ele entre.

E assim o enfermeiro fez cedeu passagem ao ruivo e fechou a porta ao sair, mas aguardando do lado de fora para alguma emergência.

Assim que entrou no consultório, Aquário observou o local, duas mesas, cadeiras e dois confortáveis sofás.

Haviam duas moças atrás das mesas.

- Bom dia, Camus, como está se sentindo hoje? — Hilda perguntou puxando assunto.

Aquário ficou analisando as duas, não fazia ideia do que estava fazendo ali, que lugar era aquele? Teria que transar com aquelas mulheres?

"Acho que não sei trepar com mulheres"

"Saga está me castigando, mas o que houve dessa vez?"

Ao ouvir a saudação da moça, a corrigiu.

- Aquário, senhora! Meu nome é Aquário.

- Desculpe, Aquário. Por favor, sente-se. — Pediu Saori auxiliando a colega.

- Olha... Eu realmente não sei o que eu estou fazendo aqui, eu nem sei transar com mulheres.

Hilda ficou sem palavras ao ouvir aquilo, mas Saori sorriu bondosa e pediu.

- Sente-se Aquário, nós não vamos transar, vamos apenas conversar um pouco, ok?

Meio desconfiado, Aquário sentou no sofá mais confortável, com todo seu porte altivo e a encarou.

- Não precisa mais se preocupar com o Saga, ele não vai mais fazer mal a você. – Avisou Saori. — Já conversamos sobre isso, lembra?

- Ele me vendeu para vocês? — Questionou Aquário um tanto aflito, bem ou mal com Saga ele já sabia lidar.

- Você está livre agora, livre do cativeiro, livre! – Explicou a moça atenta às reações do rapaz.

- Se eu estou livre, por que eu não posso sair desse lugar? – Questionou o ruivo, pois toda vez que tentava ir até a saída um segurança se colocava em sua frente.

- Você está num hospital, a gente está cuidando de você, estamos aqui pra te ajudar. – Explicou Saori. – Lembra eu sou a Dra. Saori e aquela é a Dra. Hilda, somos suas médicas, já conversamos outras vezes.

Imediatamente Aquário colocou a mão em seu ombro, um ferimento simples que não justificava aquele internamento prolongado e também o fato de ser cuidado por duas médicas.

- E se eu quiser ir embora? – Perguntou desafiador.

- Para onde iria? Onde você mora Aquário? – Saori perguntou para saber mais sobre o tal Aquário.

O ruivo ficou em silêncio pensando naquela pergunta antes de responder.

- Eu iria para a casa do Saga.

Saori olhou para Hilda que estava fazendo anotações.

- E por que você não iria para a sua própria casa?

Olhando para a médica confusa, Aquário respondeu. – Eu não sei, acho que eu não tenho casa.

- Eu ouvi você dizendo ao Milo, aquele rapaz loiro que veio te visitar, que você conhecia o Camus, é verdade?

Suspirando cansado Aquário respondeu. – A sim, aquele idiota.

- Por que o acha idiota?

- Porque ele vive me colocando em encrenca! E depois desaparece.

- Senhor Aquário você tem noção de que você e o Canus dividem o mesmo corpo? Que vocês são a mesma pessoa?

Olhando para a médica como se ela fosse louca, Aquário se levantou, foi até o espelho que estava preso na parede e ficou encarando seu rosto, como se tomasse ciência naquele momento da informação dada pela médica, mas ainda em negação respondeu. — Você está louca! Isso não existe.

Notando que o rapaz ficou um pouco agitado, Saori tentou manter a voz o mais calma possível. — Quando você vê o Camus, as coisas que ele faz, você o vê por onde?

Aquário cocou a nuca, bagunçou os cabelos, como se tentasse colocar as ideias no lugar, se sentou novamente, mas agora não ponta do sofá, numa postura de insegurança.

- Eu o vejo por uma janela, como quando a gente expia um vizinho, e isso o Camus deve ser meu vizinho. — Declarou, tentando se convencer daquele pensamentos lógico.

- Eu entendo, faz sentido. — Comentou Saori para que o jovem não se alterasse. — Você consegue me dizer qual a sua primeira memória?

- Eu quero voltar para o meu quarto. — Pediu o rapaz. — Eu estou com dor de cabeça.

- Responda essa minha pergunta, por favor. Deite a cabeça nas almofadas, relaxe. Quero que fique à vontade Aquário.

Assim ele fez, ficou com os olhos fechados pensando na pergunta. — Eu estava no quarto com duas crianças, elas estavam chorando, estavam com fome, o leite havia acabado, eu estava exausto tentando fazer as crianças pararem de chorar. O recém-nascido tinha um choro estridente. Eu os coloquei no berço e fui em direção ao quarto do meu pai, que estava deitado na cama, chorando. Eu o chamei e ele se sentou na cama chorando, e eu senti uma onda de ódio me invadir, ela foi crescendo, crescendo e quando eu vi... dei um tapa na cara dele, depois outro, e outro.

Aquário não percebeu, mas seus olhos lacrimejaram enquanto ele contava a história.

- Acho que foram quatro tapas.

- E por que você estava batendo nele?

- Pra ele acordar, pra ele me ajudar com as crianças, minha mãe havia morrido, eu tinha que cuidar de tudo, mas eu não estava conseguindo, não sozinho. – Respondeu o rapaz colocando os braços sobre seus olhos abafando seu choro.

- E depois? O que houve? – Instigou a médica.

O jovem a encarou pensativo. – Eu não sei, não me lembro do que houve depois. – Respondeu angustiado.- Eu não lembro!

Percebendo que o rapaz havia ficado muito agitado e emocionado, Saori achou por bem encerrar a conversa.

*.*.*.*.*.*.*

Milo chegou ao hospital psiquiátrico onde Camus havia sido transferido no início da tarde.

O único ponto positivo dele ter saído do outro hospital é que agora ele estaria longe de Saga, mesmo com o canalha na UTI, Milo achava que só o fato dele respirar o mesmo ar que Camus já era um absurdo.

Milo visitou Camus todos os dias desde que falou com o Aquário, mas apenas o observava de longe, se sentia muito culpado cada vez que via seu amor naquele lugar.

Em sua mente sempre vinham pensamentos do tipo “Se tivesse levado Camus comigo na viagem nada daquilo estaria acontecendo”. “Se tivesse contado para Aioria que estava apaixonado pelo ruivo...” “Se tivesse aberto o jogo com seus amigos...” O “E se” não dava trégua sempre martelavam em sua mente.

- Olá boa tarde, vim ver o paciente Camus. — Milo se identificou na recepção.

- Ele está no quarto. — Respondeu a moça da recepção após checar a informação no computador. Por medida de segurança todos os pacientes tinham um cartão magnético que precisavam passar nas portarias, assim cada paciente era monitorado com mais eficiência.

Milo estranhou aquela informação, naquele horário Camus/Aquário gostava de ficar nos jardins.

Seguiu incerto pelos corredores, cinco dias haviam se passado desde que falou com o rapaz. “Será que eu estou preparado pra falar com ele novamente?”

O herdeiro da Kapino pensava desta forma, pois estar com o Camus, olhar para ele, falar com ele e ser recebido como se fosse apenas um estranho era muito difícil e dolorido.

Milo pela janela de vidro que fica na porta do quarto e percebeu que o rapaz lá dentro estava com o semblante triste, cabisbaixo, sentado na cama abraçado aos joelhos, e tinha os olhos inchados como se tivesse chorado, por um instante pensou. “Será o Camus?” Então apressou o passo e bateu na porta anunciando sua chegada.

- Oi Boa Tarde.

O ruivo apenas o encarou e voltou a baixar o seu olhar. – Boa Tarde.

- Aquário? – Arriscou, uma vez que, na sua opinião, o Camus em outra recepção.

- Sim, esse é o meu nome. – O ruivo respondeu sem emoção.

Mesmo com o coração apertado, Milo prosseguiu com a interação.

- Você me parece triste, o que houve?

O encarando novamente, Aquário sorriu dissimulado e disse. – Saudades de você, veio brincar comigo hoje?

Respirando fundo Milo perguntou. – Por que acha que eu viria aqui para isso?

Se levantando da cama para dar o bote em Milo o rapaz começou. – Porque eu estou triste e preciso me alegrar. – Disse pressionando Milo contra parede e com as mãos ágeis descendo do seu peito indo de encontro ao seu sexo.

- Ei ei ei. – Disse Milo se afastando, podia ser loucura de sua cabeça, mas pensar em tocar o “Aquário “seria como trair o Camus. – Eu quero só conversar, por que você faz tudo a ver com sexo?

Aquário parou o encarando confuso e voltou para a cama deitando de costas para Milo.

- Eu fui criado assim, fui criado para isso. – Revelou. – Eu realmente não sei o que vocês querem de mim aqui. Conversar não é o meu forte, eu sou bom em ouvir, em dar prazer, mas não sou bom em falar.

- Não deveria pensar assim, você é inteligente, engraçado, bonito tem muito mais a oferecer do que somente sexo. Me fala uma coisa que você gosta de fazer?

Aquário o olhou e sorriu malicioso antes de responder. – Sexo oral.

Milo corou indignado antes de responder. – Me fala uma coisa que você gosta de fazer que NÃO tenha a ver com sexo?

Aquário virou para Milo ainda deitado na cama e respondeu. – Eu não sei. Eu não consigo pensar em nada que eu goste, o Saga sempre disse que eu era bom somente no sexo e fora isso eu não servia pra nada.

Milo apertou as mãos com ódio de Saga. – Esse cara é um babaca! Você é muito melhor que ele, nunca mais pense que você não é bom em nada.

- Mas foi o que ele sempre me disse e os clientes também, tipo “fica quietinho e vire de quatro”, “ponha isso na boca e não converse muito” – disse se referindo a sexo oral.

- Eu lamento tanto que tenha passado por isso, Camus, tanto! – Disse Milo acariciando o rosto do ruivo sem se dar conta do ato falho que não era o Camus ali.

- Por que acha que eu sou o Camus?

- Porque eu sei que ele está aí dentro em algum lugar. – Respondeu Milo.

- Você também acha que eu sou algum tipo de maluco?

- Como assim?

- Você também acha que eu não existo, que o Camus me criou?

Milo o olhou nos olhos, nenhuma palavra foi dita, mas não precisava, Aquário soube o que Milo pensava.

- Eu conheço o Camus, sei quem ele é. Eu já o vi, mas não sou ele, não sou. – Respondeu o ruivo categórico. – Esse corpo é meu, essa mente é minha. Não sou eu quem não existe, é ele que não existe. Ele é o impostor.

Saori entrou no quanto enquanto o Aquário dizia aquelas coisas para um atônito Milo.

- Sr. Kapino que bom vê-lo, eu estava mesmo querendo conversar com você. – Disse a médica antes que Milo respondesse alguma coisa ao jovem paciente.

Milo olhou para a médica sem saber o que responder ao rapaz, quando notou que a moça fez sinal para que ele não contestasse o ruivo naquele momento.

- Desculpe interromper vocês, mas eu preciso falar com o senhor. – Saori disse olhando para Milo. — Por favor, venha comigo tem uns papeis que precisa assinar, venha comigo por gentileza.

- Com licença. – A médica pediu antes de sair do quarto e ser acompanhada por Milo, que notou que a moça não chamou o ruivo nem de Camus nem de Aquário.

Os dois ficaram se encarando até que Milo saiu pela porta, quando os dois saíram, Aquário sentou-se na cama e ficou com o olhar vago olhando pela janela no quarto com mil pensamentos em sua mente.

......

Na sala da médica, Saori pediu para que Milo se acomodasse em uma cadeira enquanto ela falava.

- Não sei se vai fazer bem a ele esse tipo de confronto, você precisa entender que para ele é tudo muito confuso. – Explicava a médica. – Mas já entramos com a medicação, precisamos aguardar ela fazer efeito, sem o agitar muito.

- Que medicação estão dando a ele?

A médica o encarou antes de responder. — Antidepressivos, Ansiolíticos, Antipsicóticos.

- Tudo isso junto? Não é perigoso?

- Senhor Milo, o Camus está em surto, você o viu, não é? E antes de entrar em surto e assumir a personalidade de Aquário, ele estava com um quadro grave de depressão, não só no hospital, mas também quando esteve no cativeiro, o policial e dois rapazes que dividiram o cativeiro com ele confirmaram. – Explicou a médica. – Sabemos que a persona Aquário não apareceu agora, digo não quando ele foi aliciado pelo Saga, ou com os abusos sofridos neste período, o evento traumático que fez com que a mente dele criasse essa outra persona, foi a morte da mãe, a depressão do pai. – Revelou a médica. — E o fato de ele ter ficado responsável pelos cuidados dos irmãos.

Milo a olhou espantado, visto que a mãe dele havia morrido no parto do pequeno Hyoga. – Se isso for verdade o Aquário existe há nove anos?

- Sim, o Aquário se manifestou quando o Camus tinha dez anos. – Comentou Hilda

- O evento traumático foi a morte da mãe e a depressão do pai. – Repetiu Milo consternado, pensando no quanto seu namorado havia sofrido na vida, mas uma coisa não estava fazendo sentido. — Mas como é possível? Digo esse cara o Aquário é um tarado, por quê o Camus o criaria quando criança?

- Há algo na personalidade dele que falta no Camus, precisamos descobrir o que é. — Analisou a psiquiatra forense.

- Bom, eu achei esse Aquário bem atirado. — Palpitou Milo.

- Vamos ter calma, não vamos nos precipitar no diagnóstico. — Aconselhou Saori.

Milo a encarou e pediu sério, algo que queria desde que pisou naquele hospital pela primeira vez. — Quero levá-lo pra casa.

- Você quer levá-lo para casa, um paciente em surto? — Questionou incrédula.

- Preso neste lugar ele não vai melhorar nunca.

- Mas não podemos liberar nenhum paciente em surto, ele não está em posse das suas faculdades mentais, em outras palavras ele não pode ser responsável por ele neste momento.

- Mas doutora Saori, o Camus precisa da rotina dele de volta, cuidar dos irmãos, levá-los para a escola, ajudar no dever de casa. O Camus precisa se sentir útil. — Insistiu Milo explicando seu ponto de vista. — O Camus foi retirado de casa à força, colocado em um cativeiro com pessoas estranhas o passou por coisas horríveis. E agora ele está aqui, num lugar estranho, com pessoas estranhas, mesmo que o Camus desperte, o seu sensor de proteção, que procura o Aquário, vai estar sempre ativado. Por isso ele está demorando tanto para ir embora.

- Eu entendo o que diz, mas enquanto o paciente estiver em surto nós não vamos dar alta.

- Eu não estou falando de Alta. — Milo pensava em alguma forma se fazer entender. — Você pode vir com a gente.

A psiquiatra o olhou incrédula.

- Eu sei que você veio para a Grécia a pedido da Interpol, justamente para cuidar do Camus, então você pode ficar hospedada na minha casa e lá observar a evolução dele. Eu só sei que preso aqui neste lugar ele não vai melhorar nunca.

- Senhor Milo.

- Me chame de Milo, por favor.

- Milo, como eu disse enquanto o Camus estiver em surto, não vou autorizar a saída dele, ainda mais para ficar próximo a crianças. — Começou a explicar os motivos da recusa.

- O Camus jamais faria mal aos irmãos. — Tornou Milo.

- Mas você pode afirmar a mesma coisa do Aquário? — Questionou a médica.

- Suponho que sim, você mesmo disse, o Aquário existe há anos. Se ele tivesse que fazer mal aos meninos já teria feito. — Tornou Milo.

Saori suspirou cansada antes de responder. – Enquanto ele estiver em surto, não poderei autorizar a alta, por mais que eu entenda seu ponto de vista. Pelo que conseguimos analisar até o momento, o Aquário é um mecanismo de defesa que a mente de Camus projetou quando as coisas ficam difíceis, mas não sabemos com o Aquário se porta de fato, ele por enquanto está achando que está em algum tipo de cativeiro imposto pelo Saga, talvez por isso ele esteja calmo, visto que tem medo de ser castigado, mas não podemos confiar nele, ou na índole dele, ao menos por enquanto. Por esse motivo não poderei liberar ele para ir pra casa com você.

- Tudo bem, eu entendi, mas quero vê-lo novamente antes de ir embora. – Pediu Milo já confirmado e de certa forma frustrado.

A médica concordou, mas disse que iria junto e observaria o paciente de longe.

.......

Milo e Saori foram andando pelos corredores da clínica conversando amenidades, quando chegaram próximo ao quarto Milo a olhou e dela assentiu para que ele entrasse, Saori ficaria do lado de fora observando pela janela da porta.

Milo abriu a porta e notou que o rapaz estava praticamente na mesma posição que o havia deixado, com a diferença que algumas lágrimas rolavam silenciosas em seu rosto.

Milo ao ver a cena em sua frente soltou a porta atrás de si e quando ela se fechou fez um leve barulho fazendo o ruivo sobressaltar e olhar na sua direção.

- Milo? – Chamou o rapaz entre as lágrimas se levantando e olhando para o loiro.

O herdeiro dos Kapino sentiu o coração aquecer e explodir em seu peito de tanta alegria. – Camus, meu amor é você? Você voltou pra mim?

Os dois se abraçaram emocionados entre lágrimas e beijos.

- Milo você se feriu, como você está? – Camus perguntou ao soltar o abraço e ver o seu namorado com uma tala nos braços.

- Meu amor, eu estou bem, já estou ótimo.

- Que lugar é esse Milo? Fiquei com medo de o Saga ter me sequestrado novamente, que lugar é esse? – Questionou Camus confuso.

Saori ao perceber a movimentação no quarto entrou sem fazer barulho, mas ainda assim Camus notou sua presença e se encolheu nos braços de Milo, desprotegido.

- Calma, Camus, tá tudo bem. — Disse Milo abraçado ao namorado, o fazendo se sentar em uma poltrona que tinha no quarto. — Me diz qual a última coisa que você lembra?

Camus olhou Milo nos outros, ainda com uma nuvem confusa em seus olhos, olhava para os lados tentando identificar o local.

- Ei, olha pra mim, fica calmo, eu estou aqui com você e não vou a lugar algum, ok? Mas eu preciso saber qual a última coisa que você se lembra?

O jovem voltar a olhar o namorado nos olhos e começo a falar ainda muito confuso. – Eu... eu estava no cativeiro, você apareceu, você tomou um tiro. – Camus colocou a mão na boca assustado. – O Saga, ele também foi ferido. Ele morreu?

Milo sentiu uma pontada de ciúmes ao ver uma nota de preocupação na voz de Camus, mas passou a ver como o rapaz estava confuso e amedrontado.

- Milo, o Saga é traficante de pessoas, ele tira as pessoas de suas casas e as leva para se prostituírem, eles as obrigam a isso. – E como se lembrasse de algo grave abaixou a voz para revelar. – Ele matou um garoto, matou na minha frente, por minha causa. – O jovem abraçou o namorado se rendendo as lágrimas de culpa.

- Não, Camus não pense assim. O Saga é um psicopata, sempre foi você não tem culpa de nada, nada do que ele tenha feito é culpa sua, por favor, não pense assim.

- Eu coloquei meus irmãos em risco durante todos esses anos, o Saga poderia ter matado todos nós, poderia ter levado eles para serem abusados. Eu fui muito irresponsável. E se ele tivesse pego os meninos?

Milo segurou a cabeça de Camus o fazendo olhar em seus olhos e disse da forma mais carinhosa e paciente que pode. – Camus, você é uma vítima do Saga, sempre foi. Você não pode se culpar por nada, ok? O Saga é que é o canalha da história, não você, entendeu?

Camus confirmou com a cabeça antes de abraçar Milo fortemente e voltar as lágrimas. O Jovem Kapino notou que Camus não mencionou o fato de que Saga matou seu pai, nem sobre a revelação de que teria feito isso a mando de seu pai. Mas vendo o estado fragilizado em que o namorado se encontrava, achou por bem não levantar essa assunto, aliás, nenhum assunto que desestabilizasse o namorado seria colocado em pauta naquele momento, Camus já havia passado por muita coisa e precisava de paz naquele momento e Milo faria o possível para dar essa paz a ele.

O loiro então olhou para a médica que observava o casal em silêncio e pediu. – Dra. Saori, sobre o que conversamos hoje, veja o que é preciso fazer para que eu possa levar Camus para casa.

- Milo, não vamos falar sobre isso hoje, o Camus acabou de acordar, as coisas não podem ser feitas assim. – Saori tentou explicar.

- Eu vou ficar aqui com ele até que ele possa sair, não existe a possibilidade de o Camus ficar aqui sem que eu esteja ao seu lado. – Avisou Milo já tirando o blazer de seu terno e o colocando atrás de uma cadeira.

Camus acompanhou o debate sem se envolver, não entendeu o motivo de não poder sair, sendo que obviamente era Milo quem estava de fato ferido.

Saori fitou o casal a sua frente e se retirou, precisava analisar bem a situação, Milo não estava de todo errado. Se o Aquário foi uma forma que a mente de Camus encontrou para se “preservar” talvez o rapaz num ambiente seguro, não despertasse essa outra "persona".

Precisaria debater com Hilda a melhor forma de ajudar o rapaz.

Naquele momento daria a eles um pouco de privacidade, os dois mereciam um momento só deles, depois de tudo que passaram.

......

No quarto, Camus questionou a Milo sobre o leve atrito entre Milo e a médica.

- Milo, por que eu estou preso aqui? O que houve? – Camus não podia evitar que maus pensamentos assombrassem sua mente.

“Milo está me enganando e vai me manter preso aqui?”

“Que lugar é esse, será tudo um plano de Milo e Saga para me maltratar mais?”

“Por que diabos eu estou pensando nestas coisas?”

- Meu amor, você está me ouvindo? – Perguntou Milo ao notar que o ruivo estava com pensamentos distantes.

- Desculpe. – Pediu Camus olhando nos olhos de Milo, o jovem sabia que não aguentaria outra desilusão, ter Milo consigo ali era um bálsamo para sua alma, mas e se fosse tudo mentira?

- Camus estamos num hospital psiquiátrico, você andou ausente por alguns dias. Por isso a Dra. Saori quer manter você aqui. Quando entramos eu estava justamente falando com ela que era melhor que você ficasse em casa, comigo e com os meninos.

- Os meninos? Meu Deus Milo, os meninos? Eu esqueci deles. – Falou Camus se rendendo às lágrimas novamente. – Eu sou um péssimo irmão, eu os coloquei em risco todos esses anos, eu não posso mais ser responsável por eles, os dois vão estar mais seguros longe de mim. Eu não posso mais ficar com eles, não posso. Eu sou uma vergonha, uma vergonha.

Milo percebeu que Camus ia novamente entrar em desespero então abraçou o namorado o prendendo em seu abraço e foi pedindo baixinho próximo ao seu ouvido. – Calma, calma. Eles estão bem, você foi uma vítima do Saga, não se culpe. Vai ficar tudo bem agora. Calma.

- Milo, eu não tenho condições de ser responsável por eles. Os dois poderiam estar mortos agora. Eu fui muito irresponsável! Eu não posso, não posso mais cuidar deles, eles vão estar mais seguros em um abrigo do que aos meus cuidados.

- Ei, já chega de falar mal do meu namorado, ok? Você foi uma vítima tanto quanto os outros rapazes que estiveram com você no cativeiro. Você sempre fez o melhor que pôde por eles e se eles estão vivos e bem, foi graças a você. Ok? Não se preocupe com nada, os meninos estão bem, eu estou cuidando deles. O Isaak está ótimo, já está andando sem as muletas. Eu te contei isso, lembra?

Camus o olhou confuso.

- Quando eu fui te resgatar, eu falei, mas enfim o Isaak está ótimo, coloquei em prática as pesquisas do seu pai. — Explicou Milo paciente, sem querer dar foco a noite do resgate, nada que pudesse trazer más lembranças a Camus.

- Eu não sei, acho que eu não lembrei, minha cabeça está tão confusa Milo. — Respondeu Camus bagunçando seus cabelos enquanto passava a mão direita na cabeça.

- Meu amor venha, vamos ficar aqui sentados e abraçados, na cama, a gente vai conversando e eu vou te contando todas as novidades. — Sugerir Milo sentado se acomodando na cama e pensando que se Camus não tivesse alta logo, ele teria que solicitar um quarto maior e mais confortável.

Camus foi ao seu encontro e se aninhou em seu peito e repetiu o que havia dito. – Eu não sou capaz de cuidar deles, não posso mais ser responsável por eles Milo.

O loiro suspirou cansado, entendia as razões de Camus, Saga poderia ter feito coisas inomináveis com todos eles, não fosse sua obsessão pelo namorado. Sem contar com o fato de que Camus sempre foi muito novo para ter tais responsabilidades sobre seus ombros, uma hora ele iria sucumbir com o peso das responsabilidades.

- Não se preocupe Camus, está tudo sob controle. Os meninos estão sob minha responsabilidade agora, eu estou cuidando deles para você.

Camus sentou na cama olhando o namorado nos olhos, não sabia o que pensar e o que falar, tudo o assustava, tudo o amedrontava, tudo era motivo para desconfianças.

Milo percebendo o olhar temeroso e desconfiado do namorado acrescentou. – O Aioros e a Marin estão me ajudando como podem também. – Não poderia tirar a razão de Camus por desconfiar de tudo, depois de tudo que ele sofreu, depois de passar meses sequestrado pensando coisas horríveis a seu respeito. Milo sabia que não seria facil conquistar a confiança de Camus novamente.

- Como eles estão? – Camus perguntou com voz baixa, deixando transparecer em sua voz o misto de curiosidade e do medo de ter notícia dos irmãos.

Milo sorriu, seu sorriso mais bonito pegou o celular e mostrou as fotos e os vídeos dos meninos. Ali eles estavam brincando com o gato Scorpion onde eles corriam e o gato corria atrás deles, em outro o gato pulava em cima deles na cama, os dois sorrindo se divertindo.

Camus não percebeu que sorria junto, mas com lágrimas nos olhos.

Milo então mostrou um vídeo que os meninos gravaram para o irmão no dia anterior.

Hyoga apareceu na câmara pedindo. “Mano eu sei que você está aí, volta pra gente. Estamos com saudades, a gente te ama” logo depois o menor passou o celular para o irmão do meio que disse “Camus volta pra gente, por favor, a gente precisa de você, eu preciso muito de você”.

Quando Camus olhou para Milo o viu com os olhos cheios d'água. — Eu também preciso muito de você Camus.

Camus acariciou o rosto de Milo aproximando o seu, aproximando sua boca até que elas se encontram e os dois se beijaram. Um beijo cheio de amor e saudades.

Havia sim muito o que falar, muito o que conversar, mas naquele momento eles só queriam ficar ali, juntos, matando a saudade dos cheiros, do gosto da boca, da maciez dos toques na pele.

Os ficaram ali trocando beijos e carícias alheios ao fato de que estavam sendo observados pela câmera de segurança.

Saori, que acompanhava o diálogo dos namorados desde que saiu do quarto de Camus, com Hilda ao seu lado, falou vencida. — Merda! Acho que o Milo tem razão, fazer o tratamento do Camus em sua casa junto dos seus será mais assertivo.






Notas finais
Só para constar eu quero que os dois fiquem juntos e felizes, mas não posso atropelar as coisas, temos que seguir o roteiro. É MUITO difícil encontrar dados científicos sobre o TDI, os médicos mesmo não tem um padrão de tratamento, então é muito comum a eles ministrarem a medicação usada para o tratamento de esquizofrenia, ansiedade e depressão. É isso mesmo um coquetel de ansiolíticos e terapia. Só queria compartilhar essa informação com vocês. Em breve falaremos sobre a doença do Isaak, onde o tratamento, a "pesquisa do pai* foi baseada em casos reais que inclusive eu fiz. Obviamente usando a licença poética para contar essa história. É isso, obrigada por estar aqui comigo 🥰
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.