Na Real
23 Capítulo 23 - La Bouillabaisse
Notas iniciais
Na Real — Capítulo 23
Camus havia terminado de se arrumar para ir encontrar Milo no restaurante francês, não estava muito animado para ir aquela lugar por dois motivos.
Primeiro, o local era frequentado por muitos dos seus ex-clientes e, em geral, essas pessoas não gostavam de ver Camus em locais como aquele, onde eles levavam as suas famílias.
Segundo, pelo preço, odiava pensar que iria gastar mais de um mês de mensalidade da escola dos irmãos em um jantar.
Sem poder evitar, sua mente o levou para a noite em que foi pela primeira vez àquele restaurante.
...
Um empresário contratou os serviços de Saga para fingir que o ruivo era o seu filho adolescente, pois um investidor que tinha tara por garotos de família estava no restaurante, e o tal empresário queria usar essa isca para fechar seu negócio.
Camus foi vestido como um adolescente, coisa que, de fato era na época: tênis, bermuda e camiseta preta com uma caveira desenhada na estampa.
Saga o orientou a se comportar como um adolescente, e apesar de ele SER um adolescente de dezesseis anos na época, não tinha a menor ideia do que "se comportar como um adolescente" queria dizer!
— Pronto, estamos aqui e, para todos os efeitos, hoje você é meu filho. — Alertou Saga. — A pessoa que te contratou quer fazer uma surpresa para um investidor que tem tara por meninos novinhos como você.
— Por que ele não me levou para um motel direto? — Perguntou Camus, confuso com aquele teatro todo.
— Porque, meu querido, esse investidor tem tara por meninos de família, bem criados, e não por um puto qualquer. — Respondeu Saga, sem se importar em medir as palavras.
Camus apenas baixou os olhos, tentando não absorver a fala rude do seu agente.
— Não que você seja um puto qualquer, mas não questionamos os motivos dos nossos clientes, apenas pegamos o pagamento e executamos, ok? – Explicou o mais velho, percebendo sua grosseria; logo pediu um vinho para ele e um suco de laranja para Camus. Como tinham que fazer de conta que eram pai e filho, Saga pediu a entrada para depois pedir o jantar.
Camus não havia reparado que um homem o encarava desde o momento em que ele pusera os pés no restaurante com Saga, mas o agente, sim, notou, e pouco depois que a entrada foi servida, Saga ordenou. — Acho que está na hora de você ir ao banheiro.
Camus o olhou confuso. – Pra quê?
— Vá ao banheiro agora, logo um homem irá atrás de você, deixe-o fazer o que quiser com você, não tome a iniciativa nem o questione, mas finja que é apenas um menino sem experiência. Você vai ser bem pago por isso. Vá!
Camus se levantou e seguiu para o banheiro, mantendo no rosto seu olhar altivo e a expressão blasé. Odiava não saber o que esperar, mas não podia desagradar o Saga, já havia sentido o peso das mãos do aliciador, sabia que era melhor obedecer sem resistência.
Assim que entrou no banheiro, Camus se dirigiu ao mictório, precisava se aliviar de fato.
Mal tinha começado, ouviu a porta se abrindo e logo depois ouviu o barulho da chave trancando o lugar.
Tentou fingir que não tinha percebido nada de estranho, mas não resistiu à curiosidade em olhar para trás para saber o que o esperava.
Lá estava um homem aparentando uns cinquenta anos, terno bem alinhado cinza, pele branca, olhos castanhos que, cheios de cobiça, miravam o garoto à sua frente.
Camus voltou seu rosto para frente e continuou urinando, ou, ao menos, tentou urinar, procurando ao máximo esconder a tensão que sentia.
Foi quando sentiu o homem se encostando atrás, esfregando o falo enrijecido em sua bunda.
Camus levou um sobressalto devido ao choque de ter alguém se esfregando ao seu corpo daquela forma sem aviso.
O homem colocou o dedo na boca e fez: — Shhhh.
Camus continuou parado, olhando para o reflexo do homem no espelho à sua frente, Saga havia ordenado que deveria deixar o homem fazer o que quisesse, mas em nenhum momento o mandou tomar a iniciativa, ao contrário, deveria fingir que era inexperiente, um inexperiente que estava sendo abusado por um estranho no banheiro de um restaurante de ricos.
— Venha aqui, menino, eu tenho certeza que você vai gostar. — Então o homem se ajoelhou na frente de Camus, puxando sua bermuda pra baixo, deixando seu membro pra fora. — Olha que delícia, esses pelos pubianos vermelhos como o seus cabelos, perfeito!
Dito isso, o homem colocou o membro de Camus na boca e começou a sugar.
Camus se encostou na parede e deixou o coroa fazer o que quisesse, tentava não pensar em nada, apenas naquele homem adulto e importante ajoelhado à sua frente lhe "pagando um boquete".
Aos dezesseis anos o vigor é invejável, mas não se tem tanto domínio para segurar o orgasmo, e quando sentiu que o clímax se aproximava, Camus tentou avisar. – Para... para, eu vou... Eu vou...
O homem então sorriu e continuou sugando forte, fazendo Camus explodir em sua boca.
O homem engoliu todo o esperma, completamente realizado.
— Você não vai contar nada para o seu pai lá fora, não é? — Perguntou o coroa.
Camus apenas negou com a cabeça.
— Bom garoto.
Camus achou que ficariam somente no boquete, mas aquele homem estava querendo mais, talvez o álcool não o ajudasse a raciocinar direito sobre o perigo de abusar de um menor de idade num lugar público, ou, ao contrário, o álcool lhe desse a coragem de fazer isso.
Sem o menor cuidado, o homem colocou Camus apoiado na pia, o ruivo ainda tentou falar alguma coisa, mas o homem parecia fora de si, como se tivesse se transformado.
Puxou a bermuda do ruivo para baixo, ao ver as nádegas brancas e lisas como porcelana, separou-as para ver o botão rosado. – Garoto, que maravilha é essa que você tem aqui atrás?
— Moço, o que vai fazer? — Perguntou Camus, receoso e preparado para a investida.
— Você vai ver. – O homem disse, manipulando o membro duro ainda por dentro da calça. — Sem grito, sem choro e sem contar para o papai, ok?
Camus concordou com a cabeça, mas estava um pouco assustado, aquilo tudo ainda era muito estranho para ele.
O cliente tirou o falo para fora da calça, cuspiu suas mãos, e começou a massagear.
Camus levou outro susto quando o homem cobriu sua boca com as mãos, e sem aviso forçou a entrada. A dor alucinante veio no mesmo instante, mas o grito foi abafado pelas mãos firmes que tapavam sua boca.
Não demorou para que seus olhos se enchessem de água, pelo espelho do banheiro, mesmo com a visão embaçada pelas lágrimas que já molhavam o seu rosto, Camus pôde ver a face diabolicamente pervertida daquele homem refletida no espelho, enquanto o penetrava com fúria.
Aquela tortura não demorou muito, afinal, teoricamente, para aquele homem, Camus era mesmo um garoto que estava acompanhado do pai, que poderia aparecer a qualquer momento em busca do filho.
— Se você contar para o seu pai o que aconteceu aqui, eu mato ele, tenho uma arma no meu carro. — O homem ameaçou ainda investindo contra o corpo de Camus. — Mato ele e toda sua família, então quietinho, garoto.
Camus fechou os olhos e esperou que aquilo acabasse o quanto antes. Foi quando a respiração de seu algoz acelerou e seus movimentos também.
Assim que o empresário estrangeiro atingiu o orgasmo, ficou alguns segundo na letargia pós-sexo e afrouxou a forma com que segurava Camus, que rapidamente se desvencilhou afastando se do pervertido. — Eu vou contar para o meu pai! – Disse infantilmente na falta de algo mais enérgico para dizer, ainda estava chorando, estava dolorido e com medo.
— Pois chame e eu digo que você pegou no meu pau primeiro! — O homem falou, se arrumando e se colocando apresentável para sair dali.
— Mas isso é mentira! — Tornou Camus indignado.
— Mas eu acho que seu pai vai acreditar em mim, e se não acreditar, eu já avisei, eu o mato.
O homem olhou para Camus ameaçando outra vez. — Fica na sua e quem sabe a gente não se vê novamente? Eu sei que a partir de agora você vai sempre curtir um "banheirão".
O homem saiu, deixando Camus ali como se fosse algo descartável, algo que se joga fora depois de usar. O ruivo olhou seu reflexo no espelho, o cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos e a expressão assustada, ficou ali estudando sua imagem por um tempo, até que decidiu se recompor, afinal aquela era sua vida e não havia nada que pudesse fazer.
Lavou o rosto, se limpou como pôde, ao menos o cliente escroto havia usado camisinha, deixando a coisa mais limpa.
Quando achou que já estava apresentável, saiu do banheiro, andando com certa dificuldade.
Seu corpo queimava como se todos do restaurante o estivessem olhando e o jugando pelo que tinha acabado de acontecer no banheiro masculino.
Passou por Saga que estava de costas e sentou-se à mesa, com os olhos baixos.
— Ora ora, você demorou. — Comentou Saga, tomando um gole do seu vinho.
Camus nada respondeu, se deu conta que o jantar estava servido.
— Eu pedi o seu jantar, La Bouillabaisse, vamos, coma antes que esfrie mais. — Ordenou Saga, percebendo que havia algo errado, mas não disposto a escutar nada naquele momento. – Vamos, coma.
Camus levantou os olhos para o aliciador. — Saga.
— Coma, Camus a comida aqui é uma das mais caras deste país, então não vamos desperdiçar nada. — Tornou Saga, mostrando a Camus que não estava disposto a ouvir nenhuma queixa. — Coma.
Camus então, sem alternativa, pegou a colher e começou tomar sua Bouillabaisse, fazia um grande esforço para engolir. Sua vontade era sair dali o quanto antes, estava sentado em frente à mesa onde estava o homem que encontrara no banheiro, e tinha a impressão de que aquele homem cochichava com um outro, ambos olhavam para Camus com sorriso maliciosos, o do banheiro ainda acariciou seu sexo discretamente e piscou para o ruivo, que desviou o olhar.
— O que foi, Camus? — Perguntou Saga, estreitando os olhos teatralmente.
— Aquele homem me machucou, eu quero ir embora. — Respondeu Camus, tentando controlar suas emoções para não cair no choro ali mesmo.
— Camus, meu querido, eu prometo cuidar de você a noite toda, mas agora precisamos ficar aqui, coma seu jantar que, como eu já disse, foi muito caro. — Saga falava de maneira pausada, que quem os observasse por fora diria apenas que estavam conversando amenidades e apreciando o jantar.
Derrotado, Camus novamente abaixou os olhos e continuou a comer para não desagradar Saga.
O que ficou daquele dia foi a intolerância de Camus a algumas receitas da culinária francesa, havia adquirido verdadeira repulsa a La Bouillabaisse desde então.
...
Camus sacudiu a cabeça tentando tirar aquelas lembranças fora de hora de sua mente, afinal estava voltando aquele lugar para comemorar uma pequena conquista, “não faz sentido você ficar lembrando dessas coisas, seu idiota”— se repreendeu.
Olhou sua imagem refletida no espelho, estava elegante, camisa social branca com listras pretas, calça preta e um casaco preto. O cabelo resolveu deixá-los soltos caindo sobre as costas.
Após deixar as orientações para Zaíra e para os seus irmãos, Camus chamou um carro de aplicativo, iria para o apartamento de Milo após o jantar e pela manhã decidiria como voltaria para casa.
*-*-*-*-*
Os meninos estavam no sofá, Hyoga jogando no Xbox e Isaak mexendo em seu celular, que foi presente de Milo, Whatsapp Camus deixou que tivesse, porém as demais redes sociais não lhe eram permitidas, mas o menino pensou na dica de Thetis em fazer uma conta fake para as redes sociais. Sabendo que seu irmão não concordaria com essa ideia, Isaak decidiu então acessar o Facebook e o Instagram pelo nome fake de Kraken dos Mares do Norte. Seus amigos adoraram o nome e alguns até criaram perfis fakes para poderem usar as redes sem medo, o que, traduzindo, queria dizer que poderiam postar e entrar em grupos para maiores de idade, em geral com conteúdo pornográfico.
Isaak inicialmente queria apenas poder ver as fotos de Thetis em paz e assim o fazia, passava horas stalkeando a menina.
“Oi, Isaak, o que está fazendo?” — O menino quase caiu do sofá ao receber a mensagem de Thetis pelo Whatsapp.
“Oi, nada, tô de boas em casa.” – Respondeu, pensando que o certo seria dizer “estou de boas em casa curtindo suas fotos do insta”, mas a timidez o impediu.
“Você assistiu The Dark Crystal: Age of Resistance da Neflix?”— Perguntou a menina, puxando assunto.
Isaak, que ainda não havia visto aquela serie, foi sincero. “Não vi ainda, é do quê?”
Os dois adolescentes então engrenaram uma conversa de horas, deixando o caçula Hyoga um pouco enciumado com a ausência da atenção do irmão.
*-*-*-*-*
— Você quer que eu faça o quê? – Aldebaran perguntou, coçando a cabeça se mostrando preocupado.
— Já está na hora de você mostrar lealdade, e se você quiser realmente crescer neste negócio é preciso arriscar, topa ou não? – Saga perguntou direto e com o semblante desafiador.
Aldebaran sabia que naquele momento não tinha muita escolha, se negar a fazer o “serviço” acabaria com a confiança que o seu chefe estava começando a depositar em sua pessoa.
— Tá ok, eu faço, mas pra quando é? E quanto eu vou levar nessa?
Saga sorriu e foi pegar a garrafa de whisky, acertaria os detalhes para o servicinho ao longo da noite.
*-*-*-*-*-*
Camus chegou ao Saveur de France no horário combinado, desceu do carro e ficou olhando para a entrada do lugar, tudo tão fascinante e caro, sempre frequentada pelos ricos cidadãos de bem da Grécia, o ruivo sorriu pelo nariz ao pensar sobre isso, “ricos cidadãos de bem” todos em sua maioria escondiam segredos e perversões que deixariam o diabo constrangido.
Seguiu para a entrada. Então a hostess, uma jovem bonita de cabelos claros, vestida sobriamente com tailleur preto sorriu para ele, mas sem dar o lugar de passagem. – Boa noite, senhor, seja bem-vindo ao Saveur de France, meu nome é Aurélia.
— Boa noite, senhorita Aurélia.
— O senhor tem reserva? — Perguntou a moça, simpática.
— Acho que Milo Kapino fez a reserva para dois.
A moça consultou seu tablet, e voltou o olhar para Camus ainda com o discreto sorriso no rosto, o namorado de Milo chegou a pensar que no fim da noite aquela jovem sairia do trabalho com câimbras no rosto. – Sim, está aqui, por favor me siga, o Sr. Kapino ainda não chegou. O senhor prefere aguardar na mesa ou prefere ficar no bar bebendo algo antes?
Camus pensou rápido, se ficasse no bar e algum ex-cliente se aproximasse, com certeza criaria uma situação constrangedora, preferiu então a primeira opção. – Prefiro aguardar na mesa.
— Certo, me acompanhe, por favor. – Pediu a moça e Camus a seguiu.
O ex-garoto de programa evitou olhar para as mesas do lado enquanto passava, aprendeu isso ao longo de sua profissão “os homens de bem não gostavam de ver o garoto que eles ajudavam a prostituir nos mesmos locais em que estavam com suas famílias”.
— Aqui, senhor, este lugar está de seu agrado?
Camus notou que era o mesmo lugar em que se sentara com Saga anos atrás. – Senhorita Aurélia, por acaso não tem uma mesa mais reservada? Não gostei do lugar.
— Ah claro, posso arrumar outra mesa, mas vai demorar um pouco, o senhor se importa de esperar no bar?
— Olha, tudo bem, eu fico aqui, sem problemas. – Camus disse por fim, não deixaria que coisas bobas que tinham acontecido há anos estragassem sua noite. Olhou para a mesa pensando em qual lado se sentaria, no lugar que se sentara ou no lugar que fora ocupado por Saga? Decidiu então dar as costas à lembrança e se sentou no lugar que foi de Saga, só não contava que as paredes ainda fossem espelhadas, fazendo com que naquele lugar conseguisse ver tudo o que se passava ao seu redor e atrás de si.
Camus suspirou resignado, decidido a não deixar o passado atrapalhar sua noite, foi quando o maître se aproximou. – Boa noite, senhor, deseja fazer o pedido? Devo informá-lo que nossa carteira de vinhos está completa.
— Eu estou aguardando uma pessoa, então só me traga uma água com gás por enquanto, sim? – Respondeu Camus, o maître assentiu e saiu, então Camus olhou em volta, o restaurante estava com movimento, quase todas as mesas ocupadas, o que surpreendeu o ruivo, visto que o lugar era caríssimo.
Ao olhar para o canto direito do restaurante, Camus reconhecer seu ex-cliente Jonh, que estava acompanhado possivelmente de sua esposa e de seus pais, o Pastor Olav, que era um dos maiores políticos homofóbicos do país, mas também era um dos maiores hipócritas que Camus conhecia. O pastor Olav foi um dos primeiros clientes de Camus, mas o escroto só tinha desejo por garotos novinhos, atualmente não contratava os serviços do ex-michê por julgá-lo velho demais.
Camus pensou em trocar de lugar antes que algum dos dois o vissem ali, mas era tarde demais: os olhos de Jonh se cruzaram com os seus, Camus notou a expressão do rapaz mudar na hora, empalideceu chamando a atenção do pai que também olhou na direção do jovem ruivo e fechou a cara.
— Droga! – Disse Camus ao se levantar e sentar de costas para aquela família. – Droga, por que eu fui aceitar vir até aqui? – Resmungou baixo e olhou para o relógio: Milo estava atrasado oito minutos, Logo o garçom chegou com sua água. Camus bebeu um gole e parou, não deveria beber muito líquido, pois isso faria que tivesse vontade de ir ao banheiro e tudo que ele não queria era voltar ao banheiro daquele lugar.
— Aquário. Boa Noite, como vai?
Camus olhou na direção da voz que conhecia, Jonh estava parado à sua frente.
— Senhor, por favor, eu não o conheço, você deve estar me confundindo com outra pessoa. – Informou Camus, voltando sua atenção para a água em seu copo.
— Eu sei que deve estar chateado com o meu sumiço, mas meu pai tem pegado muito no meu pé por causa do dinheiro... fiquei tão feliz em te ver que não pude resistir, tive que vir aqui te cumprimentar. — O rapaz falava como se Camus não tivesse acabado de dizer que não o conhecia.
— Senhor, sua família o espera na sua mesa e eu já disse que está me confundindo com outra pessoa, agora com licença eu estou esperando alguém e o senhor está sendo inconveniente. – Respondeu o ruivo com o olhar mais congelante que conseguiu.
— Jonh, meu filho, não vai me apresentar seu amigo? – O pastor Olav perguntou ao se aproximar do filho e olhar para Camus de forma rude.
— Seu filho se confundiu, eu não o conheço. – Respondeu Camus, sem se importar com o olhar de descaso do velho hipócrita.
— Me desculpe, você me lembra muito um amigo meu, da faculdade. – Jonh respondeu enfim voltando à realidade e se dando conta que havia deixado sua família na mesa para ir falar com o ruivo por quem tinha um absurdo desejo.
— Pastor Olav?
— Milo Kapino, como vai? Seus pais estão bem? – Perguntou o pastor mudando sua fisionomia ao falar com o filho de seu amigo.
— Sim, estão bem. – Disse Milo, analisando aquela situação. O que aqueles homens iriam querer com Camus? Tanto o Pastor Olav quando seu filho Jonh era religiosos fervorosos e ambos eram radicais homofóbicos, obviamente seu sempre soube que Jonh era homossexual que vivia no armário, muito possivelmente por causa do pai. – O que fazem aqui? – Milo perguntou com a expressão mais séria.
— O rapaz me confundiu com um amigo de faculdade, mas já desfizemos o engano. – Camus respondeu, deixando transparecer um pouco de nervoso.
— Sim, foi isso, vamos, Jonh, nossas esposas nos esperam na mesa. – O pai de Jonh disse, se retirando com o filho do lado.
Camus abaixou os olhos enquanto Milo sentava-se à sua frente.
— Camus? – Milo chamou, não podia negar que tivera ciúmes quando chegou e viu os dois homens parados ao lado de seu namorado. – São clientes seus?
O namorado o olhou nos olhos antes de responder um tanto chateado. – Eram, não são mais, achei que tínhamos vindo aqui justamente para comemorar meu novo emprego, não é?
Milo nada respondeu, estava irritado, enciumado, não tirava os olhos dos homens que já estavam sentados ao lado das esposas, mas notando que o mais jovem sempre que podia olhava para a sua mesa. — Os dois? Os dois foram seus clientes?
— Sim. – Respondeu Camus, tentando parecer indiferente àquela situação, mas cada vez que Milo falava alguma coisa era como se uma faca estivesse sendo cravada em seu peito.
— O Pastor Olav? Um dos caras mais homofóbicos que existe, foi seu cliente? Eu não consigo acreditar. – Perguntou novamente Milo, que estava com ciúmes, sem perceber que estava sendo no mínimo inconveniente com seu namorado.
— Você ficaria surpreso com a hipocrisia dos homens, principalmente dos religiosos. -Respondeu Camus de forma controlada, mas controle que só existia por fora uma vez que por dentro estava em ebulição, com seus pensamentos a mil.
— Juntos? Você transava com os dois juntos? Pai e filho? – Milo perguntou abruptamente, olhando para Camus pela primeira vez desde que chegara.
Camus, que estava a ponto de ter uma síncope, já sentia seu corpo tremer, mas ainda assim conseguiu responder a pergunta de Milo. – Não, o pai eu atendia no começo da minha carreira, ele só gosta de meninos novos, e o filho foi bem mais tarde, mas acho que eles não sabem que ambos treparam com o mesmo maldito michê.
Somente depois de ouvir as palavras de Camus foi que Milo percebeu o quanto estava sendo invasivo com seu namorado, respirou fundo antes de tentar dizer alguma coisa. – Camus... eu... desculpe, mas essas coisas ainda são difíceis pra mim.
O namorado sorriu triste antes de dizer. – Acredite Milo, elas são ainda mais difíceis pra mim.
Milo tentou falar alguma coisa mas o maître chegou à mesa naquele momento, então os dois se calaram.
— Boa noite, senhores, desejam fazer seus pedidos? – Perguntou o homem solícito, alheio ao clima pesado que havia se instaurado na mesa.
— Ainda não tive tempo de olhar o cardápio. – Milo respondeu, um tanto ríspido.
— Perfeitamente, o senhor gostaria de ver nossa carteira de vinhos? Temos um excelente sommelier que pode vir auxiliá-lo. – Sugeriu o maître, sem levar em conta a forma rude como Milo havia falado.
— Me traga um whisky. – Pediu Milo, sem olhar para o homem, que apenas respondeu um “perfeitamente” antes de se retirar.
— Camus... – Milo tentou falar, mas seu namorado fez sinal com a mão para que ele o deixasse falar primeiro e foi atendido.
— Milo, eu acho que deveríamos parar com isso. – Camus fez sinal apontando para ele e Milo. – Antes que a gente se machuque mais. O Saga tem razão.
— O Saga, razão em quê? Você tem falado com aquele homem? – Perguntou Milo, atropelando Camus, que novamente fez sinal para que o loiro o deixasse continuar.
— Não, há tempos não falo com ele, mas uma coisa que o Saga sempre me disse é que pessoas como eu não têm o direito a uma vida normal, porque as pessoas que não vivem nossa realidade nunca vão entender...
Os olhos de Camus já estavam lacrimejando, mas o ruivo, que ainda mantinha toda sua postura altiva, continuou. – Eu realmente sinto algo muito forte e especial por você Milo, muito forte. Eu te amo como nunca pensei que eu fosse capaz de amar alguém na minha vida, mas sei que se adiar tudo isto, esse fim pode ser ainda mais doloroso pra mim. Nós somos de mundos extremamente diferentes, nunca vai dar certo.
Camus fez menção de se levantar, mas Milo segurou em sua mão por cima da mesa. – Caramba, eu só faço merda mesmo, Camus me perdoa, eu sei que fui rude, isso é tão novo e diferente pra mim, mas eu te amo, te amo muito. Acho que eu não sei mais viver sem ter você na minha vida. Eu sei que a gente é diferente, de mundos diferentes, mas eu sei que o nosso amor é mais forte que qualquer coisa e que juntos nós vamos superar tudo.
— Eu tenho medo, Milo, eu tenho tanto medo de te perder, eu sei que é muito difícil pra você, namorar um cara que... – Camus sorriu triste. – Um cara como eu, que já fez as coisas que eu fiz, que trocou sexo por dinheiro, que se deixou filmar. Você não é obrigado a passar por este constrangimento de estar no seu ambiente natural e dar de cara com ex-clientes ou quem sabe algum pervertido que assistiu meus filmes, eu não tenho o direito de fazer você passar por esse tipo de situação, isso não vai acontecer novamente.
— Camus...
— Milo, pelo amor de Deus eu preciso sair desse lugar, eu não estou conseguindo respirar aqui, por favor. – O ruivo disse, se levantando e indo em direção à saída, Milo ficou alguns instantes parado, mas também se levantou, abriu sua carteira e jogou algumas notas na mesa, e saiu atrás de Camus.
Quando alcançou a rua olhou para os lados à procura do namorado, viu Camus no final da rua encostado num muro com a cabeça levantada e a respiração pausada.
— Eu não vou terminar nada, eu amo você, amo demais. Eu sei que deve ser difícil para você namorar um cara idiota como eu, mimado, grosso, egoísta, playboy do caralho que não sabe nada da vida, mas por favor, me dá mais uma chance. – Pediu Milo, que realmente estava preocupado com o namorado, pela segunda vez percebia que Camus estava a um passo de ter uma crise nervosa. – Camus, está tudo bem, fica calmo e respira.
Milo gostaria de ir pegar uma água para Camus, mas não queria deixá-lo sozinho, então ficou ao lado do namorado em silêncio, analisando-o com cuidado. O irmão de Isaak permanecia com os olhos fechados, inspirando e expirando, tentando voltar ao normal.
Quando o ruivo finalmente abriu os olhos encontrou os azuis de Milo preocupados fixos nos seus. Os dois ficaram em silêncio apenas se observando, o loiro foi o primeiro a falar.
— Camus me perdoe, eu estraguei tudo, era sua noite de comemoração e eu te deixei assim. – Disse acariciando o rosto do namorado.
— Milo, meu mundo é muito pesado, você não é obrigado a passar por isso, ainda é tempo de... – Camus não terminou de falar, pois o loiro colocou o dedo em seus lábios.
— Eu amo você, eu te amo como eu nunca amei ninguém, eu preciso de você como eu nunca precisei de ninguém, eu sei que não vai ser fácil pra mim e sei que não vai ser fácil pra você, mas eu não vou desistir no primeiro obstáculo. Eu agi como um babaca lá dentro, mas foi por ciúmes em saber que aqueles caras escrotos tocaram em você, minha raiva é deles, não de você. O Pastor Olav é amigo do meu pai, sempre foi um escroto homofóbico, sempre colocou ideias erradas na cabeça do meu pai, dai eu fico sabendo que ele não passa de um hipócrita, fiquei puto.
Enquanto Milo falava Camus tentava analisar o quão abismado ficaria o amado se soubesse tudo que já acontecera consigo, se Milo soubesse que era apenas um menino quando o tal Pastor começou a usar os seus serviços. “Será que devo contar a verdade a ele? Toda minha história?”— pensava Camus – “Não posso contar nada, isso só traria problemas ao Saga!”— Decidiu por fim.
— ... Já o Jonh, esse é um enrustido, isso todo mundo sabe, tem e deve ter ainda vários casos com homens às escondidas, até meu pau ele já chupou. – Confessou Milo para surpresa de Camus. – Ué, o que foi? Todo muito tem um passado, meu querido. – Comentou sorrindo. – Nas festas e recepções que meu pai dava na minha casa o Jonh vivia à espreita na porta do banheiro, chupou o meu como já chupou o de vários caras dessa forma. Você aí se sentindo mal, você não sabe metade das baixarias que rolam nas casas das pessoas ricas, religiosas e de bem.
Camus finalmente esboçou um sorriso e Milo o abraçou, sentiu o cheiro daqueles cabelos rubros que aquecia seu coração. – Eu achei esse lugar bem caidinho, melhor a gente ir pra outro lugar, o que acha?
— Vamos para o seu apartamento ou para o meu. – Pediu Camus, que preferia o conforto e a privacidade de uma das duas opções.
— Ok! Mas... por mais que eu adore seus irmãos, acho que hoje a gente precisa ficar sozinho pra comemorar pelados, ouvir dizer que dá muita sorte esse tipo de comemoração.
Camus sorriu e entrou na brincadeira. – Pelados? Até amanhã de manhã?
— Pelados até de manhã! – Respondeu Milo beijando seu namorado com amor, que correspondeu ao beijo com urgência. Quando o beijo findou o jovem Kapino passou o braço sobre o pescoço de Camus o abraçando enquanto foram andando até onde estava o seu carro.
Dentro do restaurante Jonh encarava a cena, pela parede de vidro blindado fumê, para o desgosto de seu pai, que somente se importou de ver Camus ali por não achar o rapaz digno de frequentar os mesmos lugares que eram frequentados por famílias de bem. As mulheres presentes não se manifestaram, foram educadas para não discordar ou questionar os homens da família.
.....
No carro, Milo por vezes olhava para Camus a fim de verificar se o namorado estava melhor. Camus estava pensativo, apenas olhando a paisagem pela janela. O jovem Kapino se lamentou por ter sido rude com o namorado, precisaria controlar seu ciúme se quisesse que aquele relacionamento desse certo. Estava completamente apaixonado pelo ruivo, não era só paixão, Milo sabia que o que sentia por Camus era amor, pois amava tudo nele, o beijo, a pele, o toque, os cabelos, os olhos, o jeito blasé, os irmãos e, por incrível que parecesse a Milo, a pureza, pois conhecendo Camus na intimidade, sabia-o puro.
Milo então virou em uma esquina e entrou no estacionamento de um mercado no bairro em que morava.
— Milo, o que está fazendo? Por que paramos aqui?
— Meu caro, nós temos uma comemoração hoje, eu te prometi um delicioso jantar, e é isso que você terá. – Disse Milo desligando o motor do carro.
— Não, Milo você deve estar cansado, a gente pede alguma coisa quando chegarmos. – Sugeriu Camus com uma pontada de culpa por estar dando mais trabalho para o namorado que não tinha culpa dos seus traumas.
— Você está me dizendo que vai me privar de fazer uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida? – Perguntou Milo, se fingindo indignado.
— Como assim? – Perguntou Camus confuso.
— Eu adoro cozinhar para as pessoas que eu amo, há muito tempo não faço isso, então não me prive disso, ok?
Camus nada respondeu apenas assentiu e seguiu com Milo ao mercado.
— Milo, as coisas aqui são absurdamente caras, quase o dobro do que eu pago quando faço compras. – Comentou Camus olhando as mercadorias na prateleira.
— É, têm um preço salgado mesmo, mas é um mercado para emergências, então vamos dar esse desconto. – Respondeu Milo, olhando para o namorado, achando graça das caretas que ele fazia sempre que pegava algum produto.
— Vou fazer um salmão assado com molho de mostarda e mel, você gosta? – Perguntou Milo.
— Nossa, deve ser uma delícia. – Respondeu o namorando pensando no quanto aquilo iria custar.
Milo já havia colocado os ingredientes para o jantar na cesta, quando seguiu para a adega do local. – Temos que escolher o vinho que vai nos acompanhar no jantar.
— Confesso que pouco entendo de vinhos, digo para fazer a combinação correta com a comida, essas coisas. – Comentou Camus.
Milo, que modestamente era um grande apreciador da bebida e já havia feito alguns cursos e viagens sobre a rota dos vinhos, respondeu, didático, sem parecer esnobe. – Para o molho de mostarda e mel, que é leve, agridoce e tem notas delicadas – Milo fez um gesto com as mãos. — o ideal para harmonizar salmão e vinho são as uvas Vignoner e Chardonnay.
Camus o olhou confuso. Milo sorriu e continuou a explicação. – A uva Vignoner apresenta aroma de chás e flores, delicada oleosidade no paladar e “final de boca” delicado, entende? Aquele gostinho final.
Camus confirmou que estava entendendo, ou ao menos tentando entender, e Milo prosseguiu. – Os vinhos da uva Chardonnay encantam com o aroma de frutas cítricas, final de boca amanteigado e acidez sutil.
Milo então olhou para Camus e perguntou. – E então, qual dos dois vamos levar?
Camus, mostrando que realmente tinha entendido um pouco da lição que recebeu, parou em frente à prateleira dos vinhos olhando para as duas garrafas que Milo indicou. — Esses vinhos têm acidez mediana e agradável, além de aromas sutis de ervas, acidez refinada.
Sorrindo com para o seu “aluno” Milo respondeu. – Exatamente!
— Então vamos de Chardonnay. – Respondeu o ruivo, pegando a garrafa.
— Acho melhor levarmos duas, não quero dormir cedo essa noite. – Comentou Milo, pegando outra garrafa.
Milo notou que o clima já estava melhor e Camus já estava mais leve.
....
— Eu não sabia que você gostava de cozinhar, é uma surpresa pra mim. – Comentou Camus, sentado no balcão da cozinha goumert de Milo.
— Como não? Eu já cozinhei para você, algumas vezes. – Respondeu Milo, preparando o jantar.
— Sim, mas achei que tinha sido por emergência e não por prazer. – Respondeu Camus.
— Como eu disse, gosto de cozinhar e fazer isso para as pessoas que eu amo é melhor ainda.
— Já cozinhou para muita gente? – Camus perguntou curioso e com uma ponta de ciúme. – Para amigos, namorados?
— Para amigos sim. – Milo parou, pensativo. – Na verdade eu nunca tive um namoro que tenha durado o suficiente para que o trouxesse para minha casa e tivesse vontade de cozinhar, eu nunca tive isso que nós temos com ninguém.
Camus sorriu com o peito aquecido, também nunca havia vivido aquilo com ninguém, nem com Saga.
Saga era bom e carinhoso quando queria, mas jamais foi para a cozinha preparar alguma coisa para Camus, no máximo ele pedia comida e, enfim, em se tratando de Saga, era uma super prova de carinho e atenção.
— Camus, as taças de vinho ficam naquele armário e o abridor na segunda gaveta deste balcão, por favor, faça as honras.
Camus prontamente foi atender ao pedido de Milo, pegou as taças no armário e o abridor na gaveta, abriu o vinho e serviu uma taça a Milo e em seguida se serviu da outra. – Pensei que o vinho era para acompanhar o jantar. – Comentou.
— Sim, meu caro, o jantar começa na sua preparação. – Respondeu Milo, pegando seu namorado pela cintura e beijando sua boca.
Assim que o beijo findou, Camus sorriu, aprovando o que foi dito pelo namorado. Tinha a sensação de que o mal-estar do restaurante havia acontecido há muito tempo, tamanha era a paz e satisfação que a presença desse Milo romântico e atencioso lhe transmitia.
— Pronto, agora bastam alguns minutos no forno e nosso jantar estará pronto. – Disse Milo, sorrindo para Camus. – Vamos para a sala de jantar, preciso colocar a mesa, hoje é noite de comemoração.
— Pelos deuses, Milo! Quanto trabalho, não precisa, podemos nos servir aqui mesmo. – Começou Camus, mas logo foi interrompido por Milo.
— Não, não. Hoje é sua noite e você merece o mundo, OK?
Os rapazes arrumaram a mesa com a louça maravilhosa que Milo tinha, com o jogo de pratos quadrados, guardanapos de linho... Milo colocou uma música para os embalar enquanto faziam as preparações de última hora. Ao ver a expressão do namorado mais leve e tranquila, Milo se culpou por não ter aceitado a ideia de Camus de ficaram em seu apartamento logo de uma vez.
Quando os olhos de Milo procuraram Camus, o jovem Kapino o viu com os olhos fechados tomando um gole em sua taça de vinho, enquanto ouvia Perhaps Love na voz de John Denver. Uma visão dos deuses, Milo poderia dizer, aquela música sempre fora uma de suas preferidas, mas naquela noite ela ganhou novo significado. O loiro se aproximou do namorado, que levou um leve sobressalto ao toque, Milo pegou a taça das mãos de Camus e colocou em cima da mesa, voltou as mãos para a cintura do namorado e fez o convite mudo para uma dança.
Pedido que foi aceito imediatamente pelo ruivo, os corpos se encostaram, os olhos fixos, os azuis de Milo e os cor de mel de Camus, um preso no outro por uma força que não saberiam explicar.
Perhaps love is like the ocean, full of conflict, full of pain
Like a fire when it's cold outside, thunder when it rains
If I should live forever, and all my dreams come true
My memories of love will be of you
Talvez o amor seja como o oceano, cheio de conflitos, cheio de dor
Como uma lareira quando faz frio lá fora, como o trovão quando chove
Se eu vivesse para sempre, e todos os meus sonhos fossem realizados
Minhas lembranças de amor seriam de você
Quando a música findou, o casal estava no meio do beijo que nenhum dos dois saberia dizer como começou, mas tinham a certeza de que não queriam parar tão cedo. O timer do forno, porém, tocou os tirando do paraíso: Milo colou sua testa na de Camus, com um sorriso nos lábios. – Essa vai ser nossa música agora. – Camus assentiu, sorrindo também.
— Pelos Deuses, nosso jantar! – Bradou Milo correndo pra cozinha, e Camus foi em seu encalço.
...
Após o jantar os namorados sentaram-se no sofá para continuar bebendo o vinho e conversar um pouco. – Milo, você tinha razão, esse vinho combinou perfeitamente com nosso jantar, sem contar que ele é uma delícia.
— Que bom que gostou, ao menos conseguimos apagar o clima pesado do restaurante. – Comentou Milo observando o namorado.
— Não vamos mais falar sobre aquele lugar, nossa noite começou quando fomos ao mercado, OK? – Pediu Camus, antes de beber um gole de sua taça de vinho.
— Camus, tem um assunto que eu preciso falar com você sim. – Começou Milo. – Vou falar porque estou preocupado e sua saúde me preocupa.
Camus olhou para o namorado confuso.
— Camus, essa noite foi a segunda fez que presenciei você tendo o início de uma crise de pânico, você faz algum tratamento, já foi ao médico ver isso? – Perguntou Milo cuidadoso.
— Eu não tenho crise nenhuma! – Respondeu Camus, colocando sua taça na mesa de centro.
— Meu amor, tudo bem. Não é fraqueza nenhuma ter problemas, eu sei ver os sintomas, minha avó sofreu com isso durante muito tempo, eu sei ver os sintomas. – Repetiu Milo calmo, ainda observando as reações do namorado. – Se você ainda não está se tratando eu marco um médico para você, nós vamos juntos à consulta. – Sugeriu.
Camus estava dividido entre negar seu problema ou se jogar nos braços de Milo que estava preocupado com sua saúde, “há quanto tempo ninguém se preocupa assim comigo?”, pensou.
— Tudo bem, eu tomo ansiolíticos há algum tempo, não faço uso diário porque realmente é desnecessário. – Respondeu Camus, olhando para Milo de forma desafiadora.
— Foi um médico quem receitou e pediu para que tomasse dessa forma? – Perguntou Milo ainda não satisfeito.
— Claro que sim! – Mentiu Camus, com seu melhor olhar blasé.
Milo fitou os olhos do namorado antes de dizer. – Tudo bem, então.
— Eu acho que a gente poderia terminar de beber essa garrafa no seu quarto, o que me diz? – Perguntou Camus sedutor, sentando no colo do namorado e beijando seu pescoço.
— Excelente ideia! – Respondeu Milo beijando o namorado com paixão.
*-*-*-*-*-*-*
Saga estava em seu escritório, mal-humorado, havia sido avisado de que Camus passaria a noite com Milo, sentia seu ódio pelo loiro aumentar todas as vezes que isso acontecia.
Para Saga, Milo estava apenas brincando com Camus e logo se cansaria do ruivo, mas essa brincadeira estava se estendendo muito, na opinião do Aliciador, e já estava atrapalhando os negócios.
Muitos clientes ligavam querendo o Aquário, exigiam o ruivo, mas na falta de Camus, Saga começou a enviar Sorento, o filho da velha Zaíra, que nem sonhava que seu filho estava sendo comercializado, contudo, apesar de ser novinho como os clientes gostavam, Sorento não tinha metade do sex appeal de Camus, que exalava sensualidade, até mesmo quando não queria.
O celular de Saga tocou, ele olhou no visor e identificou a chamada, era o velho Kido, dono de uma das maiores produtoras eróticas da Europa. Foi graças ao convite dele que Camus viajou para a França para fazer o filme que o levou a conhecer o maldito Kapino filho.
— Sr. Kido, quanta honra.— Disse Saga ao atender a ligação.
— Saga, meu querido, a honra é sempre minha, como estão as coisas na produtora?
— Tranquilo, não tão bem quanto você, mas estou levando. Diga, o que quer?— Perguntou Saga direto, não tinha paciência para conversas infrutíferas, principalmente quando estava nervoso.
— Direto, como eu gosto. – Comentou o homem do outro lado da linha. — Quero fazer outra parceria, tenho um trabalho para fazer, um filme só com ruivos e ruivas.
— Um ruivo comendo o outro? Não vai ficar esteticamente estranho?— Perguntou Saga que tinha conhecimento de causa para aquela observação.
— Não, os ruivos serão os passivos, tanto as meninas quanto os rapazes, enquanto seus pares serão pessoas com a pele bronzeada e negros, vamos abusar da mistura café com leite.
— Entendo.
— Quero começar a filmar no próximo mês, vamos acertar o preço, eu quero o Aquário neste filme.
Saga ficou em silencio, teria que colocar o seu plano em pratica o quanto antes, iria tirar aquele playboy da vida de Camus o quanto antes de uma vez por todas.
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