Na Real
25 Capítulo 25 - Verdades
Notas iniciais
Na Real — Capítulo 25
— Ei o que tá acontecendo? Estou achando você estranho, foi alguma coisa no trabalho. — Questionou Milo que já conhecia o namorado bem o suficiente para notar quando algo não estava bem, apesar do ruivo disfarçar muito bem seus sentimentos.
— Você parece que lê minha alma, sabia? — Comentou Camus um tanto desconfortável com a presteza de Milo. — Eu estou preocupado com o Isaak. — Comentou Camus por fim.
— O que houve com o Isaak? Ele teve nova recaída? — Questionou o jovem Kapino com uma nota de preocupação.
— Calma, ele tá bem, quer dizer, não sei Milo. — Suspirou. — O Isaak está estranho há dias, arredio, rude até. Não sei o que está acontecendo com meu irmão. Sem contar que ele anda abatido, mas não quer ir ao médico. — Desabafou Camus um tanto chateado com o irmão.
— Que estranho o Isaak sempre me pareceu um menino doce, será que é problema do coração? Ele tava afim daquela menina... Esqueci o nome.
— Thetis. — Respondeu Camus.
— Isso Thetis! Ele estava super afim dela. — Respondeu Milo sorrindo. — Talvez seja só a adolescência chegando, a gente fica meio pentelho na adolescência, não lembra?
Perguntou Milo sem saber de como foi a adolescência de Camus, que preferiu nada responder.
— Tem certeza que é só isso, você está tenso, sei lá. — Observou Milo.
Camus não poderia contar Milo que havia marcado de se encontrar com Saga no próximo sábado, tinha certeza de que o namorado não entenderia.
— Tenho sim, eu estou bem, mas chega de falar de mim, me conta como estão as coisas aí?
Milo analisou o rosto do namorado pela câmera por alguns segundos antes de mudar a expressão e sorri para o namorado e começou a falar sobre seu trabalho e projetos futuros.
Camus sorriu também, adorava ouvi Milo contando suas histórias.
.*.*.*.*.
O dia estava nublado, chovia hora sim hora não, quando Camus estacionou seu carro em frente à casa de Saga, havia se passado alguns meses desde a última vez em que esteve naquele lugar.
Tanta coisa havia mudado desde então em sua vida, em sua alma, em suas certezas, não seria fácil dizer a Saga pela segunda vez que não trabalharia mais para ele, que havia mudado de vida, que estava disposto a ter uma vida "normal" e principalmente que estava apaixonado por Milo e esse amor era correspondido.
Camus acreditava que Saga aceitaria e o deixaria ir como da outra vez, pois dessa vez não havia mentiras, Milo sabia da sua vida e o aceitou assim.
Ao chegar em frente a porta tocou a campainha e aguardou, logo um homem alto e forte abriu a porta.
— Thor? — Camus reconheceu, o grandalhão também atuava na indústria de entretenimento adulto, eles ainda não haviam trabalhado juntos, mas se conheciam dos bastidores, Thor colecionava prêmios em sua categoria, Bara.
— Olá Aquário quanto tempo. — Respondeu o grandalhão ao dar passagem para o ruivo. — Veio para a filmagem?
Camus não estava esperando que estivessem gravando naquela tarde, afinal fora Saga quem marcou aquele encontro. — Não, na realidade não, vim para falar com Saga, ele deve estar me esperando.
— Claro você sabe o caminho. — Respondeu Thor com um sorriso um tanto cínico, indicando o caminho para Camus, que não notou a malícia com que era observado pelo gigantesco rapaz.
— Saga? — Camus chamou entrando pela casa, ao entrar na sala principal viu Saga sentado na cadeira de filmagem, olhando pela câmera como se já estivesse filmando. — Saga me desculpe, não quero atrapalha, eu posso esperar você terminar para que a gente possa conversar ou posso voltar outro dia se preferir.
Saga nada respondeu, continuava a olhar pela câmera filmando Camus que sacudiu a cabeça em negativa. — O que está fazendo? Quer que eu espere lá fora? — Perguntou sentindo um mal pressentimento de repente. — Saga por que está me filmando?
— Porque ele não quer perder nenhum detalhe da nossa festinha. — Camus ouviu a voz de Thor próximo a sua orelha, mas não teve tempo de nenhuma reação uma vez que o ex colega de profissão o abraçou por trás e estragou o membro rijo em suas nádegas.
— Ei que merda é que você pensa que está fazendo? – Questionou Camus tentando se soltar. – Eu não gosto desse tipo de brincadeira.
Mas apesar das reclamações e de tentar se soltar Thor não fazia a menor questão de soltar Camus, ao contrário beijava seu pescoço e se esfregava no ruivo o máximo que podia.
— Me larga seu idiota! – Gritou Camus enfim conseguindo se soltar e empurrar o grandalhão que caiu sentado no sofá. Se virando para Saga falou irritado. – Eu volto aqui outro dia, não quero atrapalhar seja lá o que for que vocês estão fazendo.
Saga continuava mudo, apenas filmando toda a ação a sua frente.
— Você não vai a lugar algum, você vai ficar aqui e ser bem bonzinho comigo. – Disse Thor já de pé com os braços abertos sorrindo malicioso.
— Que porra de brincadeira é essa? Que merda está acontecendo aqui? — Questionou Camus olhando para os lados, tentando entender o que se passava ali. Saga estava filmando Thor em uma cena solo? Haviam mais pessoas na casa? Se sim, onde estavam?
Camus foi surpreendido pelo gigante que o abraçou com força tentando beijar sua boca.
Com a nova recusa e com o novo gesto do ruivo de afastar o outro, Thor perdeu a paciência e o golpeou com um forte soco o levando ao chão.
Caído no chão Camus colocou a mão na boca e viu que sangrava, olhou atônito para Saga que nenhum movimento fazia em sua defesa, depois voltou os olhos para o grandalhão que o agrediu e com a voz tremula perguntou. – Por que fez isso? O que eu te fiz?
— A pergunta é o que você ainda não fez, e a resposta é sexo comigo, nenhuma cena se quer comigo, mas vamos corrigir esse erro hoje e agora. – Respondeu Thor com cara de poucos amigos.
O coração de Camus gelou, não sabia o motivo de aquilo estar acontecendo, mas com sua experiência de vida, já sabia muito bem o que estava para acontecer, tentou se afastar para correr até a porta e quem sabe chegar até seu carro, sabia que jamais conseguiria lutar contra aquele gigante, o namorado de Milo até tentou correr, mas Thor o pegou antes que conseguisse ir muito longe o derrubando no chão novamente, porém desta vez o gigante além dos socos, tentava tirar suas roupas e as rasgava quando podia.
— Thor por favor, não faça isso, por favor, não. – Pediu Camus já com os olhos lagrimejando, após tentar de todas as formas lutar contra seu agressor, se arrependeu de não ter feito as aulas de defesa pessoal que Aldebaran tanto insistiu que fizesse.
— Se eu for bonzinho com você, você vai ser bonzinho comigo também e dar pra mim sem essa marra toda? – Perguntou o gigante que estava imobilizando Camus debaixo de si.
Negando com a cabeça Camus pediu novamente. – Por favor, me solta, por favor. – Camus se debateu tentando se soltar, dessa vez foi contido por um soco no estomago e o fez gritar de dor.
Thor se aproveitou deste momento para abri as calças de Camus e puxá-las para baixo. – Aquário toda essa luta me deixou muito excitado, agora eu finalmente vou poder experimentar a sensação de estar dentro de você.
Thor disse aquelas palavras movimentando seu membro que realmente estava rijo como se toda aquela violência o excitasse de fato.
— Não! – Camus tentou se soltar uma última fez, mas levou um soco no rosto que o deixou desnorteado, foi o suficiente para que Thor o virasse de costas e cuspisse em sua entrada.
Em uma última tentativa Camus olhou para Saga que filmava tudo em silencio e suplicou. — Saga, por favor, me ajuda, não deixa ele fazer isso comigo, Saga! Por favor!
Mas como se Camus estivesse dentro do seu pior pesadelo Saga apenas sorriu cínico, foi então que soube. – Kanon!
Seu coração gelou, tudo estava perdido.
Camus sentiu Thor posicionar seu membro rijo em seu ânus, ainda tentou se mover, mas um soco na costela o desarmou.
Foi apertando os olhos devido a dor latente que invadiu seu corpo que Camus sentiu a vergonha e a humilhação de ser estuprado novamente. Queria não gritar, ser forte para aguentar aquilo novamente, mas Thor era conhecido por ser avantajado, sexo normal já seria dolorido, com violência então seria impossível ficar indiferente.
Então Camus gritou.
Gritou de dor.
Gritou de desespero.
— Para, por favor! Para com isso você tá me machucando, para! — Implorou Camus para o seu algoz, mas como resposta Thor apertou seu pescoço com uma chave de braço e ameaçou.
— Parou a palhaçada, ou você relaxa me deixa terminar o que eu comecei, ou eu vou apertar o seu pescoço até você dizer adeus para esse mundo, hum? O que me diz Aquário? Vai ser do jeito fácil ou do jeito difícil?
Sem ar Camus que se debatia e estava a ponto perder os sentidos concordou. — Ok, ok só solta meu pescoço.
Assim que o gigante o soltou Camus sentiu seu corpo amolecer, como se tivesse anestesiado. Thor o virou de frente se posicionando entre suas pernas e voltou a invadir seu corpo novamente, mas desta vez o ruivo permaneceu imóvel cabeça para o lado para evitar olhar nos olhos do seu estuprador, de sua boca nem um som era emitido, seus olhos, contudo não conseguiam prender as lágrimas que saiam teimosamente.
Thor o invadia com fúria, por vezes segurava a cabeça de Camus para beijar sua boca.
O ruivo, entretanto, continuava imóvel como um boneco sem vida, não evitou o beijo, mas também não correspondeu.
— Ahh Aquário eu sempre quis te foder, ahhhh. — Gemeu o gigante.
Os olhos de Camus encontraram os de Kanon que o encarava de volta por trás da câmera captando toda a ação daquela cena deplorável e exibia no rosto uma expressão doentia de contentamento.
O suplício de Camus não tardou a acabar, com mais algumas estocadas notou a respiração do seu agressor falhar assim que e ele apertou sua cintura com vigor gemendo e uivando, o ruivo soube que o orgasmo do seu algoz chegara.
— Ahhh hunng Ahhh Aquário puta que pariu! — Berrou por fim tirando seu membro para fora e gozando em cima do rapaz ruivo imóvel no chão.
Quando Thor saiu de cima de Camus, este ainda ficou imóvel por um tempo no chão, se sentindo imundo, sujo, humilhado.
Queria ir embora daquele lugar, procurou suas roupas, ou o que havia sobrado delas.
Thor sentou no sofá com as pernas abertas colocou as mãos por trás de sua cabeça como se relaxasse após um sexo gostoso e não como se tivesse acabado de violentar sexualmente uma pessoa. — Achei que você fosse mais quente Aquário, em alguns momentos pensei estar fodendo uma pedra de gelo.
O ex Garoto de Programa estava atordoado com o pensamento fixo em sair dali, mas seu corpo não acompanhava sua mente, pois ainda estava sentado no mesmo lugar, procurando em volta com os olhos o que sobrou da sua roupa.
Quando ouviu-se um barulho na porta de entrada e passos pela casa, Camus olhou na direção dos passos tentando cobrir sua nudez, temendo por sua integridade física devido a conhecida mente pervertida e cruel de Kanon.
Seu coração explodiu num alívio ao ver Saga entrando na sala.
— MAS QUE MERDA ESTÁ ACONTECENDO AQUI! — Perguntou o gêmeo de Kanon completamente irritado olhando aquela cena a sua frente.
Thor arregalou os olhos surpreso, pois desconhecia a existência de “dois Sagas” — Mas o que?
Kanon por sua vez manteve o olhar blasè e cruzou os braços.
— Saga me ajuda! Por favor, por favor! — Pediu Camus sentindo finalmente lágrimas rolarem por seu rosto.
Suas emoções afloraram com a presença de Saga, o único protetor que conhecia.
— Camus, meu querido o que está acontecendo aqui? — Perguntou Saga com tom de voz ameno se ajoelhando para manter os olhos na altura dos do ruivo que ainda se encontrava nu e sentado no chão.
— Me ajuda, me tira daqui. — Disse Camus abraçando Saga, que correspondeu ao abraço acomodando Camus no seu peito bancando o protetor.
— Vem comigo, meu querido. – Pediu Saga cobrindo a nudez de Camus com seu casaco e o ajudando a levantar.
Saga levou o jovem para o seu quarto, lá perguntou com a voz baixa e terna. – O que houve? Por que você está assim, me diga o que aconteceu?
Mesmo com o sentimento de humilhação latente do seu peito, Camus secou as lágrimas que ainda rolavam em seu rosto.
Olhou para Saga, tentando esconder seus sentimentos, contou ao seu ex agente o que tinha acontecido. – Aquele cara acabou de me estuprar, ele me violentou agora, aqui na sua casa e o Kanon filmou tudo.
— O quê? Não, me explica direito isso. — Pediu Saga fingindo não acreditar no que tinha acabado de ouvir.
— Eu cheguei aqui na hora combinada com você, o Thor abriu a porta e eu entrei, vi o nojento do Kanon com a câmera e até cheguei a pensar que era você, então... Aquele monstro asqueroso do Thor começou a me tocar quando eu tentei sair ele me agarrou, me bateu e... aquele maldito! Ele me violentou e o Kanon ficou filmando tudo como se fosse uma coisa normal, completamente indiferente ao meu sofrimento.
Saga fechou a mão e tomado por raiva socou a porta. – Malditos sejam! Eu vou acabar com esses dois! Isso não vai ficar assim. – Virando para Camus e acariciando seu rosto falou em tom ameno. – Meu amor, tome um banho se limpe. – Foi até o guarda roupa e pegou um pote e o entregou para o ruivo. – Tome, passe isso lá. É uma excelente pomada cicatrizante, vai ajudar na sua recuperação. Eu vou quebrar a cara deles agora.
Saga saiu do quarto deixando Camus nu com o pote na mão.
Talvez fosse pela quantidade de vezes que sofrerá violência sexual em sua vida que Camus se manteve calmo, tanto no momento do ato, como neste momento pós ato. O namorado de Milo se dirigiu calmante até banheiro, em sua mente só uma certeza martelava sem parar.
“Eu não quero mais essa vida, não quero mais isso para minha vida, nunca mais! “
Entrou embaixo do chuveiro com aquela certeza.
...
Saga voltou para a sala gritando com os dois homens que ficaram lá.
— Malditos! Malditos! – Quem deu ordem para que vocês fizessem isso?
Kanon sorriu com deboche. – Você deveria ter tentado a carreira artística, é um excelente ator. – Comentou baixo que só o irmão escutou.
Saga fez então gestos com os braços para que a encenação da briga começasse, afinal ele não poderia fazer tudo sozinho.
— Sr. Saga eu juro que achei que essa era a sua ordem! – Thor falou alto para que o ruivo escutasse, como foi orientado a fazer.
— Eu nunca pediria uma coisa dessa, seu maldito! – Saga voltou a falar jogando um vaso no chão e tirou dinheiro do seu bolso e o entregou para o gigante Thor, que sorriu ao pegar a quantia.
O que o gigante não contava era receber um soco e o faria perder o equilíbrio e cair sobre alguns móveis.
O grandalhão olhou confuso para os gêmeos e Kanon fez sinal para que ele fosse embora, e assim o fez, se um Saga já era perigoso, imagine dois?
— Pra que bater no cara? – Perguntou Kanon sorrindo.
— Ele fodeu meu Camus, machucou ele, eu não podia deixar que ele saísse como se nada tivesse acontecido. — Disse Saga dando de ombros. — E Kanon, esse cara é de confiança?
— Ninguém é totalmente de confiança, mas vou pedir para o Aldebaran faça uma visitinha a ele para o lembrar disso. – Respondeu o gêmeo de Saga.
— Aldebaran já sabe de nós? — Perguntou Saga arqueando a sobrancelha.
— Ainda não, mas depois do que ele fez com aquele detetive de merda acho que já dá pra gente confiar.
— Pode ser, mas só quando houver necessidade. – Respondeu Saga encarando o irmão que se aproximou para falar ao pé do ouvido.
— E o ruivo? Acha que vai dar certo? – Perguntou Kanon.
Saga piscou para o irmão gêmeo antes de começar a gritar. — Kanon desgraçado se eu te pegar olhando para o Camus eu acabo com você! Fiquei longe dele, entendeu?
— Ah! Pro inferno você e seu namoradinho. – Gritou Kanon de volta chacoalhando os moveis para fazer barulho de luta.
Saga fez sinal com o polegar e voltou para o quarto onde estava Camus.
....
Camus já havia se lavado e se recomposto, vestindo uma roupa de Saga que pegou no guarda roupas, cuidou dos ferimentos em seu rosto e corpo.
Estava sentado na cama de Saga, seu olhar fixo para o nada, sua mente fervilhava de tantos pensamentos e uma certeza, não queria mais aquela vida, pra ele o Aquário havia acabado de morrer neste estupro, aliás, o Aquário já estava em coma há tempos.
Saga entrou no quarto com a feição preocupada, se sentou ao lado de Camus e pegou em sua mão com delicadeza. — Meu querido, eu dei uma lição naquele cara, está tudo bem.
— E no Kanon? Você deu uma lição nele também? — Perguntou Camus assustadoramente calmo.
— O Kanon agiu mal, mas ele me explicou, houve uma encomenda para que esse vídeo fosse gravado assim desse jeito, eu sei que ele deveria ter avisado, mas quem encomendou disse que fazia questão de ver as reações do seu rosto. — Explicou Saga como se o fato de ter sido um serviço encomendado mudaria alguma coisa.
— Então foi tudo de caso pensado? Você me fez vir aqui pra isso? — Perguntou Camus incrédulo.
— Não! Claro que não, eu não estava sabendo de nada, o Kanon me enganou também dizendo que tinha algum problema com a boate e eu fui lá para verificar, quando vi que não tinha nada de sério eu voltei pra casa. — Justificou Saga com seu habitual cinismo.
Camus ficou alguns instantes em silêncio absorvendo o que ouviu, mas sabia que não adiantava mais ponderar, não queria mais aquela vida.
— Eu estou fora. — Disse olhando nos olhos de Saga.
— Não, você não está, aquilo foi uma armação para um filme a pedido de um cliente que exigiu que fosse com você. — Explicou Saga com a voz macia como costumava fazer. — Com certeza você vai levar a sua parte, aliás, sua parte será a maior, não vou deixar que Kanon fique com nenhum tostão disso. — Saga começou a falar como se estivesse lidando com o Camus do passado, que achava que toda a humilhação que passava poderia ser compensada com pagamento. O Camus que não tinha noção do que era ser respeitado.
Ledo engano.
Camus o olhou boquiaberto, não estava acreditando no que estava ouvindo.
— Saga eu acabei de ser violentado, olha o meu rosto, isso sem contar o meu corpo que está... Eu estou ferido, fisicamente, mentalmente e moralmente, nada paga isso, nada! Eu não acredito que você ainda pensa em vender essa merda! — Desabafou indignado, e ao contrário do que a situação pedia, mantinha sua voz baixa.
Saga o analisou por alguns instantes, em outros tempos seu favorito estaria chorando desprotegido tentando se fazer de forte, e com certeza não negaria o dinheiro. — "Estupro nada mais é do que um sexo surpresa, só dói se você não relaxar"— Saga pensou, e com certeza já havia ensinado isso ao rapaz a sua frente.
Enquanto Camus falava Saga o analisava, sua voz, sua linguagem corporal e sua postura não enganavam, seu favorito havia mudado.
"Maldito Kapino Júnior estragou meu Camus"— pensou.
— Camus, eu não queria te ofender, estou apenas sendo prático, tudo já aconteceu não tem como mudar, então o justo seria que você ficasse com o dinheiro. — Tentou Saga novamente explicando seu ponto de vista, sem forçar nada.
— EU NÃO QUERO ESSA MERDA DE DINHEIRO SUJO! — Bradou Camus chegando no seu limite.
— Eu não vou te forçar a nada, nem a aceitar isso, mas estou falando de duzentos mil, pense em tudo que você vai poder fazer com este dinheiro. — Insistiu Saga tentando corromper seu preferido, como sempre fez.
Camus parou por um instante, sempre que colocou sua dignidade de lado foi pensando em seus irmãos, talvez em outros tempos conseguisse passar por cima de tudo e aceitar o dinheiro, mas agora sabia o que era ser amado, respeitado, estava aprendendo a ter dignidade e ficar com esse dinheiro seria um retrocesso a tudo que viveu nos últimos meses. Thor ousou violentar seu corpo, profanar as lembranças que tinha dos toques de Milo.
Não, não ia vender sua alma novamente, tinha uma vida digna agora, e dinheiro nenhum valeria dignidade.
— Não quero esse dinheiro Saga! Pervertido nenhum vai comprar minha dignidade novamente. — Dizendo isso Camus, saiu do quarto, correu pela casa quando abriu a porta da rua, bateu de frente com Aldebaran que estava chegando.
— Opa! Camus? O que houve? — Perguntou ao ver o amigo machucado e desalinhado, pensando que o ruivo teria sofrido uma nova agressão de Saga.
Camus deu alguns passos para trás quando viu Aldebaran, magoado e desconfiado perguntou. — Onde você estava? Hein!? Onde? Esteve aqui esse tempo todo? Não me ouviu implorar por ajuda?
— Ei calma, calma, respira! Eu acabei de chegar, obviamente não o ouvi pedindo ajuda, me diga o que houve? — O gigante respondeu colocando as mãos para cima em rendição.
— Não houve nada, me deixa. — Respondeu Camus desviando do amigo e correndo para o seu carro.
Aldebaran pensou em ir atrás do rapaz, mas parou quando notou que Saga vinha logo atrás.
— Espere! — Pediu Saga alcançando a porta, mas Camus já havia entrado em seu carro e dado partida.
— Merda! — Reclamou Saga.
— Saga o que houve? — Aldebaran perguntou ao chefe que o encarou antes de responder.
— Nada que seja da sua conta, não se meta com o Aquário.
— Eu sei que o nome dele é Camus, ele me disse. — Continuou Aldebaran encarando seu chefe de volta.
Saga estreitou os olhos, Camus sempre foi tão cuidadoso com sua identidade, por qual motivo revelaria para um cara que mal conhece?
— Espero que você saiba também que o Camus é meu. — Alertou Saga com cara de poucos amigos.
Aldebaran sorriu coçando a nuca. — Não! Pelos Deuses não me entenda mal, Camus é só um amigo, nunca passou de amizade.
Saga encarou o outro por mais alguns instantes antes de dar de ombros. — O que veio fazer aqui?
Aldebaran o olhou confuso. — Você pediu que eu viesse trazer o caixa da Sanctuary esqueceu?
Quem havia dado tal ordem na realidade havia sigo Kanon, mas Saga apenas fingiu um lapso na memória. — Sim, sim de fato.
Saga pegou o envelope das mãos do rapaz fez sinal que este o seguisse, chegando em seu escritório fez sinal para que Aldebaran sentasse na cadeira em frente sua mesa.
— E então Verônica te mostrou como funciona a Capela?
A expressão do rosto do amigo de Camus tornou-se séria. — Sim, ela me explicou como as coisas funcionam.
— E você se sente apto para este trabalho? — Perguntou Saga sabendo que o outro já estava num caminho sem volta, caso recusasse o trabalho, seu destino seria a morte, uma vez que uma parte do esquema havia sido informado a ele.
— Acho que já provei o quanto eu sou apto para esse trabalho, não? — Respondeu Aldebaran de imediato, ciente do caminho que estava seguindo. – E se paga bem, que mal tem?
Saga sorriu antes de dizer. — Dinheiro é o que gira nosso negócio.
*-*-*-*-*
Camus saiu com o carro sem saber direito para onde ir, não podia voltar para casa, não enquanto estivesse tão nervoso.
Parou o carro em frente à praça que costumava passear e passar o tempo quando algo ruim acontecia antes de voltar para casa, mas diferente das outras vezes Camus não tinha vontade alguma de sair do carro. Algo nele estava diferente, talvez em outros tempos encarasse a violência que sofreu de outra forma, se resignaria e continuaria submisso as vontades de Saga.
Mas agora não, Camus tinha outra perspectiva de vida com Milo e Dr. Aioros dispostos a custear o tratamento de Isaak, estava disposto a mudar de vida, aliás, já havia mudado, estava trabalhando com dignidade, não precisaria mais aceitar que o tratassem como objeto, não aceitaria mais que o tratassem daquela forma.
Analisou seu rosto pelo espelho retrovisor, o maldito estuprador havia feito um estrago em seu rosto, sabia que por ter a pele clara o roxo no canto da boa logo se destacaria, lembrou que ainda tinha em casa um pouco da pomada que Aldebaran lhe deu quando foi agredido por Saga em outra ocasião.
Esse pensamento o fez puxar pela memorias todas as vezes em que tinha sido agredido, por Saga, por Kanon e por clientes pervertidos como o cruel Radamanthys. – Pelos deuses! O que eu estava fazendo da minha vida?
Todas as humilhações, violências, estupros vieram em sua mente, todos os anos de calvário desde a morte do pai e o encontro com Saga, tudo veio em sua mente naquele instante, sentindo um forte enjoo abriu a porta do carro para vomitar na rua. – Como eu deixei que fizessem essas coisas comigo?
Algumas lagrimas caíram de seus olhos, mas também nasceu uma chama de esperança em seu futuro, pela primeira vez em muitos anos acreditou que enfim seria feliz.
— Tudo isso vai ficar para trás Camus. – Disse em voz alta no carro antes de dar a partida e voltar para casa.
....
Assim que abriu a porta de casa Dona Zaíra levou a mão a boca perguntando.
— Santo Deus Camus o que foi isso? — A babá sabia que já deveria estar acostumada com as agressões que seu jovem patrão sofria, mas sempre que o via com novos machucados sofria em compaixão pensando em seu próprio filho sozinho no mundo.
— Mano! O que aconteceu com você? – Perguntou Hyoga puxando o irmão mais velho pelas mãos e o levando até o sofá para que ele se sentasse e assim pudesse analisar os ferimentos mais de perto.
Isaak, contudo no primeiro momento também se espantou como os demais, porém notou que o irmão estava com uma roupa diferente da que havia saído de casa e tinha os cabelos molhados.
“Ele foi fazer aquelas coisas nojentas que ele faz escondido. ”— pensou o menino fechando a cara e o observando de longe.
— Não foi nada, eu estou bem, cai na rua apenas isso. — Respondeu Camus dando uma desculpa esfarrapada uma vez que não pensou em nada melhor para dizer.
— E na queda lavou o cabelo e trocou de roupa? – Perguntou Isaak com a sobrancelha arqueada.
Somente naquele momento Camus percebeu aquela falha, falha essa que inclusive ninguém nunca havia comentado.
Sair com uma roupa e voltar com outra, voltar com os cabelos molhados nunca foi novidade, ao contrário era algo que acontecia muito.
— Me sujei na queda e um amigo me emprestou roupas limpas. – Respondeu Camus olhando para o irmão e notando a hostilidade no olhar do outro.
Sorrindo pelo nariz como se dissesse “sei, que desculpa esfarrapada” Isaak deu de ombros e foi para o seu quarto.
— Não ligue pra ele patrãozinho, o Isaak está entrando na adolescência fase da rebeldia. – Comentou Zaíra indo para a cozinha pegar um pouco de gelo para que o ruivo colocasse nos seus ferimentos.
“Eu nunca tive o direito de ser um adolescente rebelde”— pensou se sentindo injustiçado pela vida.
....
Passado algum tempo Camus resolveu ir até o quarto conversar com seu irmão, visto que não era a primeira vez que o irmão do meio o tratava com grosseria e desconfiança.
— Isaak quero conversar com você, que saber o que está acontecendo? – Perguntou Camus se sentando na cama do irmão.
— Não tá acontecendo nada. – Respondeu o menino virando seu olhar para a parede.
Descrente Camus o encarou-me tornou a perguntar. – O que houve, porque está agindo assim comigo?
Isaak realmente não estava em um dos seus melhores dias, por mais força que fizesse seu corpo estava doendo muito, a cada momento andar estava ficando mais difícil, não queria ficar na cadeira de rodas, não queria ter a pena de Thetis, mas sentia que seu corpo estava perdendo a batalha para a doença.
Talvez por não estar se sentindo bem, por querer descontar a frustração do avanço de sua doença em alguém que o menino acabou revelando ao irmão mais velho o que havia descoberto.
— Porque eu sei o que você faz!
O coração de Camus gelou, mas manteve a calma para perguntar. – E o que eu faço?
Isaak que estava deitado na cama, se sentou olhando para o irmão com a cara amarrada e despejou. – Eu vi você na internet! Vi você fazendo aquelas coisas com aqueles homens.
Camus ficou pálido, tudo que mais temia na vida estava acontecendo.
— O que você disse? – Questionou o ruivo com a voz fraca.
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