Na Real
19 Capítulo 19 - Aceita?
Notas iniciais
Na Real — Capítulo 19
Os dois homens se encararam; Saga se manteve sentado, fazendo sinal com as mãos para que Milo se sentasse à sua frente.
— Vai beber alguma coisa, senhor? — Perguntou o maître, solícito.
— Um whisky. — Disse Milo, já sentado, ainda encarando Saga.
— Então, o que você quer comigo? — Perguntou o loiro, direto como costumava ser.
— Quero que fique longe do Camus. — Respondeu Saga, sério.
Milo se perguntou por qual motivo não voou no pescoço de Saga naquele instante, mas, controlando suas emoções, apenas perguntou altivo. — Quem você pensa que é para me dar ordens?
— Uou! Ordens? Não, não, claro que não. Eu só acho que tudo isso está indo longe demais, só isso. — Argumentou Saga levantando as mãos em rendição, tomando uma postura menos arrogante.
— Isso o quê? — Questionou Milo, ainda com cara de poucos amigos; tinha vontade de socar Saga desde que viu o estado de Camus naquela noite de domingo.
Havia visto Saga com Camus no dia do restaurante, mas confessava que não tinha sequer reparado no moreno naquela ocasião.
— Milo Kapino, eu sei que você se aproximou do Camus com o intuito de se vingar dele, e não tiro sua razão. – E acrescentou ao ver que Milo iria se manifestar: — Eu faria o mesmo, aliás, eu fiz!
Ao ver o expressão confusa de Milo, Saga explicou.
— Eu também fui pego de surpresa, ok? Eu não sabia de nada, o Camus enganou a nós dois. Quando ele me mostrou as cenas de vocês, ele me disse que tudo foi filmado de comum acordo e, olha, eu fiquei realmente impressionado com sua performance, até falei que estava disposto te contratar.
Enquanto Saga falava, Milo sentia todo o constrangimento e vergonha que sentiu quando se viu refletido na tela da TV, a humilhação que passou ao ter que mostrar o vídeo aos amigos, ao saber que foi usado.
Foi como se todos os sentimentos ruins, que Milo havia enfim guardado, tivessem voltado de uma vez, e Saga notou a mudança no semblante do loiro, algo dizia que estava indo pelo caminho certo.
— Me contratar? — Milo perguntou trincando os dentes de raiva.
Neste momento o garçom chegou trazendo a bebida de Milo e ambos se calaram, Saga só voltou a falar quando o garçom se afastou.
— Calma, Kapino, como eu disse, também fui usado, eu não sabia de nada, não sabia quem era você e muito menos que havia sido enganado, mas... como eu disse também, já me acertei com o Camus. Já o castiguei pelo que ele fez.
— Você o quê?
— Quando você mandou seu secretário ligar dizendo que o Camus deveria te atender de graça porque ele tinha uma dívida com você, eu fiquei com a pulga atrás da orelha, e quando o Camus voltou de viagem eu o questionei e arranquei a verdade dele. — Saga tomou um gole do seu whisky, sempre observando as reações de Milo. – Cara, quando ele me contou o que havia feito... pelos deuses! Dei uma surra nele, só não o matei porque meu empregado chegou na hora e o ajudou a sair da minha frente.
Milo ficou confuso, não sabia o que sentir, a raiva de Camus havia voltado, mas ao ouvir que Saga o agredira naquela ocasião o fazia se sentir culpado.
"Será que foi essa minha intenção quando eu mandei revelar que o Camus tinha uma dívida comigo?" — Milo não saberia dizer, não pensou nas consequências para Camus ao falar aquilo, e agora estava o canalha do Saga na sua frente admitindo que agrediu Camus pelo feito.
— Aonde quer chegar, Saga? — Milo perguntou, tentando dar logo um ponto final na conversa.
— Como eu disse, eu já o castiguei, aliás, venho o castigando desde então. — Acrescentou Saga.
— Que quer dizer? — Quis saber Milo preocupado.
— Desde que fiquei sabendo de tudo que ele fez com você, e que tem ido te atender de graça, eu cobro os programas dele normalmente.
— Como assim?
— O Camus está pagando desde então pra sair com você o valor que me cabe dos programas dele, e você sabe que é um valor alto.
Milo ficou estupefato com aquela revelação.
— Camus está pagando para sair comigo?
— Como eu já expliquei, é uma forma de castigo, por isso te chamei aqui hoje. — Continuou Saga, cínico. — Você sabe que o Camus tem dois irmãos pequenos, por mais que você esteja pagando o tratamento, atitude que eu achei louvável, ele ainda tem muitos gastos, entende?
— Não, eu não estou entendendo, o que quer de mim? — Indagou Milo irritado.
— Eu quero saber: como será sua vingança? Qual vai ser? O que vai ser? O Camus está perdendo dinheiro, e eu não digo isso por ele e sim pelas crianças. — Concluiu Saga, se fazendo de preocupado.
Milo encarou Saga incrédulo; na sua frente estava um dos piores tipos de pessoas. Um maldito cafetão que não tinha o menor pudor em dizer que explorava sexualmente uma pessoa, um calhorda que era capaz de cobrar pelos dias em que Camus não estava produzindo, um canalha capaz de usar como desculpa a preocupação com duas crianças inocentes para justificar seus atos.
— Você está enganado, Saga, eu não quero vingança nenhuma! Confesso que quando eu descobri o que o Camus tinha feito comigo eu quis sim me vingar, eu quis vê-lo tão humilhado, invadido como eu me senti, mas hoje não mais. Hoje eu só quero que o Camus fique bem, quero tirá-lo dessa vida.
Foi a vez de Saga fechar a cara.
— Se você quiser ter sua vingança, eu não vou impedir, posso até ajudar, qualquer coisa diferente disso eu não vou permitir. — Tornou Saga, agora em tom ameaçador.
Milo riu com escárnio antes de perguntar.
— Quem é você para me impedir de alguma coisa?
— Alguém que você deveria saber que não gosta de ser contrariado. — Voltou alertar Saga, sem levantar o tom de sua voz.
— Acaso está me ameaçando? Acha que pode fazer comigo o mesmo que faz com o Camus? — Questionou Milo, já sem paciência.
Saga gargalhou antes de responder. — Não, claro que não, para te afastar do Camus, basta que eu ligue para o seu pai. Sei o quanto o velho Kapino é avesso a homossexuais.
Vendo que deu a cartada final, pois que o outro ficou sem ação, Saga se levantou, deixou algumas notas em cima da mesa, como se dissesse, "acabou a brincadeira, criança".
— Afaste-se dele! – Disse, por fim, e saiu deixando Milo a sós com seus pensamentos.
Aquelas palavras irritaram Milo ainda mais, por sabê-las reais.
Sentiu-se mais humilhado que antes, era um homem feito, não tinha que temer a opinião do pai, entretanto, de certa forma, temia.
Mas abriria mão de Camus por causa de seu pai?
"O velho Kapino jamais aceitaria que eu me casasse com um homem comum, mas sendo esse homem um ator pornô gay e que faz michê, com certeza seria ainda pior." — A mente de Milo estava a mil, todos esses pensamentos martelando em sua cabeça.
— Milo?
O jovem Kapino ouviu seu nome e olhou na direção da voz: lá estava Shaka em uma mesa próxima, com um rapaz que Milo reconheceu como sendo o novo assistente de Shaka.
— Shaka, o que você faz aqui? — Milo perguntou confuso.
— Vim tomar um drink depois do expediente. — Respondeu Shaka.
— Mas você só bebe chá, pelo que eu sei. — Comentou Milo, estreitando os olhos para o amigo e olhando para o jovem assistente que estava sentado na mesa em que estava Shaka.
— A gente só estava conversando, Milo. — Shaka se defendeu de uma acusação que nunca veio.
— Tudo bem, eu já tô indo embora. — Respondeu Milo, que não queria invadir a privacidade do já tão retraído amigo.
— Milo, você tá bem? Você está com uma cara péssima. — Perguntou Shaka, com real preocupação.
— Pra falar a verdade não, eu não estou nada bem, eu preciso conversar com alguém, você dispensaria seu "amigo" para ficar comigo? — Perguntou Milo, o certo seria ligar para Aioria, seu melhor amigo, mas sabia que este não seria imparcial em seus conselhos e acabaria dando razão ao Saga.
Shaka olhou para Ikki, que estava na mesa à sua espera, e suspirou antes de responder. — Tá bom, eu vou falar com ele e já volto.
*-*-*-*
— O que está acontecendo, Milo? Quem era aquele cara? Algum namorado seu? — Shaka questionou, ele dirigia o carro de Milo e deu a chaves do seu para que Ikki, seu assistente, pudesse voltar para casa. Decidiu com Milo que iriam para a a cobertura do Kapino.
— Não, não, muito pelo contrário, ele é, ou era, o namorado ou ficante do cara com quem estou saindo. — Revelou Milo, em meias verdades.
— Uau! Por essa eu não esperava, senti um clima hostil entre vocês assim que eu o vi entrando na Santini, você nem ao menos reparou que eu estava ali duas mesas à sua frente. — Comentou Shaka, que viu o amigo chegando, mas que não foi notado por este.
— Eu não vi você lá, aliás, eu não vi nada, minha vontade era chegar batendo naquele filho da puta, maldito! — Tornou Milo irritado, socando o painel de seu carro.
Shaka observou o amigo, atento; não era do feitio de Milo sair com homens comprometidos. — Quer me contar o que está acontecendo?
— Eu sou um homem de trinta anos, Shaka, eu trabalho, eu pago as porras das minhas contas e aquele filho da puta me disse que se eu não ficasse longe do homem que eu amo ele ia contar para o meu pai! — Revelou Milo, novamente socando o painel de seu carro. — Ele me tratou como se eu fosse um adolescente de quinze anos! Mas o pior de tudo é que ele conseguiu me intimidar com essa ameaça idiota!
Shaka estranhou a fala do amigo, afinal ele nunca tivera medo do pai em relação aos seus casos, obviamente nunca havia namorado ninguém com seriedade, mas ainda assim, o que o pai de Milo poderia fazer?
Chegaram ao prédio e pararam no estacionamento. Milo desceu do carro irritado, batendo a porta, Shaka permanecia calmo ao seu lado. Pegaram o elevador em silêncio, somente quando entraram no apartamento foi que Shaka perguntou. — Qual o problema do seu pai saber que você está com alguém? Milo, ele sabe que você é gay, uma hora ou outra você iria se apaixonar por alguém. Sinceramente, para um homem adulto de trinta anos que paga suas contas você realmente está agindo como um adolescente que ainda está no armário com medo da família.
— É complicado, Shaka! Muito complicado. — Milo foi em direção às bebidas, queria se servir de uma dose de whisky, mas Shaka o impediu.
— Nada disso, Milo, o álcool não é bom conselheiro, vamos pra cozinha, eu vou preparar um chá para nós dois. — Disse Shaka, se encaminhando para a cozinha com um irritado Milo atrás.
— Chá, Shaka? Eu preciso de alguma coisa forte, eu vou explodir! — Se queixou Milo.
— Você está com problemas e já bebeu hoje, um chá é mais relaxante.
— Cara, nem chá eu devo ter aqui em casa.
— Tem sim, eu te dei um jogo de chá que vinha com alguns chás sortidos, lembra? No seu aniversário, onde está? — Perguntou Shaka.
— Pelos Deuses, Shaka, deve estar por aí em algum canto.
Abrindo os armários da cozinha, Shaka achou o conjunto de chá com que havia presenteado o amigo, ainda intacto. – Milo, você nem abriu?
— Shaka, quem dá chá de presente?
— Eu dou, e não é só chá, é um conjunto de chá com algumas ervas raras.
— Blá blá blá, eu quero tomar um whisky!
— Vai tomar um chá!
Shaka colocou a água no fogo para fazer os chás e perguntou. — Então me conte, qual o problema com o cara com quem você está saindo?
— Por que acha que tem algum problema com ele?
— Porque você disse que é complicado, e essa complicação não é com você, que eu sei, só pode ser com ele. Me diga, qual o problema dele?
Milo olhou para o amigo pensando que com a cabeça cheia de álcool seria bem mais fácil falar tudo.
Milo então suspirou fundo e começou o relato: contou sobre o encontro no aeroporto de Paris, sobre o filme que Camus fez, omitiu, porém, que havia pedido a três amigos para lhe ajudar num plano de vingança.
Contou sobre Camus ser também um garoto de programa.
Sobre encontros com Camus, que inicialmente eram para um plano bobo de vingança.
Contou sobre a vida sofrida que o jovem michê levava, sobre seus irmãos, ocultou o fato de que Isaak, o menino do hospital, era o irmão de Camus, mas revelou que este tinha um irmão doente.
Contou sobre as agressões de Saga ao Camus e, por fim, sobre a ameaça que Saga lhe fizera há pouco.
Já saboreando o chá de ervas da montanha que preparara, o amigo finalmente exclamou. — Uau! Que história! E quanta coisa!
— Você consegue compreender meu drama? Meu pai nunca aceitaria o Camus.
— Milo, sejamos francos, seu pai nunca aceitara ninguém, ou melhor, nenhum homem, você poderia se casar com o príncipe da Dinamarca que seu pai seria contra, isso é fato! — Apontou Shaka, certeiro.
Milo apenas concordou com a cabeça.
— Posso te fazer uma pergunta pessoal? — Indagou Shaka.
— Claro que pode, depois de tudo que eu falei acho que você já tem liberdade pra isso.
— Por que você foi trabalhar na Kapino? Digo, você é rico, independente do dinheiro do seu pai, sei que seus avós te deixaram bem financeiramente, obviamente nada se compara à fortuna de seu pais, mas ainda assim você não precisaria passar por algumas situações que você passa com ele diariamente, por que faz isso Milo?
Milo pensou na pergunta do amigo, seria muito mais fácil dizer que ele estava lá na Kapino para cuidar do patrimônio que um dia seria seu, mas sabia que no fundo aquela não era a verdade.
— Eu queria o respeito dele, Shaka, eu queria provar para o velho Kapino que eu sou gay sim, mas que nada disso interfere na minha capacidade, no meu caráter, em nada. — Milo pensou triste antes de continuar. — Eu queria a aprovação e o amor do meu pai, patético, eu sei, mas essa é a verdade.
Shaka colocou a mão no ombro do amigo num gesto que tentava transmitir apoio. — Posso dar um conselho? — Perguntou Shaka sério.
— Sim, claro, por isso estou te contando tudo, eu preciso de um conselho!
— Acho que você deveria viver sua vida longe da Kapino, ter uma vida sua. Viver uma vida tentando provar para o seu pai suas qualidades não vai te levar a lugar algum. Milo, você nunca teve um namorado fixo, um namorado sério, seus romances não duraram mais que alguns poucos meses, e hoje eu penso, será que que você não sabotava esses romances inconscientemente por medo ou receio da reação do seu pai?
Milo não rebateu de imediato, ficou olhando para o amigo analisando as palavras que acabara de ouvir.
De fato, seus relacionamentos nunca passavam de dias, meses poucos meses, mas sempre tinha um motivo, um detalhe que fazia Milo terminar tudo: brigas, ciúmes excessivo, traições. Seria falta de sorte ou realmente sabotava seus relacionamentos?
— Milo, o que você sente por esse rapaz? E até onde está disposto a ir por causa dele? — Perguntou Shaka, direto como era o seu feitio.
"O que eu sinto pelo Camus?" — Pensou, logo os momentos que passou junto ao ruivo vieram à sua mente, não só os momentos quentes de paixão, mas os momentos de cumplicidade quando estavam no hospital esperando notícias de Isaak, do dia que passou com Camus e seus irmãos, Milo não poderia negar, pois seu coração se aqueceu com tais lembranças.
— Eu o amo Shaka, como eu nunca pensei que fosse possível amar alguém. Dizem que há uma linha tênue entre o amor e o ódio, e o que eu pensei ser ódio, na realidade, era amor, eu o amo desde que nós conhecemos no aeroporto de Paris, talvez fosse apenas uma paixão, mas ao conhecer aquele homem, sua fragilidade disfarçada de altivez, sua força em criar duas crianças sozinho fazendo tudo que ele fez pra ter o dinheiro para cuidar dos irmãos, eu só consigo dizer que eu o amo ainda mais.
— Esse trabalho que ele tem vai ser um impedimento para vocês? — Questionou Shaka novamente, como bom amigo que era queria mostrar a Milo todas as implicações em se envolver com o tal homem.
— Eu não quero que ele continue trabalhando nisso, não quero que ele continue sendo subordinado a esse Saga maldito, não quero que ele seja agredido novamente. — Respondeu Milo, fechando os punhos.
— Mas vai ser difícil você manter um relacionamento com esse homem então, não é?
— Shaka, eu estava pensando em arrumar um trabalho pra ele... e acho que você pode me ajudar nisso. — Respondeu Milo sorrindo, pois tivera aquela ideia pela manhã.
— Eu? Como?
— Sei que está precisando de gente no laboratório. — Disse Milo.
— Ah, nem vem, Milo, eu não trabalho com amadores e com pessoas sem qualificações, e, além do mais, você vai querer empregar esse cara na empresa do seu pai? — Rebateu Shaka, que sempre era criterioso com seus assistentes.
— Shaka, ele não é um desqualificado como você está dizendo, ele começou a faculdade de química, obviamente não pôde concluir, mas ainda assim... — A animação de Milo, porém, logo esfriou. — Tem razão, não posso colocar ele na Kapino.
— Milo, você tem o contato com muitas redes gigantescas de farmácias e médicos, será que você não conseguiria uma colocação para seu amigo em algum outro lugar? Cara, você é o vice-presidente da Kapino, acho que é hora de uma carteirada. — Sugeriu Shaka, sorrindo.
Milo sorriu e assentiu. — Você tem razão, vou fazer isso.
— Você vai ter coragem de enfrentar seu pai para ficar com ele?
— Eu não vou abrir mão dele, nem que o senhor Klaus Kapino me peça de joelhos. Se meu pai não me quiser na empresa paciência, eu só tenho uma certeza nesta vida, Shaka, eu vou viver esse amor!
Shaka sorriu e deu mais um gole em seu chá, gesto que foi seguido por Milo.
— Shaka.
— Sim.
— Você tá pegando seu assistente? — Perguntou Milo, levantando uma sobrancelha.
— Milo, não enche! — Respondeu Shaka, corando.
*-*-*-*-*
Saga chegou à mansão e encontrou Kanon na sala, o irmão gêmeo assistia ao DVD com o musical “O Fantasma da Ópera”, musical favorito dos dois.
— Você tem bom gosto, não sei por que se comporta como um tosco. — Comentou Saga, ao sentar ao lado do irmão e olhar para a tela da TV.
— Tenho bom gosto, e gosto de ser como eu sou, autêntico, eu diria. — Respondeu Kanon, observando o irmão. — Onde estava?
— Resolvendo alguns problemas meus que não te dizem respeito. — Saga respondeu, tentando frear a curiosidade do irmão.
Kanon ficou olhando para o irmão antes de responder. — O ruivo tá querendo voar sozinho outra vez?
Saga odiava essa coisa de gêmeos, era absurdamente incrível como eles sempre sabiam o que se passava com o outro. — Eu vou cortar as asas dele de novo.
— O que vai fazer? Vai vazar os vídeos dele novamente, como fez da outra vez? — Perguntou Kanon, sondando o caso.
Saga olhou para seu irmão e, vencido, revelou. — Não, dessa vez isso não vai ser o suficiente, o cara sabe o que ele faz, sabe dos filmes e dos programas.
— Quem é o cara dessa vez? Outro estudante? O ruivo está querendo voltar a estudar novamente? — Quis saber Kanon.
— Não, é um playboy, riquinho de merda, é adulto e mais experiente do que aqueles imbecis da outra vez, mas eu vou acabar com a brincadeira deles, já deixei o Camus solto por tempo demais, eu o quero disponível pra mim sempre. — Respondeu Saga.
— Saga, eu não te entendo, por que tudo isso? Todo esse trabalho com esse cara? Você poderia simplesmente... — Kanon não terminou de falar por foi cortado por seu irmão.
— Não, não podia! Eu já falei que não quero o Camus assim, eu quero ele livre, quero que ele venha a mim por vontade própria. — Respondeu Saga.
— Ele nunca vem por vontade Saga, ele vem por necessidade. — Rebateu o gêmeo.
E Saga fechou a cara contrariado.
Ambos ficaram em silêncio e olharam para a TV.
Na cena Erik, O Fantasma, rapta Christine Daaé e a leva para o seu covil nos porões da Ópera para fazê-la cantar para ele.
"Sing once again with me our strange duet.
My power over you grows stronger yet.
And though you turn from me to glance behind.
The Phantom of the Opera is there Inside your mind"
(Cante mais uma vez comigo nosso estranho dueto.
Meu poder sobre você fica ainda mais forte.
E embora você tenha me visto de relance, às suas costas.
O Fantasma da Ópera está aí.
Dentro da sua cabeça).
Saga pensou na conversa que tivera com Milo.
"Confesso que quando eu descobri o que o Camus tinha feito comigo eu quis sim me vingar, eu quis vê-lo tão humilhado, invadido como eu me senti".
— Eu tenho um plano, e você, irmãozinho, vai me ajudar, eu vou destruir a confiança do Camus nesse otário, e depois disso, ele vai voltar a comer aqui na minha mão, mais bonzinho que nunca. — Disse Saga, sorrindo, e Kanon apenas torceu os lábios descontente.
*-*-*-*-*
— Milo, não precisava me trazer em casa, eu poderia muito bem pegar um táxi. — Disse Shaka, enquanto Milo girava o volante do carro para entrar na rua de sua casa.
— Não é trabalho nenhum, você me ajudou a enxergar o que eu quero fazer, Shaka, eu estou apaixonado e vou lutar por esse amor.
— Milo, você está terrivelmente piegas. — Comentou Shaka, sorrindo, antes de sair do carro.
— Ei, Shaka! — Milo chamou e o loiro hindu parou próximo a janela do carro.
— O que foi?
— Depois você vai me contar como, onde e quando você começou a transar com o seu novo assistente.
— O quê? Mas de onde você tirou essas coisas? — Perguntou Shaka, sem graça.
— Do seu carro que você emprestou pra ele ir pra casa dele, mas que está estacionado aí na sua garagem. — Respondeu Milo, sorrindo sacana.
— Hã? Eu...eu!
Milo sorriu e arrancou o carro, deixando um Shaka completamente sem ação para trás.
*-*-*-*-*
— Já passou da hora de vocês irem dormir. — Reclamou Camus, levantando da mesa onde estava fazendo as contas das despesas do mês. Isaak e Hyoga estavam assistindo ao filme do "Homem Aranha — Longe de Casa" .
Os meninos logo protestaram.
— Não, Camus o filme já está acabando, faltam só duas partes para o final. — Protestou Hyoga.
— Mano, hoje é sexta-feira, amanhã nem tem aula, por favor, deixa a gente terminar de ver o filme. — Argumentou Isaak.
Camus olhou para os dois e, vencido, concordou. — Tá certo, mas acabando esse filme quero os dois na cama e com os dentes escovados.
Os meninos comemoraram.
O irmão mais velho então pegou as xícaras em que os meninos haviam tomado chocolate quente e o prato onde estavam os biscoitos, antes de serem devorados pelos menores, e levou para a cozinha.
Logo o som da campainha soou, fazendo com que os três ficassem alerta.
Somente uma pessoa aparecia naquela hora e era justamente por isso que os três ficaram tensos.
— Não abre, Camus. — Pediu Hyoga, assustado, se recordando da última vez em que Saga estivera naquela casa.
— Calma, eu vou ver quem é. — Disse Camus, calmo por fora, mas por dentro igualmente tenso.
Mas ao olhar pelo olho-mágico a tensão de Camus passou e seu coração acelerou, abriu a porta e ali estava Milo Kapino sorrindo lindamente para ele.
— Milo! — Gritou Hyoga, se jogando em cima do recém-chegado.
— Opa! Olá, Hyoga. — Respondeu Milo, pegando o pequeno no colo com os olhos fixos em Camus, que ainda estava parado em silêncio na porta.
— Milo, vem, entra! — Pediu Isaak, que, sem a mesma mobilidade do irmão caçula, ainda estava no sofá.
Milo olhou para Camus esperando o convite para entrar.
— Vamos, Milo, entre. — Disse o ruivo por fim, estava morrendo de saudades, sua vontade era de se jogar nos braços de Milo assim como Hyoga acabara de fazer.
Milo entrou e Hyoga o levou até o sofá, onde ele ficou entre os dois irmãos menores. Camus se sentou em uma cadeira, encarando Milo que o fitava de volta.
— O que faz aqui a essa hora? Aconteceu alguma coisa? — Quis saber Camus, os dois tinham de despedido de forma abrupta pela manhã, e realmente ter Milo ali aquele horário era uma surpresa.
— Sim, aconteceu. — Respondeu Milo, sério. — Eu vim conversar com vocês dois e com você, Camus.
— A gente pode conversar depois do filme? — Hyoga perguntou, preocupado em perder a atração. — Já está acabando.
Tirando os olhos de Camus, Milo perguntou. — Que filme estão assistindo?
— “Homem-Aranha, De Volta Para Casa”. — Isaak respondeu, também voltando a olhar sua tv.
— Claro, vamos terminar de ver o filme. — Milo respondeu aos meninos, olhando para tv e às vezes olhando para Camus, que tinha vontade de desligar o aparelho e obrigar o loiro a contar o que estava acontecendo.
"Será que é sobre o tratamento do Isaak?"
"Acho que ele vai dizer que não vai mais custear nada e ainda vai me dar a conta da última internação."
"Será que ele seria capaz de vir na minha casa dizer que não quer mais nada comigo?"
A mente ansiosa de Camus pensava em mil e uma hipóteses do motivo da visita de Milo, aquelas duas últimas cenas pareciam que estavam demorando horas na visão do ruivo.
Quando o filme finalmente acabou, Hyoga foi quem pediu. – Pronto, o filme acabou, o que quer conversar com a gente?
Camus olhou para atento para Milo, também estava curioso.
Milo, de forma teatral, colocou a mão na testa como se tivesse esquecido do que o levara até ali. — Puxa vida, quase me esqueci!
— Ah não, que assim eu fico curioso. — Disse o pequeno, cruzando os braços.
Camus os olhava em silêncio, tentando não passar o quanto estava ansioso.
— Eu vim aqui pedir uma coisa pra vocês. — Disse Milo.
— Pra gente ? — Disseram os três ao mesmo tempo.
— Pra você não. — Falou apontando para Camus. — Para eles, ao menos por enquanto.
— Pra gente? — Disseram Hyoga e Isaak juntos.
— Vocês estão parecendo dois papagaios. — Brincou Milo, divertido, vendo a apreensão de Camus.
— O..o que você quer com eles? — Perguntou Camus, preocupado.
— Meninos, eu vim aqui porque eu quero pedir a autorização de vocês para namorar o Camus como se deve. — Revelou Milo, para a incredulidade de Camus e para a alegria dos meninos que pularam, comemorando.
— Eba! O Milo vai namorar o Camus! — Pulou Hyoga, comemorando com uma dancinha.
— Que legal vocês vão namorar! — Isaak comemorou do sofá.
— O quê? Milo! — Camus falou surpreso e assustado, não queria envolver seus irmãos no seu relacionamento com Milo, tinha tanto medo de que tudo ruísse.
Milo levantou do sofá, pegou a mão de Camus, que se levantou, ficando em pé também.
— Camus, eu quero namorar com você como se deve, em casa, quero fazer parte da sua vida e sei que sua vida são eles. — Declarou Milo.
Camus tremia dos pés à cabeça, estava emocionado, tinha vontade de gritar, de pular, de correr, tinha medo, mas, acima de tudo isso, tinha a felicidade.
Notando que o irmão estava mudo e paralisado, Hyoga se aproximou. — Mano?
Isaak, com dificuldade, também se levantou e encostou em Milo. — Será que ele tá bem?
Milo repetiu a pergunta. – Camus, você aceita namorar comigo?
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