Na Palma da Mão de Deus
20 Como pais e filhos
Notas iniciais
Capítulo 20: Como pais e filhos
– Você me falava que eu era o remédio para todos os seus males, na verdade eu sempre fui a causa de todo o seu sofrimento... – ela chorava com mais força. – Mas mesmo assim, mesmo com tudo de ruim que eu representei pra você, eu me sinto sufocada longe, é difícil respirar quando estou longe de você! Eu te amo tanto! – ele sentiu os lábios dela nos dele, há anos não sentia aquilo, há anos não sentia o gosto dos lábios dela, não sentia aquele sentimento sem explicação ou sentido. As frustrações não existiam naquele momento, a dor não existia também, só existia aquele instante, aquele sentimento mútuo, o sabor do sentimento real e único dela compartilhado com o dele. Porém...
– Maria! – Jaime ergueu seu corpo na cama, olhou ao arredor assustado, lembrou-se que estava no hotel fazenda de Nicholas, de desmaiar, dos momentos antes do desmaio. – Foi um sonho? – se perguntou com a mão direita nos lábios. Subitamente o barulho da porta se abrindo invadiu o quarto.
– Tio Jaime, você acordou! – Fábio falou feliz, colocou a bandeja que segurava num criado e correu até o enfermo, o abraçou forte.
– Vai com calma, Fabinho, o tio Jaime ta se recuperando. – palavras de Nicholas, filho de Adriano.
– Seu irmão é muito expansivo, não é? – dizeres de Lavi.
– Não... Não tem problema garotos... O que vocês têm aí? – Jaime falou observando as bandejas que eles carregavam.
– É seu café da manhã. – Lavi respondeu.
– Sim! Tem suco, tem geleia, torrada, tem bolo, pão quentinho, leite, achocolatado... – Fábio enumerava o que os três haviam trazido contando em seus dedos.
– É muita gentileza de vocês trazer o meu café da manhã, mas é que... Eu não costumo fazer refeições de manhã e...
– Costume que vai mudar, o Bernardo acha que você sofre de pressão baixa, logo você precisa dormir bem e tomar café da manhã todos os dias! – Lavi exclamou.
– E ta gostoso, tio, o bolo quem fez foi meu pai, a geleia foi o Renan... Vai por mim, o senhor vai gostar! – Nicholas tentava convencer. Jaime se sentia feliz pelo cuidado dos garotos, parecia algo sincero, ele riu da situação.
– O Bernardo também falou que era pra você ir ao médico depois que acordasse. – Lavi falou novamente.
– Não se preocupa com isso, eu to bem, to me sentindo bem até demais agora! – Jaime exclamou.
– O tio Bernardo também falou que o senhor não ia querer ir ao médico. – Nicholas falou sorrindo, depois de suas palavras todos riram.
– Faz sentido... – Jaime coçou a cabeça. – Garotos... É... Não querendo reclamar, mas... Quando tomo algo de manhã é café mesmo... – depois de suas palavras faces de nojo se estamparam nos meninos.
– Café?! Mas café é muito ruim! – Fabinho exclamou.
– Como o senhor toma aquilo? – palavras de Nicholas.
– Coisa de adulto, eu também não gosto de café, é muito amargo! – dizeres de Lavi. Jaime riu mais.
– Já to dando trabalho demais pra vocês, não precisam pegar o café pra mim...
– Você não ta dando trabalho pra gente, tio Jaime, até porque quem cuidou de você essa noite foi a tia Maria Joaquina. – Nicholas comentou. A feição de Jaime se tornou pura surpresa.
– Ela... Mas... Cadê ela agora?
– Ta dormindo, hoje de manhã quando eu vim aqui ela tava dormindo com a cabeça apoiada na sua cama... Também, né, minha mãe ficou acordada a noite toda.
– Isso é... Uma surpresa... – Jaime falou, em sua cabeça ainda tem a ideia que Maria Joaquina o odiava por algum motivo.
– Meu pai e minha mãe vieram aqui de noite pra te ver, e a tia Rebeca, e o tio Rafael, e a tia Evellin, todo mundo veio, eu acho. – palavras de Fábio.
– Velho, que vergonha... Detesto dar trabalho... – Jaime começou a ruborizar.
– Não tem que ficar com vergonha, tio, isso é bom, mostra que todo mundo aqui gosta do senhor! – Nicholas exclamou. – Fabinho, Lavi vamos buscar o café pro tio.
– Precisa não, meninos, deixa que eu vou. – Jaime falou tentando se levantar da cama, os três garotos o repreenderam.
– Jaime! Fica quieto! É pra você descansar! Ordens do Bernardo! – Lavi falou bravo, os outros garotos concordaram.
– Ta bom, eu fico na cama, mas não vai ser assim por muito tempo. – dizeres de Jaime.
– Fica aí que a gente vai buscar o café pro senhor. – Fábio falou puxando seu irmão pra fora do quarto, Lavi os seguia, mas...
– Garoto. – a voz de Jaime o fez parar.
– Oi?!
– Você não se importa de ter esse cuidado comigo? Afinal você podia estar fazendo coisas legais ao invés de estar aqui cuidando de um tiozão manco e gordo.
– Não é problema pra mim, sabe, você foi legal comigo, não contou pros outros meninos que eu precisava de ajuda pra tirar meu capacete naquele dia. – as palavras do menino fizeram Jaime pensar, não imaginava que algo tão simples faria o garoto ter confiança nele.
– Será que você pode vir aqui, chegar mais perto? – a voz de Jaime começou a embargar.
– Algum problema? É sua perna, né? Ela ta doendo? – ele se aproximou e perguntou, de repente foi surpreendido por um abraço de Jaime, um abraço forte, caloroso, inesperado.
Na mente de Jaime somente a conversa que tivera com Maria Joaquina permanecia, somente o momento em que ele perguntava se Lavi era seu filho e ela respondia que sim pairava em sua cabeça.
Seu filho estava em seus braços, desde que o vira sentira por ele algo que não podia explicar, mesmo sem ter a certeza de que era seu filho algo dentro de si dizia que Lavi era parte dele. Aquele sentimento forte parecia extravazar naquele abraço, aquele sentimento que ele não sabia explicar.
– Des — desculpa... Eu, eu... – Jaime tentava se explicar limpando seus olhos. – Você deve me achar um estranho.
– Não tem problema, tem uma colega minha que fala que, às vezes, a gente só precisa de um abraço pra se sentir melhor... Ela tem os peitos grandes, eu queria abraçar ela mais vezes! – ele falou sem pensar gesticulando, Jaime riu. – Falei besteira, né? Essa droga de cabeça minha!
– Não precisa ter vergonha, você só foi sincero.
– Pois é... Aqui, eu... Eu vou ver o Nicholas, ele também ta meio de cama desde ontem... Depois eu volto. – Lavi falou sorrindo, pegou um pedaço de bolo do que trouxera e saiu o mastigando.
– Ah garoto, o que eu faço agora? – comentou Jaime consigo mesmo.
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– Qual é, Bernardo?! Não vai me deixar descer pra tomar café da manhã? – Nicholas perguntou, estava em seu quarto, deitado em sua cama.
– Daqui a pouco você desce, agora fica aí de boas, seu café da manhã vai chegar pra você.
– Isso não faz meu estilo, café da manhã na cama, pra mim?! – reclamou.
– Seja mais tolerante, capisce? É só pra você descansar essa manhã. – Tereza falou, também estava no quarto do anfitrião.
– Já fiquei na cama demais, to desde ontem.
– E vai ficar aí essa manhã também, quer contrariar o único enfermeiro daqui? – Adriano falou adentrando o local, ao lado dele Renan e João, esse último trazia uma bandeja consigo.
– Aqui, pai, a gente trouxe tudo o que você gosta, olha só... – João se aproximou entregando a bandeja.
– Olha só, geleia de... – Nicholas observava.
– Morango, essa foi eu quem fiz. – João falou.
– Eu fiz uma de uva, mas é de ontem, essa aí o João terminou de fazer agora pouco, terminou o preparo agora pouco melhor dizendo. – Renan explicou.
– Deixa provar então. – o anfitrião falou passando um pouco em um biscoito, o mordeu, ficou um tempo em silêncio, João o olhava apreensivo. – Ta excelente! Ta de parabéns, moleque. Eu nunca fui bom com geleias, mas você e seu tio são incríveis!
– Sério?! O senhor gostou mesmo?! – João falou empolgado, de repente olhou o seu arredor e se conteve. – É sempre bom saber que as pessoas gostam das coisas que a gente prepara pra comer, não é verdade? – falou meio sem graça. – Eu vou descer, vou tomar café com os convidados e... – falou se afastando da cama de seu pai.
– Garoto, faz favor, rapidinho. – Nicholas o chamou pra perto de si, pegou a bandeja e a colocou num criado mudo.
– O que foi pai? – o garoto falou se sentando a cama ao lado de Nicholas, o anfitrião então o puxou pra mais perto de si num abraço. – Quê isso pai?
– Não gosto de ficar de cama, mas gosto dessa atenção sua comigo, toma café da manhã aqui, os convidados que se virem! – Nicholas falou sorrindo.
– T-tá, é justo! – o garoto gaguejou, ruborizou um pouco, gostava de estar ali, de sentir o calor de seu pai, se sentia seguro, aconchegado, se sentia bem, como se não existisse problema nenhum.
– Aqui, pra vocês dois ragazzi. – Tereza pegou a bandeja do criado mudo e entregou aos dois. – Como bons ragazzi quero que comam tudo! – ela brincava com a situação.
– Sim senhora! Você manda e eu obedeço! – Nicholas respondeu prestando continência, todos riram.
– Aqui, pai, esse é aquele biscoito da padaria, daquele que o senhor gosta! – o menino falou.
– Sim, que nós dois gostamos, correto? – o pai respondeu, João riu sem graça. Da porta Renan os observava, sentia um aperto em seu coração, sua feição demonstrava seu incômodo.
– Sente ciúmes ou só sente que algo está errado? – Adriano pergunta cortando o mais novo de seu transe.
– Do que você ta falando? Como eu vou sentir ciúmes de meu sobrinho com o pai dele...? Ah menos que... Deus... O Nicholas falou comigo que ia te contar, isso já aconteceu, não é?
– Sim, ainda não entendo o que vocês dois tem na cabeça, cheguei a pensar que você havia renegado completamente a obrigação de pai... Mas vejo que você sente algo pelo garoto, e que sofre por causa da mentira toda! – obviamente falava em tom baixo de voz.
– Escuta, não é tão simples assim...
– Vocês estão privando o garoto de um direito que é dele! Na minha opinião você quem deveria ter a guarda do João. – Adriano foi direto.
– Se eu contar esse garoto não vai me perdoar nunca!
– Então você aceita ter papel de coadjuvante na vida do seu filho? É por isso que eu não entendo você!
– Pai! – as vozes dos filhos de Adriano chegam até os ouvidos deles.
– E aí meninos? Como o Jaime tá? – o pai se abaixou os cumprimentando com um largo sorriso e alguns leves afagos.
– O tio Jaime ta melhor, o Lavi levou café pra ele. – Nicholas respondeu.
– A gente fez como a mãe pediu, a gente levou bolo e um monte de coisas gostosas pra ele. – palavras de Fábio.
– O pai sabe, Fabinho, se ele perguntou como o tio tava é porque ele sabe que a gente foi lá!
– Ah é, viajei... – o mais novo falou coçando sua cabeça.
– Bom, sabe a Antônia? Ela me falou onde tem uma quadra de basquete, vamos lá jogar depois do café da manhã! – Adriano falou levantando os braços.
– É! – Fábio respondeu gritando repetindo o gesto.
– Fabinho não grita! Respeita o quarto do padrinho! – o irmão mais velho o repreendeu novamente. Toda a cena fazia Renan se sentir mal, o cuidado paterno de Adriano era como um tapa em sua face.
– Hei, eu to escutando a voz dos meus afilhados?! – o anfitrião se pronunciou.
– Meninos, venham cumprimentar seu padrinho. – Tereza falou. – Não tem problema, certo? – ela perguntou a Bernardo.
– Não, está cercado de pessoas que se gosta é ótimo tratamento! Podem entrar vocês dois. – dizeres do enfermeiro. Os garotos adentraram o local correndo e foram até Nicholas, o cumprimentaram, falaram umas coisas sem nexo, o padrinho deles riu e falou outras mais sem nexo ainda, era divertido ouvir tudo aquilo, tanto que as risadas dos presentes eram inevitáveis.
– Hei, João, você gosta de jogar basquete? – Fábio perguntou.
– Eu?! Não sei dizer... Acho que sim... – o garoto não esperava essa pergunta.
– A gente vai jogar com o nosso pai hoje depois do café, você podia vir, vai ser legal! – Nicholas, filho de Tereza, sugeriu.
– Com o Adriano. – o garoto olhou estranho pro pai de seus colegas. – Não sei se é uma boa ideia, tenho coisas pra fazer, sabem?
– Acho que você deveria ir, mas só se você quiser. – Nicholas, pai de João falou ao seu filho.
– Talvez eu vá. – João respondeu.
– É! – Fábio respondeu gritando e levantando seus braços.
– Sem gritar il mio più Giovane, sem gritar. – Tereza repreendeu, o garoto corou.
– Foi sem querer. – o garoto se desculpou.
A manhã daquele dia começara tranquila, um café da manhã comum, se todos os inícios de manhã fossem daquela forma o mundo seria perfeito, mas infelizmente as coisas não são dessa forma. Momentos bons deixavam João mais inquieto sobre a realidade iminente de seu pai, e as palavras de Adriano sufocaram completamente Renan, palavras que golpeavam forte os pontos fracos, palavras que doíam como cada atitude de pai e filho que ele presenciava.
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