Dois carros da polícia chegavam às imediações. Paranhos, o delegado, estava acompanhado de mais três policiais civis e quatro policiais militares.

— É aqui, rapazes — disse Paranhos, dirigindo-se a seus homens. — Esperem um instante aí, que eu vou falar com os PMs.

Paranhos saiu da rádio-patrulha e dirigiu-se até o camburão da polícia militar.

— A funerária é ali — falou, apontando para a loja. — Estejam preparados para o der e vier.

Os PMs saíram do carro de armas na mão. Paranhos voltou para junto da rádio-patrulha.

— Será que os meninos estão lá dentro? — indagou Seixas, um dos policiais que acompanhava Paranhos nessa batida.

— É provável que sim, afinal de contas a esposa do Capitão Campos nos deu esse endereço, dizendo que nós os acharíamos aqui.

— Bom, o Ferretti e o Elias nós já sabemos que estão...

Em frente da loja, enfileirados, estavam a caminhonete funerária, o carro da polícia e, por último, o carro particular de Alberto Kriegel.

— Isso não está me cheirando bem, delegado — volveu Seixas, preocupado.

— As luzes da loja estão acesas e ouço conversas lá dentro — constatou o delegado.

— Vamos ficar aqui parados, esperando?

— Não, vamos entrar. Precisamos saber o que está acontecendo — disse Paranhos, decidido.

— Espere, delegado — Seixas o deteve. — Não sabemos se eles estão prisioneiros, ou se os homens da funerária estão armados. Se anunciarmos que é a polícia, isso poderia colocar a vida dos meninos em perigo...

— E a de nossos homens também — acrescentou Paranhos.

— O que faremos, então?

Paranhos parou para refletir, depois falou:

— Eu tenho um plano que poderia dar resultado...

— Qual?

— Nós cortamos a luz de toda essa área; isso vai deixar nossos amigos confusos, assim teremos mais chances de entrar na loja e libertá-los.

— Se os caras estiverem armados, sai debaixo!

— É o risco que temos de correr, se quisermos vê-los ainda vivos. Você tem outra ideia mais segura do que essa? — perguntou o delegado meio contrariado.

— É, parece que não temos outra saída mesmo...

— Não. Souza, vá até aqueles cabos elétricos e corte-os. Eu e o Seixas vamos nos posicionar ao lado do portão de ferro e esperar uma oportunidade para entrar na loja. Comande os PMs. Vamos, Seixas...

Enquanto isso, dentro da loja, o destino dos prisioneiros era sacramentado:

— Vamos levar esses guris enxeridos e os policiais para nossa oficina. Lá, você, Cristóvão, e você Paco, dêem o melhor tratamento possível aos nossos hóspedes. Eu e o Tião nos encarregaremos de despachar os caixões para o aeroporto.

Kriegel dava as últimas ordens da noite, porém não as definitivas.

Quando o agente funerário e Paco preparavam-se para executar as instruções, as luzes se apagaram...

Tião praguejou:

— Essa não!

Na mesma hora, Ferretti juntou as mãos algemadas e golpeou Tião na cabeça. Este foi ao chão; Ferretti, então, tateou na escuridão e apoderou-se da metralhadora do porteiro.

— Rápido, Toninho! Duda!

Os meninos correram para o salão secreto no meio da escuridão. Ferretti seguiu-os.

— Que que está acontecendo? — perguntou Paco.

Elias, ao lado dele, atacou. Os dois rolaram pelo chão, lutando de forma selvagem.

Ninguém enxergava nada dentro da loja. O clima era tenso.

Cristóvão Lee, nervoso, disparou duas vezes seu revólver na direção de Elias e Paco.

— Imbecil! Não atire! Pode acertar um de nós!

A voz era de Kriegel, que perdia a calma pela segunda vez na noite.

Ao ouvir os disparos, Paranhos deu um violentíssimo chute na portinhola de ferro, abrindo-a.

Kriegel, de costas para o portão de ferro, voltou-se e atirou duas vezes para a rua.

— Quem está aí? — perguntou ele, desesperado.

— Uma alma do outro mundo — retrucou Paranhos, sarcasticamente.

Ferretti veio até a porta secreta e disparou uma rajada de metralhadora.

— E agora, delegado, eles têm uma metralhadora! — falou Seixas, assustado.

— Duda? Toninho? Vocês estão aí dentro? — perguntou Paranhos.

Kriegel voltou a disparar duas vezes em direção à porta de ferro; agora só lhe restavam duas balas.

— Paranhos? É o Ferretti! Os meninos estão protegidos! Estou nas costas dos caras com uma metralhadora!...

— Como é que ele conseguiu uma metralhadora? — disse Paranhos, dirigindo-se a Seixas. E gritou para Ferretti: — Ótimo! Vamos obrigá-los a sair!

Cristóvão Lee aproximou-se de Kriegel e disse:

— Chefe, estamos cercados. O policial pegou a metralhadora do Tião e pelo jeito lá fora tem mais policiais...

— Eles também não podem entrar, senão levam chumbo! — retrucou Kriegel com raiva. — Onde está o idiota do Paco?

— Não sei — respondeu Cristóvão, ofegante. — Acho que acertaram ele.

— Dr. Kriegel, o senhor não tem escapatória — volveu Ferretti, escondido atrás da porta pintada. — É melhor se entregar!...

Kriegel apontou na direção de onde vinha a voz e voltou a disparar.

— Venha me pegar, seu insolente!

— Chefe! O senhor só tem um tiro! — lembrou Cristóvão.

— Você está com sua arma aí? — perguntou Kriegel, na expectativa.

— Sim, mas só tenho mais quatro tiros.

— Dr. Kriegel, a munição está acabando e vocês ainda estão cercados! — preveniu Ferretti. — Entreguem-se!

— Ele não está blefando, chefe... — tornou Cristóvão, sem poder controlar-se.

— Quando é que vocês vão parar com esse ti-ti-ti aí dentro? Ferretti, você acha que duas bazucas são suficientes? — Paranhos, irrevenrente por natureza, deu uma gostosa gargalhada.

Seguiu-se um tiroteio. Os policiais que acompanhavam Paranhos, protegeram-se atrás dos carros, prontos para o combate.

— Então, Dr. Kriegel, o que o senhor resolve? — tornou a perguntar Ferretti do salão secreto.

— Eu não me entrego! Vivo, não!

Ferretti deu outra rajada para o alto, depois, voltou a falar:

— Cristóvão, fale pro seu chefe que a próxima rajada vai ser pra dentro da loja! Mesmo no escuro, não vai sobrar ninguém pra contar a história...

— Chefe, nós estamos perdidos! Vamos nos entregar!

— Silêncio, seu imbecil! Não está vendo que ele está tentando apenas nos atemorizar?

— O que está acontecendo? — perguntou Tião, recuperando-se da pancada e aproximando-se dos comparsas.

— Você se deixou apanhar, seu idiota! Foi isso que aconteceu! — falou Kriegel, irado.

— Ele me pegou desprevenido, chefe! E o Paco?

— Foi apanhado também — respondeu Cristóvão.

— Como é que é? Você já convenceu seu chefe? Paciência tem limite! — Ferretti pressionava os contrabandistas.

— Eu vou me render — disse Cristóvão aos companheiros. — Alô, vocês aí fora, eu vou jogar a minha arma...

Cristóvão arremessou o revólver, que caiu bem em frente da entrada da loja. Seixas esticou o braço para pegá-lo; súbito, Kriegel fez seu último disparo.

— Que que houve? — perguntou Paranhos, apreensivo.

— O safado atirou! — respondeu Seixas, procurando por algum ferimento no seu corpo.

No entanto, Kriegel errara o alvo. Furioso, avançou contra Cristóvão e os dois se engalfinharam.

Aproveitando a situação, Paranhos fez um sinal para que os policiais atrás dos carros ficassem alertas, então foi para a entrada da loja e disse:

— OK, rapazes, parem com essas carícias e saiam com as mãos levantadas.

Alberto Kriegel, Cristóvão Lee e Tião finalmente se renderam, mas Paco não apareceu.

— Algeme esses patifes, Seixas — disse Paranhos, entrando na loja. — Pode sair, Ferretti, eles já se entregaram.

— Duda! Toninho! O pesadelo acabou... — falou Ferretti, passando do salão secreto para a loja. Todavia, após dar dois passos, tropeçou em alguma coisa no chão.

— Me ajude aqui, Paranhos, tem alguém caído...

Paranhos aproximou-se de Ferretti, tateando no escuro, e ajudou-o a carregar o corpo para fora.

Na rua, os faróis dos carros de polícia iluminavam o local.

— É o tal Paco — constatou Ferretti. — Foi atingido de raspão na cabeça.

— Rápido! Levem o homem para o hospital — ordenou Paranhos, fazendo sinal para os PMs.

Os PMs removeram Paco, aparentemente ferido sem gravidade, para o hospital mais próximo.