Na Mira do Vampiro
27 Tiros no escuro
Dois carros da polícia chegavam às imediações. Paranhos, o delegado, estava acompanhado de mais três policiais civis e quatro policiais militares.
— É aqui, rapazes — disse Paranhos, dirigindo-se a seus homens. — Esperem um instante aí, que eu vou falar com os PMs.
Paranhos saiu da rádio-patrulha e dirigiu-se até o camburão da polícia militar.
— A funerária é ali — falou, apontando para a loja. — Estejam preparados para o der e vier.
Os PMs saíram do carro de armas na mão. Paranhos voltou para junto da rádio-patrulha.
— Será que os meninos estão lá dentro? — indagou Seixas, um dos policiais que acompanhava Paranhos nessa batida.
— É provável que sim, afinal de contas a esposa do Capitão Campos nos deu esse endereço, dizendo que nós os acharíamos aqui.
— Bom, o Ferretti e o Elias nós já sabemos que estão...
Em frente da loja, enfileirados, estavam a caminhonete funerária, o carro da polícia e, por último, o carro particular de Alberto Kriegel.
— Isso não está me cheirando bem, delegado — volveu Seixas, preocupado.
— As luzes da loja estão acesas e ouço conversas lá dentro — constatou o delegado.
— Vamos ficar aqui parados, esperando?
— Não, vamos entrar. Precisamos saber o que está acontecendo — disse Paranhos, decidido.
— Espere, delegado — Seixas o deteve. — Não sabemos se eles estão prisioneiros, ou se os homens da funerária estão armados. Se anunciarmos que é a polícia, isso poderia colocar a vida dos meninos em perigo...
— E a de nossos homens também — acrescentou Paranhos.
— O que faremos, então?
Paranhos parou para refletir, depois falou:
— Eu tenho um plano que poderia dar resultado...
— Qual?
— Nós cortamos a luz de toda essa área; isso vai deixar nossos amigos confusos, assim teremos mais chances de entrar na loja e libertá-los.
— Se os caras estiverem armados, sai debaixo!
— É o risco que temos de correr, se quisermos vê-los ainda vivos. Você tem outra ideia mais segura do que essa? — perguntou o delegado meio contrariado.
— É, parece que não temos outra saída mesmo...
— Não. Souza, vá até aqueles cabos elétricos e corte-os. Eu e o Seixas vamos nos posicionar ao lado do portão de ferro e esperar uma oportunidade para entrar na loja. Comande os PMs. Vamos, Seixas...
Enquanto isso, dentro da loja, o destino dos prisioneiros era sacramentado:
— Vamos levar esses guris enxeridos e os policiais para nossa oficina. Lá, você, Cristóvão, e você Paco, dêem o melhor tratamento possível aos nossos hóspedes. Eu e o Tião nos encarregaremos de despachar os caixões para o aeroporto.
Kriegel dava as últimas ordens da noite, porém não as definitivas.
Quando o agente funerário e Paco preparavam-se para executar as instruções, as luzes se apagaram...
Tião praguejou:
— Essa não!
Na mesma hora, Ferretti juntou as mãos algemadas e golpeou Tião na cabeça. Este foi ao chão; Ferretti, então, tateou na escuridão e apoderou-se da metralhadora do porteiro.
— Rápido, Toninho! Duda!
Os meninos correram para o salão secreto no meio da escuridão. Ferretti seguiu-os.
— Que que está acontecendo? — perguntou Paco.
Elias, ao lado dele, atacou. Os dois rolaram pelo chão, lutando de forma selvagem.
Ninguém enxergava nada dentro da loja. O clima era tenso.
Cristóvão Lee, nervoso, disparou duas vezes seu revólver na direção de Elias e Paco.
— Imbecil! Não atire! Pode acertar um de nós!
A voz era de Kriegel, que perdia a calma pela segunda vez na noite.
Ao ouvir os disparos, Paranhos deu um violentíssimo chute na portinhola de ferro, abrindo-a.
Kriegel, de costas para o portão de ferro, voltou-se e atirou duas vezes para a rua.
— Quem está aí? — perguntou ele, desesperado.
— Uma alma do outro mundo — retrucou Paranhos, sarcasticamente.
Ferretti veio até a porta secreta e disparou uma rajada de metralhadora.
— E agora, delegado, eles têm uma metralhadora! — falou Seixas, assustado.
— Duda? Toninho? Vocês estão aí dentro? — perguntou Paranhos.
Kriegel voltou a disparar duas vezes em direção à porta de ferro; agora só lhe restavam duas balas.
— Paranhos? É o Ferretti! Os meninos estão protegidos! Estou nas costas dos caras com uma metralhadora!...
— Como é que ele conseguiu uma metralhadora? — disse Paranhos, dirigindo-se a Seixas. E gritou para Ferretti: — Ótimo! Vamos obrigá-los a sair!
Cristóvão Lee aproximou-se de Kriegel e disse:
— Chefe, estamos cercados. O policial pegou a metralhadora do Tião e pelo jeito lá fora tem mais policiais...
— Eles também não podem entrar, senão levam chumbo! — retrucou Kriegel com raiva. — Onde está o idiota do Paco?
— Não sei — respondeu Cristóvão, ofegante. — Acho que acertaram ele.
— Dr. Kriegel, o senhor não tem escapatória — volveu Ferretti, escondido atrás da porta pintada. — É melhor se entregar!...
Kriegel apontou na direção de onde vinha a voz e voltou a disparar.
— Venha me pegar, seu insolente!
— Chefe! O senhor só tem um tiro! — lembrou Cristóvão.
— Você está com sua arma aí? — perguntou Kriegel, na expectativa.
— Sim, mas só tenho mais quatro tiros.
— Dr. Kriegel, a munição está acabando e vocês ainda estão cercados! — preveniu Ferretti. — Entreguem-se!
— Ele não está blefando, chefe... — tornou Cristóvão, sem poder controlar-se.
— Quando é que vocês vão parar com esse ti-ti-ti aí dentro? Ferretti, você acha que duas bazucas são suficientes? — Paranhos, irrevenrente por natureza, deu uma gostosa gargalhada.
Seguiu-se um tiroteio. Os policiais que acompanhavam Paranhos, protegeram-se atrás dos carros, prontos para o combate.
— Então, Dr. Kriegel, o que o senhor resolve? — tornou a perguntar Ferretti do salão secreto.
— Eu não me entrego! Vivo, não!
Ferretti deu outra rajada para o alto, depois, voltou a falar:
— Cristóvão, fale pro seu chefe que a próxima rajada vai ser pra dentro da loja! Mesmo no escuro, não vai sobrar ninguém pra contar a história...
— Chefe, nós estamos perdidos! Vamos nos entregar!
— Silêncio, seu imbecil! Não está vendo que ele está tentando apenas nos atemorizar?
— O que está acontecendo? — perguntou Tião, recuperando-se da pancada e aproximando-se dos comparsas.
— Você se deixou apanhar, seu idiota! Foi isso que aconteceu! — falou Kriegel, irado.
— Ele me pegou desprevenido, chefe! E o Paco?
— Foi apanhado também — respondeu Cristóvão.
— Como é que é? Você já convenceu seu chefe? Paciência tem limite! — Ferretti pressionava os contrabandistas.
— Eu vou me render — disse Cristóvão aos companheiros. — Alô, vocês aí fora, eu vou jogar a minha arma...
Cristóvão arremessou o revólver, que caiu bem em frente da entrada da loja. Seixas esticou o braço para pegá-lo; súbito, Kriegel fez seu último disparo.
— Que que houve? — perguntou Paranhos, apreensivo.
— O safado atirou! — respondeu Seixas, procurando por algum ferimento no seu corpo.
No entanto, Kriegel errara o alvo. Furioso, avançou contra Cristóvão e os dois se engalfinharam.
Aproveitando a situação, Paranhos fez um sinal para que os policiais atrás dos carros ficassem alertas, então foi para a entrada da loja e disse:
— OK, rapazes, parem com essas carícias e saiam com as mãos levantadas.
Alberto Kriegel, Cristóvão Lee e Tião finalmente se renderam, mas Paco não apareceu.
— Algeme esses patifes, Seixas — disse Paranhos, entrando na loja. — Pode sair, Ferretti, eles já se entregaram.
— Duda! Toninho! O pesadelo acabou... — falou Ferretti, passando do salão secreto para a loja. Todavia, após dar dois passos, tropeçou em alguma coisa no chão.
— Me ajude aqui, Paranhos, tem alguém caído...
Paranhos aproximou-se de Ferretti, tateando no escuro, e ajudou-o a carregar o corpo para fora.
Na rua, os faróis dos carros de polícia iluminavam o local.
— É o tal Paco — constatou Ferretti. — Foi atingido de raspão na cabeça.
— Rápido! Levem o homem para o hospital — ordenou Paranhos, fazendo sinal para os PMs.
Os PMs removeram Paco, aparentemente ferido sem gravidade, para o hospital mais próximo.
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