A uma ordem de Paranhos as luzes foram novamente acesas.

Elias e os meninos saíram do esconderijo no salão secreto.

Paranhos tratou se livrar os colegas das algemas.

Duda, ao enxergar Kriegel, não titubeou, retirou a enorme cruz de madeira da mochila e começou a exorcização.

— Que que ele está fazendo? — perguntou Paranhos, sem entender nada.

Ferretti e Elias caíram na risada.

Toninho retirou uma das estacas de sua mochila, porém não sabia se ajudava o amigo ou se ria junto com os policiais.

— Eu vou destruí-lo! — berrou Duda, apontando a cruz para o rosto de Kriegel.

— Pare com isso, guri idiota! — disse Kriegel, perdendo a paciência. — Você está exagerando...

— Mas o que ele está tentando fazer, Ferretti?! — Paranhos procurava entender o que estava se passando.

— Você está assistindo a uma das maneiras de se matar um vampiro.

— Vampiro?! Que vampiro?

— Ora, colega, aquele que anda assassinando jovens pela cidade... — explicou Ferretti.

— Mas ele não é o vampiro do Rio! — afirmou Paranhos, taxativo. — É o Dr. Alberto Kriegel, empresário paranaense.

— Você o conhece? — perguntou Ferretti, admirado.

— Não só eu, como a Polícia Federal também.

— Polícia Federal?! — exclamou Elias, no mesmo clima de dúvida que dominava todos.

— É, foram eles que me encarregaram de investigar o caso aqui na cidade — contou Paranhos.

— O caso do contrabando de pedras preciosas? — volveu Ferretti, confuso.

— Não sei de que contrabando vocês estão falando; o que eu sei é que tinha de ficar de olho nesse homem 24 horas por dia...

— Mas se você não sabe nada sobre o contrabando, para que você tinha de segui-lo? — insistiu Ferretti, tentando entender.

— Bom, há três meses, a Polícia Federal interceptou uma quadrilha de traficantes paraguaios no Mato Grosso e em poder deles estava uma lista de nomes, entre os quais um tal de Albert Erikleg, e em seguida a sigla CONDEPEPRE...

— E daí? — interrompeu Ferretti, meio ansioso.

— E daí que nós começamos a analisar o código e chegamos à conclusão que ERIKLEG era, na verdade, um anagrama de KRIEGEL, e o primeiro nome correto era Alberto; portanto, Alberto Kriegel. Vasculhamos a vida do empresário de cabo a rabo e não conseguimos descobrir nada que pudesse incriminá-lo de alguma forma. Sabíamos que a chave para decifrar esse código estava na sigla...

— E o que quer dizer a sigla? — volveu Ferretti, cheio de curiosidade.

— Bem, você acabou de me dar a resposta.

— Como assim? — Ferretti não entendeu.

— Você falou em contrabando de pedras preciosas. Agora, destaque a primeira sílaba de cada palavra e vamos ter CON-DE-PE-PRE, ou seja, CONtrabando DE PEdras PREciosas...

— Uau! Fantástico, delegado Paranhos! — gritou Duda, entusiasmado.

— Realmente. Meus parabéns, Paranhos. Então você já sabe das viagens Rio-Curitiba que o nosso amigo costuma fazer regularmente? — indagou Ferretti.

— Como vocês sabem disso? — admirou-se Paranhos.

— Ele mesmo nos contou. Queria satisfazer nossa curiosidade antes de nos eliminar — retrucou Ferretti, irônico. — Vocês chegaram bem na hora...

— Que mais vocês descobriram? — perguntou Paranhos.

— Bom, se você estava procurando provas para incriminá-lo, não precisa procurar mais... — disse Ferretti, para aguçar sua curiosidade.

— Como assim? — dessa vez, Paranhos é que estava confuso.

— Por aqui, delegado Paranhos. Vamos mostrar ao senhor o que achamos... — falou Toninho, fazendo um gesto em direção à loja.

— Seixas, tome conta desses dois malandros aí. O Dr. Kriegel vai fazer as honras da casa... — ordenou Paranhos, seguindo os outros.

Chegando lá, Duda abriu um dos caixões novamente e mostrou as estatuetas ao delegado.

— Quebre uma delas — sugeriu Ferretti.

Paranhos sacou o revólver e deu uma pancada na estatueta com o cabo da arma.

— Meu pai do céu! — exclamou Paranhos, deslumbrado. — São mesmo pedras preciosas!

— A maioria desses caixões está cheio de estatuetas — explicou Ferretti. Eles embarcam os caixões no avião particular do Dr. Kriegel e assim eles seguem para Curitiba. De lá, viajam em outra caminhonete até a cidade de Porto-Camargo, onde existe uma subsidiária desta loja. Os caixões são vendidos na região e as estatuetas atravessam a fronteira do Paraguai.

— Bom trabalho, pessoal! — exclamou Paranhos, exultante. — Vocês conseguiram as provas que a Polícia Federal queria para incriminar este homem. Isso explica as suas idas e vindas durante a madrugada. E explica também a razão daquela caminhonete que está parada lá fora aparecer no aeroporto sempre que ele chegava ou saía... Nós investigamos esta loja e já sabíamos a respeito da subsidiária no interior do Paraná; no entanto, os negócios da funerária eram absolutamente legais e nós não conseguíamos compreender a ligação existente entre a funerária e o Dr. Kriegel, embora eu estivesse doido para dar uma espiada naquele jatinho...

— E por que não deu? — volveu Ferretti, interessado.

— Com que desculpa? Sem termos provas concretas, a justiça se negou a nos dar um mandado de busca, e se fôssemos fazer isso na marra o feitiço poderia virar-se contra o feiticeiro... Que bela operação, hem, Dr. Kriegel! O que o senhor me diz?

— Que as coisas iriam continuar funcionando perfeitamente sob os olhos da polícia, se esses guris metidos não descobrissem tudo por acaso — acrescentou Kriegel, rancoroso.

— Ora, Dr. Kriegel, por acaso também foi descoberta a Lei da Gravidade... — replicou Paranhos, na sua costumeira irreverência.

— Bem, eu acho que o caso está encerrado — concluiu Elias.

— Ainda não — tornou Duda de repente, dirigindo-se ao imenso caixão negro, que permanecera fechado todo o tempo. — Vamos ver se esse tal de Kriegel não é mesmo o vampiro...

Quando Duda abriu a tampa do caixão, gargalhadas sinistras ressoaram no salão secreto, vindas do lado de fora.

Ferretti e Elias pularam cada um para um lado, sacando as armas.

— O vampiro!!! — gritou Toninho, e saiu correndo pelo salão.

Duda ergueu a cruz para defender-se, porém não havia ninguém no caixão.

Paranhos, abobalhado, sem entender o que se passava, não percebeu que Kriegel, aproveitando a confusão, escapulira.

Ferretti e Elias esconderam-se atrás dos caixões para evitar um suposto contra-ataque do contrabandista.

Duda, tremendo, sem largar a cruz, berrou:

— O vampiro sumiu!

Logo depois ouviu-se um tiro. Todos correram para a rua. Alberto Kriegel jazia no chão. Seixas, abaixado ao seu lado, examinava a ferida no ombro do empresário.

Paranhos, Ferretti, Elias, Duda e Toninho aproximaram-se, fazendo um círculo em volta do homem.

— Eu gritei para ele parar, mas ele não obedeceu; eu tive de atirar — Seixas procurava explicar sua ação.

— Ele está sangrando! — exclamou Duda, surpreso.

— É claro que está sangrando! — retrucou Paranhos, perplexo. — O que você queria? Ele levou um tiro!

— Não é isso. É que vampiros não sangram... — declarou Duda.

— O que prova que ele não é nenhum vampiro, seu esperto! — rebateu Toninho, um tanto irritado. — Você é que inventou essa história...

— E você me ajudou o tempo todo a acreditar nela! Ou fui eu quem viu o vampiro primeiro, moleque?

— Eu fui influenciado por você e embarquei nessa canos furada! — acusou Toninho.

— Ah, é? Você nunca se deixa influenciar pelas minhas ideias! — ironizou Duda.

— Calma, rapazes! Agora não adianta brigar — Paranhos tentava parar a discussão.

— Delegado, esse moleque me garantiu que tinha visto o vampiro e uma das vítimas e, por causa disso, nós quase entramos pelo cano...

Duda tentava jogar toda a culpa sobre Toninho, que, por sua vez, tentava culpar o amigo.

— Acontece, delegado, que ele se julga o melhor detetive do mundo e aí obriga a gente a participar das confusões dele...

— OK, OK, não vamos mais brigar. Apenas cuidem pra que isso não volte a acontecer. Da próxima vez podemos chegar atrasados — aconselhou Paranhos. E virando-se para Seixas: — Leve o cidadão pro hospital...

Seixas, com a ajuda de outro policial, rebocou o homem ferido para a rádio-patrulha.

— Não se esqueçam de voltar aqui pra me pegar! — alertou Paranhos.

— Bem, garotada, acho que por hoje chega, né? — disse Ferretti em tom paternal. — A essa hora a mãe de vocês deve estar maluca de preocupação... Bom, Paranhos, eu vou levar os meninos em casa; amanhã nos encontramos na delegacia. Teremos um dia cheio!

— OK, Ferretti, espero você lá amanhã sem falta.

— Conte comigo.

Todos se despediram. Duda e Toninho entraram no carro da polícia e partiram.