Na Mira do Vampiro
12 Que cheiro tem a morte?
Os dois caminharam na escuridão. A noite escura e a rua mal iluminada em nada favoreciam a investigação daquela sala misteriosa.
Pararam enquanto Duda pensava em algo.
Toninho sugeriu:
— Por que não acendemos uma vela?
— Você tem alguma aí?
Toninho fez que não com a cabeça, sem dizer nada.
— Não ouvi — volveu Duda após pequena pausa.
— Não — disse Toninho em voz alta. — Esqueci que a gente tá no escuro e não pode se ver...
— E eu que nem lembrei de trazer uma lanterna, droga! — praguejou Duda. — Mas não se preocupe, daqui a pouco nós acostumamos com a escuridão, aí vamos enxergar tudinho.
— Vou fechar a porta pra ninguém ver a gente — falou Toninho, afastando-se.
— Isso — concordou Duda. — Toninho? — chamou, quando ouviu a porta ser fechada.
— Que é? — respondeu o amigo.
— Você viu como era a fechadura?
Imediatamente Toninho procurou a maçaneta da porta. Quando a encontrou, tentou girá-la. Tarefa inútil.
— Gozado — disse Toninho, meio sem graça. — Ela é igualzinha à daquela casa lá na avenida Fontenelle, se lembra?
— Droga! — chiou Duda. — Quem mandou você fechar a porta?
— Ué, ninguém! Mas por que você não me disse que não era pra fechar?
Duda não discutiu.
— Isso significa que nós estamos trancados de novo, certo, senhor gênio? — provocou Toninho.
— É claro, grande sábio! — tornou Duda no mesmo tom. — Eles devem usar esse tipo de armadilha para pegar os curiosos que vêm bisbilhotar e que, no final das contas, acabam servindo de sobremesa para o vampiro fominha...
— Certo, superdetetive, e a próxima refeição vai ter um prato extra: nós.
— Não se preocupe — falou Duda, tentando demonstrar calma. — Qualquer um pode ter a mesma sorte; basta ter um ajudante com mania de fechar todas as portas — completou ele, mordaz. — Vamos começar nosso trabalho...
Os dois seguiram tateando no escuro; Toninho segurava na barra da camisa de Duda, que ia à frente comandando a expedição rumo ao desconhecido.
Em dado momento, Duda reparou num interruptor fosforescente brilhando num canto. Dirigiu-se até lá com Toninho grudado nele e acendeu uma lâmpada, que lhes assegurou a visão de todo o salão.
Tratava-se de um depósito de caixões, todos eles colocados em cima de cavaletes, prontos para serem vendidos.
Num canto da sala, meio escondido entre outros dois, estava o caixão negro do vampiro.
Duda empalideceu quando o avistou. Cutucou Toninho, que não deu atenção e continuou admirando o ambiente.
Duda cutucou-o novamente, sem dizer nada; apenas fitava o caixão.
— Que é, Duda? Que que você...
Não terminou a frase. Vendo a expressão de espanto do companheiro, indagou:
— Que cara é essa, mané? Até parece que viu o vampiro!
— O caixão dele, Toninho! — apontou Duda. Agora Toninho também o via.
— Ih, olha ele ali de novo! É o caixão do vampiro, né?
Pela terceira vez naquele dia, Toninho fazia uma pergunta cuja resposta já sabia.
— E agora? O que vamos fazer? — completou, na expectativa.
— Bem — ponderou Duda. — Precisamos ver se há outros caixões por aqui...
— E como nós vamos saber disso? — Toninho estava assustado.
— Fuxicando nesses caixões.
Duda encaminhou-se para um deles, que estava bem na sua frente.
— Por que não começamos pelo caixão do chefe? — propôs Toninho, dirigindo-se para o grande caixão negro.
— Não — disse Duda, incisivo. — Ele não deve estar aí dentro. E, além do mais, só o cheiro de morte que esses seres carregaram por onde passam poderia nos deixar malucos.
— Peraí! Eu não estou entendendo mais nada! — volveu Toninho, meio irritado. — Primeiro você diz que a gente tem que abrir os caixões pra ver se há vampiros neles, depois diz que não podemos abrir por causa do cheiro de morte? Como é que nós vamos fazer, então?
Duda fitou Toninho sem saber o que falar, depois acabou concordando:
— Tem razão. Não estamos fazendo turismo, estamos aqui para salvar nossa cidade.
Duda voltou a fitar Toninho interrogativamente. Um esperava pelo outro, mas nenhum dos dois se atrevia a tocar nos caixões.
Duda, hesitante, aproximou a mão direita da tampa do caixão; na esquerda segurava firmemente a cruz. Após nova hesitação, abriu-o bruscamente, dando um pulo para trás. Estava totalmente vazio.
— Gozado — disse Toninho, pensativo, para aliviar a tensão. — Nunca ouvi falar que morte tivesse cheiro.
— Não? — retrucou Duda, com ar experiente. — Você nunca viu um cachorro ou um gato mortos?
— Já, mas não prestei atenção no cheiro deles.
— Então experimente dar uma fungada quando você voltar a ver algum — comentou Duda. — Aí você vem me dizer se morte tem cheiro ou não.
Dito isso, Duda tirou um martelo e uma estaca da mochila e dirigiu-se para outro caixão. Segurando na mão direita o martelo, ajeitou na esquerda a estaca, com a ponta mortal virada para baixo.
— Pra que esse martelo, Duda?
— Como você acha que eu vou espetar isto no vampiro? Não vai ser pedindo licença! Deixa de conversa mole e me ajuda a abrir este caixão...
— Ué, você não abriu o outro sozinho? Por que quer a minha ajuda agora? — falou Toninho, fazendo-se de ofendido.
— Porque se eu abrir este caixão sozinho e tiver um vampiro dentro, ele não vai ficar esperando eu pousar a tampa no chão e pegar o martelo de novo para cravar a estaca no peito dele; ele vai voar no meu pescoço, isso sim! Por isso eu preciso de você. Vamos...
Toninho foi até onde estava Duda e preparou-se para abrir o caixão. Perguntou:
— Pronto?
Duda segurou a estaca, olhando fixamente para a tampa do caixão, levantou o martelo na posição para bater e esperou.
Toninho segurou a tampa e voltou a olhar para Duda, que estava firme, em posição.
Então puxou a tampa, e quando Duda levantou a mão para dar uma boa martelada, foi surpreendido por alguma coisa alada que vez um vôo rasante e quase tocou seu rosto.
— Uau!!! Cuidado, Toninho!!! É o vampiro!!!
Duda saiu correndo pelo salão, desesperado.
— É um morcego! — gritou Toninho, sem esconder o seu próprio espanto.
— Eu sei! Ele às vezes faz isso. — Duda parou num determinado ponto e ergueu a cruz para exorcizar o vampiro.
— Faz o quê? — perguntou Toninho, acompanhando a trajetória do morcego.
— Ele se transforma em morcego e ataca dessa maneira.
— Que nada, Duda! É só um morcego.
— E o que você acha que um vampiro é? — volveu Duda abaixando a guarda.
Toninho não respondeu a essa pergunta, e constatou uma coisa:
— Pronto. O vampiro, quer dizer, o morcego foi embora.
Duda, lentamente, voltou para junto de Toninho, todavia, sem largar a cruz.
— Ele saiu pelo mesmo lugar que entrou — continuou a observar Toninho. — Deve ter alguma toca de morcegos neste salão.
Duda aproximou-se novamente do caixão que eles haviam aberto. Também estava vazio.
— Você tem certeza de que o morcego não saiu deste caixão?
— Tenho — confirmou Toninho. — Eu estava olhando na hora em que nós abrimos...
— Eu acho que não vamos encontrar nenhum vampiro...
— Será que todo mundo saiu pra jantar? — perguntou Toninho em tom de piada.
— Não sei — retrucou Duda, enxugando a testa -, mas se eles ainda não perceberam que a gente está aqui, com todo o barulho que estamos fazendo, é porque não estão. O que eu tenho certeza é que está na hora da atividade deles.
— Ótimo, então está coincidindo com a hora de atividade do meu estômago, porque ele tá começando a roncar.
— Isso é hora pra pensar em comida, Toninho?
— Fala isso pro meu estômago, ué!
— Quem mandou você comer sua merenda toda? — ralhou Duda. — Agora vai ficar sentindo fome até chegarmos em casa...
— Se a gente chegar, né? — retrucou Toninho com uma ponta de pessimismo.
— Pode aportar sua barriga — enfatizou Duda. — Bom, vamos ver outro caixão. Se nós não encontrarmos nada, então vamos embora, porque não vai adiantar a gente ficar arriscando o pescoço à toa.
Duda dirigiu-se a outro dos caixões existentes no salão. Toninho acompanhou-o e preparou-se para repetir a mesma tática adotada anteriormente: segurou na tampa do caixão e olhou para Duda, que, com um movimento de cabeça, indicou que Toninho deveria seguir em frente...
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