Na Mira do Vampiro
13 Ferretti e Elias
Duda foi até a delegacia, próxima à sua casa, procurar o seu grande amigo, o policial Ferretti.
Logo que chegou, encontrou o delegado Paranhos, que ia saindo. Quando este o avistou, brincou com o pequeno:
— Ô, meu caro detetive! Como vai você?
— Tudo certo — respondeu Duda, meio convencido.
— Como vai o Capitão Campos? — perguntou Paranhos, referindo-se ao pai de Duda, um oficial do Exército.
— Vai bem. Esta semana ele tá de plantão no quartel...
— Ih! Então você vai aproveitar, hem, malandro! — voltou a brincar o delegado com sua costumeira irreverência. — Já almoçou?
— Já, obrigado.
— Pra você ver, eu estou indo agora — volveu Paranhos meio contrariado. Duda olhava para ele sério. — É! Tá pensando que vida de policial é moleza?
— Cadê o Ferretti?
— Ele estava fazendo um relatório na sala dele, mas eu acho que já deve ter acabado.
— Eu posso ir até lá?
— Pode, você é de casa. O que é agora, mais um caso sem solução?
Duda esboçou um sorriso amarelo e não disse nada, foi entrando. Paranhos despediu-se e continuou seu caminho.
Duda chegou na sala de Ferretti e o viu lendo o jornal tranquilamente, o que demonstrava que o tal relatório já estava encerrado.
— Oi, Ferretti, tudo beleza? — disse Duda da entrada da sala.
— Ô rapaz! Você por aqui. Que que manda? Seu pai está bom? — cumprimentou o homem alto e robusto.
— Está. Ele vai ter que ficar esta semana no quartel, de plantão — respondeu Duda, já meio entediado de ter que repetir sempre a mesma coisa para todo o mundo.
— Sei... E aí, alguma novidade?
— Bom, Ferretti, tem umas coisinhas pra você me ajudar a resolver... — disse Duda sem rodeios.
— Vamos ver o que eu posso fazer. O que é desta vez, detetive Duda?
— Eu tenho aqui o número da placa de um carro.
Duda retirou do bolso da bermuda um pedaço de papel dobrado e agitou-o no ar, mostrando ao policial.
— Qual é o problema?
— Eu gostaria que você descobrisse de quem é o carro e o endereço do dono...
Ferretti levantou-se da mesa, foi até um armário em frente, pegou uma garrafa térmica e encheu o copinho de plástico com café. Ofereceu a Duda, que não quis.
Voltou a sentar-se, sempre em silêncio, fitou Duda durante alguns segundos e depois disse:
— Duda, você está inventando o que desta vez?
— Nada, só que tem umas coisas que a gente precisa investigar — respondeu ele, propositalmente distraído.
— Você quer ser mesmo um policial quando crescer?
Duda apenas respondeu que sim com a cabeça e não falou nada.
— Você sabe que é uma vida difícil, que somos mal remunerados, além de arriscarmos o pescoço o tempo todo?
— Ih! Não vem com essa lição de moral de novo, Ferretti! E nem me fale de pescoço!
— Por quê?
— Pra começar, antes que você descubra o endereço e o dono desse carro, nós temos que ir até um edifício de luxo aqui perto identificar dois cadáveres...
— Como é que é?! — indagou Ferretti estupefato, abandonando o copinho de café.
— E o pior não é isso: um vampiro está solto na cidade — tornou Duda secamente, sempre indo direto ao assunto.
— O quê? — espantou-se Ferretti, numa surpresa crescente. — Peraí Duda, isso não é hora para brincadeira...
— Eu não tô brincando, é sério. O Toninho está de prova, ele é que viu o homem...
Nesse momento, Elias, companheiro de ronda de Ferretti, passava por ali; quando viu Duda agitado na cadeira, entrou e foi logo fazendo aquela festa:
— Olá! Como vai o nosso Batman mirim? — disse o homem de porte médio, pele morena e cabelos lisos como os de um índio.
— Elias, sente-se e ouça a história do Duda — sugeriu Ferretti, refeito da surpresa.
— Que que é? — Elias mudou de tom na mesma hora.
— Eu estava falando com o Ferretti que o Toninho viu uma mulher morta num apartamento aqui perto e que eu, conversando com o porteiro do prédio, descobri que pode haver também uma velha morta no mesmo apartamento e um vampiro...
— Peraí, Duda — interrompeu Elias, embaralhado. — Isto está muito confuso...
— E você não me deu esses detalhes... — interrompeu, por sua vez, Ferretti.
— Por que você não conta pra gente como tudo aconteceu desde o início? — pediu Elias com calma.
— Tudo bem...
Duda recontou toda a história, em detalhes, na frente dos dois policiais. Ao terminar, Elias comentou com Ferretti:
— Será que essa história que o Duda nos contou tem alguma relação com aquele caso da moça assassinada com dois furos no pescoço e sem sangue no corpo?
— Vocês já sabem alguma coisa sobre isso? — retrucou Duda, admirado.
— Provavelmente algum lunático fazendo-se passar por vampiro. Agora, é possível que os garotos tenham presenciado esse suposto vampiro agindo e, pelo que o Duda falou, com outros homens ajudando. O que nos faz pensar que essa história de vampiro não é tão louca assim, a menos que um bando de malucos tenha fugido do hospital junto...
— Quer dizer, agora são duas vítimas — afirmou Duda.
— Não sabemos se os dois casos têm ligação, Duda — rebateu Elias na sua conhecida tranquilidade. — E nem temos provas do que você nos contou...
— Mas então estamos perdendo tempo! Temos que descobrir...
— Duda, eu já te falei: se você quiser ser um policial, ainda vai ter que comer muito feijão, malandro.
— Tá bom, mas enquanto o feijão não faz efeito, que tal nós irmos juntos lá pra investigar?
— Nada feito. Você vai ficar aqui bonitinho nos esperando. Daqui a pouco nós trazemos novidades. Até já...
Ferretti e Elias iam saindo, quando Duda chamou a atenção para um fato:
— Como vocês vão lá se eu não disse onde é?
Ferretti e Elias se entreolharam com cara de bobos, enquanto Duda dava uma sonora gargalhada de satisfação.
— Tá bom, vem logo — falou Ferretti, fingindo um ar zangado.
Os três saíram...
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