Na Mira do Vampiro
22 Os gatos justiceiros
O táxi estacionara bem em frente à loja. Já havia anoitecido quando os dois garotos chegaram lá. Como Duda previra, o lugar estava fechado e não parecia haver mais ninguém em seu interior.
Duda pagou o motorista e saiu do carro, seguido por Toninho.
— Funerária Além da Vida — disse Toninho, lendo o letreiro da loja. — É aqui?
Duda não respondeu à pergunta demasiadamente óbvia.
— Ainda sobrou esse dinheirinho pra gente voltar de ônibus — disse Duda, satisfeito.
— E desde quando você sabe ir embora de ônibus daqui? — perguntou Toninho, preocupado.
— A gente dá um jeito de descobrir. Quem tem boca vai a Ramos...
— Eu acho que você errou o lugar, Duda.
— Ah! Deixa pra lá. Bem, vamos ver... Eu acho melhor a gente dar uma volta pelo quarteirão para tentar descobrir os fundos da loja — sugeriu Duda, ligeiramente autoritário.
— Então vamos — concordou Toninho, reticente.
E foram os dois.
Viraram na esquina da rua da funerária, tomando a primeira transversal à direita, e viraram novamente à direita, pegando a rua paralela, que ficava atrás do prédio.
Pararam num determinado ponto.
— Será que a loja é mais ou menos nessa direção? — Duda perguntou a Toninho.
— Não sei — respondeu Toninho dando de ombros -, como a gente vai saber? Só se tivéssemos um helicóptero!
— Boa ideia!
— Não vai me dizer que você vai tentar roubar algum helicóptero pra esta missão? — indagou Toninho, apreensivo.
— Claro que não, paspalho! — respondeu Duda, áspero. — Só há uma forma de a gente descobrir onde estão os fundos da loja, e essa forma é subindo no telhado.
— Eu e minha boca grande... — murmurou Toninho, arrependido.
Duda resolveu escalar o muro de uma casa, e para isso se valeu de um tronco de madeira encontrado naquela rua bastante arborizada.
— Essa não! — tornou Toninho, nervoso. — Agora vamos agir como dois gatunos?
— Acho bom você ficar quietinho — advertiu-o Duda do alto do muro -, senão isso vai acabar atrapalhando nossa missão. Não vamos andar no telhado como dois gatunos, e sim como dois gatos justiceiros. Estamos trabalhando para livrar nossa cidade do mais terrível carniceiro que apareceu por estas bandas — concluiu o garoto, antes de começar a engatinhar no telhado.
Toninho tentava subir no muro com a ajuda do mesmo tronco utilizado por Duda, porém com menor habilidade.
— Os gatos não têm a mesma dificuldade que eu — resmungou.
Ao chegar no alto do muro, Duda, que havia subido primeiro, avançara um pouco mais para investigar melhor o terreno.
Quando Toninho ia tentar seguir pelo telhado, pisou numa telha quebrada, abandonada na laje, e isso foi suficiente para chamar a atenção do enorme pastor alemão que vivia na casa embaixo.
— Quieto, cachorro! — Toninho tentava acalmar o cão, mas isso só o deixava mais irritado.
Temendo ser mordido, ele saiu correndo pelo telhado, fazendo um verdadeiro estrago nas telhas dos vizinhos, até se juntar a Duda.
— Quer parar de fazer barulho, Toninho! — chiou Duda.
— O que você queria, que eu deixasse o cachorrão arrancar os dedos do meu pé?
— Nossa sorte é que os vizinhos devem estar acostumados com gatos pulando no telhado deles...
— Mas não com gatos deste tamanho — retrucou Toninho, fazendo piada, porém assustado.
— Olha, deve ser aquela casa ali.
— Como você sabe?
— Pela padaria. Tem uma padaria bem em frente à funerária, olha lá! Eu tinha reparado nela quando estive aqui ontem.
— Putz! Uma padaria perto de uma funerária? Que gosto!
— Que que tem? É coisa de português, Toninho! — observou Duda seriamente. — Na certa o dono, seu Manoel, deve ter pensado que o defunto, antes de passar para melhor, ia tomar um cafezinho lá...
Os dois estavam sobre o telhado da funerária.
— Tá vendo ali? Tem uma varandinha — observou Duda, apontando o lugar. — Aquela deve ser a entrada dos fundos, que dá pro salão secreto.
— Que salão secreto? — perguntou Toninho, completamente desligado.
— O salão secreto que o criado do vampiro não me deixou ver, já esqueceu?
— Ah, é. Que cabeça a minha...
— Vamos nessa, Toninho. Não é muito alto, dá pra pular numa boa.
— E a volta, Duda? É isso que me preocupa.
— Não pense na volta, pense na ida; mesmo porque não sabemos se vamos voltar...
— Eu ligo mais tarde pra saber se tá tudo bem...
Toninho ia fugindo, quando Duda segurou-o pelo tornozelo e falou:
— Para de ser medroso, moleque! Se tudo correr bem, a gente vai sair nas manchetes de todos os jornais como os salvadores da pátria!
— E se as coisas não correrem tão bem? — indagou Toninho, desconfiando mais uma vez da resposta.
— Bem, aí reze bastante, porque a gente pode acabar ficando num daqueles caixões em que andamos nos escondendo.
Dito isso, Duda caminhou cuidadosamente pelo resto de telhado que faltava e pulou sem maiores dificuldades.
Toninho ficou no alto, imóvel, hesitando, o que obrigou Duda a dar um grito imprudente. Toninho, apesar do medo, acabou pulando.
Já na varandinha, Duda abriu sua mochila e tirou de dentro uma enorme cruz de madeira, que deu a Toninho, dizendo:
— Fica segurando isso.
— Ih, Duda, minha mãe sempre me disse que a gente não deve brincar com as coisas dos santos.
Sem tomar conhecimento das palavras do amigo, Duda retirou da mochila duas coroas de alho e passou uma delas para Toninho.
— Coloca isso em volta do pescoço.
E colocou a outra nele mesmo.
— Duda, minha mãe também me diz que a gente não deve nunca debochar de macumba.
— Deixe de ser bunda-mole, Toninho! Isso pode salvar a sua vida, sabia?
— Ei, Duda, me responde um negócio...
— Que é?
— Nós vamos topar com o vampiro?
— Acho que não. Se ele já foi ressuscitado pelo criador, deve estar atrás das vítimas dele.
— Então pra que esses trecos?
— Porque corremos o risco de encontrar alguma pessoa transformada em vampiro pela mordida dele, aí estaremos superprotegidos.
— Se você diz...
Uma vez estando "vestidos" adequadamente, Duda perguntou:
— Tudo pronto?
— É, né... — respondeu Toninho, trêmulo. — Será que a porta está trancada?
Duda, girando a maçaneta, abriu-a.
— Isso responde sua pergunta.
Os dois estavam dentro da câmara secreta do vampiro. O que iria acontecer, ninguém podia prever...
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